7. Results
7.4 T1-T2 correlation
Efectivamente, para o autor d‟A gramatologia as noções de „auto-afecção pura‟ e „temporalidade‟, como vimos no âmbito da temática da intuição, implicam uma não- -presença e uma diferença irredutíveis na presença. Tal como a temporalização do sentido era considerada ser já sempre um espaçamento, em função do qual a idealidade da significação se encontrava “precedida” e internamente ligada com a diferença empírica, também a temporalidade da voz é já sempre uma queda no espaço e no mundo: «Se (…) a pura interioridade da auto-afecção fónica supunha a natureza puramente temporal do processo “expressivo”, vê-se que o tema de uma pura interioridade da fala ou do “ouvir- -se-falar” é radicalmente contradito pelo “tempo” ele mesmo. (…) O ouvir-se-falar não é a interioridade de um interior fechado sobre si, ele é a abertura irredutível no interior, o
245«C‟est à la condition de cette proximité absolue du signifiant au signifié, et de son effacement
dans la présence immédiate que Husserl pourra précisément considérer le médium de l‟expression comme “improductif” et “réfléchissant”. C‟est aussi à cette condition qu‟il pourra, paradoxalement, le réduire sans dommage et affirmer qu‟il existe une couche pré-expressive du sens.» (Id., p, 90.)
Sobre a não produtividade e o carácter reflectinte (widerspiegeln) do estrato noético- -noemático expressivo-linguístico, o qual se limitaria a reproduzir (abbilden) na forma (Form) propriamente conceptual (einbilden) o conteúdo e a forma (Form) do estrato noético-noemático pré-expressivo, veja-se IPI, pp. 284-291; tb. Derrida, “La forme et le vouloir-dire…”, in Marges
olho e o mundo na fala. A redução fenomenológica é uma cena.»246 Todavia, a voz só pode ser essa abertura ao espaço e ao mundo na medida em que, de acordo com o que se considerou no primeiro capítulo, ela se encontra irredutivelmente unida à phonè sensível; é enquanto tal unidade que a voz é inclusivamente a condição de possibilidade da distinção entre o mundano e o transcendental: «(…) sem ela nenhum mundo apareceria como tal. Porque ela supõe na sua profundidade a unidade do som (que é no mundo) e da phonè (no sentido fenomenológico). Uma ciência “mundana” objectiva não pode, certamente, ensinar-nos nada sobre a essência da voz. Mas a unidade do som e da voz, o que permite a esta produzir-se no mundo como auto-afecção pura, é a única instância que escapa à distinção entre a intra-mundanidade e a transcendentalidade; e que ao mesmo tempo a torna possível.»247
Enquanto possibilitadora e mediadora entre o transcendental e o mundano, a voz não poderá ser pensada como um estrato que se acrescenta quer à idealidade quer à diferenciação empírica, mas encontra-se com elas num «entrelaçamento originário», no qual, contudo, não deixa de se constituir como aquilo que Derrida designa por «suplemento de origem», visto que «(…) a sua adição vem suprir uma carência [manque], uma não-presença a si originária.»248 E a voz é apenas o “começo” ou a “primeira” instância da suplementaridade, disseminando-se esta da voz ao som e, como aprofundaremos no ponto seguinte, do som à escrita: «(…) se a indicação, por exemplo a escrita no sentido corrente, deve necessariamente “juntar-se” à fala para consumar a constituição do objecto ideal, se a fala devia “juntar-se” à identidade pensada do objecto, é que a “presença” do sentido e da fala tinha já começado a faltar-se [se manquer] a si mesma.»249 Este reenvio contínuo da suplementaridade implica que o suprimento da
246 «Si (…) la pure intériorité de l‟auto-affection phonique supposait la nature purement
temporelle du processus “expressif”, on voit que le thème d‟une pure intériorité de la parole ou du “s‟entendre-parler” est radicalement contredit par le “temps” lui-même. (…) Le s‟entendre-parler n‟est pas l‟intériorité d‟un dedans clos sur soi, il est l‟ouverture irréductible dans le dedans, l‟oeil et le monde dans la parole. La réduction phénoménologique est une scène.» (VP, p. 96.)
247«(…) sans elle aucun monde n‟apparaîtrait comme tel. Car elle suppose dans sa profondeur
l‟unité du son (qui est dans le monde) et de la phonè (au sens phénoménologique). Une science “mondaine” objective ne peut certes rien nous apprendre sur l‟essence de la voix. Mais l‟unité du son et de la voix, ce qui permet à celle-ci de se produire dans le monde comme auto-affection pure, est l‟unique instance qui échappe à la distinction entre l‟intra-mondanité et la transcendantalité; et qui du même coup la rend possible.» (Ibid..) Veja-se Id., pp. 90-96.
