No seio do conflito entre os EUA e a URSS, cada potência contava com aliados internacionais que tinham uma posição mais ou menos incondicional. No entanto, os processos de descolonização que a Europa se vê obrigada a concretizar depois da II Guerra, fazem emergir uma série de novos países que, juntando-se a outros mais antigos, procuram uma via alternativa aos dois blocos. Gradualmente, estes países ganharam força numérica na ONU e estavam dispostos a afirmar-se como uma realidade com características próprias.
O regime salazarista estava bem consciente das dificuldades que isto acarretaria. Por exemplo, em agosto de 1947, o embaixador em Washington Pedro Teotónio Pereira, escrevia ao presidente do conselho (citado por: ALEXANDRE, 2017):
Há quinze dias que estou neste país e já tenho aprendido muita coisa.
Vejo, por exemplo, que nas Nações Unidas cada dia ganham mais força estes países novos que necessariamente nos odeiam. Agora é a Síria que preside ao Conselho de Segurança (…).
Não vejo fenómeno mais grave do que a presença em massa desses novos pseudopaíses. É uma Jacquerie em marcha (p.199).
Num artigo no L’Observateur o sociólogo francês Alfred Sauvy (1952) foi o primeiro a teorizar a existência dum terceiro grupo de países mais além da força centrípeta de Washington e Moscovo. Segundo Sauvy “Costumamos falar de dois mundos frente a frente, da sua possível guerra, da sua coexistência etc, esquecemos muitas vezes que existe um terceiro, o mais importante e, em suma, o primeiro na cronologia. Trata-se do conjunto daqueles a que se chama, num estilo Nações Unidas, países sub-desenvolvidos”243. Ao nível de Estados, o grande exemplo para o incremento duma terceira via independente de Moscovo e de Washhington, foi dado pela China quando, em 1957, iniciou um processo de afastamento relativamente à influência soviética. Apesar de que o gigante asiático nunca viria a ser parte do Movimento dos Não Alinhados, na raiz da mudança de atitude frente à URSS, estava a convicção de que cada país deveria procurar a sua própria fórmula política, uma ideia que é a base do terceiro mundismo e, como vimos, também do tipo de nacionalismo que revestiu a revolução peruana.
Segundo Arne Westad (2017), foi o próprio Krushev quem abriu a porta a esta autonomização, quando, no vigésimo congresso soviético, em 1956, criticou o centralismo estalinista e desafiou todos os países a encontrarem a sua própria via para o socialismo (p.241).
Para os líderes do Terceiro Mundo, a Guerra Fria era um sucedâneo do sistema colonial. Era uma tentativa dos europeus de regular e dominar os assuntos dos outros, de lhes dizer como se deveriam
243 “Nous parlos voluntiers des deux mondes en presence, de leur guerre possible, de leur coexistence, etc., oubliant trop souvent qu’il en existe un troisième, le plus
important, et en Somme, le premier dans la chronologie. C’est l’ensamblede ceux qui l’on appelle, en style Naitions Unies, les pays sous-développés”. (Tradução minha)
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comportar e o que deveriam fazer. Ainda que muitos dos novos Estados independentes desconfiassem do capitalismo porque era o sistema que os seus domimadores coloniais lhes tinham tentado impor, na maior parte dos casos não estavam preparados para ver o comunismo soviético como uma alternativa. Parecia-lhes muito regulado, muito absolutista, ou simplesmente muito europeu para Estados pós-coloniais244 (p.262).
Já em 1955, na Conferência de Bandung, a China debateu problemas comuns ao lado dos líderes de 29 países asiáticos e africanos, a maioria dos quais tinham recentemente deixado de ser colónias, se exceptuarmos os casos da própria China, do Egito, Japão, Tailandia e Turquia. Esta conferência é considerada o ponto de partida para as ideias terceiro-mundistas (p.270). Finalmente em 1961, na Jugoslávia, é fundado Movimento dos Não Alinhados, que junta inicialmente 25 países interessados em seguir uma via alternativa à das duas potências da Guerra Fria.
O Peru entrou nesta organização com observador em 1970, como membro em 1973 e a 25 de agosto de 1975 organizou a V Cimeira de Ministros de Relaciones Exteriores do NOAL. O discurso de abertura de Velasco Alvarado seria o seu último como chefe de Estado, já que a 29 dá-se o golpe que o destituiu e o encontro seria encerrado pelo seu sucessor.
A presença de Rosa Coutinho e o destaque que lhe é dado na imprensa peruana, mostra bem que o caso português estava a ser seguido de perto pelos não-alinhados. Como vimos, quando o jornalista peruano Mirko Lauer foi a Portugal em abril de 1975, levava também a missão de contactar o almirante e perguntar-lhe se estaria disponível para participar como convidado. Terá sido ante uma resposta positiva que lhe foi enviado um convite oficial.
A questão terceiro-mundista era, aliás, algo que, de certa forma, unia tanto os militares moderados do Grupo dos Nove, liderado por Melo Antunes, como a sua rival esquerda militar, de Otelo ou Rosa Coutinho. Curiosamente, sabemos muito pouco sobre o impacto que a revolução portuguesa teve na generalidade destes países. A reação em vários países dos blocos da guerra fria está relativamente bem estudada. Este trabalho pretende contribuir para que a reação do terceiro mundo à revolução portuguesa possa ser melhor conhecida. Que a possibilidade de Portugal ser um país não-alinhado gerou grande expetativa no NOAL, não devemos ter dúvidas. Num ofício 7 de novembro de 1974, o embaixador do Peru em Lisboa chegava a relacionar a intensificação das relações entre Portugal e os países árabes, como podendo significar que Lisboa estava interessada em ceder-lhes da Base das Lajes em troca de apoio. Lembremos que, por essa altura, o
244 “To third world leaders the Cold War was na outgrowth of the colonial system. It was an attempt by Europeans to regulate and dominate the affairs of others, to tell
them how to behave and what to do. Even though menay in the newly independent states distrusted capitalism because it eas the system their colonial masters had tried to impose on them, in most cases they were not ready to embrace Soviet-style Communism as an alternative. It seemed far too regimented, too absolutist, or simply too European for postcolonial states”. (Tradução minha)
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nacionalismo pan-arabista de Nasser, falecido quatro anos antes, estava ainda muito vivo, apesar do desaire da Guerra dos seis dias.
Grande parte destes países eram membros do NOAL, e o embaixador não deixa de relacionar esta aproximação com esse fator:
Significará esto que Portugal, sin apartarse de los compromisos internacionales anteriormente asumidos pretende desligarse de la órbitra norteamericana? (…).
La tesis del no alineamiento cuenta con decididos defensores en los diversos círculos políticos lusitanos, inclusive en los medios cercanos al Movimiento de las Fuerzas Armadas (…). Portugal, por las raíces que conservaba en África y, de un modo general en el Tercer Mundo, constituye un centro giratorio ideal para las conexiones entre Europa y los demás continentes.
Por muito fantasiosa que possa parecer a tese de Portugal ceder a Base das Lages aos mesmos árabes que tinham recentemente enfrentado directamente Israel e indirectamente os Estados Unidos, na Guerra de Yom Kippur (outubro de 1973), o facto do embaixador colocar a possibilidade significa que, nas suas conversas com outros diplomatas acreditados em Lisboa, nomeadamente com os dos países não-alinhados, as expetativas estavam altas e esta possibilidade era encarada como séria.