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7.1 CPMG experiment

Segundo Husserl, a intuição plena consiste numa «unidade de preenchimento [Erfüllungseinheit]» em que «o acto da intenção recobre-se [deckt sich] agora com o acto preenchente e assim está com ele fundido do modo mais íntimo (porquanto reste aqui, em geral, ainda algo de diferente)»187, formando-se inclusivamente uma «unidade da identificação [Einheit der Identifizierung]»188. Escreve, exemplificando com a percepção:

aí [na expressão acompanhada de intuição] constitui-se o objecto como “dado” em certos actos, e certamente é-nos dado neles - enquanto a expressão se adequa [anmißt] efectivamente ao que é dado intuitivamente - do mesmo modo em que a significação o visa. (…) Devemos, digo, distinguir de novo nos actos preenchentes entre o conteúdo, isto é, o carácter significativo [Bedeutungsmässigen], por assim dizer, da percepção (formada categorialmente), e o objecto percepcionado. Na unidade de preenchimento “recobre”-se [“deckt” sich] este “conteúdo” preenchente com aquele “conteúdo” intentante, de tal modo que na vivência da unidade de recobrimento o objecto ao mesmo tempo intentado e “dado” está perante nós não duplamente, mas apenas como um.189

Verificamos, desde logo, que as linhas iniciais apresentam uma certa circularidade, fazendo depender a adequação da intuição à intenção da adequação desta em sentido inverso, o que indica a dificuldade de homogeneização entre os actos.

Em segundo lugar, constatamos que o filósofo distingue na unidade de preenchimento entre o conteúdo significativo ou categorial da percepção e o objecto percepcionado, sendo que nessa unidade, enquanto os conteúdos se “recobrem”, o objecto percepcionado aparece «apenas como um»; se transpusermos este esquema para a

187

«(...) sich nun in der Erfüllungseinheit der Akt der Intention mit dem erfüllenden Akte deckt und so in der allerinnigsten Weise mit ihm verschmolzen ist (wofern hier überhaupt noch von Unterschiedenheit etwas übrig ist) (...).» (LU, XIX/1, p.62.)

188

Veja-se Id., p. 58.

189«(…) da konstituiert sich der Gegenstand als “gegebener” in gewissen Akte, und zwar ist er

uns in ihnen - wofern sich der Ausdruck dem anschaulichen Gegebenen wirklich anmißt - in derselben Weise gegeben, in welcher ihn die Bedeutung meint. (...) Wir müssen, sage ich, in den erfüllenden Akten abermals unterscheiden zwischen dem Inhalt, das ist dem sozusagen Bedeutungsmäßigen der (kategorial geformten) Wahrnehmung, und dem wahrgenommenen

Gegenstande. In der Erfüllungseinheit “deckt” sich dieser erfüllende mit jenem intendierenden

“Inhalt”, so daß uns im Erleben der Deckungseinheit der zugleich intendierte und “gegebene” Gegenstand nicht doppelt, sondern nur als einer gegenübersteht.» (Id.,pp. 56-57 - os parênteses rectos são nossos.) Cf. Id., pp. 45, 56-58 e 61-62.

representação directa das significações gerais, podemos dizer que na unidade de preenchimento entre a intenção e a intuição os conteúdos significativos também se recobrem de tal modo que o objecto, neste caso a unidade ideal, é representado apenas como um, traçando-se assim a distinção entre a significação enquanto representação e a unidade ideal enquanto representada; de qualquer modo, é no plano conjunto da essência significativa e do objecto, e não no dos actos, que Husserl situa propriamente a consciência ou vivência de identidade: «(…) Na perspectiva objectal, falamos aqui também de unidade de identidade. (…) aquilo que caracterizamos fenomenologicamente, no que respeita aos actos, como preenchimento, deve exprimir-se, no que respeita aos objectos de ambos os lados, ao objecto intuído de um lado, e ao objecto visado de outro, como vivência de identidade, consciência de identidade, acto da identificação (…).»190

