4. RESULTATER
4.4. D ISKUSJON
Iniciando pela exposição da noção de razão, é imprescindível ter em conta que, para Feuerbach, é ela, ao mesmo tempo, “o ser neutro, indiferente, incorruptível, incegável em nós – é a luz pura, sem afeições, da inteligência […], [que possui uma] natureza objetiva” (cf. FEUERBACH, 2012a, p. 64), mas que é também “a própria faculdade do gênero; […] a força ultra e impessoal do homem” (FEUERBACH, 2012a, p. 64), ainda que dotada apenas, no indivíduo, de um “saber limitado” (cf. FEUERBACH, 2012a, p. 219). A razão se apresenta, pois, como a condição de possibilidade da consciência e, esta, como a condição de possibilidade da ciência, na medida em que esta é caracterizada como a “consciência dos gêneros” (cf. FEUERBACH, 2012a, p. 35). 21
Nessa perspectiva, a razão é concebida como uma espécie de faculdade de “transcendência” no homem, na medida em que ela representa a possibilidade do indivíduo de, elevando-se ao nível da universalidade, superar a imediatidade do “eu” singular e ter por objeto um “tu” que é, concomitantemente, “eu para si mesmo”: daí que “a unidade da consciência de si mesmo existe apenas como a unidade relacionada, realizada do Eu com o Tu” (FEUERBACH, 2012a, p. 91). Mas como “toma o homem consciência de si mesmo através do objeto ” (FEUERBACH, 22 2012a, p. 38), o objeto se revela como o pólo “essencial” da relação sujeito x objeto por apresentar ao indivíduo “o seu Eu verdadeiro, objetivo” (FEUERBACH, 2012a, p. 38). Pela razão, o indivíduo abstrai as limitações da sua individualidade, ainda que
A concepção de razão feuerbachiana contribui para uma interpretação de seu materialismo como,
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conforme Barata-Moura, um “materialismo racional de base sensível” (cf. BARATA-MOURA, 1994, p. 127), o qual possui por pressuposto “um horizonte de referência antropólogico. A questão da realidade é matéria do homem total e também de todo homem, da comunidade intersubjetiva” (BARATA-MOURA, 1994, p. 127).
Em 1843, Feuerbach prosseguiria o debate ao dizer: “o que é o olho sem consciência? Certamente
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nada – ver sem consciência ou não ver é o mesmo. Só a consciência do ver é a efectividade do ver ou o ver efectivo. Mas porque crês que existe algo fora de ti? Porque vês, ouves, sentes alguma coisa. Portanto, este alguma coisa só é uma coisa real, um objecto real, enquanto objecto da
consciência – logo, a consciência é a realidade ou efectividade absoluta, a medida de toda a
existência. Tudo o que é apenas é como existente para a consciência, como consciente. Pois só ser-
permaneça apegado às qualidades inelimináveis de seu gênero (cf. FEUERBACH, 23
2012a, p. 267), mas permanece ciente de que é parte de um conjunto maior. Consequentemente, razão, ser para si e sujeito são sinônimos (cf. FEUERBACH, 24
2012a, p. 68), noções complementares àquelas de autonomia e independência. Sobre o tema, Feuerbach afirma que
durante o ato de pensar [compreendido como um ato fisiológico ] como tal, 25
não dependemos de nenhum outro ser . O ato de pensar é uma atividade 26
autônoma. […] Só a razão é o ser que usufrui todas as coisas sem ser por elas usufruída - é o ser que se usufrui, que se basta - o sujeito absoluto - o ser que não pode mais ser rebaixado para objeto de um outro ser, porque transforma em objeto todas as coisas, em predicados de si mesma, porque abrange em si todas as coisas, porque ela mesma não é uma coisa, porque ela é livre de todas as coisas (FEUERBACH, 2012a, p. 68).
Isso significa que, ao pensar, o homem utiliza uma capacidade interna que lhe permite refletir a respeito de sua essência, mas pensa em si mesmo como indivíduo que cai sob um gênero específico. Em outras obras o tema da relação entre indivíduo e gênero são retomadas, como nas “Preleções”, em que Feuerbach assume: “eu […] identifico o género com o indivíduo, individualizo o universal, mas, Souza sugere que “a identidade entre sujeito (consciência) e objeto […] [é garantida pelo fato de
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que] o objeto nada mais é do que a essência objetivada. O objeto da consciência humana não pode ser mais que a essência humana. Esta identidade [entre sujeito e objeto] implica, para Feuerbach, a máxima perfeição, isto é, autonomia, auto-suficiência e infinitude de cada essência” (SOUZA, 1994, p. 43). E prossegue: “a infinitude consiste […] na impossibilidade de notar os próprios limites, na integridade da essência, na autonomia, na auto-suficiência. A consciência consiste, já por definição, em que a essência seja objeto para si mesma. Dada a total identidade entre essência e consciência, esta não pode perceber a não ser a si mesma, sua essência, seu objeto é sua essência objetivada; a consciência não pode ser mais que autoconsciência. Esta total identidade entre consciência e essência estende-se a todas as faculdades; nenhuma faculdade pode transcender, situar-se acima, sequer dar-se conta, dos limites da essência. Esta identidade aplicada às forças constitutivas da essência humana (razão, coração, vontade) resulta na impossibilidade de que, através delas, se perceba algo que não seja a própria essência ou que se percebam os seus limites, levando a subjetivação do objeto, ou seja, à redução do objeto religioso ao órgão da percepção” (SOUZA, 1994, p. 51). Obviamente, a identificação entre consciência e essência aqui em causa aborda o homem a partir do gênero, não do indivíduo singular – daí ser utilizada a expressão “o homem”, em vez de “um homem”.
