5 CUMPLIMIENTO NORMATIVA
5.4 CUMPLIMIENTO REBT/CIES
Rua do Patrimônio (área urbana)
A Rua do Patrimônio era conhecida, na época em que cheguei aqui, como Rua da Macaca. Sempre me questionei porque, mas sempre que o fazia, encontrava respostas preconceituosas com relação a uma família que lá habitava, o que me deixava constrangida, mesmo criança, sem ter muita noção de polidez.
Ao proceder a uma das entrevistas para esta pesquisa, deparei-me com uma explicação de quem de fato conhecia a história das ruas da comunidade. Refiro a D. Rosa Segundo38, moradora do Fim da Linha, em Murinin. Ela me contou que as poucas ruas do bairro recebiam denominação de plantas abundantes no local (fitotopônimo), como é o caso da Rua do Bacuri (Hoje Nagib Salomão Rossi). Outras recebiam nomes de um acidente geográficos, tais como rios e igarapés (hidrotopônimo), como é o caso da Rua do Corte39 (Hoje Temístocles Monteiro) e a Rua da Tapera (Hoje Amélia Monteiro). Havia ainda aquelas que eram designadas em razão de um morador local que as caracterizavam (A exemplo da Rua do Manoel Pirão ou da Rua dos Cobras, famílias locais).
Informou, a entrevistada, que as ruas passaram a ser denominadas “com nome de gente” quando da gestão do ex-prefeito Francisco de Jesus. O político “começou a organizar, colocar os nomes das ruas direitinho. Foi fazendo assim, perguntando pras pessoas da comunidade sobre as pessoas antigas que já tinham morrido pra serem homenageadas”.
38 Discorrerei sobre D. Rosa quando tratar da Macroestrutura Fim da Linha.
39 Era assim conhecida (segundo relatos de D. Eugênia Segundo, de quem tratarei quando apresentar a
Macroestrutura Rua do Tacho), porque havia um igarapé que cortava a estrada, mas não havia ponte e os moradores, quando precisavam atravessar a rua, tinham que tirar os sapatos e andar pelo raso trecho de rio.
Segundo D. Rosa, o caso da antiga Rua da Macaca (Hoje Rua do Patrimônio) se enquadra no grupo das vias que eram denominadas segundo um morador da via. No caso da Rua do Patrimônio, D. Rosa afirmou que “era o nome da bicharada”, pois as pessoas da comunidade chamavam a via pelos topônimos alternativos: Rua do Mané Galinha, Rua da Macaca, Rua do Quati ou Rua do Papagaio, pois estes eram apelidos de pessoas que moravam nesta rua.
“Macaca” era uma senhora que, segundo dona Rosa, era assim chamada pela comunidade por causa da “aparência”, conforme rápida descrição, “tinha muita, assim, semelhança (...) era negra e o cabelo dela era aquele cabelo, assim, muito estranho, né? E a pele dela não era negra, era assim meio acinzentada. Ela tinha a aparência de macaca mesmo.”. Perguntei à D. Rosa se essa senhora se incomodava com a alcunha, ela me disse que “não, não, não, ela nem ligava, ela até gostava, porque era a Rua da Macaca ((risos)) ‘É a minha rua, né?’ ((risos))”. Frisei, neste momento, que, na época em que eu cheguei aqui, a rua era mais conhecida como Rua do Mané Galinha, justamente porque ele vendia açaí, coletado por ele e amassado à mão, no alguidar, por sua esposa, D. Maria Marlene. Então, D. Rosa conclui que “deveria ser por etapas, sei lá”.
Conversei com o morador mais antigo da Rua do Patrimônio, o Sr. Manoel Barata da Silva, de 72 anos, conhecido como Mané Galinha, famoso no bairro por conta da realização anual da Festividade de São Sebastião em seu barracão, onde também realizava festas semanais, uma espécie de casa de dança rústica.
