Hayes, Kelly (IUPUI)119
Resumo
A religião brasileira chamada Vale do Amanhecer é um novo movimento religioso internacional conhecido por sua cosmologia eclética e cerimônias de cura espiritual realizadas por adeptos vestidos com indumentárias deslumbrantes. Fundado no final de 1960 nos arredores do Distrito Federal de Brasília, o Vale do Amanhecer é a criação da mente visionária de Neiva Chaves Zelaya, carinhosamente chamada Tia Neiva, uma ex- motorista de caminhão, viúva, e médium clarividente. Junto com Mário Sassi, um seguidor que renunciou à sua família e vida anterior para se juntar a ela como amante e codificador intelectual de suas visões, Tia Neiva estabeleceu uma crescente religião internacional, hoje com mais de 600 templos afiliados em todo o Brasil, bem como na Europa, Ásia, e os Estados Unidos.
Com base na pesquisa etnográfica original, esta comunicação pretende examinar a influência do esoterismo ocidental na teologia do Vale do Amanhecer desenvolvido no contexto do Brasil nos anos 1960 e 1970. Fortemente influenciado por uma literatura esotérica internacional, Mário Sassi, o arquiteto da teologia do Vale, tentou interpreter e sistematizar as visões de Tia Neiva, criando uma cosmovisão singularmente brasileira e universal de esoterismo.
Palavras-Chave: Esoterismo, Vale do Amanhecer, novos movimentos religiosos,
Brasil
Abstract
The Brazilian religion called Vale do Amanhecer is an international new religious movement known for its eclectic cosmology and collective rituals of spirit healing performed by adepts in elaborate garments. Founded in the 1960s in the federal district outlying Brasília, the Valley of the Dawn is the product of the visionary mind of Neiva Chaves Zelaya, affectionately known as Tia Neiva, a widowed former truck driver and clairvoyant medium. Together with Mário Sassi, an early convert who renounced his family and former life to become Tia Neiva’s companion and the codifer of her spiritual visions, Tia Neiva established an international religion, today with over 600 affiliated temples throughout Brazil as well as in Europe, Asia, and the United States.
Based on original ethnographic research, this paper examines the influence of Western esotericism on the theology of the Vale do Amanhecer that developed in the context of Brazil in the 1960s and 1970s. Mário Sassi, the architect of the Valley’s theology, was strongly influenced by an international esoteric literature, which he drew on to interpret and systematize Tia Neiva's visions, creating a form of esotericism that is both uniquely Brazilian and universal.
Key Words: Esotericism, Valley of the Dawn, new religious movements, Brazil
119 Professor of Religious Studies, Indiana University-Purdue University-Indianapolis, EUA. E-mail: [email protected].
Introdução
O Brasil é um terreno fértil para os estudantes do esoterismo ocidental. Idéias e práticas esotéricas têm florescido no Brasil durante muito tempo, interagindo com as realidades locais para produzir uma rica variedade de religiões alternativas, terapias espirituais, modalidades de cura, filosofias, movimentos de arte e literatura. Enquanto este "meio esotérico" é evidente em centros urbanos como Rio e São Paulo, é especialmente forte em Brasília, capital do país, conhecido internacionalmente como a "Cidade Mística"120 ou a "Capital da Nova Era"121 devido à concentração especialmente intensa de movimentos alternativos, esotéricos e da Nova Era que surgiram desde a construção da cidade no final da década de 1950. O maior e mais conhecido destes movimentos místico-esotéricos nos arredores de Brasília é o Vale do Amanhecer, um novo movimento religioso cujos membros têm construído a sua própria cidade de 30,000 habitantes a 40 quilómetros de Brasília. Oficialmente chamado de Obras Sociais da
Ordem Espiritualista Cristã ou OSOEC, o movimento afirma templos afiliados em todo o Brasil, bem como na Bolívia, Portugal, Alemanha, Inglaterra, Japão, Estados Unidos e Caribe.
