aprendizagem de língua materna
Como discutido anteriormente, a segunda tendência linguística tem como centro organizador a noção da língua enquanto um sistema linguístico, o qual é compreendido como um fato objetivo, externo ao indivíduo e constituído por conjunto de elementos linguísticos idênticos. Essa tendência, concomitantemente, compreende que o sistema
linguístico garante o entendimento dos falantes de uma mesma língua, mas está basilarmente relacionado ao indivíduo, quando interage verbalmente.
A respeito da constituição do sistema linguístico na proposta estruturalista, destaca-nos Volochínov/Bakhtin (2006:79, grifos do autor) que
[...] para a segunda orientação a língua é um arco-íris imóvel que domina este fluxo. Cada enunciação, cada ato de criação individual é único e não reiterável, mas em cada enunciação encontram-se elementos idênticos aos de outras enunciações no seio de um determinado grupo de locutores. São justamente esses traços idênticos, que são assim normativos para todas as enunciações – traços fonéticos, gramaticais e lexicais –, que garantem a unicidade de uma dada língua e sua compreensão por todos os locutores de uma mesma comunidade.
Como o arco-íris é resultado visível de uma combinação de elementos aparentemente invisíveis, também a língua o seria para tal tendência. É preciso demarcar que para o estruturalismo europeu, a enunciação, um ato individual e não reiterável, situa-se no
106 nível da parole, enquanto, os elementos idênticos que permitem a enunciação, no nível da
langue (cf. SAUSSURE, 2012).
Para a vertente formalista, a língua seria um conglomerado de orações, devidamente organizados e articulados entre si, cujo principal objetivo é permitir a comunicação entre falantes. Por sua vez, para a vertente funcionalista, a língua seria um meio objetivo de comunicação, em que própria língua é compreendia como um conjunto de códigos virtuais que possibilita a transmissão de uma mensagem verbal entre os envolvidos na situação comunicativa. Entretanto, é preciso que o código de determinada língua seja dominado por seus falantes para que a comunicação se processe (cf. NEDER, 1993).
A comunicação é, portanto, um ato social – no sentido estrito do termo – que necessita de, no mínimo, dois indivíduos para que ocorra. Além disso, é preciso que haja domínio compartilhado entre os envolvidos na situação comunicativa acerca da utilização e funcionamento do código constituinte da língua. Caso algum dos envolvidos não tenha tal domínio, sua produção ou compreensão dos enunciados será falha, o que dificultará o estabelecimento efetivo da comunicação.
Como assevera Neder (1993), para essa tendência, há regras inerentes ao sistema linguístico e constituintes da língua que devem ser seguidas pelo falante para que haja comunicação. Volochínov/Bakthin (2006:85, grifos do autor) pondera que na abordagem linguística de base estruturalista:
1. A língua é um sistema estável, imutável, de formas linguísticas submetidas a uma norma fornecida tal qual a consciência individual e peremptória para esta.
2. As leis da língua são essencialmente leis linguísticas específicas, que estabelecem ligações entre os signos linguísticos no interior de um sistema fechado. Estas leis são objetivas relativamente a toda consciência subjetiva.
3. As ligações linguísticas específicas nada têm a ver com valores ideológicos (artísticos, cognitivos ou outros). Não se encontra, na base dos fatos linguísticos, nenhum motor ideológico. Entre a palavra e seu sentido não existe vínculo natural e compreensível para a consciência, nem vínculo artístico.
4. Os atos individuais de fala constituem, do ponto de vista da língua, simples refrações ou variações fortuitas ou mesmo deformações das formas normativas. Mas são justamente esses atos individuais de fala que explicam a mudança histórica das formas na língua; enquanto tal, mudança é, do ponto de vista do sistema, irracional e mesmo desprovida de sentido. Entre o sistema da língua e sua história não existe nem vínculo nem afinidade de motivos. Eles são estranhos entre si.
Conforme pontua Volochínov/Bakhtin (2006), essas sínteses demonstram o antagonismo existente entre a primeira e a segunda tendência de concepção de linguagem. Precisamos, entretanto, pontuar, no que diz respeito ao primeiro item acima, que a noção de imutabilidade é relativa para o estruturalismo, principalmente em Saussure, para quem a língua pode sofrer mutações em seu processo natural de desenvolvimento. Ademais, vale
107 reforçar que tais pontuações são majoritariamente baseadas no pensamento saussuriano vulgarizado por meio do estruturalismo europeu.
