Dentro da perspectiva teórico-metodológica em que nos inserimos, a comunicação midiática constitui-se em um contrato que oferece as condições gerais que uma situação de comunicação midiática particular, como a telenovela das 23h, deve satisfazer. Assim, ao falarmos desse contrato geral, temos que descrever as condições que configuram esse contrato, assim como delinear o que compreendemos como mídia.
Começaremos por este último. O termo mídia abrange, na atualidade, diversas acepções. Um primeiro sentido para o termo “designa os meios (ou o conjunto dos meios) de comunicação: jornais, revistas, TV, rádio, cinema, etc.” (RABAÇA; BARBOSA,
24 Categoria é um conceito utilizado por Aronchi de Souza (2004) para se referir a um modo de organizar
os gêneros televisivos em função das grandes finalidades desse tipo de comunicação: informar, entreter e instruir. Nesse sentido, o autor admite que os gêneros se organizam em cinco categorias: a) entretenimento, b) informação, c) educação, d) publicidade e e) outros. Pelo fato de Aronchi de Souza (2004) postular que as categorias estão relacionadas com as grandes finalidades da comunicação televisual, observamos que há
uma espécie de “afinidade” entre as ideias do autor e as de Lochard e Soulages (1998), nossa base teórica
e metodológica. Esses últimos, como já mencionamos, procuram compreender os gêneros televisivos em função de um jogo de encaixamento de contratos, na qual um contrato determina as restrições do outro contrato. Como os gêneros televisivos, sob a óptica de Lochard e Soulages (1998), são determinados por um macrocontrato que se refere às grandes finalidades da comunicação televisual, achamos adequado utilizar o termo “categoria” (entre aspas), retirado de Aronchi de Souza (2004), para ressaltar essa ideia.
71 1995, p. 401), ou seja, se refere aos meios (suportes) que têm a função de comunicar. Como meios de comunicação, as mídias corresponderiam aos veículos ou canais que têm a capacidade de transmitir mensagens ou mesmo assumir formas que tenham a característica de mensagens, tal como apontam Rabaça e Barbosa (1995).
Outro sentido que se relaciona com o primeiro, mas o insere em uma perspectiva mais social, compreende mídia como um suporte organizacional que se apossa do fenômeno da comunicação – um fenômeno social – e o integra em lógicas diversas, como a econômica, a tecnológica e a simbólica. Esse último sentido foi desenvolvido por Charaudeau (2006a) e diz respeito aos meios de comunicação que assumem o aspecto de uma empresa na medida em que fabricam um produto e o colocam no mercado de bens de consumo (daí a lógica econômica), que se preocupam em expandir a sua difusão e o seu alcance (daí a lógica tecnológica), e que estão engajados na produção de sentido à medida que tais suportes organizacionais constroem a realidade ao manipular signos e matérias linguageiras variadas (daí a lógica simbólica). Nesse sentido, quando falamos de comunicação midiática, estamos nos referindo à comunicação realizada por esses meios ou suportes – para usarmos um termo mais técnico – que estão organizados de tal forma por essas lógicas que a “transmissão de mensagens”, às vezes, fica em um segundo plano.
Sob esse ponto de vista, a finalidade da comunicação midiática se realiza na tensão entre um fazer saber (visada de informação), ou um fazer compreender (visada de explicação), ou um fazer agradar (visada emocional), e um fazer fazer (visada de incitação), visto que tal comunicação produz um determinado objeto de informação, explicação ou entretenimento dentro de uma lógica cívica: informar/explicar/entreter o cidadão e produz “(...) um objeto de consumo segundo uma lógica comercial: captar as massas para sobreviver à concorrência” (CHARAUDEAU, 2006a, p. 86).25 Assim, é na
tensão entre informar/explicar/entreter o público e captar esse mesmo público que as mídias vivem e também sobrevivem.
