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Jung (1990 [1959]) nos oferece uma descrição dos dinamismos arquetípicos da anima e do animus, que são os estruturadores básicos da conjugalidade e, assim sendo, merecem atenção especial.

Jung (1991 [1925]), examinando as diferenças sexuais, identificou que o sexo oposto é um fator formador de projeções. Por meio de nossas projeções nos outros temos a possibilidade de ver aspectos de nós mesmos que são negados à consciência. Jung (1978 [1951]) desenvolveu na sua teoria o conceito de animus e anima, entendido como a personalidade de sexo oposto que cada um tem dentro da sua psique, ou seja, um Outro interior, uma subpersonalidade inconsciente que tem vida própria e, muitas vezes, é projetado no sexo oposto com o propósito de defender o Self contra os conflitos internos.

Para Jung (1983): “O animus e a anima devem funcionar como uma ponte ou uma porta para as imagens do inconsciente coletivo, como a persona deve ser um tipo de ponte para o mundo.” (JUNG, 1983, p. 410). O animus e a anima tem a função de fazer uma conexão com a profundidade da psique.

Jung (1990 [1959]) descreve o animus e a anima como sendo arquétipos, “Com o arquétipo da anima entramos no reino dos deuses … tudo o que a anima toca torna-se numinoso – incondicional, perigoso, tabu, mágico.” (JUNG, 1990 [1959], §. 59, p.28) e descreve o animus como sendo o arquétipo de sentido e a anima como sendo o arquétipo de vida. (JUNG, 1990 [1959], §. 66, p.32).

Jung (1978 [1951]) declara que a autonomia do inconsciente coletivo se expressa por meio das figuras de anima e animus. “O fator que faz a projeção é a anima, ou melhor, o inconsciente representado pela anima.” (JUNG, 1978 [1951], §. 26, p.13). No mesmo texto, Jung explica que o animus/anima pode ser realizado “através de uma relação com um parceiro do sexo oposto, por que apenas em tal relação suas projeções se tornam operativas.” (JUNG, 1978 [1951], §. 42, p.22). Ao mesmo tempo, porém, ele entende que nem todos os conteúdos do animus/anima são projetados, pois muitos

aparecem em sonhos e podem ser trazidos à consciência por meio do processo de imaginação ativa. (JUNG, 1978 [1951], §.39, p.19).

O caminho de individuação, na segunda metade da vida, exige que o homem se defronte com seu lado feminino inconsciente, ou seja, sua anima, e a mulher, com seu animus. Ambos são ‘poderes arquetípicos’ e, tendo elementos pessoais e coletivos, podem funcionar como as pontes para que cada cônjuge tenha contato com as profundidades da sua própria psique. Para Jung (1990 [1956]):

A assimilação das tendências contra-sexuais torna-se uma tarefa que precisa ser resolvida para manter a libido em progressão. A tarefa consiste na integração do inconsciente, na combinação de ‘consciente’ e ‘inconsciente’. Denominei este o processo de individuação. (JUNG, 1990 [1956], §. 459, p. 300). O encontro com o animus e a anima proporciona a oportunidade de considerar nossos aspectos contra-sexuais, e ter uma visão mais ampla de quais conteúdos são projetados em nossos parceiros, quando, na verdade, pertencem a nós mesmos. Para Jacobi (1967):

Uma vez levado à consciência e não mais projetado e experimentado como pertencendo a si mesmo, mas como realidades e agentes dentro da psique, anima e animus se tornam símbolos do seu poder de procriar e dar a luz: tudo novo e criativo deve sua existência a eles. (JACOBI, 1967, p.46). Sanford (1988) refere-se à anima e ao animus como ‘Parceiros Invisíveis’, que estão presentes em todos os relacionamentos humanos. Eles existem como pólos da mesma energia psíquica presentes dentro de nós, e suas imagens psíquicas são projetadas no respectivo parceiro e impactam profundamente a relação, pois o parceiro que carrega a imagem projetada acaba sendo levado ou por um extremo ou o outro, ou seja, supervalorizado ou subvalorizado, e como conseqüência, a realidade humana do parceiro fica distorcida. Mas, o que Sanford (1988) destaca é que “a projeção em si não é boa nem má; o que fazemos com ela é que deve ser levado em conta”. (SANFORD, 1988, p.31). O cônjuge representa algo que necessitamos entender a respeito de nós mesmos, enquanto para Jung (1990 [1959]), a integração da anima ou do animus é a ‘obra-prima’. (JUNG,1990 [1959], § 61, P.29).

