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Coping strategies and social assistance

In document CMI REPORT (sider 18-23)

Em junho de 2013 estava finalizando o semestre de estudos na PUC, em São Paulo, e pretendia retomar as conversas com as pessoas ligadas diretamente às atividades no Pantanal, no recesso acadêmico. Porém, nessa segunda fase, dedicaria um tempo maior à pesquisa, conforme descrito no capítulo “O pesquisador no cotidiano pantaneiro”. Eu precisava ampliar essa rede para além das indicações de Afonso, Alice e Bento. Foi então que conversei, via

20 As histórias referentes à viagem até as casas dos parentes de Clara estão relatadas

no tópico “Taís e a garantia de barco, casa e comida em Barão de Melgaço”. Após ter conhecido a sua casa no Pantanal, a cada encontro nosso uma nova história é contata e muitas gargalhadas são dadas.

internet, com Madalena,21 na cidade de Poconé. Filha de pantaneiros, talvez pudesse me ajudar. Prontamente ela acolheu o meu pedido e sugeriu que eu procurasse Hugo, que, segundo Madalena, era apaixonado pela cultura pantaneira e grande estudioso do tema.

Ela, então, enviou-me o link da página de acesso ao perfil de Hugo em uma rede social, para que eu o adicionasse aos meus contatos. Assegurou que se tratava de pessoa muito amável e que não haveria qualquer problema em abordá-lo por essa via. Pedi a Madalena que escrevesse para Hugo e me apresentasse, dizendo, inclusive, que iria procurá-lo para uma conversa. Conforme combinado, adicionei Hugo à minha página na rede social. Ele me deu boas-vindas de forma amistosa, me chamando de “amigo pantaneiro”. Retribui as saudações e em seguida expliquei que estava desenvolvendo um estudo relacionado aos pantanais e gostaria de saber se ele poderia me receber para uma conversa, na qual eu iria esclarecer melhor a proposta. Após o aceite, combinamos de nos encontrar em seu escritório, na cidade de Cuiabá, quando eu fosse ao Mato Grosso.

Era início de julho. São Paulo amanhecera cinzenta, fria e chuvosa. A paisagem paulistana invernal impôs meu traje de viagem até a quente capital mato-grossense. Após uma hora e cinquenta minutos de voo, lá estava eu na minha terra, sob um sol que beirava os 40 graus. Após pegar as malas, embarquei no primeiro táxi que encontrei e fui ao encontro de Hugo. As obras para os jogos da Copa do Mundo em Cuiabá, que ocorreriam em um ano, me fizeram sentir, por quase uma hora, que estava em um cenário de destruição. Do Aeroporto Internacional Marechal Rondon, localizado na cidade vizinha, Várzea Grande, até o centro da capital o que se via eram máquinas, desvios, terra revirada, congestionamentos e um grande caos, a ponto de eu achar que não conseguiria chegar a tempo ao meu compromisso. Por outro lado, eu imaginava o quanto aquelas obras de mobilidade urbana, uma vez concluídas, facilitariam a vida da população.

Superada essa intercorrência, cheguei ao destino. Fui bem recebido por Hugo e sua esposa, que me convidaram para entrar e me conduziram até uma sala ao fundo do conjunto de escritórios onde ele trabalhava. O espaço era aconchegante e os diversos instrumentos musicais da cultura mato-grossense, bem como os materiais para confeccioná-los, dispostos sobre o armário localizado do lado esquerdo da sala, tornavam o ambiente descontraído. Utilizados em eventos culturais, inclusive nas festas de santos das comunidades pantaneiras, em certa medida esses instrumentos nos conectavam ao cenário do Pantanal. A esposa de Hugo despediu-se e foi para outro local, retornando em outros dois momentos: para me

oferecer bebida e para alertar o esposo que o estacionamento onde o carro do casal estava guardado iria fechar em poucos minutos e, portanto, precisavam ir embora.

Após sentarmos, contei um pouco mais sobre mim e sobre a pesquisa. Esclarecidas as dúvidas, tivemos uma longa conversa, de três horas de duração. Temas diversos foram abordados e narrados em um tom de empolgação. Foram poucas as minhas intervenções, pois Hugo era um profícuo contador de histórias. Falava com tanta naturalidade sobre o seu Pantanal que a mim coube apenas tentar anotar os inúmeros relatos.

