A aula de português seria então um exercício contínuo de descrição e análise desse instrumento de comunicação. Para isso, várias estratégias podem ser utilizadas, entre elas, a de levar o aluno a reconhecer a variação inerente à língua que faz com que cada grupo social possua sua própria variedade, mas ao mesmo tempo seja capaz de conviver com todas as outras. Callou, 2009: 27.
Analisar dados produzidos em sala de aula é uma atividade que provoca reflexão sobre a prática docente e gera o desejo de tentar solucionar os pontos críticos encontrados. Quando se faz uma análise de erros, isso se potencializa; por essa razão aqui serão propostas algumas intervenções didáticas baseadas nos resultados apresentados e discutidos no capítulo anterior. Algumas das propostas foram aplicadas aos alunos investigados neste trabalho; assim, seus resultados serão também mostrados aqui.
Os documentos oficiais abordados no Capítulo 2 indicam que o ensino de Língua Portuguesa deve se pautar na dinâmica Uso Reflexão Uso, em que a língua usada pelo aluno passa por uma reflexão a partir da análise linguística e retorna ao uso pelo aluno. Esse uso pressupõe comunicação, interação, e redações escolares tradicionais, por exemplo.
É importante frisar que, quando se trata de língua escrita, não há como deixar de considerar o uso da norma padrão. O livro didático adotado pela Escola Internacional aborda essa questão logo em seu primeiro capítulo, pois o aluno precisa saber que ela existe e porque ela existe e que, diariamente, os próprios estudantes a utilizam. É comum encontrar docentes enfatizando que o ensino de gramática não é útil aos alunos, mas esta pesquisa demonstra que, em alguns casos, é necessário haver o ensino, por exemplo, de regras de pontuação. Quando se usa a língua portuguesa em uma interação, usa-se a norma padrão, em alguma medida. Não se pode negar que até os mais eruditos, em alguns momentos, podem acabar cometendo algum desvio no uso dessa norma, mas não há como negar sua existência, tampouco a necessidade de se ensiná-la.
Acredita-se, sobretudo após a análise dos dados, que o problema não é a norma, mas, sim, como ela é trabalhada em sala de aula. Pouco eficiente em sala de aula é usar a metalinguagem, é trabalhar a língua de forma descontextualizada, é expor o aluno a um conteúdo, sem enfocar a importância desse conhecimento para a vida cotidiana. Da mesma maneira, é pouco eficiente apontar os desvios que o aluno comete em relação à norma padrão, condená-los e não realizar um trabalho para que esses erros sejam menos recorrentes.
A proposta dos PCN vige desde 1998, e os dados demonstraram que a efetividade das práticas definidas é questionável, já que o uso da língua, mesmo após o processo de reflexão,
não é o esperado. Assim, é importante pensar em adaptações do modelo proposto pelos PCN e reafirmado pela BNCC para que resultados efetivos possam emergir.
A teoria que fundamenta esta pesquisa (UBL) defende que a gramática de uma língua é organizada cognitivamente a partir da experiência do falante com a linguagem. Assim, pode-se compreender que, se o aluno tem experiências frequentes com a língua portuguesa escrita padrão, que é a enfocada na escola, essas poderão gerar um efeito positivo cognitivamente. Esse efeito positivo poderia ser a aquisição de estruturas próprias do texto escrito sem parecer artificial para o aluno, que tem a fala como sua língua de referência.
Bybee (2005) ensina que a frequência de uso das construções linguísticas, sobretudo as mais complexas, tem impacto em sua representação. Isso, para a linguista, fica evidente nas convenções de fala, naquilo que o falante reconhece como natural ou não em sua língua. Um exemplo disso são as gírias. Se certa palavra é utilizada por um grupo de fala, ela apresenta alta frequência de uso e, portanto, é reconhecida pelos falantes pertencentes àquela comunidade. Contudo, a mesma palavra pode causar estranhamento a um falante externo àquele grupo, simplesmente por não lhe ser familiar, ou seja, ter baixa, ou nenhuma, frequência de uso daquele termo. Vale ressaltar que o exemplo dado toma como base que os falantes mencionados tenham a mesma língua materna, e apenas pertençam a grupos de falas distintos.