De acordo com Young-Eisendrath (1997), esses arquétipos, embora se desenvolvam durante a vida toda, tornam-se mais evidentes na meia idade, em razão

das mudanças na natureza da identidade das pessoas nesse período. Ela entende esses arquétipos como “imagens carregadas de emoções [. ..] que estruturam o que está latente no sexo oposto em cada um de nós, uma espécie de alma gêmea de potenciais tanto ideais quanto desvalorizados.” (YOUNG-EISENDRATH, 1997, p. 224). Na relação conjugal, os parceiros têm a tarefa árdua de tornar essas projeções mais conscientes e lutar contra a tentação de se identificar com elas, e assim sendo, simbolizar a experiência para que seu parceiro possa reconhecer suas próprias projeções.

Young-Eisendrath (1997) revisou as definições de contra-sexualidade e anima/animus em resposta às criticas contemporâneas do feminismo e do construtivismo. Em vez de ver o gênero como um ‘fato de vida’, ela o entende como uma construção baseada na socialização dos sexos. Ela destaca a importância de reconhecer a relativa flexibilidade dos papéis de gênero e a diferença de poder entre os sexos. A autora ressalta que:

Quando as pessoas insistem numa forte divisão entre os sexos, e assumem que as mulheres são por natureza mais relacionais e os homens naturalmente mais autônomos, elas arriscam perder partes de si mesmas para sempre. A externalização destas partes através da projeção, da inveja e da idealização podem tornar-se um estilo de vida. (YOUNG-EISENDRATH, 1997, p.227).

Quando uma pessoa projeta suas qualidades indesejáveis na outra, ela continua mantendo contato com essas, mas por meio da relação com o outro. Essas qualidades redescobertas no outro acabam sendo tratadas da mesma maneira que foram tratadas em si, ou seja, o que não é suportado em si mesmo é localizado e atacado no outro. Animus/anima, muitas vezes, são descobertas sob a forma de projeções nos outros. Como representam os conteúdos centrais do inconsciente, essas projeções deixam a pessoa que projeta muito dependente da pessoa que recebe essas projeções. Como Young-Eisendrath (1997) explica sucintamente:

A mística da identificação projetiva é sua capacidade extraordinária de evocar no outro, muitas vezes num outro com quem temos intimidade, os aspectos mais temidos e idealizados do Self. [...] e depois ‘provar’ que a qualidade ou aspecto pertence ao outro e não ao Self. (YOUNG-EISENDRATH, 1997, p. 228).

Para Jung (1978 [1951]), cada indivíduo tem a oportunidade de desenvolver qualidades do sexo oposto na segunda metade da vida, pois, durante esse período somos mais propensos à reflexão e temos mais potencial de integrar aspectos de nosso animus/anima que foram projetados no outro. De acordo com Young-Eisendrath (1997): O que torna a contra-sexualidade um poderoso determinante emocional de desenvolvimento é seu relacionamento singular com o ego: o Outro contra-sexual limita e define o que o ego pode ser. [...] O complexo contra-sexual é paradoxalmente o produto de um eu de determinado gênero. O que para um homem é anima (...) é o produto da masculinidade do homem, o que ele se permite ser enquanto homem. O que para uma mulher é animus é de modo análogo produto de sua feminilidade. Nossas fantasias do sexo oposto são baseadas no que se exclui, muitas vezes o que se exclui totalmente, do Self. (YOUNG-EISENDRATH, 1997, p.231).

Quando Jung escreveu sobre o que o animus e a anima têm em comum, estava descrevendo os arquétipos que funcionam como mediadores entre a consciência e o inconsciente. Esse aspecto dinâmico-criativo do arquétipo animus/anima é uma característica de todas as constelações arquetípicas. Como Kast (2006) aponta: “O efeito do animus/anima no ego é de fascinação e inquietante estimulação - uma experiência numinosa - que é uma característica de todas as situações arquetípicas.” (KAST, 2006, p. 119).