Começamos pela sua apresentação: pantaneiro, engenheiro agrônomo, artesão e artista ligado à política. Defensor das tradições locais, relatou que conciliava o trabalho de engenheiro com a criação de instrumentos artísticos regionais, como a viola de cocho e o ganzá.22

Em determinado momento perguntei quem era o pantaneiro. Ele respondeu: “Aquela pessoa relacionada à lida do gado, que monta a cavalo”.

Após quase três horas de conversa, agradeci pela colaboração, tomei um táxi e fui para a casa de uma tia e comadre, Elisa. Em agosto, enviei por e-mail a Hugo a narrativa da nossa conversa, dando a ele a oportunidade de fazer alterações, tais como cortes e/ou acréscimos de informações. Ele atendeu o meu pedido e devolveu o material em poucos dias. Sempre que possível, eu mando a Hugo notícias sobre o andamento da pesquisa. O artista pantaneiro responde aos meus e-mails em tom poético.

22 Viana (2005) acrescenta que a viola de cocho é um instrumento musical encontrado

em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em 2004, foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial, devido ao seu valor cultural como expressão humana na construção da identidade nacional. Seu nome está associado à mesma técnica empregada na fabricação de cocho, recinto de madeira escavado e utilizado para armazenar a alimentação de animais. É confeccionada com madeiras extraídas da região, sobretudo as mais macias, mais fáceis de escavar. No corpo da viola costuma ser usada a ximbuva e o sarão, no tampo, a raiz da figueira e nas outras peças, o cedro. A viola possui cinco cordas, geralmente quatro de tripa de animal e uma de aço. Entretanto, há relatos do uso de cordas de nylon. O ganzá é o instrumento percussivo que acompanha a viola de cocho. Ambos são utilizados nas apresentações de cururu e siriri, manifestações folclóricas típicas da região pantaneira.

3.2.2 Ivo: a Vida Pantaneira em um Caminhão F4000

Após conversar com Hugo, visitei amigos e parentes em Cuiabá. No dia seguinte viajei para Poconé em um velho ônibus que fazia há anos aquela linha, por mim tantas vezes percorrida. Era um ônibus velho, cheirando a mofo, superlotado. Voltei no tempo. Passadas mais de duas décadas, nada mudara: a experiência da rota Cuiabá-Poconé continuava a mesma da minha infância e a memória daquela viagem ainda murmurava em mim e nos demais passageiros que aquilo parecia mais com “transporte de boiada”.

Nessas precárias condições, ir para Poconé, região pantaneira cuja atividade econômica é baseada na criação de gado, era sentir-se como um desses animais; parecia algo naturalizado na vida cotidiana da população. Essa naturalização tem origem nas dificuldades de negociação por parte da população, em que eu me incluo, com a rede que sustenta as leis de concessões de linhas rodoviárias, responsável pela manutenção, há décadas, da mesma empresa de transporte na operação da rota Cuiabá-Poconé, sem exigir melhorias. Importante informar que essa empresa pertence a um ex-deputado estadual.

Sentindo-me meio homem, meio boi, o que me inseria ainda mais no campo-tema da minha pesquisa, cheguei a Poconé durante a noite. Reencontrei amigos, familiares, conversei, dormi...

No dia seguinte, pela manhã, fui à casa de Ivo, e disse-lhe que precisaria da sua ajuda. Ele aceitou imediatamente. Ivo nasceu e viveu a maior parte do tempo em fazendas da região, primeiro como funcionário e, depois, como proprietário. Quando nos encontramos, havia menos de dez anos que ele tinha vendido sua propriedade rural, mudando-se para Poconé. Hoje, ganha a vida realizando fretes com um caminhão modelo F4000, muitos deles para os pantanais. Fretes é como são nomeados os serviços de transportes de cargas e mercadorias de um local para outro. Esse perfil levou a uma dupla participação de Ivo neste estudo: como morador da região e como fretista, auxiliando-me no acesso a algumas localidades.

