2.1. Avaliação das mecânicas da inteligência
A investigação sobre as diferenças de idade relativamente à mecânica cognitiva tem revelado que a evidência sobre as diferenças etárias nesta componente da inteligência poderão refletir a influência da pragmática da mente. Para além disso, Baltes e colaboradoresapontam ainda alguns problemas das medidas e avaliação da mecânica cognitiva, pois consideram que a sua magnitude é acedida sob condições de medida “demasiado” purificantes, nomeadamente em contexto laboratorial 8. Desse modo, será
necessário conseguir chegar a estimativas mais válidas das diferenças individuais com a idade, aferindo os limites superiores dessas estimativas. O progresso na compreensão dos determinantes do desenvolvimento ao longo do ciclo de vida irá depender da integração da análise de construtos sobre processamento de informação e da consideração de mudanças com a idade a nível neuronal 8. No que concerne às mecânicas cognitivas, destaca-se a evidência sobre o nível e velocidade de processamento, a memória de trabalho e a inibição. Aparentemente, estes 3 mecanismos seguem um padrão preditivo com forma de U-invertido ao longo do ciclo de vida, ou seja, apresentam um aumento até ao fim da adolescência início da vida adulta e mantêm-se até depois da meia idade, apresentando um declínio posteriormente.
A velocidade de processamento (avaliada frequentemente como velocidade de resposta a um estimulo) aumenta com a idade desde a infância até à vida a adulta, declinando gradualmente desde então. Esta evidência é também corroborada pelos resultados do SLS 10. O declínio cognitivo com a idade, especificamente nesta função, está intimamente associado, de acordo com Baltes e colaboradores 8, a um declínio global ao nível do processamento da informação sensorial. No entanto, os autores alertam para o facto da velocidade de processamento poder não ser um construto unitário, mas uma entidade fatorial complexa, cuja composição pode mudar em função da idade, envolvendo atenção, velocidade, capacidade de inibição e persistência numa tarefa.
A memória de trabalho, é definida por Badeley 14 como a capacidade de preservar a informação em um ou mais armazéns a curto prazo, enquanto esta informação (e/ou outra informação concorrencial) é simultaneamente transformada. As diferenças positivas durante a infância e as diferenças negativas durante a vida adulta e envelhecimento são mais notórias em situações nas quais a exigência no processamento da informação são maiores. O poder explicativo da memória de trabalho é difícil de estimar. As mudanças com a idade são frequentemente explicadas por alterações nos níveis de eficiência da velocidade de processamento 8. No entanto, a evidência da psicologia do desenvolvimento, da psicologia cognitiva experimental, da psicologia diferencial e das neurociências cognitivas sugerem que as capacidades de inibição de ações e pensamentos, assim como a capacidade de evitar a interferência de correntes processuais competitivas, são cruciais para o funcionamento eficiente desta componente; concluindo assim que a capacidade de atenção seletiva é fulcral para o desempenho mnésico. Foram identificadas mudanças na propensão da capacidade de atenção seletiva com a idade neste mecanismo (medida em testes como stroop) coincidentes com a curva de U observada na velocidade de processamento, o que poderá indicar que vamos aumentando a nossa capacidade de atenção e processamento desde a infância até à vida adulta, mantendo uma certa estabilidade ao longo deste período e declinando na fase de velhice.
