handlinger fundamentale endringer i dynamikken i industriell virksomhet?
7.4 Anbefalinger til utdanningsinstitusjonene
O JUDAÍSMO COMO MÉTODO DE FRANZ ROSENZWEIG
O Judaísmo é meu método, não meu objeto.
Franz Rosenzweig
Com esta frase, citada em carta para Hans Ehrenberg, o pensador religioso Franz Rosenzweig acaba por nos fornecer uma excelente chave de leitura para sua obra. Ele substitui as categorias do que ele entende ser o velho pensamento – que trata da filosofia de Tales a Hegel – pelas categorias do judaísmo. A intuição presente no trabalho de Rosenzweig é a não possibilidade de só termos uma leitura para a “realidade” e sim uma pluralidade de leituras, o que não necessariamente corresponde às profundas indagações humanas. Segundo Timm, a tarefa de Rosenzweig seria compreender “o Ser não como necessidade absoluta, mas como possibilidade e potencialidades radicais desinstalando-se do seu eterno ‘presente lógico’ e confrontando com sua própria insuficiência em termos de síntese absoluta”1.
A crítica de Rosenzeweig se dirige à filosofia tradicional e sua busca por uma “essência” das coisas. Como decorrência desta crítica, o autor apresenta o “novo pensamento” que aponta a Revelação como sua própria categoria fundamental. Para ele, o conceito de Deus não é mais acessível do que o conceito de homem ou de mundo: deles sabemos pouco, ou seja, tudo e nada.
Rosenzweig é ainda pouco conhecido, mas seu consistente trabalho intelectual, construído em uma vida curta (1886-1929), mas muito produtiva, tem sido foco de uma
atenção cada vez mais interessada2. O reconhecimento de Rosenzweig por parte da crítica filosófica atual pode ser sintetizado nas palavras de Putnam:
Nos termos de sua profundidade, sua originalidade, seu imenso conhecimento, o poder de sua mente, e a compaixão de sua visão (sem mencionar sua grande influência nos pensadores não judeus tanto quanto nos pensadores judeus), Franz Rosenzweig figura, juntamente com Martin Buber e Emmanuel Levinas, como um dos mais importantes pensadores judeus do século XX. 3
Nosso percurso, neste capítulo, pretende, em um primeiro momento, apresentar o autor e seu conhecido “novo pensamento”. A consciência da finitude e da temporalidade como determinantes de toda a possibilidade de pensar a realidade acaba por valorizar o sujeito individual concreto, e a existência passa a ser o ponto de partida da indagação do pensamento. A segunda parte deste trabalho tratará de refletir a questão do conhecimento a partir do
Livrinho, obra com a qual estaremos trabalhando neste capítulo e que é assim conhecida devido ao título original Das Büchlein vom gesuden und kraken Menschenverstands4. Neste texto, o autor usa a doença e a saúde como metáforas para discutir a questão do conhecimento não como uma forma estática, mas como um processo contínuo que se dá através do diálogo. Diálogo este que passa a ser o lugar da ação. Ser humano, mundo e Deus participam neste diálogo e, desta forma, constituem a realidade. Para finalizar discutiremos a importância da situação concreta, da palavra falada (linguagem) e do diálogo, da experiência de um tempo eficaz e não eficaz que estabeleça um ritmo para a existência: da tensão como reveladora de um sentido.
2 A referência a Rosenzweig é maior como tradutor. Como exemplos, aqui mesmo neste trabalho temos alguns
autores citados na Introdução, bem como há referências em Alter &Kermode e Haroldo de Campos.
3 Hilary PUTNAM in Franz ROSENZWEIG, Understanding the Sick and the Health, p. 1.
4 O Livrinho da saúde e da doença do senso comum, ou entendimento humano. Estamos trabalhando aqui com o
original alemão, embora com o auxílio da tradução em espanhol – El libro del sentido común sano y enfermo, Traducción de Alejandro Del Rio Herrmann, Caparrós Editores, 2001 –, que parece a mais próxima do original, pois a versão em inglês – Understanding the Sick and the Health: a view of world, man and God, with a New Introduction by Hilary Putnam, London: HUP/ Cambridge, 1999 –, já utiliza uma interpretação do texto para buscar uma melhor fluidez no entendimento. Portanto, todas as citações aqui mencionadas são traduções da autora do original alemão e que será referida apenas como Livrinho e, quando julgamos necessário, apontamos a tradução das outras versões. Não é demais retomar o próprio Rosenzweig que nos alerta que traduzir “significa servir a dois mestres. Segue-se que ninguém pode fazê-lo. Mas também segue-se que esta é, como tudo o que, teoricamente, ninguém pode fazer, a tarefa indicada para todos na prática. Todo mundo deve traduzir, e todo mundo o faz. Quando falamos, traduzimos daquilo que pensamos para o que esperamos do outro como compreensão.” (apud Roberto Romano in Julius GUTTMANN, A filosofia do Judaísmo, p. 23) Cientes dessa difícil tarefa, estabelecemos o nosso esforço na busca da melhor compreensão do complexo trabalho do autor.
