5.2 C ORRELATIONS
5.2.1 Correlation returns
Procurando entender o sentido do que é a comunicação e a expressão em Merleau-Ponty, nos voltamos para duas obras do autor:
Fenomenologia da Percepção (1994; 2011) – Tese que lhe rendeu o título de doutor;
A prosa do Mundo (2002) – obra inacabada do autor.
Tais obras foram escolhidas por entendermos que, a partir delas, há condições de compreender as ideias do autor sobre o tema.
As primeiras compreensões de leitura vão mostrando que para Merleau-Ponty (1994; 2002; 2011), todo o universo da ciência é constituído sobre o mundo vivido. Ou seja, segundo o autor tudo aquilo que sei acerca do mundo se dá pela ‘minha’ visão de mundo ou pela ‘minha’ experiência vivida, sem a qual os símbolos da ciência nada poderiam dizer. Esse modo de compreender o mundo mostra que, na visão do filósofo, os significados dados ao mundo não são meras elaborações causais. Não são meras elaborações causais porque, para Merleau-Ponty, tudo aquilo que a consciência percebe é entendido como fenômeno, sendo-lhe atribuído
um sentido no momento da percepção pela consciência que é doadora de sentido. O mundo, dessa forma, se revela para o sujeito que a ele se dirige.
Estamos ai-no-mundo, e ao estarmos no mundo a todo o momento expressamos algo. Como mencionamos no início do capítulo, até calados podemos estar comunicando algo. Isto porque o corpo fala.
O sentido dessa expressão, para Merleau-Ponty, é fundamental, pois “o corpo é o veículo do ser no mundo/.../” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 122). É pelo corpo com todas as suas possibilidades (táteis, visuais, olfativas, etc) que percebemos o mundo. O mundo é aquilo que percebemos e que vivemos, e não aquilo que pensamos. Assim, a fenomenologia não duvida do mundo, ou de sua existência. Toma-o como solo para toda a possibilidade de percepção e expressão. E, essa é uma das principais ideias do autor. O corpo é, para Merleau-Ponty um ser de potência que percebe, compreende, interpreta e expressa.
Em suas obras, Merleau-Ponty diz que todo gesto humano expressa uma determinada forma de o sujeito estar no mundo, certo esquema corporal, ou mesmo um estilo. Um gesto pode indicar um sentimento e até mesmo uma forma de compreensão. Merleay-Ponty (1994) entende como forma de expressão, a linguagem que se vale da fala e da escrita, a dança, a pintura, a música, dentre outras possibilidades que o corpo encontra.
Em relação a forma linguística, Merleau-Ponty diz que toda palavra carrega em si um sentido. Tal sentido veicula uma significação e é pela fala que o pensamento se realiza de tal modo que há, "tanto naquele que escuta ou lê como naquele que fala e escreve um pensamento na fala /.../” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 244).
Avançando nas leituras de Merleau-Ponty, compreende-se que, para o autor, pensamento e expressão constituem-se simultaneamente de modo que se pode entender que o pensamento não é ‘interior’, pois ele não existe fora do mundo e das palavras. Afirma: “um pensamento que se contentasse em existir para si, fora dos incômodos da fala e da comunicação logo que aparecesse cairia na inconsciência o que significa dizer que ele nem mesmo existiria para si” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 241). Na tentativa de se fazer entender acerca da ideia de que o pensamento não é ‘interior’ e, portanto, não existe fora do mundo e das palavras. Continua o autor, “o que nos faz crer num pensamento que existiria por si antes da expressão, são os pensamentos já constituídos e já exprimidos que podemos lembrar silenciosamente
e pelos quais damos a ilusão de uma vida interior” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 193).
Entendemos, a partir da leitura acerca da comunicação em Merleau-Ponty e pela nossa própria experiência vivida, que a comunicação se dá na existência de uma significação comum que permite que as pessoas se relacionem. O homem, entendido como ser-no-mundo, é engajado em uma cultura de tal modo que a expressão pode ser vista como um ‘renovar de significações’ já assimiladas pela cultura. Merleau-Ponty diz que vivemos em um mundo cuja fala está instituída, esclarecendo que “o mundo linguístico e intersubjetivo não nos espanta mais, nós não o distinguimos mais do próprio mundo, e é no interior de um mundo já falado e falante que refletimos” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 250).
Merleau-Ponty afirma que se tenho a pretensão de comunicar-me com o outro, primeiro é necessário dispormos “de uma língua que nomeie coisas visíveis9
para mim e para o outro” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 42), pois só podem falar-nos uma linguagem que já compreendemos. Para Merleau-Ponty (1994, p. 249), “o pensamento e a expressão constituem-se simultaneamente” de tal modo que “a fala é um verdadeiro gesto e contém seu sentido, assim como o gesto contém o seu. É o que torna possível a comunicação”.
Isso nos leva a entender que, para Merleau-Ponty, a comunicação se dá entre sujeitos falantes, dotados de certo estilo próprio, e não entre pensamentos abstratos ou representações. Dessa forma, a comunicação não é fundada em um sentido comum das experiências de cada um, mas ela própria funda esse sentido comum. O comportamento humano, como afirma o autor, cria significações e a fala é apenas um caso entre outros. O ser humano visa ao mundo e passa a expressá-lo pelo seu corpo.
As concepções de Merleau-Ponty acerca da fala, do pensamento, da expressão e dos gestos nos levam a olhar para a comunicação no ciberespaço buscando entender como o falar de matemática acontece de modo significativo para os integrantes dos grupos que se constituem nas redes sociais Orkut e Facebook. Vemos que temos a comunicação pela linguagem escrita, mas há pelo que compreendemos do autor, um gesto na fala. Ou seja, há nuances do tom de escrita,
9 Diz-se aqui de coisas visíveis no sentido da percepção tal qual ela é tratada por Merleau -Ponty. Um
ver que é, segundo Merleau-Ponty (1991, p. 21), "por princípio, ver mais do que se vê, é ter acesso a um ser de latência".
dos símbolos escolhidos que tentam expressar o gesto do corpo. Isso vai constituindo um solo comunicativo. Os sujeitos se expressam e se põem em diálogo. Questionamos: ‘como se dá o diálogo?’. Entende-se, portanto, que é importante esclarecer, também, o sentido do diálogo. Voltamo-nos para essa questão na sequência do texto.