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Cultural Distance Index – single dimension. Source: Kogut and Singh (1988)

Analisados os discursos, é importante deixar clara a inserção da componente climática no contexto ambiental. Uma das primeiras perguntas a serem respondidas é o porquê da necessidade de se preocupar com o clima ao se pensar uma cidade ou um edifício. A primeira razão é a mais óbvia: o corpo humano funciona dentro de certas condições ambientais, com limites de temperatura, umidade, luz, qualidade do ar, etc8. Para um determinado conjunto destas variáveis deverá haver uma resposta biológica, com resultados psicológicos que podem ser de prazer, conforto, desconforto ou estresse. Estas condições afetariam a percepção que o indivíduo tem

8 Há extensa bibliografia discutindo quais seriam estes limites. Para se ter uma idéia, pode-se recorrer às normas ISO 7730:1994 e DE DEAR, BRAGER & COOPER, 2000 (conforto térmico) e NBR 5413:1991 e DIN 5034:1979 (conforto luminoso). Níveis de conforto referentes a usuários do espaço urbano serão tratados no Capítulo 5.

Rafael Silva Brandão

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do espaço à sua volta e, embora este efeito seja difícil de mensurar com precisão, a avaliação de desconforto consiste em um parâmetro objetivo para se medir a qualidade do espaço.

Ao discutir a possibilidade de se estabelecer um conjunto único de regras normativas para lidar com o espaço urbano, Lynch afirma, em relação ao impacto de fatores físicos e sociais na satisfação que o indivíduo sente em relação ao ambiente circundante, que:

Não é possível negar o papel crucial das relações sociais ou do caráter individual na obtenção de satisfação. Tampouco se pode negar o papel de algumas condições físicas extremas [...] Mas à medida que se citam condições mais realistas – falta de sol, frio, espaços de habitação confinados, dificuldade de acesso, falta de vegetação ou água – a objeção à relevância (dos fatores físicos na obtenção da satisfação) acaba se dissolvendo sob os argumentos convincentes. (LYNCH, 1981, p. 99-100, tradução do autor).

Além da influência direta do clima no usuário, efeitos secundários devem ser observados. A tecnologia atual permite adequar ambientes confinados a qualquer condição desejada, através de sistemas artificiais de iluminação e climatização. Isso, porém, demanda gasto energético, quando a edificação não atinge estas condições de maneira natural. Sol, luz, ventos e temperaturas externas tornamKse recursos preciosos, cujo acesso é intermediado pela cidade que circunda e à qual pertence o edifício (BRANDÃO, 2004).

Deste modo, estabeleceKse uma interface entre a questão climática e eficiência energética, na busca pela qualidade ambiental (no caso descrita como conforto térmico e luminoso) de ambientes internos. Goldemberg demonstra que fatores econômicos interferem diretamente no consumo energético de um país. Na América Latina, no período de 1981 a 1991, houve um crescimento de 2,9% ao ano no consumo energético para sustentar um crescimento do PIB de apenas 1,8% ao ano, pois os países em desenvolvimento têm atraído as indústrias com maior demanda de energia (GOLDEMBERG, 2001). Ainda assim é importante ressaltar que o parque edificado brasileiro, distribuído entre os setores industrial, público, residencial e comercial, é responsável por 46% do consumo energético nacional, sendo que os dois últimos setores são os principais responsáveis pelos altos índices de crescimento do consumo (Tabela 2.2) 9.

Setor Consumo (%)

Residencial 22,6

Comercial 14,2

Público 8,8

A Tabela 2.3 indica energia consumida no setor residencial e comercial separa pelo uso final. É possível observar que dos sistemas que mais consomem, dois estão relacionados ao condicionamento térmico e luminoso dos ambientes internos e um terceiro pode ter seu consumo reduzido com o uso de tecnologias solares.

Tabela 2.2: Consumo de eletricidade por setores segundo o Balanço Energético Nacional 9 Elaboração do autor a partir de dados de BRASIL, 2008.

As Interações Espaciais Urbanas e o Clima 45

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Sistema Uso final (%)10, 11

Setor Residencial Setores comercial e

público Iluminação 23 44 Ar condicionado K 20 Refrigeração 32 17 Aquecimento de água 26 K Outros 18 19

No caso do consumo de ar condicionado, a configuração urbana apresenta um impacto duplo. O primeiro através do sombreamento das edificações no meio urbano, o que reduz a carga de condicionamento, mas prejudica a iluminação natural (BRANDÃO, 2004). O segundo é a alteração da temperatura do ar, afetando as trocas por condução e convecção entre os edifícios e o meio externo. Segundo estudos do Heat Island Group (2000) um acréscimo de 1 °C na temperatura máxima nas cidades do sul da Califórnia acarreta um aumento de 400 MW (3%) na energia gasta para o condicionamento. Devido à matriz energética baseada principalmente na produção por termoelétricas, isto aumenta significativamente a poluição do ar, gerando a mistura de umidade e poluição conhecida porsmog.