Conhecido por sua cosmologia eclética e singular estética visual, aparente na iconografia colorida, arquitetura especializada e adeptos vestidos com indumentárias deslumbrantes, o Vale do Amanhecer é a criação da mente visionária de Neiva Chaves Zelaya, carinhosamente chamada Tia Neiva, uma ex-motorista de caminhão, viúva e médium clarividente. Junto com Mário Sassi, um seguidor que renunciou à sua família e vida anterior para se juntar a ela como amante e codificador intelectual de suas visões, Tia Neiva desenvolveu um sistema religioso que assimilou várias idéias presentes no Brasil durante os anos 1960 e 1970, reconfigurando-os dentro de uma estrutura teológica fundamentada em grande parte na metafísica Teosófica, no espiritismo kardecista, e uma versão esotérica do cristianismo enfatizando ensinamentos éticos de Jesus como uma forma de redenção cármica. A colaboração entre o médium carismático Neiva e o intelectual Sassi deu origem a um tipo de esoterismo ocidental que é, ao mesmo tempo, universal e unicamente brasileira, como pretendo mostrar nesta comunicação.
120 Deis Siqueira, As novas religiosidades no Ocidente: Brasília, cidade mística (Brasília: Editora
UnB/FINATEC, 2003); Deis Siqueira e Ricardo Barbosa de Lima, orgs., Sociologia das adesões: Novas
religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil (Rio de Janeiro: Garamond, 2003), 144.
121 Robert Carpenter, "The Mainstreaming of Alternative Spirituality in Brazil," in New Religious
Movements in the Twenty-First Century: Legal, Political and Social Challenges in Global Perspective, edited by Phillip Charles Lucas and Thomas Robbins (New York: Routledge, 2004), 220.
Mário Sassi: Arquiteto Intelectual do Vale do Amanhecer
De acordo com o próprio relato de Mário Sassi, seu primeiro encontro com Tia Neiva foi extremamente impactante. Já um médium de algum renome local, Tia Neiva tinha um pequeno centro espírita nos arredores do Distrito Federal de Brasília onde ela dava consultas e realizava trabalhos espirituais quando Sassi chegou um dia em 1965 accompanhando uma amiga. Sassi sentiu o seu ceticismo habitual desvanecer quando Tia Neiva contou com precisão detalhes íntimos de sua vida que ele não tinha confessado a ninguém. Refletindo sobre aquele encontro alguns anos depois, Sassi descreveu sentindo como se ele tivesse sido invadido por forças desconhecidas. Pela primeira vez certas coisas na vida dele faziam sentido e um novo mundo se abriu.122 Três anos mais tarde, convencido de que Tia Neiva era um "super-ser" que "representa o Espírito da Verdade e que sua missão fundamental é nos preparar para o futuro," Sassi abandonou seu emprego, a esposa e cinco filhos para se-juntar a ela.123 Sua própria missão seria a de "dar testemunho do Espírito da Verdade," sintetizando as experiências visionárias de Tia Neiva e criando um sistema doutrinal abrangente das revelações que ela recebia de seus guias espirituais.124 Durante os próximos vinte anos, Sassi se-tornou
o filósofo e teólogo da comunidade, dedicando suas habilidades intelectuais para elucidar a matéria prima da clarividência de Tia Neiva.125 Esta divisão do trabalho espiritual continua a estruturar a comunidade hoje na parceria do apara, o médium de incorporação que recebe espíritos desencarnados e comunica suas mensagens, e o
doutrinador, que usa a razão e persuasão intelectual para ajudar esses espíritos no seu caminho evolutivo.
Através de uma série de livros auto-publicados e palestras pedagógicas, Sassi tentou construir uma base metafísica coerente para uma religião emergente cujas crenças e práticas ainda estavam sendo revelado, apoindo-se no seu conhecimento de espiritismo e na literatura esotérica popular na época. Ele parece ter sido influenciado especialmente pelo movimento Teosófico, que tinha havia estabelecido uma Sociedade Teosófica no Brasil em 1919. De fato, grande parte da cosmologia do Vale pode ser visto como uma versão abrasileirada de certas ideías chaves encontradas na Doutrina Secreta de H.P. Blavatsky e na literatura inspirada pela Teosofia. Vou dar