Como a segunda tendência considera que o sistema linguístico seja relativamente estável, imutável e definitivo, e, dessa forma, não se submeteria às subjetividades individuais, para essa orientação, a gramática é tida como algo estabelecido pela própria estrutura linguística, de certa forma pronto, acabado, ao qual os indivíduos devem se submeter a fim de construir enunciados comunicativamente inteligíveis. Segundo essa perspectiva, a gramática de uma língua pode ser deduzida a partir da análise de um conjunto de enunciados, os quais relevam o funcionamento da língua, por meio da organização e estruturação de seus elementos. A nosso ver, nesta tendência, gramática está intimamente relacionada à estrutura de uma língua, pois, a partir dela, se enxertariam e combinariam discretamente elementos para a construção de enunciados. Como em um quebra-cabeça tais elementos teriam lugar previsto para seu encaixe. Nesta tendência, a especificação da gramática é dada pelo termo descritiva, pois é resultante de um processo de descrição da estrutura da língua, para compreensão de seu funcionamento.
Para o processo de ensino e aprendizagem de língua materna, a concepção da linguagem como instrumento de comunicação propõe o desenvolvimento de atividades centradas no código ou em seu uso. No que concerne ao uso, o intuito é demonstrar ao aprendiz como a língua é empregada em dadas situações comunicativas. Nesse caso, alguns exemplos mais regulares de sentenças são utilizados para exemplificar o uso linguístico e servem, também, como modelos de sentenças para a aprendizagem.
Segundo Travaglia (2009:28),
a consideração dessa linguística da fala, desses estudos sobre a língua em uso, é importante para o trabalho do professor de língua materna que pretende (de acordo com objetivo que se proponha) desenvolver a competência comunicativa de seu aluno ou descrever-lhe como é e como funciona a língua que ele utiliza ou levá-lo a observar esses mesmo fatos (a constituição e funcionamento da língua).
Partindo de exemplos reais de uso da língua, escritos ou orais, os aprendizes devem depreender como a ela funciona, por meio da análise discreta de seus elementos constituintes. Segundo Neder (1993), valendo-se de exercícios estruturais, o ensino da língua procura conduzir o estudante à aprendizagem dos elementos dentro sistema linguístico, como intuito de que o aluno internalize regras linguísticas diferentes daquelas que possui. De acordo com a autora (NEDER, 1993:87),
O objetivo é que o adquira hábitos linguísticos que são reações aprendidas e que se repetem em circunstâncias semelhantes. Esse tipo de ensino enfoca, sobretudo, o
108 saber fazer. Através da repetição, o aluno irá absorvendo as formas que comporão seu universo linguístico, ficando munido de estruturas que o auxiliem no aperfeiçoamento da capacidade de uso de um meio de comunicação.
Trata-se, portanto, de exercícios, de certa forma, mecânicos, que visam o domínio da estrutura linguística que possibilita a realização de diferentes registros linguísticos. O importante é compreender o funcionamento da língua em dada comunidade e situação, inserindo, como pontua Neder (1993:83), “[...] progressivamente a noção de nível [ou registro] de língua: familiar, formal etc.”, para explicar variações ocorridas na superfície da estrutura linguística.
Embora não haja, a priori, a apreciação linguística de que uma variante linguística seja melhor que outra, como ocorre na primeira tendência, camufladamente se pode conduzir o estudante a se apropriar de estruturas que correspondam, por exemplo, somente a dada variante de prestígio social, se se escolher exemplos somente dessa variante. Assim, os exercícios podem indiretamente corrigir as estruturas que os estudantes possuem previamente. Não basta, portanto, acreditar que esse ensino de língua materna está desprovido de qualquer juízo de valor, somente por estar baseado em uma orientação científica.
Nesta tendência, o fito do processo de ensino e aprendizagem de língua materna é desenvolver a competência comunicativa do estudante, isto é, sua capacidade de construção e compreensão dos enunciados linguísticos em situações comunicativas. Podemos notar que a preocupação não recai apenas sobre a compreensão da dimensão formal da língua, mas também sobre sua dimensão funcional. A não compreensão de um enunciado pode estar associada: ao não domínio do código ou do sistema linguístico; à falha no emprego linguístico da dimensão formal ou funcional. Ou seja, tais problemas estão relacionados à competência comunicativa do falante.
Apesar de romper com a tradição gramatical, propondo um processo de ensino e aprendizagem científico e não especulativo, em que a língua é considerada como constituída por duas modalidades, com regras próprias, independentes da realidade sensível e, de certo modo, como algo social e não apenas individual, a compreensão da linguagem como
instrumento de comunicação realmente parece considerar a língua como um artefato, do qual se pode e deve ter o maior conhecimento possível para entender seu funcionamento e, consequentemente, garantir um uso efetivamente satisfatório. A nosso ver, no plano educacional, isso pode gerar a noção de que, antes de usar a língua, é preciso conhecê-la, conduzindo a seu não emprego efetivo em situações comunicativas, mas a exercícios de
109 estudo e descrição, com base na crença de que a compreensão do sistema linguístico e seu funcionamento garantiria o emprego linguístico de modo satisfatório.