“[...] a razão fundamental de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para prender o máximo de sentidos num mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: que os lugares de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante ressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações.” Pierre Nora
É digno de destaque durante esses anos de pesquisa com ex-combatentes potiguares, seja na graduação, seja no mestrado, o apego desses homens a pequenos objetos, símbolos, canções ou lugares carregados de lembranças e significados, ou seja, a seus lugares de memória. Todos os ex-combatentes que entrevistamos e conhecemos têm em suas casas, cômodos, salas de estar ou mesmo toda a residência repleta de objetos e símbolos que remetem à sua experiência na guerra. Hoje octogenários, dificilmente saem de casa ou encontram alguém que dê ouvidos a suas histórias ou tenha alguma curiosidade a seu respeito. Os encontros com colegas que compartilharam da mesma experiência tornaram-se muito raros, até porque muitos já faleceram ou estão incapacitados socialmente. Só restaram os seus singelos, mas significativos lugares de memória. Com o passar dos anos, de uma forma gradativa e lenta, seu espaço social foi encolhendo, restringindo-se cada vez mais ao núcleo familiar ou a poucos amigos mais próximos, de modo que seu mundo, sua identidade e suas lembranças acabaram atrelados aos seus lares, seu espaço doméstico depositório de resquícios materiais de sua vida, principalmente de sua experiência na Guerra.
Com esse encolhimento de seu campo social foram poucos os ouvidos que restaram e que se mostraram dispostos a ouvir suas histórias, que tanto sentem necessidade de contar. Esse fenômeno não se restringe apenas aos ex-combatentes, mas aos idosos brasileiros de uma forma geral, que costumam viver as margens de uma sociedade excludente que valoriza o novo, o moderno, em detrimento do velho, de seus próprios idosos, como se esses não tivessem nada a ensinar para as gerações mais novas. Esse quadro nos mostra o quanto o diálogo com pesquisadores e curiosos torna-
se vital para sua própria saúde mental, um exercício para cérebros octogenários que necessitam trabalhar para não perderem a lucidez, bem como um exercício de comunicação; capacidade tão desgastada na velhice, mas que precisa ser estimulada tendo em vista a riqueza de informações e dados que esse tipo de fonte, pessoas idosas, pode nos fornecer, ou seja, essa interação entre idoso e pesquisador é rica para ambas as partes. Sobre a importância de explorar depoimentos de idosos como fonte histórica, o professor Gisafran Jucá tece o seguinte comentário:
“A arte de narrar ganha um significado especial, quando confiada a pessoas de idade avançada. Além de uma longa experiência de vida, o velho possui uma liberdade maior em relatar o que lhe for indagado. O que o diferencia dos jovens, ou mesmo dos adultos envolvidos na dinâmica da sociedade atual prende-se, essencialmente, a liberdade por ele desfrutada de não medir palavras ou abordagens com medo de ferir ou denunciar os envolvidos no ramo de trabalho onde se situam.” 270.
Essa ânsia de comunicação, de não deixar morrer com eles próprios sua história, de procurar um deposito para suas lembranças, foi sempre constatada no contato com essa que se constitui nossa principal fonte de pesquisa. Quase sempre ao final dos depoimentos esses senhores faziam questão de nos mostrar com muito entusiasmo e emoção seus acervos. Explicar as fotos, os objetos, falar de colegas da época, comprovar o que nos disseram através de algo concreto que sempre trazia novas lembranças ao primeiro toque, novos fatos que ansiavam por escuta. Muitas vezes o tempo gasto com a mostra e explicação desses objetos era maior que o despendido nos depoimentos, pois seu manuseio tornava-se uma espécie de materialização de suas memórias, antes vagas, agora claras. Sobre esse fenômeno Pierre Nora explica que “[...] à medida que a memória tradicional desaparece, sentimos a necessidade de acumular vestígios para se tornarem provas.” 271 Por esse motivo insistíamos em coletar seus depoimentos nesses lugares, próximos desse material tão fecundo para suas memórias, ou seja, suas próprias residências, ou, em alguns casos, nas associações de ex- combatentes, onde encontramos variado acervo documental espalhado pelas estantes e paredes, um verdadeiro estímulo à rememoração, espaços que podem ser considerados,
270 JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. A oralidade dos velhos na polifonia urbana. Fortaleza – Imprensa
Universitária – 2003, p. 67.
segundo Nora, como “lugares de refúgio”: coração vivo da memória. 272 Sobre a disposição dos objetos “íntimos” num ambiente, Ecléa Bosi nos diz que “Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento a nossa posição no mundo, a nossa identidade. Mais que da ordem e da beleza, falam a nossa alma em sua doce língua natal.” 273 No caso dos ex-combatentes, esses objetos são classificados por essa autora como “objetos biográficos”, que permanecem sempre com o usuário e são insubstituíveis. 274 Esses objetos espalhados pela casa contam um pouco de sua história, de sua experiência de vida, pois “o espaço de uma casa há de contar-nos algo do que foram essas pessoas.” 275.
