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Com altitudes que variam de 1280 a mais de 1900m numa área de 99,485870 km², a bacia do ribeirão dos Poncianos tem 78,60km² com declividades que vão de 8 a mais de 12 graus, 17,53km² com declividades que vão de 2 a 8 graus e apenas 6,11km² com declividades inferiores a 2 graus. Tais características favorecem a ocorrência de cursos fluviais ricos em corredeiras, quedas da águas e cachoeiras. Estes atributos aliados à fraca urbanização na bacia favorecem a manutenção da boa qualidade das águas fluviais numa densa rede de drenagem que alcança o valor de 2,35km/km².

A correlação entre os dados altimétricos, os lineamentos estruturais, os perfis topográficos e com a disposição dos cursos fluviais evidenciam que a bacia do ribeirão dos Poncianos tem o seu relevo diretamente condicionado a fatores estruturais, estes dados ficam evidentes na figura 43, onde se apresenta o MDT da área conjuntamente com os principais lineamentos estruturais que cruzam a bacia do ribeirão dos Poncianos. A forte influência estrutural não fica apenas ligada aos três lineamentos estruturais enfatizados na figura 43. As formas de relevo com facetas triangulares anfiteatros desconectados da drenagem (figura 37). A rede de drenagem incontáveis vezes dá indicação deste controle, é o caso de retilineidades de canais e capturas fluviais (figura 38) O padrão de drenagem dendrítico treliça se constitui numa dessas evidencias. O caráter dendrítico fica restrito a alguns canais secundários, entretanto aqueles de primeira ordem e os principais assumem o caráter treliça como resultante do controle estrutural.

Outro aspecto que ratificar esta forte intervenção são os valores de RDE. Os maiores valores vinculados à relação declividade/extensão do canal encontram-se associados àqueles cursos cujos canais são cortados por um maior volume de lineamentos estruturais. No campo, esses setores dos canais onde foram identificados maiores valores de RDE, se apresentam sobre a forma de rupturas topográficas.

Convém ressaltar que tanto no curso do Ribeirão dos Poncianos como no curso do córrego do Cadete as principais áreas de sedimentação fluvial encontram-se a montante dos trechos que possuem maiores valores de RDE. Neste contexto, vão ser encontrados na bacia três níveis escalonados de planícies fluviais diretamente relacionados aos controles estruturais que geraram os três compartimentos apresentados nas figuras 39 a 43. Este mesmo fenômeno pode ser observado em inúmeras bacias afluentes como aquela apresentada nas figuras 52 a 55.

A análise da correlação entre o perfil longitudinal e a linha de melhor ajuste comprovam a ação dos agentes endógenos na área aqui enfocada. Nos dois cursos principais da bacia ribeirão dos Poncianos e córrego do Cadete são observados três setores indicadores de soerguimento da área-curso fluvial acima da linha de melhor ajuste - e um a dois momentos indicativos de subsidência - curso fluvial abaixo da linha de melhor ajuste. Figuras 27 e 28.

As análises morfotectônicas nas quais, foram enfatizados os lineamentos inferidos com base na análise da topografia, da drenagem e de fotolineamentos evidenciou que o planalto de Monte Verde foi submetido a tensões que favoreceram o estabelecimento de falhamentos e/ou fraturamentos no sentido WNW-ESE e secundariamente ENE-WSW e NE-SW. No setor relativo à bacia dos Poncianos estas mesmas direções se fazem presentes.

A direção dos topos de interflúvios na bacia do ribeirão dos Poncianos parecem estar controlados por lineamentos ENE-WSW e E-W. Enquanto que os cursos fluviais principais apresentam direção preferencial N-S, NNW-SSE, NW-SE e WNW-ESSE. Convém ressaltar que na área há um predomínio de vertentes voltadas na NW-SW (90 e 180graus e 270 a 360 graus). Constata-se assim que esses dois elementos do relevo –topos e canais fluviais- foram condicionados pelos mesmo eventos tectônicos. Já os canais de primeira ordem apresentam de um modo geral as mesmas direções que os cursos fluviais principais. As direções identificadas nesta pesquisa vão ao encontro dos elementos que foram observados por RICCOMINI (1989) para o RCBS. Sendo a área parte do conjunto que foi afetada por este evento.

