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7.3 Prisdeterminanter på etterspørselssiden

7.3.4 Renter

Parece consentido na literatura científica que o fenômeno bullying não é algo natural, ou que se refere apenas a desvios de comportamento e de indisciplina e que não é apenas "brincadeira de idade". Ou ainda, que seja um problema do indivíduo. Mesmo que se apontem fatores de risco, como por exemplo, ser aluno novo na escola, ou ter um temperamento impulsivo, não se pode usar isso como uma justificativa para esse tipo de agressão, muito menos como sua causa.

"A causa é o fracasso da celebração da diferença e da busca do compartilhado. É o triunfo do poder e dos privilégios, da homogeneidade, da territorialidade e o medo que os outros, diferentes, representam" (DEL BARRIO; GUTIÉRREZ; BARRIOS; VAN DER MEULEN; GRANIZO, 2005, p. 86, tradução nossa27).

Não é nada incomum encontrarmos textos dedicados a tecer características (perfis) de alvos e autores de bullying. Sobre isso é preciso ter um cuidado muito especial. Encarar esses perfis como fatores determinantes das agressões significa apontar como causas as características dos sujeitos envolvidos, desconsiderando toda a complexidade de fatores que influenciam nas relações entre as crianças e adolescentes. Tal compreensão pode ter sido

27 Citação original: "La causa es el fracaso de la celebración de la diferencia y de la búsqueda de lo compartido.

Es el triunfo del poder y los privilegios, de la homogeneidad, de la territorialidad y el miedo a lo que otros, diferentes, representan" (DEL BARRIO; GUTIÉRREZ; BARRIOS; VAN DER MEULEN; GRANIZO, 2005, p. 86).

influenciada pelo grande número de estudos iniciais que se dedicavam a compreender o fenômeno a partir de números de incidência e para traçar os perfis dos sujeitos envolvidos.

Avilés (2007; 2013) tem descrito o bullying como um fenômeno multicausal, apontando fatores de risco que vão desde questões culturais até fatores pessoais. A título de exemplificação, citamos algumas variáveis citadas pelo autor que podem influenciar em situações de bullying: culturais: cultura à violência e ao uso da força, pensamentos de determinados grupos (homofóbicos, neonazistas, racistas); sociais: violência estrutural, preconceitos, valores (não morais) socialmente aceitos, como o status social, a individualidade, o culto ao corpo; familiares: modelos de educação autoritária, permissiva ou negligente, formas agressivas, falta de diálogo, valores e vínculos estabelecidos; escolares: tolerância às agressões (mesmo que não diretamente), valores cultivados, tipo de relações estabelecidas (se de cooperação ou de competição, se baseadas no respeito mútuo ou unilateral), vínculos de apego, falta de sistemas de apoio e de canais de comunicação, tipo de normas existente e a forma como são construídas, tipo de relação estabelecida com as famílias e os demais membros da comunidade educativa.

Além de tais fatores, o funcionamento do grupo, o tipo de dinâmica e de relações que se criam entre os pares têm sido apontado por investigadores como tendo grande relevância para a compreensão dos motivos pelos quais o bullying acontece e se estabelece entre os estudantes (COWIE; WALLACE, 2000; DEL BARRIO; GUTIÉRREZ; BARRIOS; VAN DER MEULEN; GRANIZO, 2005; SALMIVALLI, 2010; SALMIVALLI et al., 1996; SAMIVALLI; PEETS, 2010), como já explicitado no item 1.2 deste capítulo, quando discorremos sobre o bullying como um fenômeno de grupo. Conforme Roland (2010), o bullying seria uma agressão proativa, dirigida a alcançar recompensas sociais, como o poder e o status, além de gerar um sentimento de pertencimento ao grupo, em função da partilha, por exemplo, da antipatia ao alvo pelos autores de bullying.

Mesmo que a busca de status seja individual, é um fator que está relacionado totalmente com o fator grupal, visto que o sujeito só alcança uma posição de hierarquia perante seus pares que lhe atribuem essa posição. Talvez por isso que a maior incidência de bullying seja durante a adolescência28, fase em que o status perante os pares é de grande importância. Nesse sentido,

a presença de espectadores se faz de suma importância. Os ataques dos agressores servem para

28 Estudos demonstram que a maior incidência de bullying ocorre dos 09 aos 14 anos, decrescendo posteriormente

(DEFENSOR DEL PUEBLO, 2000; 2007; (DEL BARRIO; GUTIÉRREZ; BARRIOS; VAN DER MEULEN; GRANIZO, 2005).

repetidamente evidenciar seu poder no grupo (SALMIVALLI, 2010) e para isso precisam de plateia. O problema está na percepção dos autores de bullying, os quais geralmente sabem que terão prestígio social ao serem agressivos e dominantes. Mesmo sendo rejeitado por muitos colegas, um autor de bullying ainda pode ser reconhecido como popular (isso é visibilidade, logo, status). Isso denota uma inversão de valores. Nossas crianças e adolescentes valorizam aquilo que não é moral: a violência, a diferença, o poder sobre o outro, o desrespeito.

