5. EMPIRI
5.1 D ESIGN AV SPØRREUNDERSØKELSE
Fui procurado por Gustavo D. como sendo alguém que, indicado por um dirigente empresarial, poderia ajuda-lo no que ele qualificava de “pequenos problemas” que ocorriam em seu desenvolvimento profissional. Em sua concepção esse fato estaria ligado a algo de sua característica pessoal que eventualmente poderia afetar sua carreira. Seu discurso era no sentido de que tinha controle total de si, na realidade nada lhe escapava e estava seguro, exceto naqueles “pequenos problemas”, frisando sempre que detinha o controle da situação, e que estava alinhado e aliado ao discurso Corporativo, o que, por hipótese, chamaremos de Discurso do Mestre.
A hipótese formulada, e é efetivamente uma hipótese, coloca o discurso corporativo ( discurso corporativo empresarial) como sendo Discurso do Mestre, já que se trata por excelência de um discurso normativo. Estabelece relações de capital e trabalho, instituindo uma ordem das coisas objetivando maximizar resultados ( econômico-financeiros). Para as corporações os resultados são como um sintoma que é um signo que contém informações sobre a evolução da própria corporação. A avaliação de resultados pela corporação é, pelo seu discurso, como que um “ato de mestria”. Creio que ainda parece permanecer nesse discurso um liame social ao contrário do discurso do capitalista. Ou talvez essa hipótese se trate de uma derivação do Discurso do Mestre.
A evolução do Discurso do Mestre se caracteriza pela subtração do saber do escravo. O proletário se coloca na mesma posição do escravo e por proletário
contemporaneamente pode ser entendido todo um espectro que passa pelo operário - numa posição de júnior no sistema – à gerência – numa posição de sênior – senhor, ou seja, pensando por hipótese no proletariado como camada social de diferentes níveis, mas que tem como característica básica uma posição permanente de assalariado, produtor de mais –valia. O sênior – senhor Gustavo D., o executivo, girará, como se verá, pelos diversos discursos, do Mestre, da Histérica e do Universitário.
Gustavo se exprimia de forma fluente e concatenada. Não revelava dificuldades em falar de épocas mais remotas de sua vida em detalhes. Durante as primeiras sessões procurava mostrar segurança em suas colocações, racionalizando-as seguidamente, e com uma preocupação de mencionar dados que revelavam seu desempenho profissional, incluindo resultados de avaliações que indicavam seu potencial de ascensão na corporação em que trabalhava. Gustavo estava com 32 anos e trabalhava em uma empresa do setor de alta tecnologia. A empresa o incentivava a novos saltos profissionais em direção a uma carreira que rapidamente se encaminhava para funções executivas e de maior abrangência na seara da gestão. Os “pequenos problemas” a que se referira apareciam em um “modelo” por ele desenhado para si em que havia pontos a preservar e pontos a melhorar. Nesses últimos surgiam os tais problemas, que eram de acordo com seu discurso, a inflexibilidade, a impaciência e o “medo de errar/aceitação”.
A fala fluente do paciente propiciou o desdobramento de significantes importantes. A relativa freqüência em que sonhos foram trazidos às sessões foi
um elemento de facilitação de novas articulações de significantes e aprofundamento na relação transferencial.
Gustavo revelou uma onipotência de pensamentos, resquícios prováveis da onipotência infantil. Uma onipotência que ele atribuia a seus pensamentos, ou seja, a predominância dos processos psíquicos sobre fatos da vida real. Há vários exemplos encontrados no discurso do analisante. Em um deles foi revelado que durante mais de 7 anos ele não compareceu ao dentista porque, dizia ele, estava mentalmente convencido de que nada afetaria seus dentes e, portanto idas ao dentista seriam desnecessárias (houve um fator externo, no seu entender, que o fez consultar um profissional após decorrido o período de 7 anos). Um outro exemplo diz respeito à não ida do analisante a jogos de futebol quando ele, palavras dele, “sonhava ou intuía que seu time perderia” o que, em sua visão, sempre se confirmava. Questionado pontualmente, revelou não se lembrar de algum resultado ter sido diferente da “premonição”.
Por outro lado se auto recriminava, por exemplo, em situações em que se sentia impotente em dar uma solução (situações novas em que ele se encontrava sozinho e sem todas as informações para propor uma saída) e parecia haver algo de relevante na crença dele nessa questão de auto recriminação.
Seus objetivos primordiais visavam uma acumulação financeira sistemática, aquisição de bens (veículo, por exemplo) diferenciados em termos de status, e objetos outros do mesmo teor.
Como pano de fundo de sua relação com a corporação havia a clássica questão: “O que é melhor para a empresa?” A resposta por ele dada sempre fora: “o que for melhor para a empresa, farei”.