II.1 O “ATLETA DO ESPÍRITO”5
Após ela (a filosofia) haver recolhido tudo em si...o ser humano descobre subitamente que ele...
ainda está aqui... Eu, pó e cinzas, eu ainda estou aqui.
Franz Rosenzweig.6
Franz Rosenzweig nasceu em Kassel, em 1886, filho único de um dos comerciantes influentes da cidade. Desde cedo revelou sua extraordinária capacidade de aprendizagem: lia incansavelmente, escrevia muito bem e adorava música. Aos 11 anos escolheu como recompensa, por suas qualificações nos estudos, um professor de hebraico. Aos 17 anos decidiu fazer medicina, mas esta decisão foi logo de início substituída pela História e pela Filosofia. Em 1908 dá início ao seu doutoramento, sob orientação de Friedrich Meinecke, que terá como tema a teoria do Estado de Hegel7, cujo título é Hegel und der Staat, finalizada a primeira parte em 1912. As pesquisas continuaram e a publicação de todo o trabalho ocorreu em 1920. Segundo Timm, “essa obra significa uma espécie de ‘adeus’ ao Idealismo, não executado às pressas ou sem profundos conhecimentos do mesmo, mas, antes, após o exame acurado de suas raízes profundas [...].”8
Uma crise religiosa marca o pensador, fruto de um retorno à religião presente em vários círculos, incluindo judeus alemães mais jovens que acabam por se sentirem muito
5 A vida de Rosenzweig, por vários motivos, é um testemunho concreto de seu próprio pensamento. A expressão
que utilizamos aqui foi dada por J. Guinsburg para descrever o vigor mental de Rosenzweig, que o manteve firme contra a doença que dolorosamente lhe atingiu. Sua excepcional força de vontade e a alta produção que manteve, apesar das limitações físicas, surpreendem a todos e tornam-se um exemplo, nas palavras de Glatzer, de “uma apaixonada devoção à linguagem humana, um amor a vida e uma aceitação da morte”, que nos leva a concluir que as “reflexões de Rosenzweig podem ser contraditas, mas sua vida não.” (Cf. J. GUINSBURG, O Judeu e a Modernidade, p. 507 e N. N. GLATZER in Franz ROSENZWEIG, Understanding the Sick and the Health, p. 33)
6Apud Ricardo TIMM, Existência em decisão, p. 21.
7 Friedrich Meinecke era autor do livro Weltbürgertum und Nationalstaat que tratava do desenvolvimento da
idéia de nacionalismo na Alemanha desde o século XIII, onde um dos capítulos é dedicado à idéia de Estado em Hegel, que serviu de inspiração para o trabalho de Rosenzweig, o que não significa concordância. Segundo Timm, “Rosenzweig não julgava a filosofia política de Hegel – em sua dependência de um sistema do Absoluto – excessivamente universalista e, sim, excessivamente nacionalista. As idéias políticas de Hegel –considerado por Meinecke o fundador da moderna idéia de Estado – desembocariam, segundo Rosenzweig, muito mais em uma exacerbação do autoritarismo do que em sua moderação. Cf. Ricardo TIMM, Existência em decisão, p. 51.
8 Existência em decisão, p. 31. Timm aponta o fato de que é bem claro, para Rosenzweig, o conhecimento de
Hegel e do primeiro Schelling; ele não só os conhece e os critica, como também busca levar às últimas conseqüências alguns dos impulsos intelectuais do Schelling tardio. Nesse sentido, boa parte da obra de Rosenzweig constitui-se na discussão crítica com o idealismo alemão e, baseando-se nas intuições de Schelling, para quem a reflexão é uma doença, o autor buscará superar definitivamente as tentações dessa “doença”.
influenciados pela fé cristã, levando-os à conversão ao cristianismo. Este era o caminho natural no processo de assimilação9 que precede a I Guerra Mundial e Rosenzweig se debaterá com essa possibilidade por um longo tempo.