Em relação às características da comunicação midiática, esta se configura por meio de um aparelho, a que denominamos de aparelho midiático ou máquina midiática
25 Essas informações a respeito da finalidade da comunicação midiática foram extraídas, basicamente, de Discurso das Mídias, de Charaudeau. Esse trabalho trata especificamente do discurso de informação midiática. Logo, todos os apontamentos do autor sobre as mídias estão relacionados com esse discurso. Como nessa seção de nosso capítulo estamos buscando uma descrição geral da comunicação midiática, integramos aos apontamentos de Charaudeau (2006a) aqueles postulados por Lochard e Soulages (1998) que, além do discurso de informação midiática, também tratam de outras práticas discursivas desse domínio de comunicação, tais como as práticas de entretenimento e de explicação.
72 (CHARAUDEAU, 2006a). Tal aparelho constitui-se da inter-relação, por meio de um produto midiático, entre uma instância midiática e uma instância de recepção26.
A instância midiática é responsável por fornecer informações, explicações e/ou entretenimento, visto que seu objetivo é fazer saber, fazer compreender e/ou fazer agradar, bem como por propulsionar o desejo de consumir, uma vez que depende do desejo que ela propulsiona no consumidor para se manter enquanto empresa. Essa mesma instância, para dar conta da complexidade de seus objetivos, desdobra-se em dois conjuntos: a) um externo-externo, composto pelos atores do sistema de produção (incluído diretores, redatores, operadores técnicos, etc., ou seja, os membros
de uma empresa midiática), compreende as condições socioeconômicas da instância midiática enquanto empresa; e b) outro, externo-interno, composto pelo(s) organizador(es) da enunciação, compreende as condições semiológicas de produção. Ambos os conjuntos constituem-se em um universo de práticas linguageiras, nas quais os atores estão engajados na concretização de um projeto comum. Por isso, podemos falar que, na instância midiática, os atores:
(...) contribuem para fabricar uma enunciação aparentemente unitária e homogênea do discurso midiático, uma co-enunciação, cuja intencionalidade (...) corresponde a um projeto comum a esses atores e do qual se pode dizer que representa a ideologia do organismo de informação. (CHARAUDEAU, 2006a, p. 73)
A instância de recepção, por sua vez, é responsável pela manifestação de seu interesse ou prazer em consumir o que a instância midiática produz e comunica. Constitui- se, nesse sentido, no consumidor do discurso produzido pela instância midiática. E, da mesma forma que a instância midiática, a instância de recepção é composta por dois conjuntos: a) um, interno-externo, que se configura como o destinatário-alvo, visualizado pela instância midiática como aquele susceptível de perceber os efeitos de sentido visados por esta última; e b) outro, externo-externo, que se configura como o próprio público, real consumidor do que a instância midiática produz.
Já o produto se apresenta como o lugar em que o discurso se configura como texto. Tal texto é organizado através da combinação de formas linguísticas, icônicas, gráficas e gestuais, que são colocadas no discurso através de procedimentos discursivos diversos.
26 O termo instância evidencia que a quantidade de atores envolvidos, tanto na produção quanto na recepção
do gênero, não é um, ou seja, um locutor, na instância de produção e um interlocutor, na instância de recepção (relação 1/1), mas na verdade vários, que compõem o que Charaudeau (2006a) denomina de entidades compósitas (relação n/n).
73 Ele é também o resultado do ato de linguagem midiático e, por esse motivo, apresenta traços que remetem às condições contratuais na qual ele é produzido.
Como suportes organizacionais que integram suas finalidades em lógicas variadas, as mídias não constituem uma instância de poder, como comumente se afirma. Conforme nos aponta Charaudeau (2006a), para que uma instância seja uma instância de poder, essa deve ter a capacidade de gerir e influenciar – através de meios restritivos, regras de comportamento, normas e sanções – os comportamentos dos indivíduos que vivem em sociedade. As mídias, no entanto, não promulgam nenhuma regra de comportamento, nenhuma norma e nenhuma sanção, o que não quer dizer que elas sejam estranhas aos jogos sociais de poder. Ao contrário, as mídias se declaram como uma instância de denúncia do poder, já que elas têm a pretensão de se definir contra o poder e contra a manipulação.
