No começo da década de 1940, o Estado do Araripe foi apresentado em um artigo de Segadas Viana em sua proposta de divisão territorial, publicado na recém criada Revista Brasileira de Geografia (1939). Esse texto pronuncia a vigência de um debate geopolítico que colocava em cena problemas de centralização e separatismo, nacionalismo e regionalismo. Andrade (1996, p. 55) informa que esse debate geopolítico e as propostas de divisão territorial subsequentes são, até certo ponto, impulsionados durante o Estado Novo (1937/45). No Governo Vargas, estados são desmembrados, territórios são criados e extintos, constituindo esse período, como destacado na segunda parte dessa tese, um momento importante na trajetória das políticas públicas regionais do país e da estruturação de um sistema de planejamento territorial.
O major João Segadas Viana, no artigo intitulado Divisão territorial do Brasil, publicado na Revista Brasileira de Geografia, em julho de 1940, apresenta um plano de divisão do país, no qual aparece a proposição do Estado do Araripe. Essa proposição é associada por muitos estudiosos do Cariri ao projeto-programa de criação da Província dos Cariris Novos, demandado pelo senador Alencar em 1839. Todavia, o momento e argumentos de Viana, são bem diferentes do contexto de Martiniano de Alencar.
No caso da proposta de divisão territorial de 1940, Viana a considera como uma forma de questionar o regionalismo, que no Brasil “[...] conduz o povo a se sentir afastado da
idéia174 de que a pátria está acima das pequenas parcelas que a constituem.” (VIANA, 1940, p. 377). Para Viana, esse problema tem como motivo a “má divisão territorial”, identificada numa geografia política que se estrutura em: Estados demasiadamente grandes e despovoados; Estados demasiadamente populosos e relativamente grandes; e Estados intermediários sob os dois aspectos (população e superfície), além de um grande desequilíbrio na distribuição de recursos, financeiros e materiais, propícios ao desenvolvimento.
No artigo de 1940, Viana defende o fortalecimento do poder central, justificando a necessidade de sua atuação nos problemas nacionais, que muitas vezes não são solucionados por causa da oposição dos “grandes Estados”, que para aprovar medidas cobram seus interesses particulares em detrimento dos “pequenos Estados”. E uma solução propagada por ele (ibid., p. 381-2) consiste em “dividir os Estados que se tornaram muito potentes, de maneira que na federação não existam Estados que isolados ou mesmo unidos a um outro, possam ter a pretensão de dominar o país ou dele se separar.”
A divisão dos Estados despovoados (Pará, Amazonas, Mato Groso e Goiás) e dos grandes Estados (Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul) é considerada necessária à “indissolubilidade da grande Pátria”. A sugestão para os Estados intermediários (Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, Alagoas, Paraíba etc.) é o acréscimo “[...] de tamanho de alguns demasiadamente pequenos, para lhes proporcionar território e população que os coloque no mesmo nível que seus irmãos” (VIANA, 1940, p. 382). Além da nova divisão territorial, Viana sinaliza, dentre as medidas visando dificultar o separatismo, a má distribuição de recursos entre todas as unidades políticas, sobretudo dos potentes grandes Estados, a necessidade de criação de laços entre os Estados:
[...] cada Estado procura bastar-se a si próprio, constituindo uma entidade econômica independente do resto do país, o que sobremaneira facilita os ideais separatistas, e esse modo de proceder justifica-se em razão das dificuldades, senão impossibilidades de um transporte, além do mais, caro, e pela extensão demasiada de certos Estados que arvoram para uma parcela o que deve constituir o ideal de um todo. (VIANA, 1940, p. 383).