Como percorri muitas vezes os pantanais na companhia de Ivo, sua participação se dá de forma transversal. Ou seja, as narrativas referentes às suas vivências pantaneiras se entrecruzam com a de outros participantes, pois sempre que um novo frete era contratado tendo como destino a região da minha pesquisa, ele me convidava para ir junto. Durante o trajeto, muitas histórias eram contadas, a maior parte delas relacionada à sua vida familiar e à lida com o gado. Foram tantas as histórias que seria impossível retratá-las todas aqui. Por isso, escolhi narrar somente aquelas que se relacionam com os pantanais, portanto, com os objetivos desta tese.

3.2.3 Jaime e o Transporte da Boiada

Ivo me telefonou dizendo que gostaria de me levar até uma comunidade próxima a Poconé, pois lá residia um casal conhecido dele, Jaime e Diana, que tinha vivido no Pantanal. Ivo ligou para uma filha deles com o intuito de saber se ambos estavam em casa. Após a confirmação, fomos ao seu encontro em uma caminhoneta. Já era fim de tarde, e o Sol se punha rapidamente, enquanto percorríamos uma pequena estrada de terra que dava acesso ao local. No meio do caminho, algumas porteiras feitas de arame farpado dividiam as propriedades rurais – para chegar ao nosso destino foi necessário passar por duas delas. A minha experiência como morador da região pantaneira dizia que um artefato seria fundamental em algum momento da pesquisa: uma lanterna. Graças a ela, pude clarear a estrada até chegar às porteiras, e perceber que as matas laterais estavam repletas de plantas espinhosas – uma delas, o cansanção (Cnidosculus pubescens), nome popular dado à espécie Euphorbiaceae, que, em contato com a pele, produz coceiras e bolhas.

À medida que adentrávamos a propriedade rural, ouvíamos o som de dois arancuãs, pássaro nativo do Pantanal.23 O canto dessa ave é extremamente alto, e como ela estava em uma árvore próxima à casa de Jaime e Diana, sentimos a sua companhia durante todo tempo em que lá estivemos. Fomos acolhidos pelos dois e por uma filha deles, que estava de visita, mas não participou desta pesquisa.

23 Este episódio me remeteu ao trabalho de Marta Catunda (2013), que em sua tese de

doutorado intitulada “A, B, C de encontros sonoros: entre cotidianos da educação ambiental”, fruto de mais de 20 anos de trabalho com a temática sonora, narrou a sua relação com os sons do meio ambiente, dentre os quais os dos pássaros. Em tom poético, ela conta suas vivências durante o trabalho de campo, quando buscava gravar o som de uma espécie de pássaro chamado “Ariramba de cauda ruiva”, nas matas de Chapada dos Guimarães (MT):

Não importava de onde vinha, mas estava ali, parecia vir de todos os lados, era omini direcional. Não adiantava procurar com binóculos. Aquilo só tiraria aquela sensação de incompletude e encantamento e de invasão. Ficava ali durante uma hora ou mais, acompanhando silenciosa aquele agouro melodioso, que surgia e desaparecia qual caixinha de música. Era como se aquele pássaro estivesse me dizendo: “Você vai me ver, mas não agora, hoje não! Antes você tem que me ouvir!” Assim, ficava ali mergulhada no verde denso daquela mata nas trilhas sem rumo, perdida com minha lanterna fraca, o gravador ligado e um binóculo que não servia para nada. O binóculo me lembrava apenas que eu estava ali por algum motivo. Depois, quando eu ouvia o que havia gravado: que decepção! Não havia mais toda aquela magia, aquele enredo relacional (p. 259-260).

Jaime e Diana, gentilmente, nos convidaram para sentar em cadeiras dispostas no quintal, próximas de árvores. Eles sabiam que chegaríamos, avisados pela filha contatada por Ivo, que tratou de me apresentar. Depois de explicar que realizava uma pesquisa de doutorado, perguntei se podiam colaborar comigo contando suas experiências pantaneiras. Após aceitarem, perguntei à filha se estava de acordo com a nossa conversa; ela concordou e deu um sorriso: “Claro que sim!”