Existem condições materiais específicas para a realização da comunicação midiática, na medida em que, como aponta Charaudeau (2006a, p. 104), cada situação de comunicação está associada a um dispositivo particular que se constitui como as condições materiais ad hoc de realização do contrato.
Desse modo, o dispositivo corresponde ao quadro e ao ambiente físico da mensagem, articulando elementos de ordem material, mas agenciados e até mesmo localizados conforme uma rede conceitual mais ou menos complexa. Além do mais, esse quadro físico não é indiferente ao que ele veicula, como se fosse um simples meio de transporte; o dispositivo, ao contrário, formata a mensagem conferindo-lhe sentido, visto que mensagem e dispositivo estabelecem entre si uma reciprocidade dialética, conforme nos relata Charaudeau (2006a), que não é possível conceber um sem o outro. Esse mesmo dispositivo articula vários elementos, o material, o suporte e a tecnologia, formando um conjunto estruturado pela solidariedade combinatória que os liga.
Cumpre-nos ressaltar que, para Charaudeau (2006a), o dispositivo material do contrato de comunicação “(...) compreende um ou vários tipos de materiais e se constitui como suporte com o auxílio de uma certa tecnologia.” (p. 105). Logo, o pesquisador francês associa a ideia de dispositivo ao sentido amplo da palavra suporte, ou seja, ao componente do contrato comunicacional que engloba os elementos acima mencionados: o material, o suporte e a tecnologia. Há, desse modo, dois usos do termo suporte: um mais amplo, que se associa à ideia de dispositivo e outro, mais restrito, que possui o sentido de “portador”. De forma a evitar confusões entre esses sentidos, optamos, todavia, em utilizar o termo dispositivo para se referir as condições materiais da troca, e o termo suporte para se referir à manifestação material do ato de linguagem que não é
74 simplesmente um “meio” de transmissão desse ato, mas um elemento que lhe confere sentido, tal como propõe Maingueneau (2004).
No que diz respeito ao material, este informa sobre o(s) sistema(s) significante(s) utilizado(s) na comunicação, incluindo a natureza desse material, bem como as redes significantes que estão em jogo na comunicação. O suporte, tal como o pergaminho, o papel, a tela de vídeo, as ondas sonoras, é o “portador” da mensagem e funciona como um canal de transmissão fixo ou móvel (a depender do suporte). A tecnologia compreende o conjunto da maquinaria que regula a relação entre os elementos do material e do suporte. Ela combina os sistemas semiológicos utilizados na comunicação, localiza esses elementos sobre os suportes e pode ainda ordenar a topologia da comunicação, ou seja, ela pode “(...) ordenar o conjunto dos participantes do ato de comunicação, determinar suas possíveis conexões ou mesmo regular uma parte de suas relações (...).” (CHARAUDEAU, 2006a, p. 106).
Na comunicação midiática, esses componentes permitem distinguir três grandes dispositivos de mídia: a) rádio, também denominado de mídia radiofônica; b) televisão, ou mídia televisiva; e c) imprensa escrita, ou mídia impressa. Embora não mencionada por Charaudeau (2006a), acreditamos que além dessas três mídias há também a internet, uma mídia digital, ao nosso ver.
Como os suportes de mídia determinam e conferem sentido aos produtos midiáticos na medida em que imprimem certos aspectos a seus conteúdos e comandam os usos que deles podemos fazer, a comunicação midiática se especifica de acordo com a mídia em que o produto circula. Nesse sentido, uma notícia veiculada na televisão não tem a mesma configuração que uma notícia veiculada no rádio ou jornal.
Assim, considerando o nosso objeto de estudo – um produto midiático televisivo – faremos na seção a seguir uma descrição da comunicação midiática televisiva, considerando as restrições que tal suporte impõe à comunicação midiática tal como apresentamos aqui.
4.1.2. A comunicação midiática televisiva: o suporte televisivo e os seus contratos