A intervenção nas redes de comunicação é uma forma de integrar fisicamente o país, considerando Viana também a necessidade de “[...] unir as novas unidades através da formação de uma consciência nacional obtida mediante novos rumos à educação da mocidade, e ainda pela comunhão de interesses materiais”(ibid.). O proponente informa a conveniência da massa intelectual estudar as proposições, “[...] pondo de parte todos os sentimentos
regionalistas, compreendendo que o interesse de cada Estado nada representa diante da grandeza de nossa Pátria”, que deve “manter-se una, indivisível, próspera e poderosa”.
O artigo de Viana também faz lembrar outros pronunciamentos do começo do século XX. Aqui, vale mencionar as inquietações do engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Arrojado Lisboa, apresentadas em 1913175, que podem ser concebidas como enunciações que colocam em pauta a diferenciação territorial. Arrojado Lisboa foi nomeado diretor geral da Divisão Especial “Inspetoria de Obras Contra as Secas” do Ministério da Viação e Obras Públicas, criada pelo decreto 7.619, de 21 de outubro em 1909. Essa divisão, mediante decreto (9.256, de 1911) adquiriu caráter permanente como Repartição, ficando conhecida como IOCS (RIBEIRO, 2001, p. 108).
Lisboa apresenta e justifica a necessidade de intervenção do Estado nas zonas afetadas pelas secas e nas zonas secas como uma forma de afastar o risco de um separatismo interno, por isso propõe ao governo “[...] atuar sobre as diferentes regiões, promovendo a integração de umas às outras, o que caberia uma ação específica sobre cada uma das regiões”.
Praticamente um século após a proposição da Província dos Cariris Novos, as questões político-administrativas envolviam a ameaça dos separatismos, o tema do regionalismo, das divisões em partes maiores e menores da nação brasileira, da necessidade de intervenção do Estado, seja reduzindo a força dos grandes Estados, seja atuando de forma específica no conhecimento e integração das parcelas diferenciadas do território.
Também no começo do século XX, os intelectuais se movimentavam procurando definir os objetos científicos. Cada vez mais se amplia o debate de questões de ordem prática e utilitária da ciência. Nos Estados Unidos, intelectuais procuravam enunciar as bases científicas para o reconhecimento da especificidade e importância da geografia, apresentando os fundamentos e relevância do método regional, também designado por alguns como regionalismo. Segundo Johnston (1986, p. 62), o método regional teve seu desenvolvimento inicial a partir de trabalhos abrangendo uma escala maior e outra menor. Na escala maior, os estudiosos buscavam dividir a terra em grandes regiões naturais, usualmente com base em parâmetros climáticos. “Na escala menor, a intenção era identificar áreas individuais com características particulares”. O autor exemplifica essa fase a partir de trabalhos como os de Herbertson (1905):
A idéia fundamental era a de que se esperava, legitimamente, que uma área pequena mostrasse alguma individualidade distinta, se não necessariamente inteira
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LISBOA, Miguel Arrojado R. O problema das secas. Conferência realizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 1913. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica Editora Paulo, Pongetti e Cia, 1926.
homogeneidade, através do estudo de todos os seus aspectos geográficos - estrutura, clima, solos, vegetação, agricultura, recursos minerais e industriais, comunicações, ocupação e distribuição da população. Tudo isso, como tem sido frequentemente assinalado, estando reunido na paisagem visível, ligado ao todo e apresentando a dependência de cada elemento em relação ao outro. (JOHNSTON, 1986, p. 62).
Johnston (1986) informa da apresentação em 1938 do levantamento realizado por dois estudiosos, Odum e Moore, que publicaram um grande estudo do regionalismo americano. Após esse trabalho, inicia a discussão e polêmica da obra de Harsthorne, de 1939, que procurou situar o foco de interesse da Geografia na interpretação da diferenciação de áreas do mundo, como “[...] elas são encontradas, não somente em termos das diferenças de certos elementos de lugar para lugar, mas também em termos da combinação total dos fenômenos em cada lugar, diferente daquelas que se verificam em cada um dos outros lugares (HARTSHORNE, 1939 p.462 apud JOHNSTON, 1986, p. 62).