Pelas características das áreas onde procedeu-se a amostragem das formações superficiais conclui que a área apresenta duas gerações de colúvios formados no Pleistoceno Superior e pelos resultados das análises de datação pode-se associar a formação destes colúvios ao período do Ultimo Máximo Glacial. Convém lembrar que há uma diferença de 8.500 anos da base para topo do nível II do ponto um de amostragem (175 cm). Neste período atribuem-se ao Sudeste do Brasil a ocorrência de Clima com características fria e seca com flutuações á fio e úmido o que possibilitaria a formação de tais depósitos. Convém ressaltar que não foi encontrado na área linhas de pedras .

Tais colúvios constituem-se em material mal selecionado e em uma das áreas amostradas (ponto um) foi verificada a ocorrência de níveis de material turfoso (MV01) entremeando o material mineralizado, este material organo-mineral vem comprovar a presença de um clima mais frio e úmido, e o rápido recobrimento de uma vegetação de altitude, produzindo uma decomposição anaeróbica. A presença de material arenoso associado na turfeira deve estar vinculado a ação do escoamento superficial atuante no período em que a vegetação estava exposta a superfície.

Para o material de coloração bruna (MV02) atribui-se duas hipóteses para sua gênese: uma associada ao estabelecimento de um horizonte “A” abaixo do sub-nível turfoso, outra estaria associada a um processo de coluviação que teria se misturado materiais orgânicos ao material deposicional dotando-lhe de uma coloração bruna. A hipótese mais admissível para este material através da atribuição de sua classe textural

muito argilosa com 12% de areia e 71% de argila sendo mais próxima à textura de um

solo que de um material coluvial. Este nível teria sua organização vinculada a processos de pedogênese, porém como apresentam-se níveis intercalados de material turfoso e organo-mineral, estes últimos poderiam ser testemunhos de pequenos momentos de coluviação que interromperiam a formação do material turfoso. O contato deste nível com os níveis subjacente ocorre por discordância deposicional, fruto de possíveis alterações ambientais mais proeminentes.

O material coluvial relativo à amostra MV03 teria sua origem em processos gravitacionais rasos, por este motivo apresentando fraca seleção. O contato deste

material com o material sotoposto corresponde a uma discordância deposicional que esta vinculada a uma alteração ambiental que possibilitou o desenvolvimento de matérias organo-minerais acima deste.

O perfil do ponto I não apresenta indícios de materiais mais recentes como observados em estudos efetuados por outros autores. Esta particularidade se deve, provavelmente, por se tratar de um anfiteatro desarticulado do nível de base atual e, portanto se constituir num setor de estabilidade na vertente nos quais se alojam estes materiais. Esta particularidade relaciona-se ao possível alçamento deste setor por movimentação tectônica ou então por se tratar de um setor da vertente côncavo, que já estava-se “desligando” do nível de base e que posteriormente foi preenchido pelo material atualmente observado.

No ponto dois (2) o material (MV 05) teria sua origem similar a da amostra MV03 (ponto 1). Tal origem pode ser comprovada pelas suas características texturais de areno-argilosa, com 47% de areia e 42% de argila. Este material apresenta característica diferenciada no que tange a sua formação, pois trata-se de um único pacote coluvial, sem a sobreposição de materiais mais recentes mesmo estando este na base de uma encosta com uma declividade considerável.

