10. Der Verfall einer Diktatur
10.4 Das Bewusstwerden des Verfalls
10.4.2 Symptome des Verfalls außerhalb Dresdens
Pouco há a ser dito sobre as causas e motivações de estruturação desta terceira sequência. Como o panfleto de apresentação do Convento de Nossa Senhora do Bom
Sucesso anuncia, o carisma e a missão deste lugar é o de “contemplar, estudar,
proclamar e testemunhar a palavra libertadora de Deus”. Falemos então sobre os planos que, graças à gentileza e confiança que as Irmãs Religiosas depositaram nas nossas intenções, registaram mais um ritual sagrado.
O primeiro plano visa, antes de mais, estabelecer uma temporalização do espaço vazio. A longa espera pela realização de mais uma missa diária, após a abertura das portas ao público, é também a tentativa de reproduzir a sensação de imersão num espaço sagrado, no qual a câmara está presente. Foi o primeiro plano de três semelhantes que filmei em diferentes dias e, quando a primeira crente entrou e se dirigiu para a fileira precisamente à frente da câmara, julguei ter a acção estragada por uma bizarra interacção no plano. Foi só na visualização dos brutos que, por vários motivos, entrevi uma potência do real nesse gesto involuntário e interior do plano. Em primeiro lugar, pela surpreendente trajectória que a crente efectua, como continuidade da surpresa expectável que já seria a entrada de uma primeira pessoa num espaço há algum tempo vazio. Em segundo, pela permanência do foco na zona das portas, mantendo-se a função do plano (in)dependente das acções imprevisíveis. Em terceiro, pelo facto de nos ser possibilitado assistir, em primeira mão, a uma oração honesta e indiferente à presença da câmara, em tempo real. Em quarto lugar, pela entrada de turistas após a crente se ajoelhar, entrada essa que evidencia o contraste entre um lugar e um não-lugar face ao
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modo como é experienciado: a crente pratica os gestos habituais, de forma determinada e independentemente das perturbações exteriores que surjam; os turistas, no curto tempo
que lá estão, têm a gestualidade efémera de quem está só a acumular mais um ‘espaço’
da cidade no olhar.
Figura 23 – Primeiro plano, Igreja do Convento de Nª Srª do Bom Sucesso
É a entrada do padre que dita um tempo para o fim do plano. Nota ainda para o facto de a entrada nesta igreja se estabelecer lateralmente, ao contrário da maioria das entradas (localizadas na porta oposta ao altar), sendo que esta particularidade foi um primeiro ponto de escolha estética por esta e não por outra igreja.
Se, no primeiro plano da sequência, se privilegiou uma temporalização da entrada pública, já no segundo, abordou-se a entrada privada, isto é, a entrada das Religiosas Dominicanas Irlandesas que regem o Convento adjacente à Igreja (Convento que é também um colégio). Este segundo plano prolonga um momento que antecede o início da missa diária. Pelo terceiro e quarto planos, podemos delimitar o início de uma segunda cena na sequência. Enquanto os primeiros dois planos se cingem ao piso inferior, os dois seguintes situam-se no piso superior. No centro da acção, a par das duas salas filmadas, regista-se uma incapacitada Irmã, ao cuidado constante de uma enfermeira. A função do piso superior é, naquele dia, a de proporcionar um ritual privado e, por isso, também mais íntimo.
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Figura 24 e 25 – Coro Superior, Igreja do Convento de Nª Srª do Bom Sucesso
É sobre essa intimidade que, por instinto, e ao contrário do que foi feito na Rua Nova do Loureiro, n.º 27, 3.º, decidimos fazer recuar a câmara sobre estas pessoas. Proveitosamente, isso permitiu-nos elaborar um quarto plano, inesperado, situado na sala que antecede o Coro superior do terceiro plano. O tempo destes dois planos é contínuo, ou seja, o corte entre eles pretende-se transparente, simulando o som directo. A isso se deve o facto de estes planos terem como objectivo principal reproduzir uma parte da experiência de testemunho de uma missa. A espera, a contenção, os cânticos colectivos e os momentos intensos de introspecção vividos pelos crentes são a matéria destes dois planos situados no nível superior da Igreja (coincidentemente, mais próximo do céu). A única razão para o segundo plano cortar prende-se como facto de o limite da gravação no cartão da câmara ter chegado ao fim. Não fora isso e, muito provavelmente,
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teríamos respeitado o tempo total de introspecção em que a Irmã incapacitada mergulha após o final da missa.
O quinto (e último) plano apresenta um regresso ao espaço inicial, o corpo central da igreja, com as portadas em frente. Este regresso circular procura um possível estudo comparatista entre o tempo que antecede a missa e aquele que lhe sucede. O espaço é outro, quer a câmara o tenha conseguido mostrar ou não, pois entre o primeiro plano sobre as portadas e este último efectuou-se uma profunda transformação. Não por acaso, é nesta sequência e capítulo que, de forma deliberada, o tempo se confunde com longa duração.
Figura 26 – Coro Inferior, Igreja do Convento de Nª Srª do Bom Sucesso
É ainda neste último plano que sucede aquilo que considero ser o mais imperfeito e potente gesto de todo o projecto: o momento em que a câmara é retirada do tripé, quebrando o dispositivo dos planos fixos vigentes até então. Cada vez que visiono
Cinco Lugares, este momento proporciona-me um profundo alívio sensorial, motivado pela libertação da câmara, por oposição à rigidez que domina desde a entrada no Pátio da Galé. Mas é logo a seguir que câmara à mão procura um espaço que faltava filmar com o detalhe do tempo: o Coro inferior, onde as Irmãs Religiosas se reúnem nas suas orações privadas. A câmara à mão tenta estabilizar-se o máximo que pode, como se relembrasse à estrutura do filme que este não é um momento de fuga à contemplação que o lugar exige. A pacificidade do som ambiente confirma-o. Esse é, afinal, o exercício da sua função.
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