Para além de distinguir entre a unidade de preenchimento dos actos e a unidade de recobrimento dos conteúdos de significação, Husserl distingue ainda expressamente entre uma unidade dinâmica e uma unidade estática, a qual designa também de unidade de conhecimento ou de classificação. Enquanto que na primeira a intenção começa por ser simplesmente simbólica e anterior à intuição, tratando-se de uma unidade distendida no tempo, na segunda, que desta resulta, elas encontram-se num recobrimento temporal (zeitliche Deckung): «(…) Na relação dinâmica, os seus membros [os actos intencional e preenchente] e o acto de conhecimento que os relaciona estão temporalmente distendidos e separados, eles desenvolvem-se numa forma temporal. Na relação estática, que aí se encontra como resultado permanente deste processo temporal, eles estão em recobrimento temporal e cousal [sachlicher].»191 Como vemos, para Husserl ele mesmo o recobrimento dos actos e a consciência da identidade dos conteúdos implica necessariamente o recobrimento temporal, o que é ainda atestado na citação seguinte, na qual, tendo chegado a confrontar-se com a possibilidade da inexistência da intenção no acto intuitivo, caso em que subsistiria apenas a expressão, afirmará não só a sua presença, como a sua unidade fundida com ele:

190

«In gegenständlicher Hinsicht sprechen wir hier auch von Identitätseinheit. (…) was wir phänomenologisch, mit Beziehung auf die Akte, als Erfüllung charakterisieren, ist mit Beziehung auf die beiderseitigen Objekte, auf das angeschaute Objekt einerseits und das gedachte Objekt andererseits, als Identitätserlebnis, Identitätsbewußtsein, Akt der Identifizierung auszudrücken (…).» (LU, XIX/2, p. 568.)

191 «(…) Im dynamischen Verhältnis sind die Verhältnisglieder und der sie beziehende

Erkenntnisakt zeitlich auseinandergezogen, sie entfalten sich in einer Zeitgestalt. Im statischen Verhältnis, das als bleibendes Ergebnis dieses zeitlichen Vorganges dasteht, sind sie in zeitlicher und sachlicher Deckung..» (Id., p. 567 - o parêntese recto é nosso.) Veja-se Id., pp. 558-570.

Reside já, porém, no conceito de uma unidade de recobrimento que nela não se trata de uma dualidade de afastamento [auseinandertretende] mas de uma unidade não repartida [ungeschiedene] em si, que só através da deslocação no tempo se divide. Assim, deveremos dizer: o mesmo acto da intenção de significação que constituía a representação simbólica vazia habita também o acto de conhecimento complexo; mas a intenção de significação, que antes era “livre”, encontra-se no estádio do recobrimento “ligada”, trazida à “indiferença”. Ela está tão entretecida ou fundida nesta complexão que a sua essência de carácter significativo [bedeutungsmässiges] não sofre, decerto, com isso, mas o seu cerácter experiencia, de certo modo, uma modificação.192

Para o filósofo alemão, as diferenças registáveis entre a intenção e a intuição na unidade de recobrimento verificam-se apenas na situação dinâmica, mais ainda, dentro desta somente no domínio dos actos, na passagem da intenção de significação do registo simbólico para o registo intuitivo, nunca no domínio dos conteúdos de significação. O autor mantém-se, portanto, coerente com a sua posição geral sobre a autonomia do conteúdo da significação relativamente ao conteúdo estrito do acto, pois a diferença no carácter deste não afectaria, na transição referida, a identidade daquele.

Todavia, com o recobrimento dos conteúdos significativos encontramo-nos apenas numa etapa intermédia na tentativa de constituição da identidade ideal, pois esta só se completa numa intuição categorial da relação identitativa.