A abordagem da neurociência cognitiva ao desenvolvimento das mecânicas cognitivas, salienta a relação entre o desenvolvimento ontogenético cerebral e o desempenho em funções cognitivas específicas, salientando a corticogénese e as alterações fisiológicas das áreas frontais e pré-frontais do sistema cérebral ao longo do ciclo de vida 8. No início da ontogenia (i.e., durante a infância), o córtice pré-frontal e os seus circuitos neuronais associados estão envolvidos em mudanças anatómicas, químicas e funcionais que se estendem até à adolescência. A plasticidade neuronal durante a corticogénese envolve a produção e a eliminação de conexões neuronais dependentes da experiência 8. Na fase mais avançada da vida adulta e na velhice, o córtex pré-frontal e os gânglios da base, funcionalmente inter-ligados, são os primeiros a mostrar sinais de degradação e de maior magnitude. Para além de uma redução de cerca de 2% do volume cerebral 8, 15, a nível neuroquímico, as mudanças no sistema catecolaminérgico, especialmente ao nível da produção de dopamina, desempenham um papel importante na explicação do envelhecimento cerebral. Os estudos neurofuncionais, apontam para profundas mudanças com a idade na organização funcional do córtex pré-frontal, como a redução da assimetria de ativação hemisférica 16. Não obstante, a associação precisa entre as mudanças com a idade no circuito pré-frontal e a produção comportamental ainda necessitam de maior exploração. Funções cognitivas semelhantes à memória de trabalho
e comumente categorizadas sob o chapéu de “funções executivas” ou “controlo cognitivo” parecem estar envolvidas nesses processos. Comportamentos considerados particularmente dependentes dos circuitos pré-frontais requerem múltiplas tarefas ou componentes de tarefas. Exemplos típicos incluem a supressão de tendências de acções dirigidas a estímulos 17, multi-tarefas 18 e a seleção da resposta sob elevada ambiguidade do estímulo 19. A suscetibilidade para ordens coordenadas pode ajudar a explicar a razão pela qual as diferenças de idade em determinados testes ligados às mecânicas da inteligência e à inteligência fluída, como as matrizes de Raven, tendem a persistir mesmo quando os participantes têm tempos adicionais para resolver as tarefas de avaliação. Baltes 8 sugere que a investigação futura necessita explicar a relação entre as mudanças com a idade no circuito pré-frontal e as alterações nas componentes mecânicas da cognição com maior precisão. Atendendo às diferenças etiológicas fundamentais do circuito pré-frontal no início e no fim da ontogenia, e atendendo a que as mudanças associadas ao envelhecimento se processam num sistema cognitivo com uma história de aprendizagem rica e idiossincrática, qualquer expectativa de uma semelhança entre cartografias cerebrais-comportamentais no início e final da vida serão pouco esclarecedoras, e acordo com Baltes 8.
Um outro aspecto no estudo do funcionamento cognitivo, envolve as medidas de avaliação cognitiva. As diferenças com a idade observadas em testes e tarefas de inteligência, como obtidas em estudos transversais e longitudinais não podem ser vistas como reflexos puros e diretos de mudanças de idades na mecânica cognitiva. No entanto, para além da mecânica, essas diferenças ou mudanças são influenciadas por fatores adicionais que envolvem desde componentes da pragmática da cognição (como conhecimento pré-experimental relevante à execução da tarefa – treino) a outras características pessoais (ansiedade no teste ou motivações), como alertam Fisk e Warr
20. A contaminação mútua das mecânicas e pragmáticas da mente no desempenho em
testes que pretendem avaliar funções específicas, torna ainda mais difícil a compreensão das diferenças de idade no desempenho cognitivo, se deve a mudanças na mecânica ou na pragmática da mente. Face a este assunto, Baltes e colaboradores 8 colocam a hipótese de que, a não ser que se incluam medidas de avaliação pura da mecânica cognitiva, algumas mudanças desenvolvimentais na cognição serão mais significativas nas pragmáticas dos que as mecânicas. Para além disso, segundo o autor, se se pretender aferir os limites do desempenho cognitivo com a idade e consolidar a evidência sobre as diferenças com a idade envolvidas na mecânica cognitiva, então dever-se-á alterar os procedimentos de investigação e mudar o contexto de medida para os limites superiores do desempenho potencial. O paradigma do teste dos limites (“testing the limits”) foi introduzido como uma estratégias de investigação para descobrir diferenças de
