Em enfermagem, os cuidados prestados às pessoas são influenciados pelo modelo de cuidados adotado. Hoeman (2000, p.7) refere que “é reconhecida pelos enfermeiros de reabilitação a utilidade dos múltiplos níveis de capacidade de autocuidado dos utentes concebidos por Orem, a sua atenção ao todo e as suas importantes contribuições para a educação do utente”.
A Teoria de Enfermagem de Dorothea Elizabeth Orem denominada Teoria do Défice de Autocuidado, baseia-se na premissa de que toda a pessoa adulta tem a capacidade de se autocuidar e, enquanto enfermeiros e futuros especialistas na área de reabilitação, devemos promover o autocuidado nos processos de transição saúde/doença e/ou incapacidade (OE, 2010).
De acordo com os factos referidos pretende-se conferir significado ao conhecimento para melhorar a prática, o que pode ser facilitador, pois ajuda a descrever, explicar e antever fenómenos, orienta a prática, o ensino e a investigação.
Orem (1995, p.8) define o autocuidado como sendo “o cuidado pessoal que os indivíduos necessitam cada dia de forma a regular o seu próprio funcionamento”.
O autocuidado, segundo Orem (1993), é a prática de atividades que favorecem o aperfeiçoamento e que as pessoas iniciam e desempenham dentro de espaços de tempo, em seu benefício próprio e com o intuito de preservar a vida e o funcionamento saudável e de dar continuidade ao desenvolvimento e ao bem-estar pessoal. Esta atividade é influenciada por fatores condicionantes básicos como: idade, sexo, estado de desenvolvimento, estado de saúde, orientação sociocultural, fatores do sistema de cuidados de saúde (como sejam o diagnóstico médico e modalidades de tratamento), fatores do sistema familiar, do padrão de vida (inclui as atividades quotidianas), fatores ambientais, disponibilidade e adequação dos recursos, que os enfermeiros devem ter em conta quando estabelecem o plano individual de cuidados de enfermagem.
Para Orem todo o indivíduo possui habilidades, conhecimento e experiência adquirida que lhe possibilita a realização do autocuidado. Quando um indivíduo, por um qualquer motivo, não tem essas capacidades ele necessita que uma segunda
pessoa realize por si o autocuidado, e se essa pessoa for o enfermeiro, este é definido como o agente terapêutico de autocuidado (Petronilho, 2012).
O sucesso da reabilitação da pessoa com tetraplegia devido a LVM depende de uma adequada identificação dos problemas e da seleção das melhores alternativas para superar as dificuldades que as pessoas vivenciam, a situação de tetraplegia atinge de forma significativa a perceção que as pessoas têm da sua qualidade de vida, ao se confrontarem com a lesão e as suas limitações e com a incapacidade para levar a cabo um projeto de vida. Este tipo de doentes tem caraterísticas muito específicas, apresentando uma enorme necessidade de cuidados de enfermagem de reabilitação em diversos níveis, dos quais podemos destacar o motor, sensitivo, cardiorrespiratório, alimentação, eliminação (vesical e intestinal), sexualidade, entre outros.
Para alcançar uma boa evolução na sua reabilitação, o indivíduo deverá ser englobado em todo o processo, desenvolvendo comportamentos adequados e dirigidos por metas. Poderá haver casos em que, a lesão em si, altera a motivação do indivíduo, causando instabilidade emocional, podendo essa condição interferir na capacidade de participar de forma significativa com comportamentos dirigidos para o seu autocuidado (Umphred et al., 2004).
É neste contexto que a mais-valia da intervenção do EEER toma corpo. De acordo com Regulamento dos Padrões de Qualidade dos Cuidados Especializados em Enfermagem de Reabilitação (OE, 2011, p.3) “A excelência da Enfermagem de Reabilitação traz ganhos em saúde em todos os contextos da prática, expressos na prevenção de incapacidades e na recuperação das capacidades remanescentes, habilitando a pessoa a uma maior autonomia. Assim, vemos a Enfermagem de Reabilitação como a área de intervenção de enfermagem, de excelência e referência, que previne, recupera e habilita de novo, as pessoas vítimas de doença súbita ou descompensação de processo crónico, que provoquem deficit funcional ao nível cognitivo, motor, sensorial, cardiorrespiratório, da alimentação, da eliminação e da sexualidade…”.
Desta forma e após ter sido realizada a intersecção da necessidade de cuidados de Enfermagem de Reabilitação à pessoa com tetraplegia devido LVM em
fase de sequelas com as competências inerentes ao EEER poder-se-á passar para o referencial teórico que estará na base deste projeto.
