Para ajudar-nos na compreensão sobre a individualização do sofrimento no trabalho e sua multiplicidade de possibilidades, vamos imaginar hipoteticamente um ambiente de trabalho, onde trabalhadores atuam lado a lado tentando dar conta de atividades semelhantes. Todos esses trabalhadores são profissionais que se qualificaram e se capacitaram durante anos para o exercício de suas funções na organização. Entre eles, vamos encontrar as mais diferentes expectativas e sentimentos na avaliação de suas atividades. Para alguns, a atividade que desenvolvem é considerada perfeita, pois representa a oportunidade de atuar em mais uma etapa de uma aprendizagem para o crescimento na carreira, que esperam os levarão ao topo da organização. Para outros é monótona, aborrecida, sem sentido e causa de frustração em relação às expectativas e sonhos nutridos há longa data. Em alguns outros, encontram-se os que detestam o que fazem e que canalizam seu descontentamento criando problemas de toda natureza ou conflitos com a chefia ou com os colegas de trabalho que lhes pareçam estar mais satisfeitos com a atividade.
Poderíamos continuar a tentar aprofundar o entendimento das diferentes possibilidades do sofrimento no trabalho, mas vemos que se trata de uma questão de tal subjetividade e complexidade, que talvez não haja limites para a sua exploração, principalmente por fundamentar-se em um sentimento humano. Por isso, preferimos avançar em outra direção, e explorar um tema que pode atingir indiscriminadamente todos os trabalhadores das organizações – o sofrimento vinculado ao desempenho do trabalhador, ou seja, suas dificuldades no trabalho.
O trabalhador é contratado por uma organização, em razão de sua habilidade em realizar determinado trabalho, e este é realizado no mundo real, onde se exige racionalidade, eficiência, produtividade, capacidade de decisão, de solução de problemas. De qualquer forma, o contexto do trabalho, ou seja, a realidade externa ao indivíduo é o foco principal do trabalho, “o trabalho dá ênfase ao aqui-e-agora e àqueles aspectos que têm utilidade no mundo real” (LOWMAN, 1993, p.14).
Vamos aprofundar a discussão sobre o sofrimento relacionado às dificuldades no trabalho. Entre os diversos tipos de dificuldades, podemos pensar em não conseguir realizar o trabalho com a produtividade e a eficiência que já fazem parte da identidade
profissional do próprio trabalhador. Esse é o debate que faremos a seguir, ao pensar o produto desse trabalho, seu resultado, o desempenho de um trabalhador que se expressa no produto final de seu trabalho.
Embora esse produto final do trabalho deva atender às expectativas definidas pela organização, a perspectiva para a avaliação pessoal do ato de trabalhar será a percepção do próprio trabalhador. Em razão disso, há que se considerar que, em meio aos trabalhadores expostos às mesmas circunstâncias, alguns poderão alegar dificuldades ou sofrimento em realizá-lo, outros, indiferença, enquanto outros, satisfação no trabalho (LOWMAN, 1993). De qualquer forma, o trabalhador é identificado pelo trabalho que faz, a qualidade do seu produto define o arquétipo que o representa perante o outro. Seu trabalho é um produto que simbolicamente tem a sua chancela pessoal e é diferente de qualquer outro.
Ao pensar esta questão, a partir da perspectiva da produtividade e eficiência do trabalho como componente da identidade profissional, pode-se pressupor que quando o trabalhador tem um problema com o seu desempenho profissional, ou seja, uma dificuldade no seu trabalho, essa dificuldade será reconhecida em termos de produtividade e eficiência, quando seu trabalho é comparado com o que vinha sendo usualmente entregue por ele (LOWMAN, 1993). Lowman considera como definição de dificuldade no trabalho uma situação em que...
Uma capacidade de trabalhar prejudicada ou diminuída pode provocar sérias dificuldades pessoais, inclusive a ameaça ao sustento do trabalhador. O termo dificuldades no trabalho refere-se às condições psicológicas decorrentes da diminuição da capacidade de trabalho, causada pelas próprias características pessoais do trabalhador ou pela interação entre suas características pessoais e as condições de trabalho. [...] a condição de dificuldade pessoal do trabalhador é criada pela diminuição de capacidade de trabalhar ou pela sua interação com aspectos do trabalho ou com arranjos do trabalho (LOWMAN, 1993, p.4-5).
Como premissa para esse debate, vamos assumir que na organização em que esse trabalhador exerce sua atividade seja esperado, como usualmente, que todos os trabalhadores estejam em busca de completar adequadamente a parcela de trabalho que lhes cabe na organização. Se algum desses trabalhadores não conseguir cumprir o que foi contratado, os demais trabalhadores serão prejudicados na execução da parte que lhes cabe. Seja porque esses trabalhadores reduzirão o volume de entrega do produto de seu trabalho por receberem um menor volume daquele trabalhador que está tendo alguma dificuldade, seja porque dispenderão mais tempo e mais esforço para corrigir ou
terminar o que estão recebendo do colega. Por um período de tempo, o espírito de solidariedade entre colegas permitirá que todos se esforcem para corrigir e compensar a produtividade e a eficiência da equipe. Mas, a partir de certo momento a equipe se recusará a levar adiante essa responsabilidade, e alguma decisão terá que ser tomada.
Quando nos referimos a uma dificuldade no trabalho, não estamos atribuindo ao trabalhador a responsabilidade pela sua dificuldade, como veremos mais adiante. Embora, em algumas situações ele possa exercer algum controle sobre as circunstâncias que geram seu sofrimento, em outras, não tem controle algum, estando totalmente a mercê dessas circunstâncias.