Com base nesses pressupostos, acredita-se que à escola não cabe promover apenas a reflexão sobre o uso da língua, mas sim intervir sistematicamente sobre ele. Dessa forma, parte- se da língua em uso pelos alunos, sobretudo na oralidade, passa-se por uma reflexão daquele uso, comparando-o com padrões de uso de alto nível, o professor intervém nesse uso por meio de atividades que evidenciem as diferenças entre o que o aluno produz e o que se espera dele, e, por fim, parte-se para o uso da língua, que, com base nas interferências do professor, deverá estar mais próxima à língua padrão, própria da escola. Assim, propõe-se uma adaptação ao fluxo apresentado nos PCN e na BNCC, para Uso Reflexão Intervenção Docente Uso Incrementado. O esquema a seguir ilustra a proposta.
Figura 46 ─ Uso, Reflexão, Intervenção, Uso. Esquema.
A premissa inicial da representação proposta na figura apresentada é que a gramática de uma língua, independentemente de ser considerada como materna ou estrangeira, se consolida, se solidifica no uso, em um movimento cíclico. Na primeira representação da figura, tem-se a relação defendida por Bybee (2005), já mencionada, de que a frequência de uso colabora para a consolidação da gramática. Assim, um indivíduo que é exposto ao uso da estrutura ‘Nós gosta de jogá bola’, como motivação, armazena esse conhecimento e passa a usá-la em sua interação. No uso, esse indivíduo começa a testar hipóteses a partir dessa estrutura, e produz, então, ‘Nós gosta de cantá’, ‘Nós vai estudá’, entre outras possibilidades. Com o tempo de uso, essa estrutura vai se consolidando com a forma padrão. Quando ele chega à escola e a professora ensina, via análise linguística ou ensino tradicional, que o correto é usar a estrutura “Nós gostamos de jogar bola”, essa não tem sentido. Além disso, ela é usada com uma frequência baixíssima pelo o aluno, provavelmente restrito ao ambiente escolar e aos textos escritos para aulas de Língua Portuguesa. Como o indivíduo não usa a estrutura tida como padrão escolar, essa não tem impacto em sua representação, e, assim, o conteúdo relativo à concordância verbal e (ou) conjugação verbal é apenas algo que deve ser estudado para a prova.
A segunda representação na figura faz menção à escola e ao papel do professor de Língua Portuguesa. Assume-se, então, o uso como elemento central na representação da estrutura, por isso é no uso que o professor deve agir. O docente identifica o ponto a ser trabalhado no uso da linguagem pelo aluno, promove a reflexão sobre ele, via análise linguística, e intervém na maneira de se usar tal estrutura. Essa intervenção se dá por meio de
ações que incrementem o uso textual (linguístico) do aluno, com criação de condições para a utilização da estrutura que se quer aprimorar no aluno. Com isso, amplia-se a frequência de uso, o que possibilitará, que a estrutura, até então utilizada, seja reconfigurada cognitivamente.
No contexto em que a pesquisa foi desenvolvida, ampliar as condições de uso foi possível através das novas tecnologias de informação e comunicação que estavam, naquela escola, presentes em sala de aula. A implementação de redes sociais educacionais para fins didáticos e de aplicativos, também com esses fins, proporcionaram a expansão do contexto de uso da língua escrita tida como padrão pela escola e também da interação entre alunos, entre si, e com a professora de Língua Portuguesa. Assim, serão apresentadas propostas de intervenção para promover a reconfiguração de uso da língua pelos alunos, com base em problemas identificados na análise de dados, acerca dos erros dos alunos.