Convém relembrar que o material encontra-se na base de uma encosta que compõe o anfiteatro de uma drenagem de primeira ordem. Um aspecto que deve ser ressaltado é a data obtida para este material de - 27.200 ± 3.500 A.P. -, data muito superior a aquela dos materiais encontrados na mesma posição e peculiaridades observados em outros estudos. Este fato deve-se provavelmente a ausência da atuação de processos erosivos que poderiam ter formado materiais sobrepostos ou mesmo erodido o referido material. Neste caso, evidenciando um longo período de estabilidade local, que teria preservado tal material, outro fato com relação a sua posição é o de que o material mesmo estando contíguo a drenagem não teria sofrido alterações por parte desta, já que encontra-se preservado.

Quando se analisa ainda os aspectos dos materiais deposicionais fluviais nota-se uma particularidade interessante. A área apresenta setores de sedimentação em

variadas situações topográficas. O que pode estar condicionando a deposição destes materiais seria a ação dos agentes estruturais que formariam patamares onde este material fica retido.

Com base na análise das características e elementos atribuídos aos materiais amostrados neste trabalho e comparando com aqueles obtidos por outros autores em áreas próximas a área de estudo tenta-se estabelecer o panorama da deposição quaternária para a área de estudo.

BEHLING & LICHTE (1997) através da datação por radiocarbono para os materiais sedimentares encontrados no Morro do Itapeva, Campos do Jordão, que apresentam datas entre 35000 a 30000 A.P. com resultados palinológicos que demonstram a existência de vegetação de campos com características de climas tendendo a frio e seco. Outras evidências de tal situação são apresentadas por BEHLING (2001) para os sítios de Lagoa do Pires e Cartas Altas MG e para Botucatu SP nos quais as características apresentadas em tais sítios só tenderam a uma alteração no período de 17000 a 10000 A.P., principalmente em Campos do Jordão, onde essas evidências são observadas através dos dados obtidos pelo autor op. cit.

As datas apresentadas por MODENESI (2000) também para Campos do Jordão, evidenciam idades de colúvios do Pleistoceno Tardio apresentando as seguintes idades 36970 A.P. 30990 A.P.. A mesma autora apresenta outros pacotes coluviais com datas mais recentes. Um apanhado das datas obtidas pela autora apresenta-se na tabela XI.

Tabela XI - Idades de C14 para os paleossolos e materiais ricos em matéria orgânica em Campos do Jordão

Nº. da amostra Material Profundidade Idade (C 14A. P.) CJ231b Paleossolo II A1, enterrado pelo colúvio CII. 103 18580±140

CJ231c Paleossolo III A1, enterrado pelo colúvio

CII.

175 30990±350 CJ205d Paleossolo IV A1, enterrado pelo colúvio CI. 150 36970±650

CJ244SE Paleossolo II A1, enterrado pelo colúvio

CIII.

195 14260±70 CJ111A Paleossolo II A1, enterrado pelo colúvio CII. 130 21340±230

CJ245 Colúvio CIII, base do perfil. 205 8630±80 CJ10A Colúvio CIII, base do perfil. 150 9250±170 CJVS4 Sedimento orgânico na camada basal de turfeira, na

Os autores atribuem à formação de tais materiais sedimentares a episódios de degradação das vertentes por movimentos de massa e intervalos de estabilidade. Tal evidência se baseia na formação de turfeiras intercaladas por mantos coluviais.

MODENESI (2000) ainda esclarece que no Pleistoceno Tardio os episódios de degradação tiveram uma ação morfogenética mais efetiva, onde movimentos de massa dispersos mobilizaram grande quantidade de material superficial proporcionando a formação de anfiteatros erosivos e de depósitos de vertente grosseiros a muito grosseiros. A autora ainda explica que tais depósitos encontrados na baixa vertente do platô de Campos do Jordão são atribuídos a deposição de novas camadas coluviais enterrando horizontes “A” anteriores, os quais encontram-se truncados; e novos perfis de solo com “Aj” e “A3” ou horizontes “B”, desenvolvidos antes no novo material coluvial, onde ocorre interrupção da pedogênese por fases erosivas e deposicionais. O caráter disperso e cíclico da erosão nos anfiteatros no Platô de Campos do Jordão sugere um controle climático desencadeando fases de intensa degradação das vertentes. Correlações de gerações de anfiteatros com depósitos grosseiros em terraços, torna possível atribuir a eles um fenômeno erosivo e deposicional que se faz presente durante uma transição climática úmida-seco no Pleistoceno Médio e Tardio MODENESI (1988B).