Interessante exemplo disso foi a visita que fizemos ao ex-combatente Pedro Silvino para coleta de depoimento. Ao final dos trabalhos, o mesmo fez questão de nos mostrar a casa e os quadros pendurados nas paredes, os quais retratavam um pouco de sua trajetória no Exército Brasileiro e mesmo outros aspectos de sua vida pós-guerra. Demonstrando emoção Silvino nos mostrou fotos da família, com destaque para a esposa e filho falecidos; seus pais, retratados em trajes e poses bastante elegantes como era costume do fim do século XIX; seu sítio, espaço pouco freqüentado atualmente, mas que aparenta grande valor sentimental para o mesmo; e, em lugar de destaque, na sala, uma bela foto onde víamos um jovem (com traços de menino) uniformizado em bela postura, cujo rodapé trazia a frase: “Lembrança dos meus tempos militares do período da Segunda Guerra Mundial”. Obviamente essa foto e as demais da Guerra receberam especial atenção de Silvino que as explicavam com olhos fitos no horizonte e gestos tão bruscos que pareciam tocar algo ou alguém, como se aquelas imagens colocassem em sua frente cenas e personagens daquela Guerra que ficou gravada de forma tão intensa em sua memória mais de 60 anos depois. O curioso nesses momentos de intensa rememoração é que o corpo daquele protagonista do evento se expressava mais intensamente e de forma mais convincente que suas próprias palavras, através de gestos e principalmente dos olhos. Seu corpo falava, de modo que sua experiência na Guerra era retratada de forma clara e convincente. Esse é um dos melhores momentos para quem trabalha com história oral, “uma história rica, viva e comovente, também
272 Ibdi, p. 26.
273 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças dos velhos. 3ª ed. – São Paulo, Companhia das
Letras, 1994, p. 442.
274 Ibdi, p. 441. 275 Ibdi, p. 443.
verdadeira, tendo em vista o contato direto do historiador com o documento vivo (o sujeito).” 276.
Outro depoente que nos impressionou pela quantidade e qualidade de fotos e objetos da época foi Norberto Gomes. Tivemos a oportunidade de manusear seu acervo ao seu lado e constatarmos como as lembranças ficavam mais claras e intensas no contato com esses documentos. As fotos faziam com que suas palavras se tornassem mais seguras e precisas, bem como despertassem novas lembranças, fatos interessantes que agregavam mais valor e clareza ao seu depoimento. Eram tratadas por ele como provas daquela história que acabara de narrar, bem como um veículo enriquecedor de suas palavras. Nelas eram retratados antigos colegas, cenas de treinamentos, veículos de guerra e, principalmente, velhos prédios e lugares de destacada importância do quartel em Caçapava-SP, cenas que preservaram esse espaço em sua memória.
Os dois depoentes acima não são considerados fontes de pesquisa por si só, não são analisados isoladamente, Seus depoimentos não devem ser coletados em qualquer lugar, pois estão inseridos num mesmo contexto, são sujeitos pertencentes a um espaço físico e social singular, que os impregna de memórias e identidade, conjunto homem-espaço que proporciona um enriquecimento de suas lembranças e sua valorização como fonte histórica, como protagonista, como documento vivo da Segunda Guerra Mundial. Seus depoimentos não revelam apenas a experiência da Guerra, mas a experiência de vida de sujeitos inseridos num singular grupo social, visões de mundo de indivíduos que representam uma classe importante que passa por um rápido processo de extinção, que participaram de um episódio dramático e de extrema importância que atingiu milhões de pessoas pelo mundo, cujos protagonistas são cada vez mais raros. JUCÁ (2003, p. 65) reforça a necessidade do estudo de memórias coletivas como essa através de depoimentos orais, mostrando que:
“Todavia é bom pressupor o valor intrínseco do uso da História Oral, pois o conteúdo narrado envolve, além de simples informações, a riqueza do mundo interior do depoente, expresso por intermédio de uma memória restauradora, onde o conteúdo exposto não reflete apenas um senso individual de abordagem, mas que descortina um espaço social mais abrangente, constituído pela memória coletiva.”