248«(…) leur addition vient suppléer un manque, une non-présence à soi originaire.» (Id., p. 97.) 249«(…) si l‟indication, par exemple l‟écriture au sens courant, doit nécessairement “s‟ajouter” à
la parole pour achever la constitution de l‟objet idéal, si la parole devait “s‟ajouter” à l‟identité pensée de l‟objet, c‟est que la “présence” du sens et de la parole avait déjà commencé à se manquer à elle-même.» (Ibid..)
não-presença se dá como a sua própria diferição e diferenciação, correspondendo à diferança (différance) ela mesma: «Assim entendida, a suplementaridade é bem a diferança, a operação do diferir que, ao mesmo tempo, fissura e retarda a presença, submetendo-a simultaneamente à divisão e à dilação originárias. A diferança deve ser pensada antes da separação entre o diferir como dilação e o diferir como trabalho activo da diferença.»250
Compreendida desta dupla maneira, podemos dizer que a função de suplementaridade da linguagem consiste no suprimento da carência da presença quer quanto à pureza do presente quer quanto à infinitização da repetição, suprimento que, como vimos, fracassa, justamente porque nunca consegue ultrapassar a diferenciação no presente e a diferição da presença. Se para Derrida os factores do presente puro e da possibilidade da repetição infinita são essenciais à definição da idealidade, compreendemos mais uma vez como para ele a linguagem é uma condição fundamental na tentativa da sua constituição: o „é‟ linguístico da intuição categorial procura precisamente quer fixar o presente, quer afirmar a possibilidade infinita da repetição, mas não consegue consumá-lo de modo puro, visto que a sua fenomenalidade é internamente inseparável de um elemento fónico sensível, o qual se integra de forma proeminente num processo de diferança que engloba quer uma divisão temporal que comunica com a espacialidade e a diferença empírica, quer uma diferição que comunica com o inconsciente e com a morte.
Esta unidade interna, aparentemente paradoxal, entre o presente e a sua divisão, o infinito e a sua dilação, em que um suplemento de presença se ultrapassa continuamente na sua própria diferição, em que, como se disse no ponto 3 do capítulo I, tudo começa por uma presentificação ou re-presentação que, contudo, não pode ser pensada como posterior a uma presença originária, devendo-se portanto «rasurar» o „re-„ de „re-presentação‟, tal situação de diferança, que dificilmente se consegue exprimir adequadamente com os recursos semânticos disponíveis, é, «bem entendido, (…) impensável a partir da consciência, quer dizer da presença, ou simplesmente do seu contrário, a ausência ou a não-consciência. Impensável também como a simples complicação homogénea de um diagrama ou de uma linha do tempo, como “sucessão” complexa. A diferença suplementar substitui [vicarie] a presença na sua falta [manque]
250«Ainsi entendue, la supplémentarité est bien la différance, l‟opération du différer qui, à la fois,
fissure et retarde la présence, la soumettant du même coup à la division et au délai originaires. La différance est à penser avant la séparation entre le différer comme délai et le différer comme travail actif de la différence.» (VP, p. 98.) Cf. Id., pp. 97-99.
originária a si mesma.»251 O que quer dizer que a diferança não acompanha ou sobrevém a um presente simples como uma complexificação ou densificação que não colocariam em causa a primazia de uma impressão constituinte numa sucessão, mas sim que ela é a própria condição de possibilidade da impressão, da presença e da consciência. É exactamente devido à inerência da suplementaridade da voz à presença que Derrida, para além de não subscrever, como acompanhámos, a tese defendida nas Investigações lógicas de uma mera sobreposição da facticidade da voz à idealidade expressiva e significativa em sentido amplo, também não subscreve a que é desenvolvida em Ideias I, segundo a qual a própria esfera expressivo-significativa é improdutiva e apenas reflecte um sentido pré-expressivo. Na crítica a esta última posição, o autor afirma que a interferência da linguagem no sentido supostamente pré-linguístico dá-se não apenas pelo elemento estritamente sensível do signo mas também pelo plano que na linguagem se encontra mais próximo do sentido, enquanto este último engloba a história e a sedimentação dos conceitos «tais como estão já inscritos unicamente no querer-dizer, supondo que se possa separá-lo da história da língua e dos significantes (…).»252