Os desdobramentos acima referidos levaram a repetição da pergunta acima, adequada a outras circunstancias e eventos, revelando a intensidade com que a demanda do Outro reduzia seu desejo a essa demanda. Creio que esse mecanismo revelava uma abdicação do próprio desejo, na busca de não ser remetido ao seu desejo por atender às demandas do Outro. “A organização do trabalho aparece como veículo da vontade de um Outro, a tal ponto que, no fim, o trabalhador se sente habitado pelo estranho” (Dejours, C. A loucura do trabalho. Estudo da psicopatologia do trabalho. P. 137)
Quando Gustavo tinha 21 anos se associou a uma seita liderada por um certo Sandro que pregava a supremacia da razão sobre qualquer manifestação de emoção ( seita originária do movimento Universo Racional surgido na década de 70 em Minas Gerais). Gustavo abandonou nessa fase todas as conexões afetivas que tinha com as poucas pessoas de suas relações e passou a se dedicar inteiramente, por dois anos, às diretrizes emanadas pelo líder da seita, obedecendo cegamente aos imperativos deste, tornando-se um fiel seguidor daquele que seria em sua vida como uma espécie de “capitão cruel” citado por Freud em “O homem dos ratos”, mudando a rota de sua existência a partir de então. Parecia ser que lhe era preciso saber de um mestre espiritual, uma ciência, de uma ideologia. Havia uma busca de um bem comum, como uma consolação.
Orientado pelo mestre espiritual ele conduzia sessões de “desenvolvimento de espiritualidade” para grupos de recém chegados à seita. O bem poderia ser a de um grupo de seguidores, que já o viam como um preposto do líder espiritual, como poderia ser, como foi mais adiante, o bem da comunidade pertencente a uma Corporação. Há uma oscilação que vai da sensação de desaparecimento à sobre-excitação de uma missão cumprida, vacilando o pensamento entre “estou vivo ou estou morto”.
Apesar de Gustavo ter abandonado a seita algum tempo depois, permaneceu em sua trajetória a redução do seu desejo à demanda do Outro, que apenas se transfigurara.
A figura do pai, presente em sua vida até os 4 anos de idade, revelara importantes impactos no caso Gustavo, nos aspectos identificatórios e na saída do Édipo. Há outros aspectos nessa relação bem como da relação com a mãe e irmã mais velha que foram muito significativos no decorrer do processo analítico.
No que diz respeito a construção da fantasia, se revelou, de inicio, nas queixas, referenciadas aos sintomas de “mal-estar” devidos aos ditos pequenos problemas.
Em mais de uma cena ocorreu o aparecimento da dimensão da fantasia. A fantasia obstrui e se acomoda no espaço que separa o sujeito de si próprio, representando as condições de sua plenitude. Mostra um gozo que não se realiza e que tem a via imaginária como única para se apresentar. As formas
das fantasias se apresentarem são variadas, os cenários diversos, apesar de haver um objeto definido, trocando-se as cenas cada vez que o impossível é encontrado.
O exemplo mais explicitado pelo analisante foi o relacionado a viagens a trabalho a ele solicitadas pela Empresa visando solucionar problemas com clientes em outras cidades do país. Ele procurava sempre uma solução na qual alguém o acompanhasse – um colega de trabalho – de tal forma que ele nunca fosse só porque se assim fosse, dizia ele, “algo lhe aconteceria”, ligado a um fracasso. No extremo, certa vez, deixou de ir a Belo Horizonte por não ter conseguido alguém que o acompanhasse, causando mal estar no seu ambiente de trabalho.
Após várias sessões ele atribuiu a esse acompanhante - um colega, homem – à figura do pai e desfilou eventos de infância de fracassos pela ausência do pai em acompanhá-lo (algumas vezes o pai tinha até estabelecido um compromisso com ele), deixando-o privado de ir a estádios em que ele não poderia ir sozinho bem como algo que tanto desejava, ir a torneios de tênis como participante, além de outros eventos.
Os aspectos do desejo, demanda e fantasia foram os elementos que levaram ao diagnóstico de neurose obsessiva no caso Gustavo D.
Notável foi observar a tentativa que a corporação em que trabalhava fez em retê-lo de todas as formas, identificando nele o que pode se nominar de
corporativas e estará sempre disposto a atender as reivindicações que emanam dos centros de decisão, estejam eles em São Paulo, Nova York ou Tóquio.
O analisante em seu discurso (um giro para o Universitário?) colocou que, de acordo com sua lógica, não eram compreensíveis certas reações suas (não controláveis, automáticas), reações essas que não eram fruto de “algo que ele tivesse consciência” – colocação literal. As longas horas extras no trabalho o extenuavam e o afetavam física e mentalmente, revelara e, no entanto ele dava continuidade a aqueles processos mesmo se sentindo exaurido. Algo, passou ele a dizer, “da ordem do não consciente se processava sem o seu controle”. Os aspectos acima, disse o analisante o levaram a buscar mudar a posição na ação dele e partir para “fazer as coisas de uma outra forma”. E fez, demitindo- se da empresa que trabalhava e partindo para uma outra alternativa profissional, em que ele seria co-participe do modelo de trabalho escolhido e não mais um empregado/subalterno.
