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Por meio da elaboração simbólica, observamos que os dois casais atingiram um nível mais consciente das suas situações, e conseguiram desenvolver recursos internos e encontrar respostas mais criativa. Estes recursos apareceram na forma de construir os cenários nas caixas de areia.

Maneira de tocar a areia

O relacionamento com a areia representa o relacionamento com a terra e o solo, e pode indicar quanto a pessoa está ligada ao seu inconsciente. Como apontam Amatruda & Simpson (1997), as pessoas mais comprometidas tendem a evitar contato

com a areia, e preferem a areia seca. Em geral, podemos entender que, quando a pessoa evita tocar e mexer na areia, ela está agindo defensivamente, expressando a sua necessidade, nesse momento, de não mexer nas camadas mais profundas da psique.

Neste estudo, durante o momento 1, os dois casais evitaram mexer na areia, porém, a partir do cenário III (sessão 6), no momento 2, o casal I começou a fazer escavações e elevações, e Jorge expressou preferência pela areia molhada. Com exceção do cenário VI (sessão 11), quando Paula manifestou seu desejo de trabalhar na areia seca e dirigiu a construção do cenário, todos os cenários feitos pelo casal I incluem elevações e/ou escavações. De acordo com Amatruda & Simpson (1997), esse processo criativo oferece sinais de uma nova direção de movimento na psique e a possibilidade de eventuais transformações.

No caso do Casal II, em nenhum momento os cônjuges fizeram escavações na areia, e apenas fizeram pequenas elevações no cenário IV (sessão 8) e cenário VI (sessão 10). Quanto à escolha da areia, Rogério sempre expressou sua indiferença e Cristina não manifestou uma preferência.

Árvores, arbustos, verde

Outra observação importante na análise dos cenários é a presença de árvores, arbustos e a utilização de outras formas de verde. Em todos os cenários feitos pelo casal 1, há bastante árvores e verde. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (1996), verde é a cor da esperança, força, é a cor da imortalidade. Notavelmente, no primeiro cenário feito pelo casal 2, não há árvores, e apenas pouca evidência de verde no cenário II, e esses dois primeiros cenários passam a impressão de que falta vida e movimento. A partir do cenário III (sessão 6), momento 2, eles começaram a incluir verde e árvores nos cenários, o que continuou até o fim do processo.

Miniaturas enterradas

Adicionalmente, percebemos que apenas nos cenários feitos pelo casal 2 existem miniaturas enterradas. No cenário II (sessão 5) momento 2, há uma cobra com apenas a cabeça e partes de seu corpo visíveis, enquanto no cenário III (sessão 7) há um pequeno monstro verde com parte do corpo enterrado e, no cenário IV (sessão 8), há um bebê com seu corpo enterrado num vaso de cerâmica. Amatruda & Simpson entendem que enterrar miniaturas pode representar segredos ou assuntos que ainda não estão prontos para serem integrados na consciência. Como foi observado na análise dos dados,

sentimos que o ato de enterrar a cobra provocou uma mudança na psique de Rogério e trouxe à tona o trauma que ele sofreu quando criança.

Para Kalff (2003), a mudança da pele da cobra simboliza uma renovação na inconsciência que anima os segredos de vida. Também observamos que os monstros colocados por Cristina, durante o processo, perderam seu aspecto ameaçador. Podemos entender que ela conseguiu se aproximar do seu conflito, que depois ela representou, no cenário VI, como uma batalha entre um índio e um caubói, e no cenário VII, como duas pessoas de costas uma para a outra, sem se comunicar.

Meios de transporte ou jornadas

O casal I apresenta meios de transporte desde o primeiro cenário, e de uma forma ou outra, eles aparecem em todos os cenários. Portanto, é interessante observar a transformação e progressão que ocorreu durante o processo. No cenário I temos um carro estacionado ao lado de uma casa, um barco fora da água e uma bicicleta parada. No cenário III temos vários carros em movimento, e um buggy vermelho, que o casal sempre indicou como o carro deles, subindo uma montanha, e há um caminho traçado para ele seguir. No cenário IV, os carros continuam em movimento, com o buggy vermelho na frente, acrescentados de um trem. No cenário VII temos carros atolados e virados, mas temos veículos de resgate, um helicóptero, uma ambulância e bombeiros, que são sinais de que as energias novas estão sendo direcionadas. Enquanto no último cenário temos carros trilhando uma jornada, com o buggy vermelho na frente, indo na direção do “oásis”.

O casal II quase não usou meios de transporte. No Cenário II há um barco fora de lugar e um buggy sem caminho, enquanto no Cenário V há um carro de boi, mas, conforme foi observado anteriormente, sem a força do boi necessário para movimentar o carro. No último cenário, porém, há um casal de noivos montado em um cavalo, o que dá a impressão de que o casal já começou uma jornada.

Fontes de energia/transformação

Para o casal I, as fontes de energia que utilizam os elementos começaram a aparecer no cenário III, com o moinho, enquanto o vento provocou um tsunami no cenário VII, e a ordem foi restaurada no último cenário, com o reaparecimento do moinho de vento. O casal II utilizou o fogo como elemento de transformação no

cenário VI, quando acenderam oito velas. Esses elementos, o ar e o fogo, são transformadores potenciais os eventos, e quando essa energia está canalizada ou direcionada, tem ainda mais potencial.