122 Mário Sassi, 2000: A Conjunção de Dois Planos (Brasília: Editora Vale do Amahecer, 1974), 2. 123 Sassi, 2000, 4.
124 Sassi, 2000, 4.
125 Embora, muitas vezes, é difícil diferenciar quais ideias vêm de Sassi e quais vêm das visões de Tia
um breve resumo da metafísica do Vale na próxima seção antes de examinar como Sassi se inspirou no conceito de "raças-raízes" de Blavatsky para explicar as origens do Vale do Amanhecer, bem como algumas ideías dos autores brasileiros Chico Xavier e Edgard Armond.126
A Metafísica do Vale do Amanhecer
Como a Teosofia, o Vale ensina que há sete planos de existência, incluindo as dimensões espirituais, etéreos (ou psíquicas) e materiais, cada um composto por seu próprio tipo de matéria-energia. A comunicação entre estes planos, e entre entidades espirituais e seres humanos, é possível através da prática da mediunidade, que está disponível a todo ser humano. O universo inteiro (incluindo a Terra e a humanidade) segue um grande esquema de desenvolvimento evolutivo e espiritual que se desenvolve em ciclos sequenciais, milenares. A transição entre estes ciclos é marcado por conflitos sociais, catástrofes ambientais e aumento do sofrimento humano. De acordo com o Vale, estamos atualmente no limiar da transição para o "Terceiro Milênio".
O motor do processo evolutivo são leis universais como karma e reencarnação. Enquanto fisicalidade é um estado transitório associado com a existência terrestre, o próprio espírito é "transcendental," existente antes e depois do corpo físico e, seguindo as leis do karma, sujeito a reencarnação na Terra, a fim de expiar os erros passados e aprender lições que vai facilitar a evolução contínua. Como muitos outros grupos influenciados pela literatura esotérica popular no Brasil, desde que as obras de Allen Kardec circularam no final do século XIX, o Vale entende a Terra como um lugar de expiação, onde o indíviduo pode eliminar os débitos cármicos, evoluindo para um estado mais elevado, ou pode acumular novas dívidas cármicas estendendo assim o ciclo da reencarnação para o futuro. Reencarnação na Terra não é castigo, mas sim uma preciosa oportunidade de trabalhar em prol da própria evolução espiritual, bem como a de todo o planeta. Quando o indivíduo está evoluído ao ponto em que a encarnação na Terra não é mais necessária, ele continua sua jornada no mundo espiritual até finalmente chegar à perfeição de sua origem: o Absoluto, Infinito, Imutável Fonte que os seguidores do Vale identifica com o Deus cristão.
126 Francisco (Chico) Xavier (1910 – 2002) era um conhecido médium brasileiro que psicografou
centenas de livros espíritas. Edgard Armond (1894 - 1982), um líder do movimento espírita em São Paulo, foi envolvido na codificação e sistematização da doutrina espírita e na fundação de organizações espíritas no Brasil.
Os seguidores do Vale se consideram membros de uma "tribo" exclusiva, chamada Jaguares, cujos antepassados espirituais derivam de uma raça de extraterrestres originalmente enviada à Terra para avançar a evolução cultural e espiritual da humanidade. Liderados por um espírito de luz altamente evoluído conhecido como Pai Seta Branca, que é retratado como um pajé ou chefe indígena, esses espíritos passaram por vários ciclos reencarnatórios ao longo dos milênios, encarnando como guerreiros espartanos, reis egípcios, soldados romanos, ciganos russos, revolucionários franceses, e brasileiros coloniais, entre outros. A soma total destas encarnações através do tempo e do espaço constitui a "herança transcendental" da comunidade - uma espécie de contabilidade cármica de vidas passadas e suas consequências cármicas. Vestindo indumentárias especiais que faz referência a episódios nesta herança transcendental, os seguidores do Vale realizam vários rituais destinados a resgatar o seu karma negativo antes da transição final para o Terceiro Milénio. Eles acreditam que no Terceiro Milénio a Terra vai passar para uma nova fase, encerrando a era da redenção cármica. Os espíritos mais evoluídos, seja encarnado em forma humana ou desencarnado, vão se reunir no seu verdadeiro berço espiritual, a estrela distante conhecida como Capela, para nunca mais reencarnar. Enquanto a Terra reverte para um nível espiritual-cultural mais primitivo, os seus habitantes restantes serão condenados a repetir outro ciclo.127
A influência teosófica no sistema metafísico do Vale é evidente na natureza cíclica do universo e tudo nele; a evolução da alma humana através de inúmeras vidas impulsionadas pela força do karma; a estrutura setenária do cosmos; uma hierarquia de "espíritos de luz" ou mestres altamente evoluídos que orientam os seres humanos ao longo de seu caminho evolutivo; e a ênfase na sabedoria antiga que remonta ao antigo Egito e outras civilizações avançadas. Em seguida, vou discutir como Sassi organizou sua cosmologia com base no conceito de "raças-raízes" de Blavatsky. Embora Sassi não tenha utilizado o termo "raça raiz," fica claro que sua discussão sobre as várias fases da evolução cultural e espiritual humana tem com base o modelo de Blavatsky.
