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Como apresentado no início do capítulo, o próprio conceito inicial de bullying ampliou- se para abarcar, além de agressões físicas, aquelas verbais, gestuais ou de exclusão social e as consideradas indiretas - quando o autor usa o grupo ou sua rede de relações para atacar o alvo ou por meio de suas propriedades, roubando-as, por exemplo (ALMEIDA, 2008; AVILÉS, 2002; FANTE, 2005; OLWEUS, 1998).

Distinguir o fenômeno em modalidades - sociais, relacionais, psicológicas ou indiretas, pode ser polêmico. Del Barrio, Martín, Almeida e Barrios (2003), com base em autores como Björkqvist (2001) e Archer (2001), explicam que: todas as formas de agressões são sociais ou relacionais; é incorreto distinguir entre bullying físico ou psicológico, pois todo maltrato é psicológico; nem toda exclusão social é indireta, pois há exclusões que são feitas aberta e diretamente; uma agressão física pode ser indireta, quando se atinge uma pessoa com ações sobre os seus pertences.

Com o advento das novas tecnologias surgiu uma nova possibilidade de agredir ao outro, denominada de cyberbullying. Embora este tenha condutas coincidentes com o bullying tradicional, o anonimato e a massiva distribuição da informação que estes meios eletrônicos permitem, dão uma vantagem muito maior do autor sobre seu alvo e a transformam numa situação mais danosa ainda para quem a sofre, isto porque as agressões podem chegar a número incalculável de espectadores e o autor das agressões pode permanecer por muito tempo no anonimato. Se não se conhece a quem agride, como defender-se? Além disso, a duração da agressão ganha outras dimensões: a palavra escrita tem caráter duradouro e, ao passo que cada pessoa que visualiza a agressão pode compartilhar com outros e/ou salvar em seu dispositivo ficando quase impossível controlar o fim da agressão. Isso faz com que ela possa ser vista inúmeras vezes, acessada de qualquer lugar e a qualquer momento (DEL BARRIO, 2013).

O cyberbullying é conceituado como "Uma agressão intencional, realizada por um grupo ou por um indivíduo, usando formas eletrônicas de contato, repetidamente, e ao longo do tempo, contra uma vítima que não pode se defender facilmente" (SMITH et al., 2008, p. 376, tradução nossa29), ou seja, o bullying por meio de recursos eletrônicos de contato.

Nem toda agressão via recursos eletrônicos é considerada cyberbullying. É preciso haver a intenção e o desequilíbrio de poder e, habitualmente - porém não necessariamente, a repetição por parte do autor, visto que uma agressão pode ser cometida uma única vez, mas vista e

29 Citação original: "An aggressive, intentional act carried out by a group or individual, using electronic forms of

contact, repeatedly and over time against a victim who cannot easily defend him or herself’" (SMITH et al., 2008, p. 376).

compartilhada inúmeras vezes. Segundo del Barrio (2013) o desequilíbrio de poder é muito fácil de identificar no cyberbullying. Primeiramente, porque quando se trata de uma troca de agressões, de duas pessoas que enviam, apenas entre si, mensagens ofensivas, esta se caracteriza como uma relação simétrica. No entanto, quando essa agressão passa a envolver uma terceira pessoa nos ataques, aí sim passa a existir o desequilíbrio: "A simples ação negativa repetida contra alguém que não sabe quando vai recebê-la e nem a deseja, faz com que quem a comete tenha o controle, o poder das ações" (DEL BARRIO, 2013, p. 26, tradução nossa30). Esta falta

de controle, e, por vezes, a maior habilidade/conhecimento em tecnologias da informação e comunicação de quem comete a agressão, podem contribuir para esta assimetria.

O uso dos recursos eletrônicos parece estar facilitando a ocorrência de agressões, em função da distância virtual que se estabelece entre autor e alvo, em alguns casos. O contato indireto, sem ser cara a cara, pode fazer com que muitas pessoas se sintam desinibidas, ou tomem coragem para agredir alguém - ação que não fariam, possivelmente, se fosse no mundo físico, ainda mais se for anonimamente (SMITH; DEL BARRIO; TOKUNAGA, 2013). O anonimato somado ao fato de que muitos jovens podem não contar o que passa por medo de terem o uso de celular ou Internet privados pelos adultos, pode influenciar no desconhecimento por parte destes, tornando-o ainda menos visível que o bullying tradicional.

Atualmente, temos acesso a inúmeros estudos31 que visam explicar o fenômeno

(HINDUJA; PATCHIN, 2008; 2012; ORTEGA; CALMAESTRA; MORA-MERCHÁN, 2008; ORTEGA; ELIPE; CALMAESTRA, 2009; TOGNETTA; BOZZA, 2011), a tecer relações com o bullying tradicional (KOWALSKI; LIMBER, 2013; OLWEUS, 2013) e a pensar formas de prevenção (AVILÉS, 2013a; 2013b; DEL REY; CASAS; ORTEGA, 2012; PERREN et al., 2012; SALMIVALLI; PEETS, 2010; SLONJE; SMITH; FRISÉN, 2013).

Algumas formas de bullying recebem nomeação específica. É o caso do bullying sexual - quando o conteúdo das agressões é sexual, realizado com gestos, insinuações, toques ou palavras, por exemplo. Há o bullying racista, quando as agressões têm caráter racista e/ou xenófobo, e o bullying contra pessoas com necessidades educativas especiais (AVILÉS, 2013).

30 Citação original: "La simples acción negativa repetida contra alguien que no sabe cuándo va a recibirla ni la

desea hace que quien la perpreta tenga el control, el poder de las acciones" (DEL BARRIO, 2013, p. 26).

31 Para maiores informações sobre o cyberbullying sugerimos o acesso às referências citadas. Não nos deteremos

nesta tipologia por não ser nosso objeto de investigação, embora sabemos da estreita relação, já apontada por inúmeros investigadores, entre o bullying e o cyberbullying. Seguramente, podemos afirmar que qualquer programa de intervenção ao bullying nas escolas deve incluir a prevenção ao cyberbullying.

Não menos importante que qualquer forma de bullying, mas que merece a atenção das escolas e dos investigadores, a fim de aprofundar os estudos e mostrar para a sociedade sua gravidade, é o bullying homofóbico. Trata-se de agressões relacionadas à orientação e/ou identidade de gênero afetivo ou sexual de um indivíduo (GALÁN et al., 2013). Muitos sujeitos que são ou que parecem ser gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, ou que rompem com os papeis de gênero definidos socialmente como padrões têm sido vitimizados frequentemente por seus pares nas escolas. Como apontamos anteriormente, não são as características de um individuo que o determinam como um alvo, mas como o outro lhe vê. Ou seja, a opção sexual ou afetiva de um sujeito não é fator determinante para receber agressão. No entanto, estudos têm evidenciado que esses sujeitos se encontram numa situação de risco em função da homofobia e transfobia nas escolas e na sociedade em geral (GALÁN et al., 2013; UNESCO, 2012).

Considerando a complexidade do fenômeno bullying apresentada neste capítulo, nos indagamos sobre as alternativas de prevenção e contenção que os pesquisadores têm apontado para o seu enfrentamento. Como explicitado no capítulo introdutório, um dos objetivos desta pesquisa é identificar e analisar as estratégias antibullying elencadas pelos investigadores brasileiros e espanhóis. É sobre elas que passaremos a tratar no próximo capítulo.