O caos e o conflito

Embora tenhamos identificado momentos diferentes de conflito durante os dois processos, os dois casais apresentaram maneiras similares de lidar com as dificuldades que surgiram nos seus casamentos, eles se sentiram ameaçados e procuraram re- estabelecer a harmonia. Por meio dos genetogramas, os casais entraram mais em contato com o nível de conflito familiar, e para o casal 2, entendemos que Rogério cresceu dentro de um ambiente familiar desorganizado e, em alguns momentos, caótico.

O Caos é ilustrado nos mitos pelas forças incontroláveis da Natureza, como enchentes, fogo e furacões. Bradway, Chambers & Chiaia (2005, p.174) reconhecem o paradoxo do caos: “Ele é sem forma e carrega forma. Ele é morte e carrega vida. Ele é destruição e carrega construção.” Não podemos separar construção e destruição, pois com cada ato criativo há também uma morte, seguida por renascimento. Como essas autoras nos informam, “se recusamos caos ... eros também pode ser perdido”.

Sentimos que o momento de caos expressado no cenário VII (sessão 13) por Paula e Jorge foi importante no processo deles; construíram um cenário onde havia passado um tsunami, que derrubou tudo no seu caminho, porém, havia uma parte da caixa que foi usada para instalar um pouco de ordem e para resgatar as vítimas. Sentimos que esse casal estava experimentando um momento de caos no relacionamento, a harmonia constante começou a ser percebida como superficial e esses movimentos causados pelo caos foram necessários para que novas configurações pudessem surgir.

A Ponte

Pontes foram usadas pelos dois casais, contudo, em vários cenários não tinham a função específica de ligação ou de conexão. O casal 1 colocou pontes nos cenários I e II, sem ninguém atravessando, e em ambos os cenários as pontes cruzaram espelhos, que podemos entender como representando um rio. No cenário V, havia uma transformação, pois há uma ponte que está ligando duas áreas da caixa de areia, e temos um casal cruzando a ponte, que consideramos ser o próprio casal.

O casal 2 pôs uma ponte no cenário I, mas ela não foi usada para facilitar uma união entre duas partes separadas. No cenário III, há a mesma ponte, que, embora não estivesse conectando duas partes separadas, representava uma aproximação ao dragão que estava chocando um ovo.

Bradway & McCoard (1997) reconhecem a importância da ponte no Sandplay. Elas consideram a ponte como um símbolo de reconciliação e mediação entre os opostos, que pode ser experimentado como uma atitude nova que transcende o estado original. Nesse contexto, podemos dizer que, para os dois casais, as pontes representam símbolos do inconsciente colocados para transcender os conflitos na relação, numa tentativa de chegar a outro nível de consciência.

O bebê e a criança

O bebê e a criança aparecem consistentemente durante os cenários feitos pelos dois casais, e para cada casal seguia uma trajetória importante e transformadora. Para o casal I , no cenário I, o bebê no berço está ao lado de um casal de noivos, como se fosse o desejo e sonho deles. No cenário II, ele está com um casal jovem, nomeado como os ‘caseiros’; sentimos que o casal tinha que entregar o bebê aos cuidados do caseiro pois ainda não estava pronto para se apropriar desse bebê. Nos cenários III e IV, aparece uma criança no colo da mãe, enquanto no cenário VII, a mãe está segurando o bebê, deixando o caos causado pelo desastre da natureza. Temos a sensação de que, através desse processo, o casal elaborar o luto por esse bebê idealizado e não gerado. Sentimos que este bebê nos cenários está sendo protegido e “gestado” e, aos poucos, o casal consegue integrar a possibilidade de transformação de uma dinâmica harmônica de dois para uma dinâmica de conflito, que pode incluir um terceiro elemento, um bebê ou uma criança.

Para o casal II, no cenário I, há uma mãe que segura um bebê, no cenário II há um bebê no berço, abandonado, e no cenário III, há dois bebês, um abandonado entre dois monstros e o outro sozinho no canto da caixa. No cenário IV, há um bebê enfiado num vaso e uma criança num baú, enquanto, no cenário V, a mãe que segura o bebê está embaixo de uma árvore, e há uma mãe com uma criança no colo. No cenário VII, o bebê, em vez de monstros, está cercado por tartarugas, e no último cenário o bebê no berço faz parte de um círculo de pessoas e está sendo protegido por um cão. Podemos ver, por essas transformações nos cuidados do bebê, que o casal está conseguindo integrar o bebê. Para Jackson (2008), da mesma maneira que um bebê recém-nascido

não pode sobreviver sozinho e precisa de cuidados carinhosos e contínuos, a conexão novamente restaurada ao Self também precisa desses mesmos cuidados. Sentimos que o bebê, nos cenários, representava, não somente o bebê não conseguiram gerar, mas também a conexão restaurada que os cônjuges estabeleceram com o Self conjugal.

O Círculo

Para Kalff (2003), as mais impressionantes manifestações do Self são aquelas que aparecem no círculo, que ela identifica como o começo do desenvolvimento de um ego mais fortalecido. Nos cenários dos dois casais há evidência de círculos construídos na areia. Para o casal I, o círculo apareceu no cenário V (sessão 9), quando fizeram algo semelhante a uma ilha no meio da caixa de areia. Para o casal II, no último cenário, vários círculos foram desenhados na areia; um com duas árvores grandes no meio, outro com uma pedra, e outro círculo feito de pessoas e um bebê, com uma mesa farta de comida no meio; que indica uma centralização do casal, e a sensação de maior integração.