A conservação energética é uma tendência mundial nascida com o choque do petróleo em 1974, que provocou um súbito aumento dos preços dos combustíveis fósseis. No Brasil, uma das principais medidas tomadas nesse sentido foi a criação, em 1985, do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL). Todavia, só depois de 1994, com a estabilização da moeda, os benefícios da conservação começaram a ficar claros. Dados do PROCEL no ano de 1995 mostraram que para cada real investido na conservação, 8,75 reais deixaram de ser gastos na geração de energia. Outros estudos do órgão apontam para um potencial de conservação de 11% até o ano de 2015.( LEITE, 1997)

As ações do PROCEL, no entanto, estão voltadas principalmente para o aumento na eficiência de equipamentos, havendo um menor número de ações no sentido de tornar melhores as próprias edificações. É possível, a partir de metodologias já desenvolvidas e ainda em estudo, reduzir o consumo energético do edifício com refrigeração, aquecimento e iluminação mantendo, ou mesmo melhorando, as condições de conforto (ALUCCI, 1992). Goldemberg (2001) afirma que, na Suíça, códigos de construção rigorosos reduziram o consumo das edificações para a metade do que era há 20 anos. O autor ainda reforça a importância de se investir na eficiência das novas edificações, especialmente nos países em desenvolvimento, onde ainda há um grande déficit habitacional.

A questão energética apresenta ainda um outro desdobramento climático: o chamado efeito estufa. Emissões de gases poluentes – dentre os quais o mais conhecido é o CO2 – absorvem a radiação

infravermelha emitida pela Terra, dificultando o seu resfriamento. Modelos e estudos feitos a partir de uma avaliação científica do Painel

Tabela 2.3: Usos finais da energia nas edificações (1990) 10 GELLER, H. S.. Efficient electricity use: a development strategy for Brazil. American Council for an Energy-Efficient Economy. Washington, 1990,164 p. apud LAMBERTS, GHISI & PAPST, 2000.

11 O consumo do setor comercial e público foi levantado só para a cidade de São Paulo. O consumo de ar condicionado para edifícios residenciais está incluído na categoria outros. O consumo de água quente para edifícios comerciais e públicos está incluído na categoria outros.

Rafael Silva Brandão

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Intergovernamental Sobre Mudança Climática (IPCC) indicam aumentos de 0,6°C na temperatura média global e que novos aumentos de até 4,5°C seriam possíveis, com aumento resultante de até 80 cm no nível dos oceanos.12 Para controlar estas emissões foi homologado, em 1997, o Protocolo de Kyoto, em que os paises signatários comprometemKse a reduções significativas nas emissões de CO2. Embora o protocolo tenha sido ratificado pela maioria dos

signatários, países importantes como a Austrália e os Estados Unidos relutam em reduzir seus níveis de emissão de aos padrões estabelecidos pelo Protocolo, alegando prejuízos econômicos e ausência de comprovação científica da eficácia da medida.13

No Brasil, a questão de emissões de carbono não é tão relevante, devido à matriz energética do país, onde atualmente mais de 90% da energia elétrica provém de usinas hidrelétricas. Este fato, contudo, não significa isenção total de problemas ambientais e econômicos. Um sistema energético sujeito à influência do regime de chuvas, juntamente com uma desestruturação do setor, levou a um racionamento durante quase todo o ano de 2000. O aproveitamento dos recursos hídricos ainda existentes é visto com reservas, exatamente devido aos impactos ambientais e sociais causados não só pelas represas, mas também pelos reservatórios, o que dificulta a expansão da oferta no ritmo necessário (LEITE, 1997). Tudo isso tem levado a uma tendência de aumento da participação de termoelétricas na matriz energética do país, que juntamente com as emissões feitas por veículos e as queimadas, tornam válidas as preocupações a respeito do tema.

Dentre os modelos de sustentabilidade urbana apresentados por Ascelrad (1999), é possível perceber claramente a afinidade deste discurso com a representação tecnoKmaterial da cidade e com a matriz da busca por uma maior eficiência de fluxos e recursos no meio