276 JUCÁ, op. cit. p. 51.
O cerne dessa gama de ícones à qual estão atreladas suas principais lembranças está, como vemos, em seus lares. Esse espaço particular guarda a maioria dos objetos que dizem respeito a eles próprios, de forma individual; mas essa materialização das lembranças também se estende aos espaços externos a sua casa, locais públicos ou pertencentes a outras pessoas ou instituições. Temos como exemplos disso as associações de ex-combatentes, verdadeiras fontes de lembranças, onde veteranos de guerra se reúnem diária ou semanalmente para falar sobre as experiências vividas e com isso preservar essa memória coletiva. Essas lembranças são mantidas e despertadas através de uma gama quase infindável de objetos e símbolos, desde fotos e quadros, até músicas e os próprios colegas veteranos. Infelizmente esses encontros em associações dizem respeito a um número limitado de ex-combatentes que têm oportunidade de freqüentá-las na capital Natal. Em Parelhas, a maioria não tem mais saúde ou disposição para longas viagens, sendo sua rememoração praticada nos próprios lares ou nas, cada vez mais raras, conversas com os “companheiros de aventura”, em visitas domiciliares ou em esporádicos encontros nas ruas.
Sempre usando Parelhas como amostra, percebemos um importante monumento que pode ser considerado um dispositivo de memória por remeter ao período da Guerra: a Praça do Ex-combatente. Situada na entrada norte da cidade, ao lado da igreja matriz, o monumento foi erguido em 1994 em homenagem aos 99 parelhenses que serviram às Forças Armadas Brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial. Em lugar de destaque encontra-se o busto de bronze de um capitão da Marinha, Lauro Virgílio do Nascimento, o único parelhense morto em operações bélicas na Guerra, vítima da misteriosa explosão do cruzador Bahia em maio de 1945, acidente que até hoje gera controvérsias sobre sua real causa. Em 2001 a Praça foi palco de uma homenagem aos ex-combatentes de Parelhas que contou com a participação de uma delegação da Associação dos Ex-combatentes do Brasil – AECB. O ato, acima de tudo, foi importante para o reforço de uma memória coletiva desgastada pelo tempo e condições físicas de seus difusores, perante uma sociedade de leigos cuja maioria desconhece até mesmo sua história recente. Outra singela homenagem aos ex- combatentes ocorreu muito recentemente, no dia 19 de fevereiro de 2009 no mesmo lugar.
Figura 6: Praça do Ex-Combatente em Parelhas-RN, ao lado da Igreja Matriz. À esquerda, obelisco com o busto do capitão da Marinha Lauro Virgílio do Nascimento.
Fonte: Arquivo pessoal do autor.
Outro espaço que pode ser considerado um dispositivo de memória de Parelhas, embora somente para poucos esclarecidos, é uma das mais antigas e conhecidas ruas da cidade: a Rua Lauro Virgílio. Esse é o único logradouro da cidade que conhecemos cujo nome homenageia um ex-combatente, embora boa parte da população não saiba o que significa essa palavra, muito menos quem foi esse cidadão. Aliás, esse “fenômeno do desconhecimento” parece fazer parte da cultura brasileira, tendo em vista que a grande maioria dos personagens que dão nome as ruas em qualquer cidade do país é desconhecida pela população, até mesmo muitos que se destacaram na história do Brasil. Um dispositivo de memória só pode ser classificado como tal se a imaginação o investe de uma aura simbólica, portanto, a Rua Lauro Virgílio, por exemplo, acaba despertando lembranças e trazendo a mente o significado daquele nome, embora para poucos que têm noção do que representa aquele personagem para a história da cidade, pois ler ou ouvir aquele nome instantaneamente nos remete ao personagem e a sua história de vida. Certamente essa rua tem um valor simbólico muito maior para um ex-combatente conterrâneo de Virgílio que por lá passa, do que para um simples cidadão que apenas sabe quem foi àquele personagem.
Não só seus lares e os objetos que os cercam constituem-se autênticos lugares de memória, mas também determinados espaços públicos remetem a lúcidas lembranças do passado, seja pelo nome do lugar, seja pelo que ele representa como símbolo de uma época ou cenário de uma experiência de vida, pois, como nos diz NORA (1993, p. 9), “a memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na
imagem, no objeto.” Ao longo deste trabalho os depoentes descrevem intensamente os espaços urbanos e rurais de sua época, pois são neles que se apóia sua memória, no meio espacial que os cerca e que, por enquanto, pouco mudou nessa cidade interiorana. Como nos fala BOSI (1994, p. 443), “As lembranças que ouvimos de pessoas idosas têm acento nas pedras da cidade presentes em nossos afetos, de uma maneira bem mais entranhada do que podemos imaginar.” São lugares como a praça, o mercado público, a igreja, o grupo escolar e, principalmente, os lares maternos, nos sítios, que permeiam as lembranças desse grupo estudado, que servem de referencia para suas informações e que, até hoje, pouco mudados, fazem parte de sua vida, sua história e identidade. Deixando seus lares rumo aos mais distantes lugares do país deixaram também suas raízes, o que para um menino da década de 1940 certamente era um desafio muito mais difícil do que nos parece hoje, tamanho o atrelamento de suas vidas ao espaço natal que hoje serve de depositório de suas memórias.