idade nos limites superiores do funcionamento mecânico ao longo do ciclo de vida 8. O principal foco é encontrar condições experimentais que produzam níveis máximos de desempenho, procurando avaliar as diferenças de idade em níveis máximos de desempenho cognitivo, através da possibilidade de prática e/ou treino combinados com variações sistemáticas da dificuldade da tarefa. Numa abordagem microgenética, o paradigma do teste dos limites baseia-se na assunção de que as mudanças microgenéticas e a variabilidade intra individual podem ajudar a identificar mecanismos envolvidos nas mudanças ontogenéticas. Baltes e colaboradores 8 ilustram a metodologia teste dos limites com um estudo que envolveu um total de 18 sessões de treino e prática do método de Loci. Este método consiste numa estratégia mnemónica na qual a pessoa tem que memorizar uma lista de palavras e evocá-la; para a memorizar usa uma estratégia que consiste na associação de cada palavra a pontos de um percurso conhecido para si (e.g., casa-trabalho) e assim promove a aprendizagem da lista de palavras. Este estudo envolveu 35 participantes, divididos em dois grupos etários (16 com idades compreendidas entre 20 e 30 anos e 19 com idades entre 66 e 80 anos). Os resultados mostram que ambos os grupos melhoraram o seu desempenho nas tarefas de memória ao longo prazo, com o treino. Por outro lado, a prática e treino resultou numa separação clara dos dois grupos etários em termos de desempenho, revelando a existência de diferenças de idade definidas pelos resultados máximos de cada grupo. Mesmo após 18 sessões de treino, a maioria dos adultos mais velhos não conseguiram atingir os níveis de desempenho máximo que os mais novos atingiram com apenas algumas sessões de treino. No final do follow-up nenhum adulto mais velho conseguiu ter um desempenho cognitivo acima da média do grupo dos mais novos. Singer, Lindenberger e Baltes 21 deram seguimento a este estudo com 96 sobreviventes do Estudo Longitudinal de Berlim 22, com idades compreendidas entre os 75 e os 101 anos. Os ganhos, em termos de desempenho após treino mnésico, foram modestos e a maioria dos participantes não conseguiu melhorar o seu desempenho após 4 sessões de prática. Enquanto a proporção de variância explicada pelas medidas da mecânica-fluida cognitiva (como a velocidade de processamento) aumentaram com o treino (apesar de terem decrescido posteriormente), a proporção de variância explicada pela pragmática- cristalizada cognitiva (conhecimento verbal) diminuiu. Deste modo, os resultados indicam que a plasticidade cognitiva nos mais velhos estará muito condicionada por fatores biológicos induzidos. Assim, os limites superiores do desempenho cognitivo serão ainda mais reduzidos nos mais velhos.
2.2. Avaliação das pragmáticas da inteligência
De acordo com as abordagens inatistas/maturacionais do desenvolvimento humano, o funcionamento cognitivo processa-se de forma evolutiva ao longo da vida. Os seres humanos começam as suas vidas intra-uterinas com alguns constrangimentos específicos de determinados domínios, que orientam o comportamento e formam uma plataforma de base para aquisições posteriores 8. Baltes, por seu turno, defende que a pragmática cognitiva, ou os corpos de conhecimento proporcionados pela cultura, estendem e reorganizam estes domínios nucleares tanto durante a evolução filogenética como ontogenética. Estes processos de extensão e transformação poderão dar origem a formas de conhecimento e comportamento que são em parte fruto da necessidade de desafios da vida, compatíveis também com a arquitetura biológica da mente. No entanto, não podem ser caracterizadas como consequências diretas das pressões de seleção evolutiva 8. O potencial resultante da ontogenia humana para criar e adaptar-se a um novo contexto/desafio, ou as tensões produtivas entre funções atuais e a história evolutiva tem sido referido como uma generalização exaptativa 8. Enquanto um mecanismo de co-construção biocultural, a exaptação ajuda a explicar a razão pela qual os membros da espécie humana são bons a fazer coisas que resultam apenas da seleção natural, como ler um livro ou conduzir um carro. Mais genericamente, a exaptação relembra-nos que a evolução da cultura deve refletir, em algum grau, o jogo e