Dentre as questões que influenciam nas relações entre iguais está o que Olweus (1998) chamou de contágio social. Para o autor, uma pessoa tem tendência maior em agir de forma agressiva depois de observar um "modelo" agressivo. Os que estariam mais propensos a tal ação seriam aqueles alunos mais inseguros e dependentes das ações dos outros, que buscam um status ou se sentirem pertencentes. Interessantemente, o autor aponta também para outro fator que contribui para que muitos alunos não se sintam mal com as agressões que fazem ou não se movem para ajudar os alvos de bullying, fator chamado na psicologia social como diminuição do sentimento de responsabilidade individual. Segundo Olweus (1998), quando várias pessoas participam de uma ação, o sentimento de culpa ou de responsabilização pela ação pode quase diluir-se totalmente. Isso foi verificado por Tognetta, Avilés e Rosário (2014) em estudo com 2600 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. 28,1% destes apontaram que se todo mundo agride, não é algo tão ruim.

Dentre as questões individuais que podem ser fatores de risco, mas não determinantes, está a falta de sensibilidade moral dos autores, já explicitada, e a necessidade de uma imagem de si com valor, defendida por Tognetta (2011) como fator que influencia nas ações de bullying. Entretanto, esta última também pode ser encarada sob o ponto de vista do grupo, afinal é uma imagem perante o outro que vai influenciar nas relações com os iguais.

Outros fatores causais individuais foram estudados, como os internos ao indivíduo: a hiperatividade e a impulsividade (FARRINGTON, 2005) e o desequilíbrio emocional dos alvos (TRIANES, 2000), por exemplo. Aqueles fatores individuais, mas relacionadas mais a características externas do indivíduo - como peso, altura, estilo de roupas, necessidades educacionais especiais, etnia entre tantas outras, ou características situacionais - como ser novo na escola, são apontadas pela literatura como fatores de risco e dependerão muito das relações que se estabelecerão nos grupos de iguais.

Pesquisadores têm evidenciado que o bullying é um problema moral, visto que valores morais, como respeito e justiça, estão ausentes nestas ações (MENESINI et al., 2003; ORTEGA; SÁNCHEZ; MENESINI, 2002; TOGNETTA; 2011; TOGNETTA; AVILÉS; ROSÁRIO, 2014) e, portanto, pensar sobre as suas causas implica considerar as imagens que

esses sujeitos têm de si - se são carregadas de conteúdos morais ou não (TOGNETTA, 2011) e em como os sujeitos autorregulam seu comportamento considerando as normas morais internas, mecanismo chamado por Bandura (1986) de desengajamento moral.

Segundo a teoria do desengajamento moral (BANDURA, 1986 apud BRIGHI; GENTA, 2010), sentimentos como a vergonha, a culpa e a autorreprovação funcionariam como reguladores entre comportamentos, valores morais e normas interiorizadas. Entretanto, em determinados momentos isso pode não funcionar bem. Bandura (1991 apud BRIGHI; GENTA, 2010) aponta para oito mecanismos que obstaculizam esse controle interno - justificativa moral, comparação vantajosa, linguagem eufemística, desumanização, deslocamento de responsabilidade, difusão de responsabilidade, culpar os outros ao invés de si mesmo, minimizar as consequências da sua ação. Estes dois últimos são fatores encontrados em estudos que visaram relacionar desengajamento moral e bullying (MENESINI et al., 2003; ORTEGA; SÁNCHEZ; MENESINI, 2002). Estudos comprovam que autores de bullying são aqueles que mais se desengajam moralmente nas situações em que o respeito ao outro está em jogo (ALMEIDA; CORREIA; MARINHO, 2010; OBERMANN, 2011; SAGONE; LICATA, 2009).

Recentemente, foi desenvolvido um estudo (TOGNETTA; AVILÉS; ROSÁRIO, 2014) com 2600 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental para avaliar a correspondência entre os valores integrados à identidade dos indivíduos envolvidos em situações de bullying e as escolhas que estes fazem para engajar-se ou desengajar-se moralmente neste tipo de situação. Os pesquisadores identificaram que somente uma pequena porcentagem destes alunos (8,8%) demonstrou admirar sentimentos morais que incluíam a si e aos outros. Foram os autores de bullying (26,3%) que mais apresentaram representações de si individualistas e ao mesmo tempo, são os que "[...] desativam mais e seletivamente o controle de um mau comportamento moral e reconstroem o significado de sua conduta reprovável com justificativas morais" (Ibid., p. 9). Já os alvos se apresentaram tanto engajados quanto desengajados moralmente, sem diferença significativa, justificando e confirmando "[...] a violência como um valor, empregando formas de desengajamento moral com atribuição de culpa e desumanização, ao analisarem uma situação com a mesma forma de maltrato pela que passam" (Ibid., p. 9). Mostram exatamente a dificuldade que têm de se enxergar como alguém que merece o valor atribuído pelo outro.