8. APPENDIX
8.1 D EFINISJONER
O Museu Nacional mudou para a Quinta da Boa Vista em 1892, quando seus registros marcam cerca de 40 mil visitantes por ano, estando o museu naquela época aberto às sextas, sábados e domingos. O livro de visitantes foi inaugurado em 1893, passando a registrar o número de visitantes por dia e por mês. Mais adiante, haveria queda nesses números, com recuperação nos primeiros anos do século XX, anterior ainda ao decreto que estabeleceria a abertura do museu seis dias por semana, em 1911 (KÖPTCKE e PEREIRA, 2010).
Data do final do século XIX também a criação de dois importantes museus: O Museu Paulista, inaugurado oficialmente em 1894, mas cuja história oficial remonta à construção de um monumento comemorativo da independência e que só conseguiu ser realizado quando a economia paulista, já plantada sobre o café, assim o permitiu quase findo o século XIX; e o Museu Paraense Emílio Goeldi, que se originou da antiga Associação Filomática do Pará, fundada em 1866 a partir da iniciativa de intelectuais da região. Essa associação foi transformada em museu, mas passou à órbita administrativa da província em 1871, enfrentando terríveis dificuldades financeiras nos anos que se seguiram. O ano de 1891
marcou a reabertura do museu, impulsionado pela economia da borracha que ia muito bem (SCHAWRCZ, 1989).
Ambos eram voltados às ciências naturais, destacando-se zoologia, botânica e geologia, entre acervo e artigos produzidos pelas instituições de acordo com texto produzido por Schawrcz. Sobre esse início dos museus no Brasil, o Sr. Alcindo Sodré, organizador do museu de Petrópolis na década de 1930, afirmou, de forma bastante romântica, mas interessante:
No Brasil, os primeiros museus foram de natureza científica. A natureza do país, pela sua exuberância, feria profundamente a retina dos estudiosos e dos naturalistas estrangeiros que largamente nos visitaram no decorrer do século passado. Desse modo, foram de ciências naturais, logo na sua fundação, os museus Paulista, Nacional e Goeldi. Por essa época, a nossa bagagem histórica não justificaria talvez os museus que surgiriam em nossos dias, e de forma promissora.18
Quando menciona “museus que surgiriam em nossos dias”, o autor se refere aos museus históricos. É interessante pensar que houve época no Brasil em que as áreas do conhecimento presentes nos museus eram principalmente as que estão relacionadas às ciências naturais.
Elias (1992, p. 141) destaca o fato de a criação desses primeiros grandes museus ser concomitante à vinda de cientistas estrangeiros ao país, lembrando que isso não se deu por acaso, já que o Brasil há tempos era objeto de estudo e coleções em instituições estrangeiras. Essa análise reforça a declaração do Sr. Alcindo Sodré acima, e às observações de Schwarcz (1989) sobre as tipologias e estruturação das coleções como um acervo variado, predominantemente ligado às ciências naturais. Para Elias (1992) ainda, ao contrário do que afirma Schwarcz (1989), “os projetos dos museus são muito parecidos: nascem da necessidade de uma parcela da classe dominante afirmar-se enquanto tal, ostentando sua riqueza e saber.” (p. 142)
Se fizermos um resumo do acesso à arte e aos museus de uma forma geral, até este momento da história do país observaremos que até o início do século XIX no Brasil não havia instituições museológicas, e o acesso a arte se dava por meio dos ritos e espaços religiosos, sendo o estilo nacional o barroco, já com características próprias em relação ao original português. A instalação da Corte Portuguesa gerou novas demandas culturais, portanto foi a partir dela que ocorreu a formalização do ensino da arte e a primeira mostra artística no Rio de Janeiro, além da criação do Museu Real e da Pinacoteca da Academia Imperial de Belas Artes. Ainda durante o século XIX, que assistiu ao Brasil passar de colônia a república, surgiram os grandes museus dos estados, especialmente o Paulista e o
18 Da conferência realizada em Petrópolis por iniciativa do Instituto de Estudos Brasileiros em 25/03/1939 (VENÂNCIO FILHO, 1939, p. 69)
Paraense, que viriam a formar, junto ao antigo Museu Real, o início da museologia brasileira, voltada naquela época principalmente às ciências naturais.19
No que diz respeito ao acesso público aos museus e seus registros, é possível observar, já nos primeiros anos dos museus Paulista e Goeldi, a preocupação em registrar o número de visitantes. Köptcke e Pereira, em seu texto Museus e seus arquivos: em busca de fontes para estudar os públicos.(2010) nos oferecem um panorama interessante sobre a visitação dos três grandes museus brasileiros entre os anos de 1894 e 1907.
Notam-se nesses registros que, embora o aumento de visitação não tenha constituído uma linha regular ascendente (todos os museus passaram por períodos de queda em sua visitação), ele ocorreu nas três instituições, sendo os anos entre 1903 e 1906 os de maior crescimento. Nesse período, o Museu Nacional foi o que teve maior oscilação, variando entre 12 e 36 mil visitantes ao ano. Já o Museu Paraense Emílio Goeldi foi o que atingiu maior público, ultrapassando os 100 mil visitantes no ano de 1906.
No âmbito dos museus, podemos destacar ainda, em São Paulo, a criação da Pinacoteca do Estado, ligada ao Liceu de Artes e Ofícios e que começou a funcionar a partir de 1905, com um acervo de 26 peças, vindas do Museu Paulista, e mais algumas adquiridas para a inauguração.20
No ano de 1922, enquanto acontecia em São Paulo o Movimento Modernista, no Rio era criado o Museu Histórico Nacional. Trigueiros (1955) destaca, sobre a criação desse museu, a proposta de curso para futuros profissionais de museu que este ofereceria, mas que só viria a funcionar após a década de 1930.
No campo da educação, nos primeiros anos do século XX, o Estado de São Paulo destacou-se por investir no ensino primário e na Escola Normal. A presença estrangeira trouxe a cientifização, a psicologia e os institutos antropométricos. A natureza da criança começou a ser estudada, assim como seu desenvolvimento. Foi a primeira vez que se estudou o grafismo infantil no país, e o desenho da criança começou a ser visto a partir de pressupostos científicos e pedagógicos (BARBOSA, 2006 p. 97-115). Esses avanços pedagógicos posteriormente contribuiriam com o campo da arte, dos museus e da aproximação entre público e bem cultural.
19 Além do Museu Paulista e do Museu Paraense Emílio Goeldi, mais documentados, Suano (1986, p. 33-34) cita a criação de outros importantes museus no século XIX: Museu do Exército (1864), Museu da Marinha (1868), Museu Paranaense (1876), Museu do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (1894).
20 PINACOTECA DO ESTADO. Disponível em:
Figura 6
1.4 Anos 1920 a 1960: modernismo, expansão e desenvolvimento dos museus e a