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Depois da II Grande Guerra verificou-se uma mudança na forma como as organizações e a sua gestão passaram a ser encaradas. Sob a influência da bio-psicologia (Hatch, 2005), em particular Ludwing von Bertalanffy, as organizações deixaram de ser vistas como sistemas fechados, para serem entendidas como organismos abertos que sofrem os impactos das alterações sociais, políticas, económicas e culturais.

Para Cunha et al,. (2007), as primeiras abordagens de estudo das organizações centravam-se numa pequena parcela da realidade organizacional, fosse o processo produtivo, a componente administrativa, ou a compatibilização dos objectivos organizacionais com os objectivos do elemento humano. Estas abordagens pressupunham um processo de gestão que ignorava a envolvente. Os progressos que surgiram depois da II Grande Guerra, e que implicaram a abertura dos processos de gestão das organizações à envolvente externa, foram feitos a partir de duas grandes abordagens: as teoria sistémicas e as teorias contingenciais, procurando ambas compreender a organização como um sistema complexo e a suas relações com o meio ambiente (Cunha et al., 2007).

A visão sistémica e psicológica das organizações, que teve como grandes teóricos Danel Katz e Robert L. Kahn, com “The Social Psychology of Organizations”, entende a organização como um sistema aberto e numa relação estreita de dependência com o meio circundante, como qualquer outro sistema vivo. Uma relação que se traduz em “inputs” (de

energia, de recursos, de matérias primas e informação) e de “outputs” (de produtos ou serviços). Uma organização homeostática em permanente procura de equilíbrio do sistema (Ferreira et al., 2001; Cunha et al., 2007)

Ainda enquadrada no conceito sistémico, Eric Trist é responsável pela perspectiva “sóciotécnica”. Este autor introduziu a ideia da organização do trabalho ser baseada em decisões e participações grupais, interdependentes, sem supervisão externa, uma vez que as relações entre trabalhadores se baseiam na cooperação e na solidariedade. As organizações para obterem eficiência deveriam centrar-se mais no trabalho do grupo do que no trabalho individual, que valoriza a especialização e a competição individual (Cunha et al., 2007). Os teóricos desta visão entendiam a coesão e a integração com sendo fundamentais para atingir os objectivos grupais e organizacionais, onde a comunicação e interacção eram nucleares para a satisfação e a motivação no trabalho. O trabalho que era, por sua vez, entendido como uma actividade humana e social, que assentava na responsabilidade e na criatividade para a motivação e a identificação em relação ao trabalho, elementos que os gestores não poderiam ignorar (Ferreira et al., 2001, Cunha et al., 2007).

Esta visão de uma organização como um sistema tendencialmente aberto veio introduzir um conjunto de novos e importantes conceitos, como a importância da troca permanente do interior com o seu exterior, obrigando a análises integradas do ponto de vista interno versus externo. Se as visões clássicas foram elaboradas tendo como pano de fundo os ideais de engenharia, economia e sociologia, segundo Hatch (2005) as chamadas abordagens sistémicas integram os ideais das chamadas correntes modernistas que, focadas na racionalidade, procuram estar orientadas para as novas realidades que exigiam aceitação e adaptação aos contextos mais diversificados onde as organizações actuavam.

Orientados pelo conceito de modernidade, os modelos organizacionais baseavam-se numa lógica de criação de riqueza, geradora de bem-estar para as pessoas, satisfazendo as suas necessidades, sem grandes preocupações com os efeitos perversos que poderiam ter na sociedade, numa lógica de que os recursos eram inesgotáveis (Mendes & Pereira, 2006). Mas as mudanças sociais verificadas a partir da segunda metade do século XX vieram questionar esta perspectiva. Se as teorias sistémicas tiveram o mérito de despertar a gestão organizacional para a envolvente externa, as chamadas teorias contingenciais vieram colocar um outro enfoque nessa envolvente dizendo que tudo depende dela. Desenvolvidas a partir da década de 1960, as principais referências desta abordagem são P.R. Lawrence e J.W.

Lorsch (Cunha et al., 2007). Estes autores chamaram a atenção para a necessidade de as organizações utilizarem dois importantes mecanismos de adaptação ao meio: diferenciação e integração. A estrutura, o desenho organizacional, os papéis, as normas, o processo de decisão e a liderança são encarados como elementos de adaptação e reacção sistémica face às contingências externas. O ambiente externo determina o ambiente interno por meio das mudanças ocorridas ao nível tecnológico, à pressão demográfica, à mobilidade social, à cultura e à política (Ferreira et al., 2001). Ou seja, face às determinantes do meio, há necessidade de criar entendimentos partilhados por todas as especialidades existentes numa organização.