Na segunda parte da tese foram apresentadas as discussões originais levantadas por Richard Harsthorne em 1939 e a revisão feita pelo próprio estudioso no final dos anos 1950. Também foi ressaltado o papel de Fábio Guimarães, na proliferação de acontecimentos discursivos e de propostas de divisões regionais a partir do artigo de 1941 (RBG-IBGE). Vale lembrar aqui, outra importante publicação, intitulada “Análises Regionais”, do professor Jorge Zarur.
No artigo “Análises Regionais”, Zarur (1946, p. 177) inicia citando o professor Odum para ilustrar a seguinte crença vigente: que em “qualquer programa de planejamento nacional, as regiões serão úteis como meios práticos de se agruparem os recursos físicos e humanos, de maneira tal que possam ser correlacionados com os de outras regiões.”
Além disso, o professor Zarur menciona a existência de duas interpretações da região na “história do regionalismo”: “[...] uma considerando a sistematização regional como um meio para se conseguir controle; a outra, que a região é uma área com certos atributos reais e definidos. A primeira interpretação transformaria a região numa abstração e a segunda lhe daria o caráter de entidade real e concreta”. (ZARUR, 1946, p. 177). O autor considera que a segunda linha, chamada por ele de “corrente do regionalismo” é produzida pelos estudiosos das regiões que buscam agrupar os fatores reais da terra em complexos homogêneos, mas ignoram sua aplicação prática e utilitária.
No caso da primeira interpretação, Zarur informa que a mesma foi desenvolvida pelos estudiosos de “mentalidade mais especulativa”, que “não se preocupavam apenas com as realidades físicas, pois questões de administração e policiamento constituíam seus principais objetivos.” (ZARUR, ibid., p; 178). Jorge Zarur realizou na década de 1940, a convite do
governo americano, curso de especialização e mestrado nos Estados Unidos, estabelecendo contato inicialmente com a “escola” de geografia ligada ao planejamento espacial, a New Deal de Franklin Roosevelt, que segundo Almeida (2003) tem como um dos seus principais projetos, o planejamento do Vale do Tennessee (TVA).
Depois de Zarur, outros “ibgeanos” foram estudar naquele país, entre eles, Fábio Guimarães. A circulação de ideias e de técnicas geográficas entre centros culturais, nacionais e estrangeiros coopera no entendimento da historiografia da geografia, assim como permite verificar o quanto os aspectos político, administrativo, pedagógico, entre outros estão envolvidos nesse enredo. (BARROS, 2008).
A apresentação de Viana do Estado do Araripe em 1940 e a retomada de suas ideias em obras de intelectuais que atuam no Cariri nos anos 1950 denotam as circularidades entre esses diferentes sítios culturais e a alimentação das abordagens dessa região, tanto por elementos gerais do contexto político e técnico-científico, quanto por ingredientes da memória e da atualidade das redes e poderes específicos regionais.
As preocupações dos intelectuais que justificam a importância e sistemática da diferenciação de áreas e as injunções políticas que orientam os pronunciamentos em torno da necessidade de outra forma de dividir o território nacional fornecem argumentos para enfrentar o separatismo, para apoiar as áreas necessitadas, alimentando ainda projetos identificados como separatistas por uns e autonomistas por outros. Essas diferentes perspectivas denotam o contexto geopolítico e técnico-científico no qual foram elaboradas e apresentadas as primeiras peças discursivas da divisão do espaço brasileiro, exemplificadas no trabalho realizado por Fábio Guimarães em 1941 e no artigo de Jorge Zarur, de 1946.
O debate sobre a divisão e diferenciação de áreas toma impulso nas primeiras décadas do século XX no Brasil, e do mesmo não se pode separar as crises e conflitos entre “grandes” e “pequenos” quanto as vantagens e o desprestígio na distribuição de recursos, de verbas. A política compõe os discursos regionais e fermenta as divisões e estudos das regiões brasileiras. A apresentação de escalas (macrorregionais e zonas fisiográficas) de estudo e de intervenção prática das diferentes partes do país são difundidas na década de 1940.
