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5 Cross-sectional heterogeneity

Para analisarmos os materiais produzidos ao longo do trabalho de campo, consideramos a perspectiva dialógica do discurso, a partir das sugestões do pensamento bakhtiniano, pois entendemos que, para compreender as especificidades discursivas, constitutivas das situações de trabalho é necessário recorrermos aos sujeitos do trabalho (Brait, 2002). Segundo Souza-e-Silva (2002), a atividade de linguagem e atividade de trabalho estão estritamente ligadas, ambas transformando o meio social e permitindo trocas e negociações entre os seres humanos. Os estudos das práticas linguageiras mostram como os trabalhadores realizam suas tarefas e lidam com os imprevistos. Neste sentido, teremos como pano de fundo de nossa análise a atividade linguageira no curso da atividade de trabalho das professoras. Durante a realização das CAPS, procuramos provocar falas e observamos como elas foram produzidas.

Desta forma, entendemos que os comentários das trabalhadoras sobre seu próprio trabalho, no interior de uma cadeia dialógica, como a proposta por Bakthin (2003), representam o principal material de análise deste estudo. A concepção de linguagem do enunciado concreto e dialógico desenvolvido pelo círculo de Bakhtin (2003) leva em consideração a complexidade do ser humano e do seu trabalho, ao considerar a língua como uma atividade concreta de trocas verbais (França, 2007). A língua é, assim, concebida como fruto do trabalho humano de interações entre sujeitos que se dão nas mais diversas esferas da

atividade.

Para Bakhtin (2003), o dialogismo constitutivo da linguagem está presente em cada enunciado, pois a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos. Nesta perspectiva, o papel de análise do pesquisador centra-se nos enunciados concretos, sendo este um participante do diálogo.

A compreensão dos enunciados integrais e das relações dialógicas entre eles é de índole inevitavelmente dialógica, o entendedor se torna participante do diálogo ainda que seja em um nível especial. Um observador não tem posição fora do mundo observado, e sua observação integra como componente o objeto observado (Bakhtin, 2003, p. 332).

Neste caso, o pesquisador é visto em diálogo com o protagonista da atividade de trabalho em análise, sendo ambos os produtores de uma obra-proposta, uma vez que o trabalhador em análise é alguém ativo que desenvolve suas próprias ações (Souza-e-Silva, 2002).

Assim, percebemos que qualquer proposta de pesquisa é, em alguma medida, aberta, pois admite mais de uma interpretação daquele a quem a proposta é apresentada. Podemos esperar o engendramento de múltiplos sentidos, embora não qualquer sentido, porque entendemos que, ao tomar contato com uma proposta de ação, o trabalhador dela faz uso, em um movimento que, em alguma medida, recria a proposta na própria ação, ampliando seu universo de sentido. Trata-se então de um ato cooperativo, de uma relação dialética entre pesquisadores e protagonistas da atividade de trabalho em foco (França, 2007).

Deste modo, por entendermos que o elemento que dá vida ao processo de trabalho é a atividade humana, consideramos que as atividades linguageiras das docentes fornecem uma via de acesso privilegiada à apreensão de seu trabalho. Portanto, a produção discursiva das professoras é atividade (atividade na atividade), mas as palavras do discurso do trabalho não lhe vêm de forma fácil, espontânea e transparente, pelo contrário, há uma grande

dificuldade para falar do trabalho. Enquanto o trabalho prescrito está em relação direta com o linguageiro (manuais, normas, regras escritas e faladas, etc.), o trabalho realizado encontra grande dificuldade de ser colocado em palavras na medida em que se depara com a complexidade do real, o qual as palavras não dão conta de dizer (Schwartz, 2007).

Para Bakthin (1981), compreender é pensar em contexto novo. É um processo ativo, uma forma de diálogo, um processo de compreensão no qual a cada palavra do outro (locutor) fazemos corresponder uma série de palavras nossas (contrapalavras), formando uma réplica.