Seu Manoel narrou que é “filho do Caiçaua40” e morava com a avó. A progenitora
criava galinhas, e ele as colocava num paneiro41 e saía pra vender, por isso as pessoas passaram a conhecê-lo como “Manoel das galinhas”, daí o apelido “Mané Galinha”. Quando a sua cuidadora faleceu, ele tinha 15 anos de idade, “quando eu me joguei na vida pra trabalhar”. Começou, então a trabalhar na “casa do Edgar, aí gostei da filha dele e casamos, aí fiquei aí mesmo. Aí passei a fazer festa, comecei fazendo de oito em oito dias, depois de quinze em quinze dias, depois de mês a mês, depois de três em três meses, e assim eu fiz por quarenta anos. Depois não quis mais e parei, mas sempre aqui. Fui na Universal, escutando a palavra de Deus. Não quero mais saber de festa. Tem uns quatro ou cinco anos que eu parei de fazer. A Carmem Lúcia e a Marluce que pegaram a tradição. Era o Ruberval ((o único filho)), mas ele morreu”.
40 Ilha às margens do Rio Maguary, vizinha a Murinin, que pertence ao município de Ananindeua.
41 Espécie de cesto de palha retirada da palma do miritizeiro (buriti, em outras regiões), que eles próprios
Com relação ao nome da rua, Seu Mané Galinha conta que “o pessoal daí42 que deram
esse nome, de Patrimônio, não tenho ideia por que”. O interlocutor afirma que esses terrenos eram “tudo de herança” e que o sogro lhe doou um lote para construir a casa pra ele e a esposa. Informou ainda que “da Rua do Parada Obrigatória43 pra lá44 era tudo dos Monteiro.
Agora não, que já tá tudo misturado, mas pra lá só era Monteiro”.
Questionei, então, como ele se sentia ao ser referência para denominar uma rua, mesmo que oficiosamente, ao que ele respondeu que “pra mim, tanto faz como tanto fez”, corroborando a ideia que já foi internalizada pela população de que “a construção da hegemonia estatal (...) dá-se no contexto de imposição e reprodução incessante da hegemonia linguística estatal” (Carboni & Maestri 2012:12).
Encontrei, dentre as narrativas que coletei, uma explicação bem plausível para a denominação desta via. Refiro-me à fala de dona Doraci Miranda45, moradora do Itaquara, que afirma serem essas terras, desde Benfica até a antiga Rua da Macaca, patrimônio da Santa (Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Benfica), pois essas terras pertenciam à Arquidiocese, daí o topônimo Patrimônio.
Centro de Murinin (área urbana)
O centro de Murinin foi o ponto a partir do qual houve a expansão do bairro, a partir do lugar onde residia a “índia Murinin”, segundo relatos de vários interlocutores. Referem-se ao Igarapé do Piquiá, localizado atrás do Templo Central da Assembleia de Deus, campo do Murinin. Hoje, esse igarapé está totalmente assoreado, restando apenas uma mata em seu lugar.
Dialoguei inicialmente com três moradores deste ponto do bairro, dois das quais residentes de Murinin. O primeiro deles foi o senhor Raimundo Monteiro, conhecido como Raimundão, nascido na localidade, com 77 anos de idade, ao qual conheço desde a minha infância.
Seu Raimundão é um senhor muito engraçado, contador de anedotas e conhecido por fazer piada de tudo, inclusive (e principalmente) de seus vexames. Seus filhos herdaram sua
42 Aponta para o Centro de Murinin, referindo-se aos políticos locais, em sua maioria, com sobrenome Monteiro. 43 Mercadinho que, antes, era um bar de um dos filhos do Irmão Bruno, antigo morador de Murinin. Este bar se
chamava assim porque, em frente a ele, ficava um ponto (uma parada) de ônibus em que a maioria das pessoas (que iriam a Belém) esperava o coletivo, isto é, uma parada obrigatória dos usuários e do coletivo.
44 Até o antigo Fim da Linha. Hoje, o fim da linha se localiza ao final da Estrada do Itaquara, na entrada da
Serraria.
forma de observar a vida e não há um encontro sequer em que eles (ou pelo menos um deles) estejam presentes sem que a turma fique em constantes risadas.
Como conhece há muito tempo a minha família, e eu a dele, além de termos convivido durante bastante tempo nas atividades da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Murinin, da qual fui integrante por vários anos, o contato e o diálogo não foram difíceis. Cheguei a sua casa logo após o almoço, momento em que estava se preparando para a “sesta”.
Mesmo assim, não se negou a me atender e a dialogar comigo, desde que deitado em sua rede. Travamos um breve diálogo antes de iniciar a gravação da entrevista, momento em que ele quis saber sobre minha vida, como estavam meus filhos, lembramos de algumas histórias engraçadas, junto com uma de suas filhas, presente na hora da conversa.
Foto 27: Senhor Raimundo Monteiro (Raimundão)