Progressivamente, as grandes regiões, tal como a do Nordeste, enunciada de forma homogênea como região de adversidade natural/climática, começam a ser estudadas em suas subdivisões e “notas características”. Em 1963, Fábio Guimarães relativizava a escolha da ‘nota característica’ de uma divisão regional, alertando que a mesma envolvia certo subjetivismo, um critério pessoal do geógrafo, denotando que a estabilidade das regiões naturais é relativa.
No caso do Vale do Cariri ou Cariris, o discurso feito sobre essa parte meridional do Ceará, mesmo antes desse momento que dá impulso a operações de regionalização do país, já colocava em evidência, a questão do desprestígio político de um lado e por outro, os recursos de progresso presentes no que deveria abrigar a nova província dos Cariris, como ilustrava o texto da Assembleia Provincial do Ceará em 1846.
Os “privilégios geográficos”, que podem ser associados à situação excepcional do Cariri do ponto de vista fisiográfico, demográfico e econômico, aparecem realçados na interpretação feita por Girão em 1953, numa década em que vem à tona a “campanha de criação do Estado do Araripe”.
Os confrontos no campo da política também constituem fortes ingredientes das enunciações sobre as diferenças e divisões do território nacional, acontecendo no mesmo momento de discussão técnico-científico dos elementos e critérios de estabelecimento das macrorregiões e zonas fisiográficas do Brasil. A primeira divisão oficial na escala do nomeado Cariri cearense é a estabelecida pela Resolução 143, de julho de 1945, que dispõe sobre a Divisão do Brasil em Zonas Fisiográficas. As divisões regionais oficiais constituem um trabalho do Conselho Nacional de Geografia/IBGE desde os anos 1940. Esse tipo de regionalização serve como parâmetro para a coleta de informações, procurando-se definir unidades regionais, pautadas em estudos de equipes, que permitissem o planejamento para tais áreas ou classes de área.
A regionalização em macrorregiões e zonas fisiográficas serve para a coleta de informações pelo IBGE até o final da década de 1960, quando novos estudos e o novo contexto político-administrativo contribuem para alterações na nomenclatura e critérios de regionalização. Na segunda grande seção da tese foi indicada a partir do trabalho de Fábio Guimarães, de 1963, que há um processo de relativização dos limites e da delimitação regional, sugerindo o pesquisador que o mais importante é o problema da determinação das próprias regiões, que exige conhecimento apurado, resultante de estudos interpretativos in loco e de cartas exatas em grande escala, que favorecem o estudo mais detalhado do território.
Quanto a delimitação de 1945, a primeira oficial para a região do Cariri, a denominação oficial era 12ª. Zona do Ceará176 ou Zona do Cariri (Figura 04).
176 Conforme o artigo Divisão Regional do Brasil, Quadro-Resumo dos totais de Zonas Fisiográficas e de
municípios por unidades federadas e regiões (CNG, 1963, p. 102-3). Informações referentes à 12ª. Zona do Ceará, designada Zona do Cariri.
A resolução 143, de julho de 1945, estabelece que a Zona do Cariri é composta de 11 municípios: Araripe, Barbalha, Brejo Santo, Caririaçu, Crato, Jardim, Juazeiro do Norte, Mauriti, Milagres, Missão Velha e Santanópole (atual Santana do Cariri), constituindo uma escala intermediária que abrange todo o território das referidas unidades político- administrativas posicionadas em relação a capital do Estado do Ceará na sua porção meridional e oriental. Os dados do Censo Demográfico de 1950 são apresentados e organizados por Estado, zonas fisiográficas e respectivos municípios.
5.2 Excepcionalismo do Cariri cearense em reapresentação nos estudos regionais do