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Assessment of the situation

No âmbito da perspetiva life-span, Baltes e colaboradores propõem uma estrutura teórica para o estudo do funcionamento intelectual, no qual são distinguidas duas categorias principais: as mecânicas e as pragmáticas da cognição. Estas duas componentes interagem ao longo do tempo ontogenético na produção de comportamento inteligente 7. As mecânicas cognitivas (pobres em conteúdo, universais, biológicas e geneticamente predeterminadas) refletem propriedades organizacionais do sistema nervoso central. Considerando as operações psicológicas, as mecânicas da cognição podem ser categorizadas pela velocidade, precisão e coordenação de operações de processamento mental elementares, que podem ser avaliadas em tarefas que medem a qualidade da entrada de informação, memória sensorial e motora, discriminação, categorização e atenção seletiva, assim como a capacidade de raciocínio em domínios muito treinados ou novos 8. Como um princípio geral, as mecânicas cognitivas, devido à sua base evolutiva filogenética, desenvolvem-se mais cedo na ontogenia humana e são posteriormente aperfeiçoadas e potenciadas, com a aquisição de funções cognitivas mais complexas e baseadas no conhecimento. As mecânicas da inteligência estão intimamente relacionadas com a biologia, incluindo as condições neurofisiológicas do cérebro. O padrão ontogenético etário predominante engloba a maturação, a estabilidade e o declínio associado à idade. Na fase inicial da ontogenia (durante a embriogénese e primeira infância), as mudanças com a idade nas mecânicas da cognição consistem,

maioritariamente, no desdobramento e na construção ativa de capacidades de processamento, organizadas geneticamente em domínios específicos. Especialmente nas fases inicial e tardia da vida, as mudanças com a idade nesta componente da cognição refletem principalmente fatores intimamente relacionados com o estado da estrutura e fisiologia do cérebro. No fim da vida, assiste-se a maior declínio precisamente nas mecânicas da cognição (em comparação com as pragmáticas), resultando presumivelmente de alterações e disfunções cerebrais determinadas geneticamente, no contexto de uma gradual falência do sistema biogenético (considerando o curso de desenvolvimento considerado normal, uma vez que uma doença abrupta poderia precipitar esta falência cognitiva).

As pragmáticas cognitivas da mente (ricas em conteúdo, dependentes da cultura e baseadas na experiência) revelam o poder da ação humana e da cultura1. Constituem o centro de eventos de socialização que seguem os princípios da co-construção humana. Independentemente destes eventos universais, específicos de algumas culturas ou idiossincráticos, os corpos de conhecimento correspondentes estão representados tanto internamente ao indivíduo (e.g., vocabulário, redes semânticas) como externamente (e.g., livros, traduções, arquitetura). Exemplos típicos desta componente da inteligência incluem a capacidade de leitura e escrita, qualificações educativas (escolaridade), capacidades profissionais, estratégias de resolução de problemas do dia-a-dia, assim como o conhecimento sobre a self e o significado e condução da vida (i.e., sabedoria). As pragmáticas e mecânicas da mente desenvolvem-se em ritmos diferentes ao longo da ontogenia e podem apresentar divergência nas trajetórias que seguem, estando possivelmente associadas à composição diferenciada destas duas componentes: a influência genética associada à mecânica cognitiva e a influência ambiental-cultural para a pragmática. Para além disso elas influenciam-se mutuamente, o que torna o funcionamento intelectual muito complexo, sendo necessário compreender esta dinâmica na análise do desempenho cognitivo. Quando a investigação tenta realizar uma análise isolada de dimensões específicas da cognição, esta complexidade e contaminação mútua levanta problemas metodológicos difíceis de solucionar. Por uma questão prática, podemos tentar avaliar apenas funções ligadas às pragmáticas ou às mecânicas, mas sabemos que estas duas componentes da mente irão influenciar-se mutuamente e “contaminar” a produção de comportamento inteligente, quando pretendemos inferir apenas para uma função específica. Por exemplo, a fluência verbal é uma capacidade ligada às pragmáticas da mente, uma vez que a linguagem resulta de uma co-construção cultural por excelência. No entanto, o desempenho numa prova de fluência verbal implica a também a memorização dos vocábulos (a memória a curto e e/ou a longo prazo), assim

como a capacidade de permanência na tarefa e, por vezes de sequenciação (capacidades ligadas às funções executivas).