É importante dizer que Feuerbach procura evitar, ao longo de “A Essência do Cristianismo”, o
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conceito de “subjetividade”, por perceber uma presença quase subreptícia do idealismo de seu tempo e que, por isso, é-lhe “insuportável” (cf. FEUERBACH, 2012a, p. 106 – nota 42). Por esse motivo, o uso do termo no presente trabalho de pesquisa, quando é realizado, condiz apenas com a intenção de apresentá-lo como o inverso de objetividade.
A questão é retomada nas “Preleções sobre a Essência da Religião”, onde se lê que “[…] não é
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somente a barriga que é um órgão sensorial, mas também a cabeça” (FEUERBACH, 2009, p. 25), o que não necessariamente aponta para a tese de um fisicalismo absoluto ou de um simples reducionismo fisicalista, embora Feuerbach faça referência à necessidade de conectar a filosofia com a fisiologia em textos futuros, concedendo atenção especial à ideia do indivíduo como organismo (cf. FEUERBACH, 1993, p. 100ss).
Nos “Princípios da Filosofia do futuro” [Grundsätze der Philosophie der Zukunft (1843)], Feuerbach
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argumenta: “eu preciso de ar para respirar, de água para beber, de luz para ver, de substâncias vegetais e animais para comer, mas de nada, pelo menos imediatamente, para pensar” (FEUERBACH, 2005d, p. 104),
nessa mesma medida, generalizo o indivíduo, ou seja, alargo o conceito de indivíduo, de modo que o indivíduo é para mim o ser verdadeiro, absoluto” (FEUERBACH apud SERRÃO, 1999, p. 244), o que parece determinar que
individualizar o universal significa entender o género humano não como ideia ou entidade essencial, mas como a realidade existencial que existe apenas sensivelmente, como multiplicidade concreta desdobrada na imanência dos seres individuais. Universalizar o indivíduo significa conferir a cada um, sem excepção e, nessa mesma medida, a todos os humanos, o estatuto de membro do género, retirando-o da obscuridade do anonimato e da indiferença para o reconhecer como um universal exemplificado em cada um (SERRÃO, 1999, p. 244).
Por esse motivo, quando tematiza a questão em “A Essência do Cristianismo”, Feuerbach informa que quando pensa em si o indivíduo se enxerga como organismo, como animal biológico. Se é assim, a essência do homem está articulada com o corpo do homem, graças ao qual pode ser , o que justifica a tese 27 segundo a qual “individualidade e corporalidade são inseparáveis” (FEUERBACH, 2012a, p. 65): enfim, “o eu é corporizado […] o eu não é de modo algum ‘aberto ao mundo’ ‘através de si mesmo’ como tal, mas através de si mesmo como ser corporal, portanto, através do corpo. […] o corpo nada é senão o eu poroso” (FEUERBACH, 2005b, p. 82-83).
Aqui reside, a juízo de Feuerbach, a chave de leitura que permite diferenciar espiritualismo e
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materialismo: como o homem só é graças a este fundamento natural, não é possível defender a existência humana desconectada deste elemento primitivo, a natureza, que é como que sua condição de possibilidade. Daí Feuerbach, em “Princípios da filosofia do futuro”, expressar a necessidade de se operar uma inversão em termos gnoseológicos e depois, em “Espiritualismo e materialismo” [Über
Spiritualismus und Materialismus, besonders in Beziehung auf die Willensfreiheit (1866)], em termos
psicológicos: naquele, uma desencarnação do pensamento já não é capaz de distinguir imaginação e intuição, e transforma o concreto em abstração, em predicado do pensamento, como Hegel – conforme sugerem Sampaio e Frederico, para quem “Feuerbach […] descarta a Ideia hegeliana que deveria estar na origem da natureza – ‘a imaculada virgem lógica nunca poderia gerá-la’ – e a ‘afirmação’ geral abstrata que pretendera preceder o ser determinado. Por outro lado, ele encara o Espírito (o terceiro momento na tríade hierárquica da [obra hegeliana] Enciclopédia [das ciências
filosóficas]) não como um absoluto, mas, ao contrário, como um dependente da natureza” (SAMPAIO;
FREDERICO, 2009, p. 51); em “Espiritualismo e materialismo”, a relação alma-corpo ao ignorar o controle científico da medicina, rejeita a conexão existente entre o pensamento e seu órgão corpóreo e se assemelha a uma patologia, uma vez que “[...] não existe espírito separado e independente do corpo” (FEUERBACH, 1993, p. 121 – tradução nossa).