Entre a crise da conversão e sua primeira parte do trabalho sobre Hegel, ocorre a I Guerra. Rosenzweig vai para a guerra, mas não deixará sua atividade intelectual de lado, mantendo ativa a correspondência com os primos, que inclui a carta de 18 de setembro de 1917 na qual já está presente a Célula primeira da Estrela da Redenção10, como é denominada pelo próprio autor. No ano seguinte, de fato, o autor acabou redigindo a primeira parte da Estrela da Redenção enviando em pequenos trechos escritos em postais para a sua mãe que os transcreveu formando um manuscrito que foi trabalhado por Rosenzweig no seu retorno, em 1918. Segundo Timm, esta obra que foi escrita no enfrentamento da morte real – no front de Balcãs – sintetiza todo o pensamento de Rosenzweig. Para Miguel Garcia-Barco, este trabalho não significou apenas uma obra, mas sim a realização de uma escolha:
[...] renunciar a carreira de professor universitário integrado no sistema assimilacionista. O programa para o resto de sua vida estava na realidade já escrito em seu livro: neste livro cuja estrutura mesma trata de refletir o arco inteiro e imenso que descreve realmente o Dia do Senhor.11
Em 1920, após seu casamento com Edith Hahn, Rosenzweig se muda para Frankfurt, onde funda a Freies Jüdischen Lehrhaus (Casa livre de estudos judaicos) que se converte, de imediato, no centro intelectual do judaísmo alemão. Foram professores da casa Martin Buber, Scholem, Fromm. Em 1921, foi publicada A estrela da Redenção e, em junho do mesmo ano, foi redigido o Livrinho, que foi a última obra de Rosenzweig ainda saudável, pois após o término da redação deste, manifesta-se uma esclerose lateral amiotrófica que o levará rapidamente a uma paralisia completa. A surpreendente coincidência acaba por originar inevitáveis comentários em vários leitores de sua obra.
9 O movimento de retorno à religião empolgava muitos jovens alemães no início do século XX, na Alemanha.
Vários deles foram muito influenciados pelas tendências religiosas reinantes em grupos de jovens cristãos alemães e converteram-se ao cristianismo. Rosenzweig também se sentiu atraído à conversão, mas resolveu fazê- lo como os fundadores da fé cristã, a partir das raízes: o judaísmo. Por essa razão, passou a freqüentar os serviços sinagogais que o levaram a experiência do Yom Kippur de 1913 e a decisão de se manter judeu. Cf. Julius GUTTMANN, A filosofia do judaísmo, p. 395; J. GUINSBURG, O Judeu e a Modernidade, p. 506; Miguel GARCÍA-BARÓ, in Franz ROSENZWEIG, La Estrella de la Redención, p. 12.; Emilio BACCARINI, in PENZO; GIBELLINI, Deus na Filososfia do século XX, p. 275; Ricardo TIMM, Existência em decisão, p. 29- 30.
10 Cf. Miguel GARCÍA-BARÓ, in Franz ROSENZWEIG, La Estrella de la Redención, p. 12. 11 Ibid., p.13.
A partir de 1922, os sintomas de sua doença surgem e lhe criam dificuldades para falar e escrever; em dezembro de 1922 não consegue mais escrever e, meses depois, também não consegue mais falar. Com ajuda de sua esposa, Rosenzweig continuará sua produção literária, incluindo o famoso Das neue Denken12, em 1925; as traduções do poeta Jehuda Halevi, em 1924; e, ainda neste ano, iniciou a tradução para o alemão da Bíblia, que foi terminada por Buber anos depois, pois Rosenzweig acabou morrendo sem finalizá-la, em dezembro de 1927.
É com a consciência do sentido de desagregação, segundo Timm, que Rosenzweig acaba por construir sua obra; em um mundo mergulhado em fragmentos de sentidos e multiplicações de incertezas, ele utiliza:
[...] tanta racionalidade quanta seja necessária para que este mundo se compreenda a si mesmo, sem que esta razão se feche em si mesma e acabe executando exatamente o jogo totalizante do qual pretende se evadir. Que o mundo em processo acelerado de desagregação e multiplicação de sentido finalmente se possa, de alguma forma, compreender exatamente em
sua raiz de multiplicidade, em sua radicalidade múltipla, e que, por sobre esta compreensão, possa construir algum tipo de esperança de futuro. 13
Para Timm, a reflexão de Rosenzweig é construtiva, ele escreve antes de Auschwitz, o que lhe preserva uma certa esperança apesar da absoluta clareza dos limites do pensar. Timm afirma que a grandeza de seu pensamento consiste em:
[...] boa parte na característica, aparentemente contraditória, de, em sendo profundamente
enraizado, não ser restaurador; em ser, exatamente contemporâneo, na medida exata em que observa argutamente as possibilidades mais nefastas da contemporaneidade ainda antes que estas se tenham desdobrado.14
Para Timm15, o historiador acabou se tornando filósofo e o filósofo, ex-historiador. Após a guerra, Rosenzweig não poderia escrever um livro como Hegel und Staat, pois, para ele, o livro é testemunho do espírito pré-guerra e não do ano que foi lançado – 1919. Como toda guerra, com toda a crueldade que ela é capaz de revelar, não há como escapar de um desmoronamento de sentido, principalmente, como diria Timm, do modo “otimista” de sentido. Não há como não ter o seu pensamento questionado diante da crua realidade que se apresenta.