a recíproca influência da disposição genética evolutiva 8. A aquisição do conhecimento/competência pragmática poderá evoluir a partir (ou então “imitar”) dos mecanismos de conhecimento ou competência cognitiva geneticamente pré- determinados em domínios evolutivamente privilegiados. Virá no entanto com a vantagem de ser ajustado às características idiossincráticas de culturas, biografias e contextos específicos 8. Para melhor compreender este assunto, poderemos analisar a distinção entre conhecimento normativo versus o conhecimento específico da pessoa. Corpos de conhecimento normativo são aqueles conhecimentos de valor geral numa dada cultura, como por exemplo, a capacidade verbal, a competência numérica e conhecimento básico sobre o mundo. Diferenças individuais nestes domínios estão intimamente relacionadas com anos de escolaridade e outros aspetos de estratificação social e são passíveis de testagem psicométrica. Por sua vez, os corpos de conhecimento específicos da pessoa que ramificam do trajeto de aquisição de conhecimento normativo estão menos relacionados com acontecimentos de socialização regulares e resultam de combinações de contextos experienciais, características pessoais, constelações motivacionais e capacidades cognitivas ou talento 8. Como consequência de tal complexidade, estes corpos de conhecimento escapam frequentemente à operacionalização psicométrica e
são mais passíveis de estudo dentro de um paradigma de perícia (expertise paradigm), como acontece com a sabedoria. Assim, a investigação psicométrica sobre as capacidades cristalizadas/ pragmáticas da mente necessita ser suplementada por abordagens com um foco mais explícito na aquisição e utilização de conhecimento, de modo a captar de forma mais completa a diversidade e especificidade do conhecimento pragmático.
A Investigação desenvolvimental sobre os corpos de conhecimento específicos da pessoa tem sido realizada com adultos. Uma abordagem a este assunto engloba a identificação de efeitos do conhecimento específico da pessoa, comparando o desempenho de peritos e não peritos, tanto dentro e fora do domínio de perícia. São utilizadas frequentemente tarefas de avaliação, como o xadrez, os jogos de cartas, o conhecimento sobre basebol ou a perícia profissional 8. No entanto, os efeitos da perícia, ou as consequências de corpos de conhecimento declarativo e processual raramente transcendem as fronteiras do domínio alvo. Especificamente existe reduzida evidência a sugerir que as mecânicas de cognição são transformadas pelo conhecimento de domínio específico. Quando existe evidência dos efeitos de um tipo de conhecimento mais geral, pelo menos após os períodos de infância e adolescência, a transferência de conhecimento pragmático (positivo e negativo) parece ser uma explicação mais plausível, do que propriamente a mudança nas mecânicas cognitivas. Baltes verificou que a participação social atenua o declínio nas mecânicas cognitivas nas idades mais avançadas 8. Para além disso, estes estudos têm revelado o poder do conhecimento pragmático para “disfarçar” (compensar) perdas nas mecânicas, dentro do domínio de perícia 8. Aqui os resultados de vários estudos sugerem que o conhecimento adquirido ao longo da vida dota os indivíduos em envelhecimento com uma forma de capacidade natural e local (dentro do domínio) para resistir, ou pelo menos atenuar as consequências das perdas induzidas pela idade nas mecânicas cognitivas. Esta evidência é de importância central para o envelhecimento intelectual bem sucedido e apoia a teoria geral do ciclo de vida de otimização seletiva com compensação (modelos SOC).
O axioma da relação compensatória entre a aquisição de conhecimento pragmático e os declínios mecânico e pragmático recebe apoio adicional a partir da constatação das diferenças individuais em domínios ricos em conhecimento de relevância para o dia-a-dia. Por exemplo, comparadas com as avaliações psicométricas normativas ou experimentais-cognitivas, as diferenças negativas dos adultos tendem a ser menos vincadas em tarefas de resolução de problemas práticos, inteligência social, memória em contexto e cognição social (interactive-minds cognition) 24.
Em síntese, se a contaminação mútua das mecânicas e das pragmáticas cognitivas constitui um problema para a avaliação psicométrica, de facto, no quotidiano, parecem revelar-se uma mais valia para a resolução de problemas práticos.