Entre a compreensão que tem o trabalhador acerca de seu trabalho e o que outros podem ter, existe sempre um hiato, uma diferença de lugares e de valores. E a tarefa do pesquisador é tentar captar algo do modo como trabalhador se vê, para depois assumir plenamente seu lugar exterior e dali configurar o seu ponto de vista de acordo com que o trabalhador vê. Isto significa dizer que uma análise dialógica do discurso exige um processo de exotopia, um desdobramento de olhares a partir de um lugar exterior, lugar que permite que se veja do trabalhador e seu trabalho algo que ele não vê (Brait, 2002). Assim, o pesquisador nunca está livre para impor sua intenção, deve sempre mediá-la através das intenções dos outros, tendo que entrar em diálogo com o outro, a partir de onde seu ponto de vista deve emergir.

Outro elemento importante na análise dialógica do discurso é o transacional, que considera uma relação de textos e contextos, sendo sua apreensão no fluxo da história. Um terceiro elemento é o dialógico, pois a vida é dialógica por natureza. Como nos diz Bakhtin (2003), viver é participar de um diálogo com o corpo inteiro. Sendo a transação linguageira o centro organizador/formador da atividade mental e o modelador/determinador da sua orientação. Assim sendo, o conhecimento acerca do humano só pode ser dialógico (Brait, 2002).

Vygotsky (1998), ao afirmar que um corpo somente se mostra em movimento, sustentava que para estudar o desenvolvimento do sujeito seria preciso utilizar métodos de análise que o confrontasse a uma transformação de sua atividade, no curso da experiência. Com isto não se trata de nos apegarmos simplesmente à experiência vivida, mas de nos distanciarmos dessa experiência a fim de que ela se transforme em um meio de produção de outras experiências.

Deste modo, o desenrolar do diálogo e os movimentos discursivos que observamos, permitiram a co-produção de dados, que dizem respeito simultaneamente às relações entre o diálogo característico entre pesquisador e trabalhador, as áreas de atividade dos trabalhadores e o modo como cada um se identifica e se reconstrói, sob o olhar do outro. Na verdade, o que se encontra em análise é a própria atividade da fala (entendida como sinônimo de atividade de linguagem), conforme Bakhtin:

Um processo de fala, compreendida no sentido amplo como processo de atividade de linguagem tanto exterior quanto interior, é ininterrupto, não tem começo nem fim. A enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites, o discurso interior (1981, p. 125).

Assim, colocar em análise a própria atividade linguageira possibilita, segundo Clot et al. (2001), ampliar o raio de ação dos coletivos profissionais sobre seu contexto de trabalho e sobre eles mesmos. Para Faïta (2002), a análise das práticas linguageiras permite criar um espaço-tempo diferente, a fim de que o movimento dialógico possa se desenvolver, o não dito possa ser dito, as hierarquias deixem de atuar e cada trabalhador possa ultrapassar os limites das normas e regras que o meio lhe impõe. Esse movimento dialógico dificilmente poderia ser vivido no espaço e no tempo real do trabalho.

Deste modo, a perspectiva dialógica do discurso usada neste estudo recorreu a noções e categorias advindas de várias abordagens (Ergonomia da Atividade, Psicodinâmica

do Trabalho, e a Perspectiva Ergológica), para entendermos o trabalho das professoras não apenas enquanto atividade, mas como atividade pertencente à história, o que pressupõe a aceitação de que toda mudança implica um reinvenção local a partir de um patrimônio antecedente (Schwartz, 2000a).

Neste sentido, a nossa preocupação foi detectar o que existe de singularidade nestas situações de trabalho e associar as participantes da pesquisa como produtoras de sua própria experiência e de seu discurso. Ao propormos este modo de produção de saberes, concordamos com Clot (1999) quando este diz que se uma determinada experiência pôde ser transmitida, isso se deu porque houve um desenvolvimento dessa experiência, na medida em que é disponibilizada para outra história distinta daquela que a originou.