Orem (1993) definiu os conceitos de Pessoa, Ambiente, Saúde e Enfermagem, como forças dinamizadoras e orientadoras do seu modelo teórico de enfermagem. A autora define Pessoa com recurso ao termo “ser humano”, que é considerado diferente de outros seres vivos pela sua capacidade de refletir sobre si mesmo e o seu ambiente, simbolizar o que experimenta e usar as criações simbólicas (ideias e palavras) para pensar, comunicar e orientar os esforços para fazer coisas que são benéficas para si e para os outros. Este tem exigências próprias de autocuidado universais, de desenvolvimento e relacionados com desvios de saúde. Tendo em conta a situação de tetraplegia, esta pessoa pode vivenciar situações em que não tem capacidade para satisfazer as suas necessidades de autocuidado, nestas situações Orem considera que existe um défice de autocuidado, exigindo a intervenção de enfermagem no sentido de dotar a pessoa com conhecimentos e habilidades de forma a adquirir a maior autonomia possível.
Ambiente é definido como tudo o que envolve a pessoa. Orem (1993) refere que o ser humano nunca está isolado no seu ambiente e que existe neste. O ambiente tem características físicas, químicas, biológicas e sociais, que podem interagir entre elas e que estão sujeitas a regulação ou controlo. Estas características são ambientais, socioeconómicas e culturais, da comunidade, humanas e podem afetar positiva ou negativamente a vida, saúde e bem-estar da pessoa, famílias e comunidade. A pessoa com tetraplegia devido a LVM está sujeita a fatores ambientais que podem condicionar a sua adaptação à situação de doença, condicionando as suas capacidades, o controlo destes fatores é preponderante para o equilíbrio da gestão das incapacidades que levam ao défice de autocuidado.
Esta teórica define Saúde apoiando-se na definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) segundo a qual saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Acrescenta-lhe ainda os aspetos psicológicos e refere que a atuação sobre esta é realizada desde a perspetiva de cuidados de saúde preventivos (prevenção primária), ao controlo da doença nas fases iniciais (prevenção secundária) e à prevenção de complicações e incapacidades (prevenção terciária) (Orem, 1993).
A autora considera a Enfermagem como sendo um campo de conhecimento e serviço humano que tem por objetivo acompanhar/ajudar a pessoa a combater limitações e/ou incapacidades no exercício do seu autocuidado. Existem fatores relacionados com o conceito de enfermagem que são a arte e a prudência da enfermagem, a enfermagem como ação, o papel da teoria relacionada com a enfermagem e as tecnologias na enfermagem. O entendimento destes fatores permite a tomada de decisão numa base teórica orientada para os sistemas dentro do processo de enfermagem. Perante tal, na perspetiva da autora, consideramos a reabilitação como um recurso de ação de enfermagem. A atuação do enfermeiro é realizada de acordo com a Teoria dos Sistemas de Enfermagem que podem ser conjugados entre si - sistema de enfermagem totalmente compensatório, parcialmente compensatório e de apoio e ensino. Dentro destes sistemas o enfermeiro pode atuar através de cinco métodos de ajuda: agir ou fazer por, ensinar, orientar, apoiar ou proporcionar um ambiente em que o paciente se possa desenvolver ou crescer. O enfermeiro tem como principais preocupações as necessidades de ações de autocuidado do indivíduo, bem como o fornecimento e controlo destas, numa base contínua para sustentar a vida e a saúde, recuperar-se da doença e compatibilizar-se com os seus efeitos (Orem, 1993).
Este modelo assume relevância para o desenvolvimento da arte de enfermagem ao dar especial ênfase ao autocuidado, o qual implica que o paciente seja integrado no seu projeto terapêutico. O enfermeiro assume preferencialmente um papel de suporte e acompanhamento do paciente, quando este não consegue por si só satisfazer as suas necessidades de autocuidado. A importância atribuída ao paciente assume-se como um fator a valorizar na prestação de cuidados de enfermagem de qualidade, uma vez que, cada vez mais, se perspetiva o envolvimento do utente no seu projeto terapêutico, encontrando-se de acordo com as indicações da OMS relativas à promoção da saúde (Carta de Ottawa, 1986).
O autocuidado, como conceito alvo da intervenção do Enfermeiro de Reabilitação, tem uma definição ampla. Para a pessoa é mais do que um conjunto de ações aprendidas, é um processo que permite que a pessoa e família adquiram independência e assumam a responsabilidade pelos cuidados pessoais (Hoeman, 2000).