Segundo o professor de Friburgo, a identidade da significação não se constitui simplesmente com base no preenchimento da intenção pela intuição e no recobrimento dos respectivos factores significativo-objectais, quer dizer, em todo o caso, com base numa mera vivência ou consciência da identidade, mas também num acto intencional que a visa e objectaliza. Reportando-se à insuficiência do modo da identificação na unidade de recobrimento, afirma: «(…) o elemento principal [Hauptstück] deste acto [do acto completo de identificação], o momento da unificação que liga a intenção de significação e a correspondente intuição está, decerto, presente de modo reico [reell]; mas este

192

«Es liegt aber schon im Begriff einer Deckungseinheit, daß es sich hier nicht um eine auseinandertretende Zweiheit handelt, sondern um eine in sich ungeschiedene Einheit, die sich erst durch Verschiebung in der Zeit gliedert. Also werden wir sagen müssen: der gleiche Akt der Bedeutungsintention, der das leere symbolische Vorstellung ausmachte, wohnt auch dem komplexen Erkenntnisakte ein; aber die Bedeutungsintention, die früher eine “freie” war, ist im Stadium der Deckung “gebunden”, zur “Indifferenz” gebracht. Sie ist dieser Komplexion so eigentümlich eingewoben oder eingeschmolzen, daß ihr bedeutungsmäßiges Wesen darunter zwar nicht leidet, aber ihr Charakter in gewisser Weise doch eine Modifikation erfährt.» (Id., p. 571.) Cf. Id., pp. 570-572.

momento de unidade não funciona como “representante” [“Repräsentant”] de uma “apreensão” objectivante; a unidade de recobrimento vivida não fundamenta nenhum acto de identificação relacional, nenhuma consciência intencional de identidade, na qual a identidade como unidade visada se nos torna antes de tudo objectal.»193 Tal «consciência intencional de identidade» consuma-se apenas num acto reflexivo de nível superior, o acto categorial da identificação, o qual, ainda que fundando-se nos actos intentante e preenchente, não incide, mesmo na intuição adequada, directamente sobre eles, mas sobre os seus objectos e a respectiva significação: «(…) o momento da síntese não estabelece nenhuma ligação directa dos representantes [Repräsentanten - os conteúdos sensíveis “externos” ou primários que representam o sentido de apreensão] pertencentes aos actos fundadores (…) O momento categorial do acto fundado sinteticamente não liga estes elementos extra-essenciais dos actos fundadores, mas o seu essencial de ambos os lados; ele liga sob todas as circunstâncias as suas matérias intencionais e funda-se nelas no sentido verdadeiro. (…) a formação categorial funda-se fenomenologicamente no geral do acto objectivante. (…) liga directamente as essências intencionais.»194

Já na continuação do texto da Primeira Investigação citado no início deste ponto, que se referia ao âmbito da percepção, se situava a identidade do conteúdo na apreensão ideal das essências dos actos intentante e preenchente: «Tal como a apreensão ideal da essência intencional do acto que confere a significação nos fornece a significação intentante enquanto ideia, assim fornece a apreensão ideal da essência correlativa do acto que preenche a significação a significação preenchente, igualmente enquanto ideia. É isto o conteúdo idêntico na percepção, que pertence à totalidade de actos de percepção possíveis que visam o mesmo objecto, e decerto efectivamente como o mesmo, de modo

193 «(…) das Hauptstück dieses Aktes, das Moment der verknüpfenden Einigung von

Bedeutugsintention und korrespondierender Anschauung sei zwar reell vorhanden; aber dieses Einheitsmoment fungiere nicht als “Repräsentant” einer objectivierenden “Auffassung”; die erlebte Deckungseinheit begründe keinen Akt beziehenden Identifizierens, kein intentionales Bewußtsein von Identität, in welchem uns die Identität als gemeinte Einheit allererst gegenständlich werde.» (LU, XIX/2, p. 569 - os parênteses são nossos.) Cf. Id., pp. 569-570.