Reconstruções dos climas Quaternários, baseados nas análises dos perfis de turfa em Campos do Jordão (BEHLING 1997), indica condições continuas situações secas e frias entre 35000 até 10000 A.P. Durante o período mencionado três eventos de erosão/deposição (coluviação) e quatro fases pedogênicas intercaladas (paleossolos) ocorreram nos Altos Campos, indicando mudanças intensivas na ação morfodinâmica e nos processos de vertente. Paleossolos intercalados com colúvios são indicativos de uma alternância de fases de estabilidade e degradação da vertente, implicando em mudanças nas condições bioclimáticas (cobertura vegetal e sazonalidade e/ou intensidade). A aparente continuidade das condições climáticas deduzida e a reconstrução da vegetação entram em conflito com a instabilidade sugerida pelas características das formações superficiais.

Outros resultados obtidos para áreas mais distantes e que possuem datas próximas às obtidas nesta pesquisa também são utilizados para comparação. Tais resultados estas são mostrados nas tabelas II onde são apresentados os dados obtidos por vários autores sobre as flutuações climáticas observadas no período quaternário no Brasil. Chama-se a atenção para os dados obtidos por LEDRU (1991) para a Serra do Salitre (MG) atribuem a aquela região um clima frio e úmido ao período de 32.030 a 28.740 anos A.P. e posteriormente há 28.740 anos A.P. o clima teria passado por uma transição de umidificação maior. OLIVEIRA (1992) em seu trabalho em Serra Negra (MG) atribuiu ao período que vai de 39.930 a 20.000 anos A.P. um resfriamento geral com intercalação de fases secas e quentes, atribuiu ainda ao período de 30.000 a 20.000 anos A.P. um resfriamento pronunciado com relativa umidade intercalado por fases mais secas, forçando mudanças na cobertura vegetal.

FERRAZ-VICENTINI (1993) em seus resultados sobre Cromínia (GO) confere ao período de 32.390 a 23.000 anos A.P. condições mais úmidas e frias.

Correlacionando as datas obtidas, as características climáticas aventadas para a origem dos materiais e os elementos expostos acima pelos autores é possível propor a hipótese de que no Pleistoceno Médio e Superior a área passou por momentos de transição climática onde observamos um período de clima seco (MV03; 34.400 ± 4.400 A.P.) transitando para mais úmido (MV02; 35.000 ± 4.400 A.P.) tendendo novamente a seco (MV05;27.200 ± 3.500 A.P.) e novamente úmido (MV01; 26.500 ± 3.300 A.P.).

Quanto aos aspectos morfotectônicos da área atribui-se a serem originados durante a formação do RCBS e posteriores onde RICCOMINI (1989) descreve quatro fases tectônicas: extencional NNW-SSE inicial-Paleogeno; Transcorrente sinistral- Neógeno; transcorrência dextral- Pleistoceno Superior; e extencional NW(WNW)- SE (ESSE) final- Holoceno. Para SAADI (1991), em seu modelo de evolução do Cenozóico para Minas Gerais, a região apresenta dois eventos tectônicos principais: o primeiro no Eoceno – Oligoceno, responsável pela geração do sistema de rifts. Desta forma as alterações associadas às evidências morfotectônicas estariam vinculadas a estas fases tectônicas regionais.

Diante do exposto conclui-se que os métodos e as técnicas desenvolvidas no decorrer da pesquisa foram eficazes para o alcance dos objetivos. Entretanto foi verificada a necessidade da realização de um mapeamento geomorfológico detalhado e a realização de analises micromorfológicas, com certeza, esses dois elementos possibilitariam o refinamento dos resultados.