127 Veja Kelly E Hayes, "Intergalactic Space-Time-Travelers: Envisioning Globalization in Brazil's
Valley of the Dawn." Nova Religio: The Journal of Alternative and Emergent Religions 16, 4 (2013): 63– 92; Hayes, Valley of the Dawn profile, World Religions and Spirituality Project, posted September 2015.
As Raças-Raízes
Segundo Blavatsky, as raças-raízes representam as fases principais do desenvolvimento da humanidade em sua interação com o mundo físico.128 Cada raça-raiz exibe uma forma diferente da consciência devido a diferentes misturas de componentes físicos e etéricos (ou espirituais). A primeira e a segunda raças-raízes apareceram nos primeiros estágios da formação da Terra e eram mais etéreas do que materiais, existente em forma espiritual em vez de forma corporal e, assim, não deixaram vestígios materiais. Com a terceira raça-raiz, chamada de Lemurianos, a materialidade começou a superar a espiritualidade. Uma raça de gigantes com grandes poderes psíquicos que habitou um continente perdido chamado Lemúria, a terceira raça-raiz entrou em decadência e, eventualmente, foi destruída quando seu continente submergiu. Dos sobreviventes surgiu a quarta raça-raiz, chamada Atlante, habitantes do continente perdido de Atlântida. Embora os Atlantes possuíssem grandes poderes espirituais e tecnológicos, eles também sucumbiram às tentações da materialidade e do ambiente físico e foram destruídos em um grande dilúvio, um evento reconstituído em todas as tradições antigas como o Dilúvio Universal. Em seguida, surge a quinta raça-raiz, a Ariana, que marca o atual estágio da consciência humana. Dali para frente, escreve Blavatksy, a trajetória evolutiva inverte-se, passando de crescente materialidade para o aumento da espiritualidade, um processo que continuará na sexta raça-raiz e culminará na sétima. De acordo com Blavatsky, a sétima raça-raiz será a última, marcando o fim da evolução da consciência humana na Terra com a volta à espiritualidade pura.129
Mário Sassi, em seu livro 2000: A Conjuncão de Dois Planos (1974), apresenta uma narrativa das origens humanas a partir das revelações de Tia Neiva. Nestas visões, que assumiram a forma de viagens astrais, Tia Neiva (que aparece como uma personagem no livro) descobre que a Terra foi colonizada por um grupo de espíritos altamente avançados do planeta Capela, uma idéia tratada em dois livros espíritas de autoria brasileira: A Caminho da Luz (1939) de Francisco (Chico) Xavier e Os Exilados de
Capela (1949) de Edgard Armond.130 Em 2000: A Conjuncão de Dois Planos, estes espíritos avançados, a quem Sassi denominou Equitumans, receberam a missão especial
128 http://www.themystica.com/mystica/articles/r/root_races.html 129http://www.themystica.com/mystica/articles/r/root_races.html
130 Francisco Cândido Xavier, A Caminho da Luz: História da Civilização à Luz do Espiritismo, ditada
pelo espírito Emmanuel (São Paulo: Editora FEB [Federação Espírita Brasileira], 1939); Edgard Armond,
Os Exilados da Capela: Esboço Sintético da Evolução Espiritual no Mundo (São Paulo: Editora Aliança, 1987 [1949]). A ideia de que um grupo de seres espirituais avançados veio para a Terra e influenciou o desenvolvimento da "raça adâmica" também foi um tema em La Genèse, les Miracles et les Preditions
de civilizar o planeta Terra e acelerar a evolução cultural e espiritual da humanidade. Sassi descreveu os Equitumans como uma raça de seres gigantes, mais etéreos do que físicos, muito parecido com a terceira raça-raiz de Blavatsky. E, como os Lemurianos, os Equitumans tornaram-se cada vez mais aprisionados ao mundo físico e aos instintos inferiores com o decorrer do tempo. Cedendo-se a luxúria e ao desejo de poder, os Equitumans "começaram a distanciar-se de seus mestres e os planos originais," escreveu Sassi.131 No final, eles foram eliminados da Terra num cataclismo provocado quando Pai Seta Branca bateu sua nave espacial no núcleo central da civilização dos Equitumans. De acordo com Sassi, o impacto da colisão criou o atual Lago Titicaca, local de nascimento mítico da civilização Inca. Por esta razão, muitos seguidores do Vale hoje acreditam que os Incas eram Equitumans.132
