4.3 Experimental Procedure
4.3.1 Core Preparation
O rápido e constante desenvolvimento de novas tecnologias de informação e de comunicação disseminadas de forma efêmera nas sociedades contemporâneas, em especial pela Internet, tem provocado uma aceleração no ritmo dos acontecimentos que vem impactando de maneira decisiva o tempo presente. A supremacia da efemeridade, na qual o novo transforma-se rapidamente em obsoleto, acaba por colocar em cheque os referenciais que orientam a coletividade, levando, em última instância, ao risco iminente da perda da própria identidade. É nesse contexto que testemunhamos o aumento dos investimentos na valorização da memória como estratégia de combate à uniformidade de discursos totalizantes, que silenciavam grupos sociais até então sem visibilidade. A pluralidade de memórias trouxe à tona a necessidade da criação de espaços igualmente diversificados para a preservação desses passados múltiplos atribuindo valor histórico aos acervos mantidos sob sua guarda. Em meio a esse processo, ganha força a luta de grupos vitimados por memórias traumáticas, relacionadas a experiências limite como, por exemplo, é a da guerra. Tais grupos que buscam o reconhecimento público de seu sofrimento e demandam das instituições que julgam responsáveis por esse dano – em geral, o Estado e a sociedade – a adoção de políticas de reparação de natureza material e/ou simbólica. Práticas que traduzem a ideia do “dever” que essas instituições precisam assumir em relação aos grupos portadores memórias traumáticas189.
O debate em torno dessa questão se difunde, primeiramente, a partir de década de 1970 nos EUA e Europa incitado, em especial, pelas discussões sobre o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial que trazem a reboque memórias de outros traumas experimentados no século XX. Nas décadas seguintes, o movimento se generaliza pelo mundo de maneira notável, caracterizando o que Huyssen (2000) classificou como uma “cultura da memória” que vem redefinindo os contornos das relações entre passado, presente e futuro. A tal ponto, que se pode dizer, a exemplo de Hartog (2006), que vivemos hoje uma verdadeira monumentalização de um presente carregado de um “passado que não passa”190.
Fenômeno histórico de grandes proporções, a memória, como nos lembra Rousso
189
Sobre o “dever de memória” ver o trabalho de Luciana Q. Heymann (2007). A categoria será tratada mais detalhadamente no capítulo 7, no qual me ocuparei em discutir os diferentes “usos” que o diário a que me proponho analisar pode adquirir ao longo do tempo.
190 Tomando de empréstimo, a expressão cunhada por Henry Rousso. Disponível em:
(2007:12), transformou-se “gradualmente em valor” e, nesse cenário, “ser lembrado” é algo que está diretamente relacionado ao fato de “existir” e fazer parte de um grupo social. Na América Latina, as demandas de memória e inclusão social aparecem ligadas à divulgação das atrocidades e perseguições colocadas em prática durante os regimes ditatoriais, bem como às discussões dos processos de anistia promovidos pelos governos que os sucederam. No Brasil, tais debates resultaram, recentemente – em maio 2012 – na criação da Comissão Nacional da Verdade com vistas a apurar violações de Direitos Humanos cometidos por agentes públicos, durante o período de setembro de 1946 a outubro de 1988. Internacionalmente, histórias de extermínio em massa em países como Ruanda e Bósnia, da mesma maneira que o fim do
apartheidna África do Sul tem igualmente desencadeado a adoção de políticas de memória, na tentativa de dar conta desses traumas e fazer justiça.
No cerne desse movimento, afirma-se a emergência da noção de “dever de memória” acrescida da necessidade, em alguns casos quase obrigação, de lembrar. Desde então, assiste- se a uma considerável multiplicação de lugares de memória: instituições, associações, celebrações, biografias, monumentos entre outros dispositivos como os definiu Nora (1993). Antes dedicados quase que exclusivamente preservar e comemorar a memória de grupos das elites, eles passaram a ser disputados também por novos sujeitos políticos (HEYMANN, 2011). Assim, assistimos a criação de novos museus e centros de memória empresariais, a profusão de datas comemorativas, a exposições e publicações de livros. O que se vê é uma infinidade de iniciativas, sejam no âmbito público ou privado, em consonância com as mudanças que levaram as sociedades contemporâneas de um regime de memória que deixou de ser o da “história-memória” e passou ao da “história-patrimônio” (NORA, 1993). Essa nova configuração é bastante evidente, em especial, na França, onde não apenas os lugares de memória, mas o próprio país em si, foi alçado à categoria de patrimônio.
