2 THEORETICAL FRAMEWORK AND PREVIOUS RESEARCH FINDINGS
2.1 D OMESTIC VIOLENCE
H.S.: solteiro, 18 anos, não tem filhos. Nasceu em Natal e é morador da Vila de Ponta Negra. Estava cursando o terceiro ano do ensino fundamental e trabalhava numa oficina de bicicleta.
Origem familiar
H. nasceu em Natal, é o segundo de uma família com nove filhos. Seus pais não moram mais juntos, e isso sempre pesou em sua vida. O seu irmão mais velho não assumiu nenhuma responsabilidade, ficando tudo ao seu encargo. A pior lembrança que ele traz da infância é que aos quinze anos perdeu esse irmão mais velho, vítima de uma briga entre rivais. Esse irmão era de quem mais gostava; foi uma perda que marcou toda a trajetória de vida de H.
Depois que eu perdi meu irmão foi um coisa muito desastrosa porque sofria todo mundo, minha mãe adoeceu: ela costurava e depois disso ficou fraca, nervosa. Eu fiquei um bom tempo sem sair de casa à noite, por medo mesmo. Eu já era meio nervoso e com isso piorou. Eu já não gostava muito de sair de casa porque à noite por aqui tem muito assalto e pessoas que se drogam. [...] Quando eu saio de casa nunca sei se vou voltar.
As dificuldades que já faziam parte da sua rotina se tornaram então maiores. H. parou de estudar: já tinha repetido dois anos e não estava mais estimulado para ir à escola. Agora só pensava no que iria fazer para melhorar a situação da família: “eu fico às vezes querendo resolver esses problemas todos, tudo de uma só vez [...]. Tem dias que saio de casa querendo fazer tudo que aparecer na minha frente e na maioria das vezes volto sem nada”.
O que aparece como posição subjetiva e que evidencia seu modo de lidar com o Outro é uma grande insegurança, medo de enfrentamento, a percepção do tamanho da tarefa que ele tem que abraçar. Portanto podemos pensar essa história como precária e marcada por uma imobilidade diante do tamanho dos problemas: H. não vislumbra muita saída para os impasses do seu cotidiano. Essa posição subjetiva determina o modo como ele vai estruturar o seu projeto ordenador: marcado por desconfiança na sua capacidade de conseguir as coisas pelas quais sonha. Sem motivação para continuar a luta, a escola poderia surgir como uma mediadora das dificuldades desse rapaz, mas também está marcada pela falta de estímulo dos professores. Fica clara, na história de H. , a ausência de dispositivos sociais que pudessem colaborar para as saídas subjetivas dos seus impasses, ausência de programas que prestem assistência à juventude e que elevem a sua auto-estima.
Projeto de vida
Essa precariedade do contexto de H. marca decididamente o seu projeto de vida:
Meu sonho é voltar a estudar e arrumar um emprego, mas acho que isso é uma coisa que eu vou morrer e não vou conseguir, porque eu já tentei muitas vezes voltar e acabo desistindo. Se eu não voltar a estudar não vou conseguir o emprego que eu quero. Meus professores já me mandaram para o supletivo, porque não vêem chance de eu conseguir até o fim [...]. Eu ficava faltando aula direto, na escola só tem bandidos.
Relação com a comunidade
H. parece não manter qualquer vínculo com a sua comunidade: percebe que todos só querem tirar vantagens, é desconfiado das pessoas, não gosta de sair de casa, não costuma se envolver com nada. Foi difícil conduzir a entrevista com esse rapaz, dado o nível de seu desestímulo e de sua descrença de tudo:
Pra falar a verdade, eu vivo essa vida não sei nem por quê. Ninguém merece confiança: a gente não sabe quem é quem, o amigo de hoje amanhã é nosso inimigo [...]. Eu não gosto desse negócio de fazer favor, porque todo mundo é interesseiro, faz o favor pra depois cobrar um preço alto [...]. Esse negócio de comunidade é saco furado, as pessoas só querem tirar vantagem. Os que são esperto tira toda a vantagem do outro que não é. se a gente for dar uma de espertinho pode arrumar briga, e assim o melhor é ficar sossegado mesmo e ir levando.
Relação com a política
Essa postura de descrédito em tudo se repete quando H. vai falar de política: o candidato aparece como totalmente desacreditado, envolvido apenas com seus próprios interesses.
A maior parte dos políticos não prestam, só sabem prometer, e cumprir que é bom [...]. Não pensam no jovem: eu não vejo um político desses se preocupando com o jovem, eles só visam o bolso deles e o da família deles [...].
Tem alguns que ainda ajuda a gente, mas só nas eleições [...]. Teve uma eleição dessas, eu trabalhei pra um político e ganhei algumas coisas: camisa, quinze reais e mais o almoço; mas o meu voto eu dei pra outro lá que era mais conhecido meu [...], de política eu não entendo muito não, é uma coisa que eu tenho é raiva [...], dia de eleição eles parecem urubu em carniça, mas a carniça é a gente [...], eles devem existir, mas de outro jeito, porque senão isso aqui viraria uma zorra.
Escolhas eleitorais
Eu geralmente escolho uma pessoa que eu conheço, que um amigo meu pede, e assim, se eu vejo que ele fala alguma coisa que me agrade [...]. A televisão ajuda nas escolhas se o candidato for mais de longe e a gente não sabe bem quem é [...]. Eu assisto, mas dizer assim que eu presto atenção eu não presto [...]. Eles prometem segurança do bairro, educação, emprego, salário [...]. Mas a gente escuta assim, fica olhando e é tudo mentira. Mesmo quem tá falando a verdade a gente já pensa que é mentira [...].
Eu dei meu primeiro voto agora e foi pra Lula e Vilma; os outros eu não me lembro, foi um colega que me pediu, eu gosto mais de votar nos maiores, que é mais importante.
O discurso de H. é, finalmente, revelador disto que estamos mostrando nas nossas análises: que o substrato subjetivo que permeia as escolhas eleitorais é também o desamparo. Observamos aqui uma articulação entre a posição subjetiva de H. aquela que aparece em sua história de vida, uma posição de impotência e medo diante da vida, e os encaminhamentos que são impulsionados no seu cotidiano, ou seja, o seu projeto ordenador. Por mais boa intenção que tenha, fica engessado para realizar aquilo que almeja. Essa conduta, em certa medida, aparece também no ato de fazer as suas escolhas eleitorais: ele não vê saídas, vota a partir da indicação de um amigo, precisa escutar alguma proposta que o agrade. O seu voto não denota um conhecimento sobre a política, mas é um voto tomado aleatoriamente, sem vínculo com um projeto para a sociedade.