Após o desaparecimento dos Equitumans, Pai Seta Branca reuniu os remanescentes mais puros para continuar o processo civilizatório. Semelhante a quarta raça-raiz de Blavatsky, esse grupo, os Tumuchys, possuíam habilidades científicas e tecnológicas muito avançadas. De acordo com Sassi, o principal objetivo dos Tumuchys era a "manipulação de energias planetárias." Eles conheciam o mecanismo de relações energéticas entre os corpos celestes e a Terra e construíram pirâmides e outras estruturas antigas para a integração e desintegração das energias siderais. Eles foram organizados em sete tribos, cada uma dirigida por um grande chefe chamado Orixá, um termo usado para divindades veneradas nas religiões afro-brasileiras. "Esta palavra afro-brasileira é muito adequada," explicou Sassi, porque significa exatamente "divindade intermediária entre os crentes e a suprema divindade.”133 Distribuídos em sete centros ao redor do
mundo, os Tumuchys criaram sua sede e "centro de comunicação interplanetária" na Ilha de Páscoa.
Depois os Tumuchys vieram os Jaguares, o equivalente da quinta raça-raiz. Como a raça Ariana, os Jaguares evoluíram de um núcleo de Tumuchys. Na história do Vale, os Jaguares eram "grandes manipuladores de forças sociais" que deixaram sua marca em vários povos antigos, sendo responsáveis pelas civilizações avançadas dos Maias, Egípcios, Incas, Romanos, e assim por diante. Esses experimentados espíritos acabavam, sempre, ocupando posições de mando e se destacavam como reis, nobres, ditadores, cientistas, artistas e políticos. No decorrer de milhares de anos, os Jaguares
131 Sassi, 2000, 42. 132 Sassi, 2000, 42-43. 133 Sassi, 2000, 47-48.
também se desviaram de sua missão civilizadora, seduzidos pelo poder material. Finalmente, Deus enviou Jesus à Terra, onde ele estabeleceu o Sistema Crístico de redenção cármica, baseado no amor incondicional, humildade, perdão e a prática da caridade ou, como é conhecida no Vale, a "Lei de Assistência."
Segundo Sassi, aqueles espíritos que adotaram o sistema Crística como uma forma de resgatar o seu karma negativo e voltar à sua missão original ficaram conhecidos como Jaguares em homenagem a sua encarnação como uma tribo de índios andinos liderado pelo Pai Seta Branca em sua encarnação terrena final. Desde então, os Jaguares vêm pagando suas dívidas cármicas em diferentes encarnações no tempo e no espaço, do Brasil colonial e França revolucionária para as planícies da Rússia no século XIX. Tendo completado sua jornada evolutiva na Terra, Pai Seta Branca incumbiu Tia Neiva a dar continuidade a sua missão de ajudar a humanidade na difícil transição para o Terceiro Milênio. Os adeptos do Vale se consideram Jaguares atuais, reunidos por Tia Neiva, de acordo com a missão de Pai Seta Branca. Seguindo o exemplo de Jesus através da prática do amor, tolerância, humildade e perdão, os seguidores do Vale acreditam que podem recuperar o karma negativo por eles acumulado ao longo de vários ciclos de vida e, eventualmente, voltar a sua origem.
Esoterismo com um Toque de Brasilianidade
Como este breve resumo indica, Mário Sassi utilizou uma mescla de ideias esotéricas e espiritualistas na construção de uma cosmologia que colocou os seguidores do Vale no centro de um drama cósmico e universal. Ao mesmo tempo, o Brasil tem um papel muito especial neste drama não apenas como um local importante para a redenção cármica no passado do Jaguar, mas também como o berço de uma eflorescência espiritual iminente. Em suas visões, Tia Neiva ficou sabendo que o Brasil "constitui a reserva espiritual do futuro" já que o Brasil possui as "características espirituais" que irá "permitir a retomada de novos ciclos." A prova disso, segundo os mentores espirituais