Os modelos contingenciais servem para explicar que a necessidade de adaptação e reacção ao meio não permite modelos universais de aplicação, isto é «não há um melhor modelo de liderança, de decisão, de autoridade e de estruturas, mas uma pluralidade de modelos» (Ferreira, et al., 2001, p. 79). As mudanças operadas pelas novas tecnologias e a concorrência dos mercados salientam que as organizações são sistemas abertos, cuja sobrevivência histórica está, cada vez mais, dependente da sua capacidade de se adaptarem ao meio e de reagirem às contingências dessa realidade. As teorias contingenciais, por intermédio dos estudos de Joan Woodword e Charles Perrow, são, ainda, fundamentais para compreender e explicar a importância da tecnologia no funcionamento interno das organizações (Ferreira et al., 2001).

Referência incontornável do contingencialismo, desde a década de 1970, é Mintzberg, com o seu modelo das configurações estruturais, autor de várias obras desde “The Structuring of Organizations: A Synthesis of the Research”, em 1979, a “Structure in 5's: Designing Effective Organizations”, 1983, até à recente “Managing” com temas como gerir as pressões, os papéis, variedades e enigmas de gestão, elaborado com base na observação de um dia na vida de mais de uma vintena de gestores47. As reflexões e os estudos deste pensador das organizações pretendem ultrapassar algumas das limitações dos modelos de contingência anteriormente referidos, como o de Lorsch, Lawrence e Woorward. Uma das suas principais contribuições foi confirmar que não pode existir uma forma única de estruturar e de fazer funcionar eficazmente todas as organizações, tudo depende das circunstâncias em que operam. As organizações são pensadas como um produto da sociedade onde se inserem, em virtude das interacções que desenvolvem com a sua envolvente do

ajustamento que são obrigadas a realizar. Mas essa procura de ajustamento permanente não está isenta de riscos e de ameaças para os quais é necessário estar preparado e dar respostas adequadas.

Apesar dos seus elementos inovadores, as teorias contingenciais não davam, ainda, a totalidade das respostas face a mudanças provenientes da sociedade, quer em termos científicos, quer em termos tecnológicos que modelavam o funcionamento das organizações. A década de 1970, como vimos, foi mais um momento de viragem em termos económicos, tecnológicos e sociais. As profundas transformações no contexto económico, social e tecnológico trouxeram novas abordagens para compreensão da vida das organizações, dos desafios em termos de competências e das qualificações dos indivíduos e grupos que integram as organizações. Estes novos contextos têm implícitos conceitos como instabilidade e volatilidade que afectam a vida e a reputação das organizações no mundo globalizado. Face a esta realidade surgem novos desenvolvimentos que procuram compreender cientificamente estes fenómenos como: a teoria da dependência dos recursos, a teoria da ecologia das populações, o institucionalismo e as teorias sócio cognitivas (Ferreira, et al., 2001).

A teoria de dependência de recursos centra as suas preocupações em questões como a tomada de decisões e as relações de poder. Considera que as organizações lutam e sobrevivem através de mecanismos adaptativos que lhes garantem o acesso e a utilização dos recursos fundamentais que estão sob o controlo do ambiente externo (ameaça e oportunidade para a organização). A teoria ecológica das populações explica como é que os processos de variação, de selecção e retenção emergem na evolução das diferentes espécies organizacionais e como é que a homogeneidade e especificidade são observáveis em determinados sectores, regiões mercados ou ambientes socioculturais. A idade, a dimensão, as estruturas, as práticas das populações organizacionais são apontadas como factores importantes para perceber como estas nascem, crescem e morrem num processo evolutivo selectivo. O institucionalismo permite entender o comportamento humano nas organizações como algo que é fundamentalmente definido pelos padrões culturais e institucionais da sociedade. Para o institucionalismo, as organizações não disputam apenas recursos e clientes que garantam a sua viabilidade, mas também desenvolvem estratégias de legitimação em termos sociais. Essa legitimação é fundamental para obterem quer apoio interno, quer externo que assegure a sua sobrevivência. O sociocognitivismo parte do principio que uma organização é uma construção social que emerge dos processos sociocognitivos das acções e

interacções humanas. Só os significados e interpretações do homem, decorrentes das acções do processo cognitivo, permitem compreender a realidade organizacional. (Ferreira et al., 2001; Cunha et al., 2007).

Estas correntes emergem no contexto de novos paradigmas sociais, onde as organizações são chamadas a prestar contas a uma multiplicidade de actores interessados nelas (“stakeholders”). As respostas que até então que se davam baseavam-se, sobretudo, no princípio do comportamento racional dos actores organizacionais, mas, numa economia cada vez mais globalizada, em rede e muito menos previsível, estas não são suficientes. Por outro lado, uma maior democratização das sociedades e o investimento na formação das pessoas teve como resultado uma maior consciência cívica das populações, que vieram pôr em causa os modelos puramente racionais implementados pelas organizações (Mendes & Pereira, 2006).