Com a patrimonialização se impondo no mundo cada vez mais como um processo dominante, e, em alguma medida, voraz, corre-se o risco da proposição, nos moldes da utopia de uma história total ou de uma memoria que tudo preserva, de transformar tudo em patrimônio. O ritmo acelerado dos processos de conversão do território nacional, das paisagens naturais, das espécies animais e vegetais, dos sítios arqueológicos, das cidades históricas, das tradições populares e, entre tantos outros bens culturais, dos acervos pessoais em patrimônio é responsável pela produção de uma diversidade de discursos que, por um lado, atualizam constantemente as memórias que se preservam sobre esses legados e, por
outro, consolidam novas memórias dando voz a diferentes grupos sociais. Nesse sentido, podemos dizer que o crescimento patrimonial contemporâneo, com sua multiplicidade de manifestações e caráter notadamente presentista, é fruto das diversas estratégias e recursos que tem sido mobilizados na tentativa de conferir legitimidade e valor histórico a esses acervos. O próprio movimento de produção patrimonial resulta, desse modo, na invenção de uma modalidade discursiva que atende a necessidade geral de arquivar, seja a própria vida, como sugere Artière (1998), seja a memória dos diferentes grupos sociais que inscrevem sua existência nesse novo cenário.
Consequentemente, como não é difícil supor, com a multiplicação desses lugares de memória amplia-se também a heterogeneidade dos discursos que se constroem sobre eles e, sobretudo, a luta por seu controle e pela gestão dos diferentes usos que se podem fazer deles. Identificar essa polifonia, bem como os sujeitos ou grupos sociais que estão em disputa pelo enquadramento dessas memórias é tarefa fundamental na investigação dos usos políticos que o passado pode adquirir em cada presente. Nessa perspectiva, as comemorações – ou, como define Catroga (1996), as ritualizações do passado – são elementos essenciais, porque capazes de produzir sentido e unidade ao expressar a relação entre o passado e o presente no qual as performances ganham forma. Através de gestos, símbolos e práticas, as comemorações presentificam o passado atribuindo-lhe significados e reconhecimento. Participam, portanto, do conjunto de rituais primordiais para o desenvolvimento das funções sociais da memória, entre as quais destaca-se o estímulo aos sentimentos de continuidade e pertencimento a um determinado grupo. A despeito disso, tais comemorações não estão isentas de tensões, uma vez que reproduzem, em grande medida, os conflitos de interesses que permeiam a sociedade. Interesses que, na verdade, são tão diversificados quanto a polifonia dos discursos que dão substância às memórias em disputa.
Recentemente, em especial a partir de março de 2008, a polêmica sobre o possível fechamento da Casa da FEB, no Rio de Janeiro, evidenciou essas disputas no campo das memórias sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Não cabe aqui retomar o episódio, já examinado na introdução desta tese. Mas vale mencioná-lo sob o pretexto de recuperar a trajetória da Casa da FEB enquanto um lugar de memória que, mesmo transcorridos mais de sessenta e cinco anos do término da guerra, é objeto de disputa. Se considerarmos ainda que o próprio processo de organização de instituições de guarda de memória constitui, em si mesmo uma construção discursiva sobre o acervo que está sob sua
guarda, essas disputas se complexificam e ganham uma amplitude maior. Para investigá-las é necessário levar em conta não somente a trajetória da Casa da FEB, acompanhando suas mudanças ao longo do tempo, como também os sujeitos históricos que dividem essa arena e são portadores de discursos, ora dissonantes, ora consonantes – revelando um campo memorial marcado por fragmentações e nuances.