A evidência empírica que sustenta uma conceptualização da cognição ao longo do ciclo de vida em duas componentes é proveniente de várias tradições de investigação. As capacidades que criticamente envolvem a mecânica, como o raciocínio, memória, orientação espacial, velocidade de processamento, normalmente mostram um padrão de declínio monótono e linear durante a vida a adulta, com alguma aceleração do declínio na velhice tardia 1. Pelo contrário, capacidades mais pragmáticas, como o conhecimento verbal e certos aspetos do raciocínio numérico permanecem estáveis ou aumentam até à 6ª ou 7ª década de vida, havendo apenas algum declínio na velhice tardia.

Com a evidência produzida no âmbito do Seattle Longitudinal Study (SLS) 9, 10, 11, 34, 39 – um estudo sequencial sobre o funcionamento cognitivo adulto que decorre desde 1965, com momentos de follow-up de 7 em 7 anos – contribuiu para sistematizar a evolução ontogenética de diferentes funções cognitivas associadas às pragmáticas e mecânicas da mente, como distinguir preditores das capacidades intelectuais na idade adulta e velhice. Este estudo mostrou, por exemplo, que a capacidade verbal e o raciocínio numérico atingem o seu pico de crescimento na meia idade e, geralmente, apresentam poucos declínios até aos 74 anos. Por seu turno, a velocidade de processamento, o raciocínio indutivo, a orientação espacial e a memória verbal apresentam um declínio quase linear desde a meia idade. Em 1998, Schaie e colaboradores 12, com base na análise longitudinal dos dados do SLS, vêm também apoiar a dissociação entre duas componentes principais da inteligência, destacando o papel da velocidade de processamento e da qualidade do “input” sensorial como recursos centrais no funcionamento eficaz durante a vida adulta e velhice. Mais tarde, a equipa do Max Planck Institut em Berlim 13 realizou um estudo com o objetivo de compreender se a dissociação entre as capacidades intelectuais mecânicas e pragmáticas poderiam ser observadas ao longo de todo o ciclo de vida. Para o efeito, compararam o desempenho de 365 participantes divididos em 6 grupos etários que variaram dos 6 aos 89 anos, numa bateria psicométrica que avaliava 3 marcadores das mecânicas cognitivas, também entendidas pela equipa como inteligência fluída (velocidade de processamento [mental map], raciocínio e memória) e dois marcadores da pragmática cristalizada (conhecimento e fluência verbal). Foram ainda estabelecidos índices de velocidade de processamento (a média de velocidade de resposta ao longo das 5 tarefas) e robustez de processamento – “ the inverse of a person’s average within-task reaction-time fluctuation”13. Verificou-se um

contraste entre os trajetos dos dois tipos de processamento de informação e do compósito mecânica-fluída por um lado, e do compósito pragmática-cristalizada por outro, que são mais fortes na infância e na velhice. O compósito que envolve os dois tipos de

processamento de informação, apresentou um pico de crescimento mais precoce do que o compósito específico mecânica-fluída, facto que apoia o argumento de que a mistura de variância contamina a avaliação de uma inteligência fluida mais alargada. Este estudo mostra ainda que a robustez de processamento cognitivo prediz a inteligência fluída para além da velocidade de processamento na velhice, mas não na infância. Esta observação sugere que as causas de uma organização da inteligência mais limitada diferem entre o período de maturação e de senescência/declínio no processo de envelhecimento.

2. Aspetos metodológicos na avaliação das mecânicas e pragmáticas da