Nessa nova posição, disse ele o saber que acumulara seria utilizado nesse novo trabalho. Nessa posição, o saber, S2, passa a ocupar a posição de
dominante, uma característica do Discurso do Universitário.
A evolução do processo de Gustavo D o levou a avaliar alternativas de atuação em sua vida profissional com reposicionamentos no discurso.
A fase atual da análise encontra Gustavo associado a três outras pessoas, uma delas egressa da empresa na qual ele trabalhava e dois outros investidores,
que passaram em conjunto a desenvolver um projeto em outro ramo de negócio (negação – do – ócio) com características bem diversas das experiências anteriores. A corporação em que Gustavo trabalhou tentou das mais diversas formas evitar sua saída e a perda do que parecia ser para ela uma jóia rara. As ofertas para evitar sua saída estavam fora dos padrões encontrados nas práticas usuais de mercado utilizadas no capitalismo contemporâneo, revelando a importância dele como “máquina de produção”. Todas as tentativas foram, entretanto infrutíferas e Gustavo se decidiu pelo novo empreendimento. Poder-se-ia considerar esse reposicionamento um progresso efetivo no processo analítico de Gustavo D? Talvez, mas guardando todas as ressalvas e suspeições que devemos ter em considerar tal mérito.
Na questão da sexualidade permanecem obscuros vários pontos concernentes a variações nos discursos apresentados. Gustavo D tem se relacionado sexualmente de forma superficial e com baixa freqüência. Denota em seu discurso uma impossibilidade de se fixar em alguém sem que ele inviabilize seus projetos de acumulação. O fracasso da relação parental foi diversas vezes pontuado em seu discurso como ingrediente adicional para essa impossibilidade. Como se depreende do exposto o tema ainda carece de aprofundamento.
Os sucessos terapêuticos parecem assim ser mais ou menos relativos, permanecendo coisas indefinidas. A perspectiva do nó se desfazer, como um desenlace, fica no horizonte, por vezes longínquo.
Quanto à posição do analista, como disse Pommier, “ocorre o mesmo com cada analista, não apenas logo que inicia, mas ao longo de toda sua carreira. Seu saber se atrasa. O tempo passa antes que reconheça o que fez, e o que não sabe não progride senão no só-depois de seu ato” (Pommier, 1990, O desenlace de uma análise, p.9)
CAPÍTULO VI: CONCLUSÃO
Talvez seja Gustavo D um exemplo a ser observado por outros que estejam em situação similar a que ele resolveu enfrentar, buscando um repensar e tentar ir mais além do “mal-estar” encontrado contemporaneamente nas relações de trabalho.
Quem percorreu por longos anos o meio corporativo empresarial, e me incluo dentre esses, percebeu que é uma característica das sociedades capitalistas, aqui e em outros países, desenvolvidos ou não a resiliência desse “mal-estar”, encontrado de forma notável. Muda-se de empresa, de modelo de gestão, passa-se da baixa para a alta tecnologia, de bens para serviços, e, por alguns momentos, parecem cessar as pressões sentidas anteriormente e, como algo de características elásticas, o “mal-estar” volta a se instalar.
Penso que nem é preciso grande experiência em atividades ligadas às organizações para que essa percepção de “mal-estar” ocorra. Creio mesmo que essa percepção está muito mais disseminada nas empresas do que se possa imaginar e se revela através de um refúgio que são os sintomas que permeiam entre os pares das estruturas organizacionais, obstaculizando o desejo, mascarado por uma sutura sintomática.
Encarar o próprio discurso como fez o analisante Gustavo, se reposicionar como que girando em outros discursos, da Histérica no processo analítico e no Discurso Universitário, em giros sucessivos. E para chegar a que lugar? A um lugar onde persiste uma sensação de inacabado, como deve ser.
A relação de grande proximidade da estrutura da neurose obsessiva e do Discurso do Universitário, enfatizada no texto dessa monografia ao se citar Coutinho Jorge, é um ponto que entendo merece ser destacado. Talvez o discurso encontrado nas corporações empresariais, por aqueles que falam em nome dessas corporações, se aproxime mais do Discurso do Universitário do que o do Mestre, como hipóteses em ambos os casos. Durante a elaboração do texto procurei explicitar como Lacan conceituou cada um desses discursos.
Com a proximidade da estrutura obsessiva do Discurso do Universitário, de maneira impressionante, destaca Jorge, “devido ao apagamento do sujeito barrado em prol do saber e do falo” (Coutinho Jorge, 2002 p. 32), talvez uma se abra uma porta na questão colocada como título dessa monografia, um indicador de que valeria a pena aprofundar a questão e avançar, quem sabe, na análise de outros casos semelhantes ou até através de pesquisa específica.
Vale talvez recordar uma afirmação de Lacan que poderia servir de base a um avanço na direção do que acabei de acima citar: “É no querer sair do Discurso Universitário que se volta implacavelmente a entrar nele” (Lacan (1969 – 1970) Verdade irmã de gozo, p. 67). Intrigante e, claro, instigante.