From the Lido to the Mill
4.3 Dalston Mill, 2009: “platform of action and exchange” 110
Os dados sobre o número de matrículas na educação profissional técnica de nível médio nos sistemas de ensino federal, estadual, municipal e privado no período de 2007 a 2012, constam do censo escolar da educação básica realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP).
Em relação ao número de matrículas nos cursos técnicos integrados ao ensino médio, concomitante e subsequente, a pesquisa aponta que os mesmos atingiram um contingente de aproximadamente 1,4 milhão de alunos atendidos em 2012. No período de 2011 a 2012 as matrículas tiveram um crescimento de 8,9%. Nos sistemas de ensino federal e estadual entre 2011 a 2012, as matrículas tiveram um crescimento de 10,9% e 9,2%, conforme disposto no Gráfico 2.
0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 2007 2008 2009 2010 2011 2012
Matrícula na Educação Profissional Técnica de Nível Médio por Dependência Administrativa - 2007/2012
Federal Estadual Municipal Privada
Gráfico 2 - Número de matrículas na educação profissional de nível médio por dependência administrativa – Brasil – 2007-2012
FONTE: MEC/INEP, 2012.
O Gráfico 2 aponta que, de 2007 a 2012, o número de matrículas nas instituições privadas se manteve maior em relação ao número de matrículas das instituições federais, estaduais e municipais. Os dados também apontam que as instituições públicas com maiores números de matrículas no período de 2007 a 2012 foram as federais e estaduais. Assim, as dependências administrativas que apresentaram maior número de matrículas nos cursos técnicos integrados ao ensino
médio, concomitante e subsequente segue a seguinte ordem: privada, estadual, federal e municipal.
Já o Gráfico 3, a seguir, mostra os dez cursos da educação profissional técnica de nível médio com o maior número de matrículas nas redes públicas municipal, estadual e federal em 2012. Observamos que o curso mais procurado é o de Informática, com 25% de participação e já inclusas as matrículas nos cursos técnicos integrados ao ensino médio.
Gráfico 3 - Dez cursos da educação profissional técnica de nível médio com maior número de matrículas na rede pública municipal, estadual e federal – 2012.
Fonte: Elaborado pela autora, baseado nas informações de MEC/INEP, 2012.
O Gráfico 3 aponta que, no universo das instituições públicas o curso de Informática é o curso com maior número de matrículas, com 25% de procura e o Gráfico 4 que aponta os dez cursos com maior número de matrículas na rede federal, indica que o curso de Informática é o curso com maior porcentagem em número de matrículas (22%), sendo que nele estão inclusas as matrículas nos cursos técnicos integrados ao ensino médio. Portanto, conforme dispostos nos Gráficos 3 e 4, o curso com maior número de matrículas é de Informática.
Gráfico 4 - Dez cursos de educação profissional com maior número de matrículas na rede federal - 2012
Fonte: Elaborado pela autora, baseado nas informações de MEC/INEP, 2012.
Os dados do Censo Escolar 2012 apontam para a manutenção da expansão da educação profissional técnica de nível médio que em 2007 era de 780.162 matriculas e atingiu, em 2012, 1.362.200 matrículas – crescimento de 74,6% no período conforme disposto no Gráfico 2. Desse modo, os dados da pesquisa corroboram com a política de expansão da educação profissional técnica de nível médio.
Nos itens seguintes foram abordadas as concepções de currículo e de tecnologia, assim como a relação das tecnologias digitais de informação e comunicação com o currículo.
3.4. Concepções de currículo e os traços que marcam a sua história
O currículo é um termo multifacetado, de muitos e muitos significados. Seu emprego constante em documentos oficiais, textos didáticos, normas legais, cursos de formação, parece ignorar, muitas vezes, a complexidade conceitual que o envolve, bem como a evolução histórica que marca sua utilização. (LEMOS, 2009, p. 56).
O currículo que atualmente conhecemos é fruto de vários fluxos e transformações da evolução histórica e conhecê-la permite entendermos as mudanças dos conceitos de currículo ao longo do tempo (SILVA T., 1999).
