4. DIGITALT BAKKENETT
4.1 D ISTRIBUSJONSFORMER
O trabalho, para Schwartz, evoca as “virtualidades singulares” e os limites dos indivíduos, ao encontrarem no objetivo a realizar um apoio ou uma restrição de seus “possíveis particulares” (SCHWARTZ, 2000, p. 37). Do ponto de vista ergológico, a dimensão da dinâmica coletiva do trabalho é central para a compreensão das relações da subjetividade com esse campo. Nela, trocas, elaborações e reelaborações do saber-fazer desenrolam-se cotidianamente e coletivamente, o que exige que vida profissional e percursos subjetivos se coadunem, compondo um elemento não-técnico do trabalho, imprescritível, com incidência direta sobre o técnico.
Por trás de toda vida profissional, de toda mutação do conteúdo do trabalho, se perfila um problema de coerências individuais, no qual a percepção do “ofício” aparece determinante. Se o trabalhador em equipe não retoma seu ofício, ele pode se sentir excluído desta cadeia que liga seu destino aos que decidem e vivem o cotidiano; e viver em ruptura a vida familiar e a vida de equipe, doravante incomunicáveis. Apreender, ao contrário, o seu ofício é a mesma coisa que perceber o sentido da camaradagem e do “bom ambiente”; é medir mais claramente seu papel na cadeia, condição para viver melhor em coerência a vida social, a vida familiar e a vida pessoal. (SCHWARTZ, 2000, p. 8).
A ergologia ocupa-se da atividade que se desenrola em debates que os indivíduos tecem com eles mesmos e com os outros na confrontação com atos cotidianos e do trabalho, apreendendo aspectos da estruturação e da dinâmica da subjetividade, o que aborda com a noção de usos de si. Para a démarche ergológica, a dimensão histórica e social do trabalho deve ser tomada observando a relação de confronto, sempre dinâmica, entre o uso que se faz do sujeito e o uso que o sujeito faz de si.
Também quando se diz que o trabalho é uso de si, isto quer dizer que ele é o lugar de um problema, de uma tensão problemática, de um espaço de possíveis sempre a se negociar: há não execução, mas uso, e isto supõe um espectro contínuo de modalidades. É o indivíduo no seu ser que é convocado, são, mesmo no inaparente, recursos e capacidades infinitamente mais vastos que os que são explicitados, que a tarefa cotidiana requer, mesmo que este apelo possa ser globalmente esterilizante em relação às virtualidades individuais. Há uma demanda específica e incontornável feita a uma entidade que se supõe de algum modo uma livre disposição de um capital pessoal. Tal é a justificação da palavra “uso” e tal é aqui a forma indiscutível de manifestação de um “sujeito”. (SCHWARTZ, 2000, p.13).
A distinção entre execução e uso deve ser pensada com a noção de vida que Schwartz trará de Canguilhem. Para ele, é exatamente porque a vida nunca encontra um meio que lhe seja fiel que viver será sempre o exercício de gerir infidelidades do meio. Se viver se restringisse a ser fiel às normas do meio, falaríamos em execução. Porém, a pura execução é invivível. O uso inclui algo mais, exercício da vida que realimenta de infidelidades o próprio meio. É nesse movimento dialético frente à “dupla infidelidade” do meio e do vivente que Schwartz traz à cena a noção de uso de si, sempre convocado pelo vazio de normas, como dizem Schwartz e Durrive (2007), já que as normas do meio são insuficientes.
É a partir da noção de saúde desenvolvida por Canguilhem (ver CANGUILHEM, 1995; CANGUILHEM, 2005) como “capacidade de criar novas normas de vida em confrontação com o meio” (SCHWARTZ, 2000, p. 44) que toda uma trama conceitual se tece. Há uma oposição dialética entre as noções de conceito e de vida na abordagem ergológica. O conceito é tomado como “[...] o instrumento para pensar” recortar, definir, generalizar, abstrair-se do presente; enquanto a vida “[...] é um fenômeno inteiro, sintético, específico, profundamente ancorado no presente”: “a vida humana promove a conceitualização para alargar os seus horizontes de domínio do meio – que não é somente um meio ecológico, mas um ambiente social, próprio ao ser humano” (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 24).
O trabalho na ergologia é tomado enquanto atividade onde há debate de normas. A norma “[...] exprime o que uma instância avalia como devendo ser: segun- do o caso, um ideal, uma regra, um objetivo, um modelo” (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 26). Segundo os autores, elas podem ser mais ou menos exteriores ao indivíduo, na medida em que mais ou menos impostas e/ou assumidas enquanto instauradas na atividade. Cada indivíduo procura ser produtor das suas próprias normas frente às exigências que o governam. No meio de trabalho, o ser humano
encontra várias expressões das normas antecedentes: manuais, notas técnicas, regras de gestão organizacional, prescrições, instruções, procedimentos, para citar algumas. Frente ao constrangimento que elas imputam, cada trabalhador desenvolve atividades singulares de renormalizações sucessivas.