12 O novo pensamento, escrito como prefácio a posteriori à Estrela da Redenção. O novo pensamento é a
denominação dada ao seu método filosófico que descreve o sistema de correlações que o “senso comum” experimenta na concretude da existência.
13 Ricardo TIMM, Existência em decisão, p. 39. (grifos do autor) 14 Ibid., p. 43. (grifos do autor)
II.1.1 O judaísmo de Rosenzweig
A questão do judaísmo em Rosenzweig é tema bastante interessante, não só por caracterizá-lo como pensador religioso, mas por seu pensamento ser um exemplo bastante rico de capacidade noética, especialmente a reflexão crítica sobre a própria religião e sua contribuição para uma epistemologia da contingência16.
O judaísmo de Rosenzweig é fundado com base na experiência pessoal. Em conversas com o amigo Eugen Rosenstock17 e os primos Hans e Rudolf Ehenberg18 que haviam se convertido, o autor atravessará um momento bastante crítico em sua vida no que concerne à questão religiosa. Este embate acaba se finalizando após ter seguido, sozinho, o Yom Kippur (o culto do Dia do Perdão) em uma pequena sinagoga em Berlim, em 1913, o que o leva confessar em carta para Rudolf Ehenberg que não era mais necessário; na realidade havia se tornado impossível a conversão: “Permaneço judeu.” Uma desta conversas – “diálogo noturno de Leipzig”– é relatada em carta a Meinecke:
Em 1913, ocorreu-me algo, quando tenho de falar a respeito, indico com o termo “desmoronamento”. Achei-me de repente num campo em ruínas, ou melhor, dei-me conta de que o caminho percorrido até então levava à irrealidade. Era justamente o caminho que me indicava apenas o meu talento, ou talvez os meus talentos. Experimentei, assim, a falta de sentido de um tal império dos meus talentos, aos quais eu passivamente me submetia. Tinha horror de mim mesmo [...] Recordo como sendo sinistra a minha insaciável fome de formas, uma fome sem objetivo nem significado, impulsionada unicamente por si mesma. O estudo da história teria servido apenas para aplacar a minha fome de formas, e nada mais. Entre os fragmentos dos meus talentos, comecei a procurar a mim mesmo, entre a multiplicidade das coisas, o Uno. Cheguei, assim, [...] a descer aos subterrâneos de minha existência, aproximando-me do antigo cofre do tesouro de minha vida, de que nunca me esquecera [...] finalmente o encontrara, um tesouro de minha posse pessoal, uma coisa herdada, não tomada
16 Tomo o termo “epistemologia da contingência” da reflexão de Luiz Felipe Pondé. Cf. O homem insuficiente e
O conhecimento na desgraça.
17 Eugen Rosenstock Huessy (1888-1973), jovem filósofo a quem Rosenzweig muito admirava e um convertido
do judaísmo para o cristianismo. A correspondência entre ambos pode ser encontrada em Rosenzweig, Brief I, p. 191-320, e na tradução inglesa Rosenstock-Huessy (ed.), Judaism Despite Chistianity: The “Letters on Chistianity and Judaism” between Eugen Rosenstock-Huessy and Franz Rosenzweig, trad. Dorothy Emmet (University, Ala., Univeristy of Alabama Press, 1969). Rosenzweig também se interessava muito pelo trabalho do filósofo, principalmente o que tratava sobre o discurso, a linguagem, e sua idéia de um “cross of actuality”, dado em resposta às primeiras reflexões de Rosenzweig da “star of redemption”, redigidas em carta para o amigo um ano antes do início do esboço da obra. Cf. comentários de Paul W. FRANKS; Michael L. MORGAN, in Franz ROSENZWEIG, Philosophical and Theological Writings.