As transformações das abordagens e concepções do currículo começaram a partir da década de 1970 em diversas partes do mundo, não somente nos Estados Unidos, mas também na Europa, influenciada por estudos no campo da Sociologia da Educação por uma corrente que ficou conhecida por Nova Sociologia da Educação (NSE) (FORQUIN, 1995, citado por LEMOS, 2009).
Questões relacionadas à constituição do conhecimento escolar foram levantadas pela Nova Sociologia da Educação. Nesse sentido, Young (1971) e Bernstein (1971) analisaram os propósitos que o processo de seleção e organização do conhecimento escolar e a organização do currículo estão submetidos, ou seja, suas relações com as formas dominantes de poder e de controle social.
As relações entre currículo e poder foram estudadas também por Apple (1982), o qual questionou:
O que é realmente ensinado nas escolas?
Quais são as funções sociais manifestas e latentes do conhecimento transmitido nas escolas?
Como os princípios de seleção e organização empregados para planejar, ordenar e avaliar esse conhecimento funcionam na reprodução cultural e econômica das relações de classe numa sociedade industrial com a sociedade americana? De acordo com Apple (1982, citado por BORGES; TOZZI, 1995) as formas de seleção, organização e distribuição do conhecimento escolar favorecem a opressão da classe e grupos subordinados. Nessa perspectiva, ao selecionarmos o conhecimento escolar aplicamos o princípio do poder, isto é, quando falamos que uma coisa é verdade e outra coisa não é verdade, quando escolhemos aquilo que eu vou ou não trabalhar a partir de um determinado poder central, seja pelo MEC, pelas secretarias estaduais e municipais de educação.
Para Apple (1989) currículo é poder, ideologia e cultura, uma vez que influencia na atuação da escola no sentido de legitimar a distribuição de poder econômico e cultural existente. O autor afirma que as instituições educacionais embora distribuam valores ideológicos e conhecimento, sua influência não se resume a isso. Como sistema institucional, elas também ajudam, em última análise, a produzir o tipo de
conhecimento necessário à manutenção das composições econômicas, políticas e culturais vigentes. Esse conhecimento dentro da abordagem tecnicista é chamado de conhecimento técnico. “É a tensão entre distribuição e produção que em parte responde por algumas das formas de atuação das escolas no sentido de legitimar a distribuição de poder econômico e cultural existente” (APPLE, 1989, p. 45).
Silva T. (1999) também relaciona o currículo ao poder:
O currículo é uma questão de poder e as teorias do currículo, na medida em que buscam dizer o que o currículo deve ser, não podem deixar de estar envolvidas em questões de poder. Selecionar, privilegiar um tipo de conhecimento, destacar, entre múltiplas possibilidades, uma identidade ou subjetividade como ideal são operações de poder (SILVA T., 1999, p. 16). A definição de teoria para Silva T. (1999, p. 16) ocorre a partir dos “conceitos que utiliza para conceber, organizar e estruturar nossa forma de ver a realidade”. E as questões de identidade ou de subjetividade estão no currículo
No fundo das teorias do currículo está uma questão de identidade ou de subjetividade. Além de uma questão de conhecimento, é também uma questão de identidade, e é sobre essa questão que se concentram também as teorias do currículo, ou seja, o conhecimento que constitui o currículo está emaranhado, centralmente, vitalmente, envolvido naquilo que somos, naquilo que nos tornamos: na nossa identidade, na nossa subjetividade (SILVA T., 1999, p. 16).
Silva T. (1999), de acordo com os conceitos das diferentes teorias do currículo apresenta alguns exemplos de categorias que elas, respectivamente, enfatizam:
Teorias tradicionais – Ensino; Aprendizagem; Avaliação; Metodologia; Didática; Organização; Planejamento; Eficiência; Objetivos.
Teorias críticas – Ideologia; Reprodução cultural e social; Poder; Classe social; Capitalismo; Relações sociais de produção; Conscientização; Emancipação e libertação; Currículo oculto; Resistência.