A própria introdução ao tema ativou em Jaime algumas lembranças. Ele começou relatando que nascera à beira do rio Cuiabá, onde, quando bebê, por ser negro, sua mãe ameaçou jogá-lo às piranhas. Diante desse episódio, seu pai assumiu sua guarda juntamente com a avó paterna, a quem se referiu como sua mãe. Jaime viveu muitos anos no Pantanal do município de Poconé, dedicando-se ao trabalho no campo, principalmente transportando a boiada dos fazendeiros. Jaime casou-se com Diana, uma senhora alegre, de gargalhadas de timbre alto, que também nasceu e viveu muitos anos na região.

Já era noite. Após uma hora e meia de conversa, agradeci ao casal pela colaboração. Ivo e eu nos despedimos e voltamos para a cidade de Poconé. Na escuridão da volta para casa, novamente uma estrada ruim, porteiras, plantas espinhosas; a minha lanterna a nos guiar.

3.2.4 Encontrando Murilo na Transpantaneira

Dois dias depois de conversarmos com Jaime e Diana recebi uma ligação de Nelson,24 neto de Ivo, informando que iriam até a região de Porto Jofre para entregar material de construção em uma propriedade rural. Queria saber se eu gostaria de ir com eles. Aceitei de imediato, afinal, não sabia se teria outra oportunidade de percorrer os 149 quilômetros da estrada-parque, a Transpantaneira. A região de Porto Jofre está localizada no fim dessa estrada e, em minha opinião, é um dos locais mais bonitos do Pantanal, graças à diversidade da flora e da fauna. Além disso, abriga fazendas, pousadas, hotéis fazendas, pesqueiros.

Ivo, Nelson e eu partimos ao meio-dia no caminhão F4000 carregado. Nelson dirigia, eu estava no meio e Ivo ao lado da porta do passageiro. Logo nos primeiros quilômetros, antes mesmo de passarmos o posto de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que marca o início do Pantanal de Poconé, fomos

24 A presença de Nelson nesta tese se dá de duas formas: conectando-me a outros

participantes e narrando as suas histórias como frequentador do Pantanal. Neste tópico eu o posiciono como conector, por isso deixarei para descrevê-lo em “Tomás: um diálogo em meio ao barulho de carros, motos, cachorros...”.

surpreendidos por uma comitiva de boiadeiros que levava gado de volta para alguma fazenda. Tivemos de diminuir a velocidade e aguardar as coordenadas dos boiadeiros, garantindo assim uma travessia segura e evitando que o gado se assustasse e saísse em disparada pelos campos. Encontrar uma boiada nas estradas pantaneiras implica outro ritmo de viagem: já não é mais o motorista quem controla a velocidade, mas sim os animais, até que seja possível ultrapassá-los.

À medida que nos aproximávamos da boiada, uma cena me chamou a atenção: um bezerro, muito frágil, dava sinais de que não aguentaria acelerar o passo e acompanhar o restante do rebanho. Parecia que tinha nascido há menos de cinco dias. Suas pernas cambaleavam de um lado para outro, ameaçando cair. De repente, sua mãe virou-se para trás: lançou um olhar penetrante para o seu bezerro e, em seguida, nos encarou com ares de poucos amigos.

Figura 4: Boiada na Transpantaneira, Pantanal de Poconé.

Foto: George M. De Luiz, 2013

Era um claro sinal de que representávamos ameaça ao seu filhote. Nelson desacelerou o caminhão e, assim, nos afastamos dos animais. Ao perceber a fragilidade do bezerro, um boiadeiro desceu do cavalo, foi até ele, o pegou no colo e o colocou na carroceria da caminhoneta que acompanhava a comitiva. Enfim, ultrapassamos a boiada.

Cerca de 15 minutos depois nos aproximamos da entrada principal de Pantanal de Poconé, ou seja, o posto de fiscalização do Ibama. Localizado no quilômetro 17 da estrada- parque, demarca a mudança na paisagem que caracteriza o Pantanal. Apesar da presença, na maioria das vezes, de policiais e/ou guardas florestais, nem sempre a parada no posto é obrigatória. Carros transportando turistas costumam ter passagem livre, pois geralmente estão

acompanhados de guias credenciados pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento do Turismo de Mato Grosso (SedTur). Já os demais veículos costumam ser abordados para fiscalização de rotina, com o intuito de coibir a pesca e a caça ilegais, o contrabando de drogas e de aves silvestres. Há também orientações de educação ambiental e de prevenção de afogamentos, sobretudo durante o período das cheias, momento em que a população poconeana procura, em grande número, os corixos25 e rios que correm sob as pontes da estrada para tomar banho.

