A Terra Sigillata recolhida na CGTB é escassa em termos numéricos, tendo-se contabilizado dezassete fragmentos, cinco dos quais provenientes de depósitos localizados no exterior dos tanques, dado representativo se considerarmos que a área intervencionada no exterior dos tan- ques é substancialmente menor que a do interior.
6.7.1 Terra Sigillata Itálica
Recolheu-se apenas um fragmento (nº12) de Terra Sigillata Itálica, da forma Conspectus 18 2.A, proveniente do depósito [1133], localizado na zona exterior aos tanques. Esta forma apre- senta uma cronologia de produção entre 10 a.C. e 37, sendo um dos elementos recolhidos duran- te a escavação relacionados com o primeiro momento de ocupação romana deste sítio. Trata-se de um prato de base plana e bordo vertical côncavo, sendo a variante identificada na CGTB a mais comum.
6.7.2 Terra Sigillata Sudgálica
A Terra Sigillata produzida no Sul da Gália adquiriu importância a partir do reinado de Tibério e início de Cláudio, colocando-se a hipótese de se relacionar com a queda das produções itálicas (Viegas, 2003, p. 100).
Recolheu-se um fragmento de parede de TSSG (nº20), o que condiciona uma classificação tipo- lógica precisa. Este exemplar é proveniente do depósito [1437], exterior aos tanques, destacan- do-se nos materiais em associação ânforas Dressel 14 e um fundo de paredes finas. Apresenta pasta rosada, depurada e engobe espesso vermelho acastanhado escuro. Na superfície externa são visíveis elementos decorativos vegetalistas (Hermet, 1934, Pl. 7, Hermet, 1934, p. 11).
6.7.3 Terra Sigillata Hispânica
Recolheram-se quatro fragmentos de Terra Sigillata Hispânica, todos paredes, sendo a sua clas- sificação tipológica condicionada por este factor.
Os exemplares nºs 11 (depósito [1068], tanque 2, quadrante Norte) e 29 (depósito [1539], tan- que 16, quadrante Norte) apresentam em comum as suas muito reduzidas dimensões, que invia- bilizam a sua classificação tipológica. No que respeita aos fabricos, apresentam uma pasta poro- sa, com presença frequente de elementos calcários de pequenas dimensões e engobe espesso, vermelho escuro, características que permitem inserir estes dois fragmentos nas produções de Andújar.
O exemplar nº 21 (depósito [2141], acompanhamento arqueológico) caracteriza-se por uma pas- ta vermelha alaranjada, com presença frequente de elementos calcário, e engobe vermelho escu- ro, espesso. Em temos morfológicos, reporta-se a transição dos semi-círculos que caracterizam a taça Drag. 27, uma das formas mais comuns no actual território português (Viegas, 2003, p. 147), datada dos séculos I-II.
O exemplar nº 25 (depósito [1481], tanque 31, quadrante Oeste) reporta-se igualmente a uma parede, com círculos como motivos decorativos, padrão que se torna o mais comum a partir do século II (Viegas, 2003, p. 141). No que concerne ao fabrico, apresenta uma pasta depurada, cor-de-laranja e o engobe laranja escuro, características que se enquadram nas produções de Trício. A parede apresenta perfil hemisférico, característica que analisada em conjunto com a decoração permite propor a sua classificação tipológica como taça da forma Drag. 37.
6.7.4 Produções Africanas
No que respeita às produções africanas, registaram-se exemplares de Clara A e Clara D. O exemplar classificado como Clara C apresenta algumas reticências.
6.7.4.1 Terra Sigillata Clara A
No panorama formal da Terra Sigillata Clara A recolheram-se três fragmentos, dois dos quais provenientes da escavação e um do acompanhamento arqueológico.
O fragmento nº 17, fundo de pé em anel, foi recolhido no depósito [1363], Tanque 21, quadrante Oeste. A sua reduzida dimensão condiciona a sua classificação tipológica, propondo-se o seu enquadramento nas formas Hayes 24 a 31, série de pratos que se começa a produzir no século II e que dá origem aos pratos de base plana que se vulgariza no século seguinte (Hayes,1972, p. 51).
O exemplar nº 576 é proveniente do depósito [1515], Tanque 33, quadrante Sul. Trata-se de um bordo exvertido, arredondado pertencente a uma taça da forma Hayes 7A, com decoração em
guilhoché (Hayes, 1972, p. 31-33). O fragmento da CGTB insere-se no tipo A, datado entre a época dos flávios e inícios do século II (Hayes, 1972, p. 33).