No entanto, a dificuldade que ele está tendo no trabalho será notada por quem dele dependa para dar continuidade no seu próprio processo de trabalho. Seus chefes também se aperceberão dessa dificuldade por estar aquém ou pior do que seria esperado. A percepção da diferença em relação ao padrão no trabalho é decorrente do histórico de desempenho, que, por sua vez, criou uma expectativa de consistência. O tempo de demora para ser notado, dependerá da frequência e da intensidade de suas relações funcionais, sua capacidade de decisão e seu envolvimento com superiores, pares e subordinados, como também com clientes e fornecedores.
É importante ressaltar que não é sempre que o trabalhador enfrenta uma dificuldade que seja rapidamente percebida pela organização, entretanto, dificilmente uma dificuldade no trabalho deixará de causar sofrimento ao trabalhador.
A partir deste ponto, vamos nos referir especificamente ao executivo do topo das organizações, embora o que vamos considerar também possa ser aplicado a todos os trabalhadores.
Defendemos que uma das principais razões para o sofrimento no trabalho está vinculada à identidade profissional, que é um dos mais valiosos patrimônios do executivo. Este não permitirá que sua identidade profissional seja contaminada ou manchada por alguma dificuldade no trabalho. Os problemas com o seu desempenho poderão desqualificar seu trabalho e por em risco sua identidade profissional, essa construção que o trouxe e o mantém no seu papel profissional, como também no cargo e no emprego que ocupa; que lhe garante a confiança da organização em lhe encaminhar os desafios que ele se propõe superar e que permite que receba o justo reconhecimento
profissional e financeiro pelo trabalho realizado. Além do que, provê prazer e satisfação profissional e o motiva diariamente a voltar ao trabalho e enfrentar novos desafios.
O executivo pode testemunhar que o sofrimento e o prazer são inerentes ao trabalho, e com eles têm convivido continuamente ao longo dos anos (DEJOURS, 1993). Também, terá uma clara noção de que seu desempenho no trabalho, seja ele causa ou consequência de sofrimento, ameaça sua identidade profissional. Enquanto essa ameaça persistir será motivo de apreensão, pois sabe, que se não restabelecer seu desempenho, colocará em risco seu futuro na organização.
Uma organização não se comove quando um executivo está em sofrimento, mas não irá tolerar suas dificuldades no trabalho. Estas, prejudicarão o trabalho dos seus superiores, de seus colegas e do restante da organização, assim como os negócios. Todos serão impactados pelo fato de que esse executivo não está tendo o desempenho esperado, aquele que usualmente vinha entregando.
Enquanto perdurar essa dificuldade, seu superior hierárquico e colegas mais próximos poderão lhe dar sugestões, indicações de profissionais que possam lhe orientar, farão recomendações no sentido de tentar ajudá-lo a resolver esse impasse. Entretanto, o executivo sabe que há um limite para a busca de uma solução. Ele compreende que se continuar com as dificuldades poderá sofrer sanções e até ser demitido da organização.
Ter a consciência da situação, em que está envolvido, faz com que a preocupação em resolver seu problema de desempenho, se some àquela que tem em relação à possibilidade de que isto não venha a ocorrer. Baseado no seu conhecimento do mercado de trabalho, ele sabe que talvez não consiga voltar a se empregar em uma organização que lhe ofereça cargo e remuneração compatíveis com os que têm atualmente. É provável que tenha de reduzir suas pretensões e aceitar algum trabalho com menor remuneração e relevância. Tudo irá depender da situação de mercado quando estiver à procura do emprego. Talvez tenha que ficar um ou dois anos em busca dessa nova colocação. Se demorar muito a se reempregar muitas portas se fecharão, e ele terá que buscar alternativas. Quem sabe, se veja obrigado a abrir um negócio próprio, por exemplo, se tornar um comerciante autônomo. Mas receia que talvez não seja possível efetuar essa transformação profissional tão significativa.
Ele conhece bem as regras do trabalho nas organizações, e as demissões fazem parte do modus operandi das relações entre as organizações e seus executivos. Já foi demitido algumas vezes e viu isso acontecer em todos os lugares em que trabalhou.
Seria insuportável ser demitido em razão das dificuldades no trabalho, de fracassar na realização do seu trabalho. Não toleraria ser considerado incapaz para entregar algo que há anos tem entregado, pois a sua identidade profissional de executivo está lastreada na sua capacidade de entregar seu trabalho com a qualidade e a consistência que sempre o caracterizaram. Se não tiver sucesso, sua identidade profissional de executivo estará arrasada. Como poderá ser um executivo e não ser capaz de exercer sua atividade? Ele entregou à sua vida profissional a maior parte de sua existência, e a utilizou na construção de uma identidade que pode ser arruinada por não poder superar dificuldades no trabalho. Essas preocupações são causa de grande angústia e sofrimento.
Essa construção hipotética, que acabamos de fazer, tem o propósito de trazer a questão do sofrimento relacionado às dificuldades no trabalho do executivo para o nosso debate. Se vista de maneira generalizada é possível considerá-la como uma situação comum em qualquer organização.
Todos erramos e acertamos aqui e acolá, mas alguns são levados a construir em suas relações a imagem de competentes, outros não, independentes, no limite, do grau em que acertam ou erram. Fixada a imagem ela tem o poder de direcionar a percepção (a nossa e a alheia) na direção em que foi fixada. Se um competente erra foi um azar, se um competente acerta foi sorte. A falha do trabalhador competente em algum momento crucial do trabalho, ou uma sequência de falhas que tenha o poder de abalar a imagem construída, pode quebrar o ciclo que compõe a imagem de competência, e, pelo fato mesmo de ser generalizada, se espraiar rapidamente pelos outros cantos, tornando o eu mais sensível para a falha em outras esferas, até mesmo exercendo um efeito perceptivo no sujeito na representação construída de si mesmo (CODO, 2004, p.186).