194 «(…) das Moment der Synthesis keinerlei direkte Verbindung der zu den Grundakten

gehörigen Repräsentanten herstellt (…) Nicht diese außerwesentlichen Elemente der

fundierenden Akte verknüpft das kategoriale Moment des synthetisch fundierten Aktes, sondern ihr beiderseitig Wesentliches; es verknüpft unter allen Umständen ihre intentionalen Materien und ist in ihnen im wahren Sinne fundiert. (…) die kategoriale Formung phänomenologisch in dem Allgemeinen des objektivierenden Aktes fundiert (…) ist. (…) verknüpft direkt die intentionalen Wesen.» (Id., pp. 702 e 704 - o parêntese é nosso.) Cf. Id., pp. 701-705.

Sobre a possibilidade da intuição categorial, o seu estatuto de acto fundado e o seu correlato objectivo, veja-se, em geral, Id., pp. 657-685; acerca dos conteúdos sensíveis como representantes, pp. 694-698.

perceptivo.»195 No entanto, para o autor é próprio dos actos categoriais realizarem-se por fases de objectivação: «É essencial a estes actos, nos quais todo o intelectual se constitui, realizarem-se em fases; objectivações realizam-se sobre o fundamento de objectivações e constituem objectos que, como objectos em sentido mais alargado, intelectual, como objectos de ordem mais elevada, só podem aparecer em tais actos fundados.»196 Deste modo, a significação categorial encontra-se no nível superior das fases de objectivação, consistindo no correlato de uma síntese expressa de identificação entre a significação intentante e a significação preenchente, elas mesmas possuindo já um determinado grau de objectividade no nível do recobrimento. Se tomarmos como referência o princípio clássico da identidade: „A é A‟, podemos dizer que um dos membros corresponde à significação intentante e o outro à significação preenchente, enquanto que a relação estabelecida pela cópula corresponderá à significação categorial sintético-identitativa.

A intuição categorial apresenta, do ponto de vista da constituição temporal, duas diferenças vantajosas fundamentais relativamente ao nível anterior: por um lado, trata-se inequivocamente de um único acto, o que permite pensar em ultrapassar a dificuldade, que apesar de tudo Husserl não reconhece, na afirmação do recobrimento temporal entre a intenção e a intuição; por outro lado, e mais importante, o acto categorial incidiria já apenas sobre o conteúdo objectivo da significação, distanciando-se das singularidades ligadas aos actos e acedendo alegadamente ao patamar último da idealidade; podemos dizer que seria precisamente no momento categorial que se representaria verdadeiramente o que o autor entende como unidade ideal da significação, a qual será, segundo ele, o fundamento da relação de identidade entre os conteúdos da significação intentante e da significação preenchente; na fase do mero recobrimento não se teria ainda a intuição adequada da unidade ideal da significação enquanto objecto ou conceito.

195

«Wie die ideale Fassung des intentionalen Wesens des bedeutungverleihenden Aktes uns die

intendierende Bedeutung als Idee ergibt, so ergibt die ideale Fassung des korrelativen Wesens

des bedeutungerfüllenden Aktes eben die erfüllende Bedeutung, glaichfalls als Idee. Es ist dies bei der Wahrnehmung der identische Inhalt, der zu der Gesamtheit möglicher Wahrnehmungsakte gehört, die denselben Gegenstand, und zwar wirklich als denselben, in wahrnehmender Weise meinen.» (LU, XIX/1,p. 57.)

196

«Es ist diesen Akten, in welchen alles intellektuelle sich konstituiert, wesentlich, sich in Stufen zu vollziehen; Objektivationen vollziehen sich auf Grund von Objektivationen und konstituieren Gegenstände, die als Gegenstände im erweiterten, intellektuellen Sinne, als Gegenstände höherer Ordnung, nur in solchen fundierten Akten erscheinen können.» (LU, XIX/2, p. 705.)

Cf., sobre o carácter reflexivo, abstractivo e objectivante do acto categorial sintético, Id., pp. 702-709, esp. pp. 705 e 707-709; sobre a constituição dos objectos gerais e categoriais por mera síntese de abstracção, Id., pp. 690-693.

Transitamos para a teoria da temporalidade do autor e a respectiva crítica por Derrida, de modo a que, no último momento, tratemos globalmente a crítica deste à teoria husserliana da constituição da identidade ideal.