O exemplar nº 24 é proveniente da área do Tanque 28, recolhido no âmbito do acompanhamento arqueológico, do depósito [2165]. É um exemplar da forma Hayes 3, variante B, datada de finais do século I/ inícios do II (Hayes, 1972: 24). Pelo que foi possível observar durante o acompa- nhamento arqueológico, a formação deste depósito é posterior à construção do tanque 28, não sendo exequível com os dados disponíveis determinar com segurança o seu momento de forma- ção.
6.7.4.2 Terra Sigillata Clara C
Recolheu-se um fragmento, interpretado como aba, com decoração em guilhoché (nº 30), no depósito [1539], Tanque 16 (quadrante Norte). O facto de se encontrar muito rolado e do engo- be preservado ser escasso condiciona a sua classificação, tanto no que concerne ao fabrico como ao tipo. Relativamente a este último ponto, propõe-se o seu enquadramento tipológico na forma Hayes 45 (Hayes, 1972, p. 61-65), que se trata de uma taça de grandes dimensões, com aba lar- ga e base plana, datada pelo autor entre 230/40 – 320 (Hayes, 1972, p. 65).
6.7.4.3 Terra Sigillata Clara D
Relativamente à Terra Sigillata Clara D, a maioria dos fragmentos recolhidos são provenientes do Tanque 18 (nº 13 e 27) e pertencem à forma Hayes 59, variante B, datada entre 320 e 420 (Hayes, 1972, p. 96-99). Corresponde a um prato, geralmente de grandes dimensões, de base plana e bordo de aba larga (Hayes, 1972, p. 96). Em termos cronológicos o autor insere a variante B desta forma entre 320 e 420.
Ainda que se tenham atribuído dois números de registo individual diferenciados, na medida em que os fragmentos não colavam, não se descarta a hipótese de pertencerem ao mesmo recipiente.
Recolheu-se ainda um fragmento de bordo desta forma no acompanhamento arqueológico, nº 22, proveniente do depósito [2139], numa área não intervencionada no âmbito da escavação, mas que cola com o nº 27. Assumindo a possibilidade do exemplar nº 13 pertencer à mesma peça que os nºs 22 e 27, recolheu-se apenas um exemplar desta forma Casa do Governador.
6.8 VIDROS
Os exemplares de vidros romanos recolhidos na CGTB são escassos, resumindo-se a três frag- mentos (vidro transparente, verde), todos provenientes do Tanque 21, depósitos [1362] (nº 15) e [1363] (nºs 16 e 18). Em termos tipológicos, os dois fragmentos susceptíveis de reconstituição
fogo, tipo Conímbriga 1965, nºs 205-225 (Alarcão, 1965), cujo auge produtivo se pode situar na primeira metade do século V, podendo atingir os inícios do século VI (Sarrazola, et all, 2001, p. 37-38, Antunes, 2008). Esta forma é relativamente abundante em contexto coevos na Península Ibérica, podendo destacar-se Conimbriga, Cacia, Parreitas (Sarrazola, et all, 2001, p. 37-38, Antunes, 2008).
6.9 MOEDAS
Durante a intervenção arqueológica realizada na Casa do Governador da Torre de Belém reco- lheram-se dez moedas, sendo que em quatro não foi possível efectuar qualquer leitura.
As moedas correspondentes aos números de registo individual 1, 2 e 4 são provenientes do Tan- que 2. O nº 1 reporta-se a uma cunhagem de Constâncio II (moeda de bronze, cunhada n 9ª ofi- cina de Constantinopla entre os anos 337-361). O nº 2 enquadra-se igualmente nas cunhagens de Constâncio II. (moeda de bronze, cunhada em Arles, entre os anos 342 e 348). No nº 4, prove- niente do depósito [1068], é visível no anverso cabeça de imperador virada à direita, com dia- dema de pérolas e no reverso imagem de Victoria Avg, com uma datação proposta para o século IV.
No Tanque 8 recolheu-se o nº5, proveniente do derrube [1083]. Trata-se de um Pentanumium de Anastácio I (oficina nº 1 de Constantinopla). Este numisma reveste-se de especial importância, não só porque indica uma ocupação, ainda que não caracterizada, deste espaço no século VI, como também pela escassez de moedas bizantinas no ocidente da península Ibérica (Fabião, 2009a, p. 27).
O nº 6 é proveniente do tanque 9, depósito [1100]. Trata-se de uma cunhagem de Constâncio II (moeda de bronze, Constantinopla).
Do Tanque 21 é proveniente o registo individual nº 14, do depósito [1362], um A2 de Teodósio da série Gloria Romanorum (moeda de bronze, não sendo possível realizar a leitura da ceca).