O ser humano, como todo ser vivo, está exposto a exigências ou normas, emitidas continuamente e em quantidade pelo meio no qual se encontra. Para existir como ser singular, vivo, e em função das lacunas das normas deste meio face às inúmeras variabilidades da situação local, ele vai e deve tentar permanentemente re-interpretar estas normas que lhe são propostas. Fazendo isto, ele tenta configurar o meio como o seu próprio meio. É o processo de renormalização que está no cerne da actividade. Em parte, cada um chega a transgredir certas normas, a distorcê-las de forma a delas se apropriar. Em parte, cada um sofre-as como algo que se impõe do exterior [por exemplo, a linguagem é na actividade um esforço de singularização do sistema normativo que é a língua]. (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 27).
A linguagem tenta antecipar a atividade, fazendo com que as coisas sejam relativamente estáveis, e a atividade “totalmente mergulhada na história em curso, ultrapassa por sua vez a linguagem devido à variabilidade, antecipa o que será necessário depois procurar exprimir em palavras” (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 25). Na ergologia, a relação entre linguagem e atividade é tomada como dupla antecipação desses dois registros em permanente dialética. É assim que se produz a história e os saberes. Para Schwartz:
Estes saberes que recobrem tudo isto que existe de histórico, de relativamente singular nas situações de trabalho, espraiam-se sem descontinuidade das formas de inteligência incorporadas em nosso corpo até os patrimônios de experiência pensados, raciocinados, transmissíveis. Eles vão de aprendizagens não-conscientes, não expressos em linguagem, dificilmente perceptíveis até as maneiras de fazer socializadas, justificáveis, manifestas. (SCHWARTZ, 2003, p. 24).
“Fazer história”, conforme Schwartz (2003, p. 22), “é re-questionar e re- combinar os saberes”. As situações de trabalho, por apresentarem debates e requestionamentos, são (por isso mesmo e ao mesmo tempo) atravessadas de histórias sempre inacabadas, lacunares, passíveis de serem reescritas a cada encontro com o imprevisível e singular.
Outra noção importante para a ergologia é a de valores, que, em seu sentido subjetivo, remete ao “peso que se atribui mais ou menos às coisas; uma hierarquia, uma categorização própria a cada um a propósito do que se estima, prefere, ou pelo contrário que se negligencia, rejeita” (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 27). Há um retrabalho incessante, individual e coletivo, em torno dos valores, em uma tentativa
de “mestria sobre o meio no qual se encontra” (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 27). É importante destacar também a oposição entre valores dimensionados a valores não dimensionados:
Os valores dimensionados são aqueles cujos limites são conhecidos, que correspondem a medidas, a quantidades: aqueles do espaço nomeadamente ocupado pelo mercado, mas também através das avaliações, critérios e indicadores quantitativos. Por oposição, os valores não dimensionados são os do político, do “bem comum” (a saúde, a educação) num “mundo de valores” onde não há nem limitação interna clara entre eles, nem hierarquização possível. Uns são trabalhados pelos outros. (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 28).
Toda essa rede de conceitos desenvolvida pela ergologia, que inclui a noção de uso de si, busca apreender o trabalho em sua realidade ao mesmo tempo profundamente coletiva e individual. É como uso e não como execução que o trabalho deve ser pensado para incluir o drama das escolhas feitas no encontro com os outros, as normas, o meio, onde os valores são retrabalhados por atividades singulares de renormalizações sucessivas.
Em sua obra “Expérience et connaissance du travail” (livremente traduzida para “Experiência e conhecimento do trabalho”), Schwartz (1988) apresenta uma reavaliação da esfera do trabalho no movimento da cultura e do saber. Trata-se da publicação de sua tese de doutoramento, extensa obra que busca tomar o trabalho como uma experiência para fazer emergir de suas figuras concretas, passadas e presentes, não só um saber sobre a humanidade industriosa, mas sobre como o industrioso está no centro da compreensão do que é o saber e o humano. A conceitualização marxista serve de apoio para justificar esse recentramento em torno das forças produtivas. Ao marxismo, não é atribuído o monopólio, mas o reconhecimento de um campo aberto para se apreender o trabalho como experiência (SCHWARTZ, 1988, p. 845). É sobretudo nas obras de Canguilhem, Wisner e Odonne que Schwartz encontra o eixo de que sustenta sua proposta.
Tomar o trabalho como sempre e em qualquer nível uma experiência: essa é a tese defendida pelo autor para redimensionar a atividade humana não como simples experiência da presença humana em situação de trabalho, mas como trabalho da experiência, leitura de como os sujeitos são aí postos à prova (SCHWARTZ, 2000b). Essa dimensão inclui sempre levar em conta as possibilidades de escolha do uso de si e suas relações com as enigmáticas formas de produção de conhecimento.