Teorias pós-críticas – Identidade, alteridade, diferença; Significado e discurso; Saber-poder; Representação; Cultura; Gênero, raça, etnia, sexualidade; Multiculturalismo.
Desse modo, o currículo tradicional é visto como a especificação precisa de objetivos, procedimentos e métodos, visando à obtenção de resultados que possam ser rigorosamente mensurados.
Segundo Silva T. (1999) o que vai separar as teorias tradicionais das teorias críticas e pós-críticas do currículo é a questão do poder. Conforme o autor as teorias
tradicionais pretendem ser apenas teorias neutras, científicas, desinteressadas, ao contrário das teorias criticas e as teorias pós-críticas que argumentam que nenhuma teoria é neutra, científica ou desinteressada, mas que está, inevitavelmente, implicada em relações de poder. As teorias tradicionais, ao aceitar mais facilmente o status quo, os conhecimentos e os saberes dominantes, acabam por se concentrar em questões técnicas, como o quê? como dada, como óbvia e por isso buscam responder a outra questão: o como? Dado que temos esse conhecimento (inquestionável?) a ser transmitido, qual é a melhor forma de transmiti-lo? (SILVA T., 1999, p. 16).
Pacheco J. (2005) define currículo como:
[...] um projeto, cujo processo de construção e desenvolvimento é interativo e abarca várias dimensões, implicando unidade, continuidade e interdependência entre o que se decide ao nível do plano normativo, ou oficial, e ao nível do plano real, ou do processo de ensino-aprendizagem (PACHECO J., 2005, p. 39).
Conforme Pacheco J. (2005), entendemos que a construção de um projeto abarca várias dimensões, desta forma o currículo abarca o resultado desta construção, ou seja, o currículo abarca “uma prática pedagógica no qual segundo o autor é resultado da interação e confluência de várias estruturas: políticas/administrativas, econômicas, culturais, sociais, escolares etc, na base das quais existem interesses concretos e responsabilidades compartilhadas” (PACHECO J., 2005, p. 39).
Nesse sentido Veiga-Neto (2002) coloca que:
O currículo prescrito guarda estreita correspondência com a cultura na qual ele se organizou, de modo que ao analisarmos um determinado currículo, poderemos inferir não só os conteúdos que, explícita ou implicitamente, são vistos como importantes naquela cultura, como, também, de que maneira aquela cultura prioriza alguns conteúdos em detrimento de outros, isto é, podemos inferir quais foram os critérios de escolha que guiaram os professores, administradores, curriculistas, etc., que montaram aquele currículo. Esse é o motivo pelo qual o currículo se situa no cruzamento entre a escola e a cultura (VEIGA-NETO, 2002, p.44).
A compreensão de currículo para Freire:
[...] não se reduz a uma pura relação de conteúdos programáticos e, sim, à vida abarcada na escola, o que nela se faz ou não se faz, as relações entre todos e todas as que fazem a escola. Abarca a força da ideologia e sua representação, não só como ideia, mas como prática concreta. (FREIRE, 1991, p.123)
Diante do exposto, entendemos o currículo para além de um conjunto de disciplinas determinadas por procedimentos, objetivos e métodos, pois é certo que ele é permeado de intencionalidades que determinam e selecionam saberes. O currículo é uma forma de vida, a identidade de um povo, construído pela ação dos sujeitos ao longo de suas trajetórias histórico sociais.
O currículo que abarcamos é o das teorias críticas e pós-críticas, que estão preocupadas com as conexões entre saber, a estrutura social, a cultura, a identidade e o poder. Desse modo, o conceito de currículo adotado nesta pesquisa está relacionado ao conceito de currículo como artefato social e cultural, entendido como um instrumento, um espaço, um campo de produção e criação de significados, no qual se fazem presentes os interesses e os fazeres dos educadores e educandos.
No item a seguir é apresentado o conceito de tecnologia e a relação das tecnologias digitais de informação e comunicação com o currículo.