18 Rudolf Ehrenberg (1884-1969), primo de Rosenzweig, também convertido para o cristianismo, cujo trabalho
sobre biologia é mais tarde citado por Rosenzweig como um exemplo de “novo pensamento”. A correspondência de ambos pode ser encontrada em Brief I, p. 132-7. Hans Ehrenberg (1883-1958), também primo de Rosenzweig, cuja conversão em 1909 foi assunto de disputa entre Rosenzweig e seus parentes. Ver Brief I, 94-95. Como pensador desenvolve seu trabalho numa linha crítica do idealismo alemão e faz sua própria versão da linha crítica contra Hegel, a partir de Schelling e Kierkegaard. Cf. comentários de Paul W. FRANKS; Michael L. MORGAN, in Franz ROSENZWEIG, Philosophical and Theological Writings.
emprestada. Ganhando, ganhara algo de inteiramente novo, ou seja, o direito de viver e de até ter talentos; agora era eu que tinha talentos, não eles que me tinham.19
Esta longa citação se justifica não só pela intensidade da experiência que reafirma o judaísmo de Rosenzweig, mas também para que possamos observar as raízes que ganharão
status filosófico à medida que o autor desenvolve o seu trabalho. Para Julius Guttmann essa experiência determina a versão do judaísmo de Rosenzweig que, por um lado, possibilita que ele descubra idéias que eruditos da religião ignoraram, mas, por outro, enfatiza demais as “idéias que afetaram seu desenvolvimento pessoal, e por causa disso enxerga fatos de uma maneira unilateral e parcial.”20
O desmoronamento é, de fato, unilateral. A experiência religiosa de Rosenzweig se dá de forma impactante: inverte sua compreensão da realidade, inquieta-se com a possibilidade de ser definido como um objeto – talento –, descobre que a fome insaciável reclamava o desejo de ser. A busca de si próprio, que se dá entre e a partir dos fragmentos que restou da sua ilusão de ser, é a presença da própria angústia em sua máxima atividade, expressão afetiva que se transformará em tensão intelectual claramente observada em seu “novo pensamento”.
Após a decisão de continuar judeu, Rosenzweig dá início aos cursos de Hermann Cohen21 que o fortalecerá em sua vinculação com o judaísmo. Havia um contínuo crescimento
do anti-semitismo nos meios universitários alemães que acabaram por forçar Cohen a se tornar favorável ao sentimento típico dos judeus-alemães do século XIX, de assimilação e conjunção de culturas. A influência de Cohen em Rosenzweig pode ser observada no ideal ético do autor como tarefa cotidiana, somado à sua afirmação da liberdade humana ao lado da transcendência divina. De acordo com Timm, a principal influência de Cohen está ligada ao espírito geral que o termo correlação tem na obra tardia desse autor. Correlação é uma forma do pensar científico na qual a relação de finalidade só pode ser concebida com elementos
19 Apud Emilio BACCARINI, in PENZO; GIBELLINI, Deus na Filososfia do século XX, p. 276.
20 Julius Guttmann analisa o pensamento de Rosenzweig considerando como um dos expoentes da filosofia
religiosa judaica no fim do século XIX. Sua compreensão do pensamento do autor é bastante clara, consegue sintetizar muitas de suas idéias, mas suas críticas seguem sua posição aparentemente contrária à posição existencialista que ele identifica em Rosenzweig. As mencionadas idéias, que afetaram o desenvolvimento pessoal de Rosenzweig, sugerem a presença do que mais tarde se denominou filosofia existencialista, o que reforça o foco do autor para a existência concreta. Guttmann chega a relacioná-lo com Heidegger, dizendo que o próprio Rosenzweig teria percebido alguns pontos em comum, o que, mais tarde, também foi admitido pelos pensadores da escola existencialista. Esta relação é feita por muitos autores, mas segundo o próprio Guttmann não é possível pensar em uma influência direta, dado que a maior obra de Rosenzweig, A Estrela da Redenção, foi por muito tempo considerada um livro judaico, assim como também ficou muito tempo desconhecida. Cf. Julius GUTTMANN, A filosofia do judaísmo, p. 395-424.
21 Uma boa síntese do pensamento de Hermann Cohen pode ser encontrada em Julius GUTTMANN, A filosofia
simultaneamente diferentes, separados e de alguma forma comunicantes. Mas, como ainda a relação entre opostos pensados pode ser lógica, isto é, a oposição pode ser idealmente destacada de sua realidade plena e ativa, esta acaba tornando-se uma compreensão teórica da