A cancela e os cones próximos ao portal forçam os condutores de carros e de motocicletas a reduzirem a velocidade até pararem completamente, de modo que os agentes possam realizar a fiscalização de rotina. Isso faz com que muitos turistas, pescadores e pesquisadores parem no local para registrar o começo da viagem pela região, tal como eu fiz.

Figura 5: Posto de fiscalização do Ibama, Pantanal de Poconé.

Foto: George M. De Luiz, 2013

Ultrapassada essa barreira chegamos às primeiras pontes. Por ser julho, mês de seca, não havia banhistas nos corixos e rios, quase secos. No entanto, muitos jacarés, capivaras e pássaros podiam ser vistos nos campos, tomando sol ou em busca de comida.

Mais adiante uma cena chamou minha atenção: dentro de uma propriedade particular, mas à beira da estrada, havia uma enorme estátua de São Francisco, protetor dos animais,

25 Os corixos são canais naturais que interligam rios, baías, lagoas etc. (Da SILVA;

SILVA J. F., 1995), diferenciando-se dos rios por serem mais estreitos e menos profundos. Possuem dupla importância para o habitat: nas secas, auxiliam no desenvolvimento de pequenas espécies de peixes e na vazante servem como corredor para a passagem dos peixes que saem dos campos alagados rumo aos rios.

esculpida em madeira. Um sinal de que a religiosidade também é forte presença naquele ambiente.

Como o intuito da viagem era fazer um frete, eu não sabia ao certo o que iria acontecer. Pararíamos em algum lugar onde eu pudesse conversar com os moradores ou com alguém pelo caminho? Também não sabia quem eram as pessoas para as quais levávamos tijolos, telhas, canos.

O trajeto percorrido possuía 132 pontes, apenas duas de concreto. Entre as de madeira, algumas estavam em situação bastante precária. Numa delas, o estado de deterioração era tanto que foi necessário descer e analisar se conseguiríamos passar. Ao constatar o risco, expresso em uma profusão de buracos que tomavam a ponte, decidimos colocar vigotas de madeira para reforçar a segurança da travessia. Além disso, Ivo e eu descemos do carro para orientar Nelson, que estava ao volante, quanto à direção correta na hora de passar sobre as vigotas. Um simples erro e o carro podia acabar dentro da água. Em certo momento, somente parte das rodas da F4000 ficaram sobre a madeira.

Ao chegar à região de Porto Jofre, por volta das 3 da tarde, fomos abordados por três homens que se apresentaram como trabalhadores da propriedade onde iríamos fazer as entregas. Um deles disse ter sido mordido no dedo indicativo por uma piranha, e nos pediu carona até a cidade, argumentando não conseguir mais trabalhar com a mão machucada. Os homens subiram no carro e foram nos guiando até o local onde o frete seria descarregado.

Antes de chegar ao destino, aceitamos o convite de Murilo, um dos três homens que pediram carona, para tomar água e guaraná ralado, bebida típica da região, em seu alojamento. Era um lugar simples, um acampamento improvisado, coberto por lonas, onde moravam os trabalhadores da obra. Aproveitei para falar sobre a minha pesquisa e convidá-lo para participar do estudo. Após seu aceite, pedi que falasse um pouco de si e da sua relação com a região pantaneira. Um jovem muito alegre, ele contou que nascera em uma fazenda pantaneira. Somente aos 2 meses foi levado para a cidade para ser registrado. Lá estudou até a segunda série do ensino fundamental, quando aprendeu a ler, a escrever e logo voltou para o Pantanal. Disse não sentir necessidade de completar os estudos, e contou que o seu irmão que fez vários cursos ganhava menos e não tinha os bens que ele possuía.

In document CMI REPORT (sider 18-23)