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3. METHODOLOGY, DESIGN & METHODS

3.3 CASE STUDY METHODOLOGY

3.3.3 CONTENT ANALYSIS

José Ingenieros considerava os “negros de raça pura” e os “índios de raça pura” como seres inferiores. O ideal, para ele, era que os indivíduos de “raça branca” não copulassem com pessoas provenientes das “outras raças”, com a finalidade de não gerar “crias híbridas”. Entretanto, ele não podia negar que, sobretudo, nos primórdios do período colonial houve o cruzamento de espanhóis com índias que geraram filhos mestiços. Era inegável que uma fração dos descendentes da elite política e econômica do território tinha uma dose de sangue indígena. Contudo, o ítalo-argentino não se referia a eles chamando-os de mestiços, mas sim de brancos nativos, afinal, estes indivíduos estavam adaptados à vida urbana, aos costumes e à cultura dos europeus. Na prática, ser considerado branco no pensamento ingenieriano implicava em poder gozar de todos os direitos jurídicos e políticos dentro do território argentino. Ou seja, estes elementos estavam plenamente incluídos na nação. Nesta perspectiva, se pode afirmar que, em relação à questão da mestiçagem, o discurso de Ingenieros ficou mais brando, uma vez que ele acreditava que este processo gerava um “refinamento sanguíneo”. Por isto, ele admitia que uma pequena dose de sangue indígena corresse nas veias dos descendentes da primeira onda imigratória, indivíduos estes que ele mesmo classificava como euro-argentinos.

O caso dos gaúchos no pensamento ingenieriano foi mais complexo. A ênfase do seu discurso estava voltada, sobretudo, ao suposto atraso cultural e a incivilidade destes indivíduos. O gaúcho, morador do campo, era visto pelo intelectual como “ignorante”, “embrutecido”, “pobre”, “desocupado” e uma série de outros atributos negativos. O que mais incomodava Ingenieros era que estes elementos tinham uma cultura híbrida que evocava hábitos e costumes tanto da tradição ibérica quanto da “barbárie” indígena. Para ele, esta cultura híbrida hispano-americana era a expressão máxima da barbárie argentina e era o maior símbolo do decrépito “espírito colonial”. Logo, ela necessariamente precisava ser aniquilada pela civilização europeia e desaparecer do território argentino. Para que esta cultura híbrida desaparecesse, era necessário que o gaúcho fosse gradativamente substituído por brancos europeus. É importante frisar que nem todo mestiço era visto

como um gaúcho. Quando o intelectual argumentou que da estirpe ibero-americana nasceu uma variedade mestiçada que se adaptava aos costumes dos indígenas ou dos europeus de acordo com o meio físico, na prática ele estava reconhecendo que existiam indivíduos mestiços que eram moradores dos centros urbanos e que adotaram padrões culturais exclusivamente europeizados, levando um estilo de vida totalmente diferente da dos gaúchos. Neste sentido, estes elementos, embora não considerados como “argentinos do tipo ideal”, não foram enxovalhados pelo discurso ingenieriano, pois a exclusão e a substituição eram voltadas ao gaúcho e sua cultura híbrida, e não necessariamente ao indivíduo de sangue mestiçado.

O discurso de Bomfim, por seu turno, elogiou o mestiço, alegando que ele herdava as melhores características dos seus progenitores. Também, em momento algum fez apologia ao embranquecimento das características fenotípicas da população brasileira por meio da mestiçagem. É necessário ter clareza que a mistura de raças era enaltecida porque o brasileiro acreditava que ela gerava produtos vigorosos, inteligentes e saudáveis, e não porque ela tinha potencial para gerar descendentes mais brancos. Contudo, é importante ponderar que o ideal de branqueamento entre os homens do princípio do século XX não dizia apenas respeito ao clareamento da cor da pele, mas também estava relacionado à neutralização de certas identidades culturais de determinados grupos étnicos. Neste sentido, Skidmore (1976) afirma que “a tese do branqueamento baseava-se na presunção da superioridade branca, às vezes pelo uso de eufemismos raças “mais adiantadas” e “menos adiantadas” e pelo fato de ficar em aberto a questão de ser a inferioridade nata” (SKIDMORE, 1976, p. 81). Para Skidmore, no Brasil, a teoria do branqueamento, em sua vertente otimista, acreditava que a miscigenação não produzia seres degenerados, mas indivíduos sadios e capazes de se tornarem sempre mais brancos, tanto fisicamente quanto culturalmente.

Pode-se afirmar que, quando Bomfim incentivou a interação e a assimilação entre “diferentes raças”, defendendo que os “povos infantis” adquiririam novas qualidades dos “povos cultos” a ponto de modificar o seu “caráter primitivo”, na prática seu pensamento estava embranquecendo-os culturalmente. Ou seja, existiu uma dose do ideal de branqueamento no discurso de Bomfim, pois os seus escritos estimulavam que os índios, os negros e os mestiços interiorizassem modelos

culturais ibéricos a fim de se tornarem “mais civilizados” e pudessem “progredir” de forma mais acelerada. É necessário ressaltar que esta questão era bastante paradoxal no pensamento do sergipano, pois o seu elogio era feito em relação à cultura ibérica – e não ao “homem branco” – espanhol e português. O ibérico era sempre retratado como um indivíduo ganancioso que explorava de forma brutal os elementos das “demais raças”. Era um ser que descendia do “berço” das grandes civilizações, mas que, em virtude das suas “atividades parasitárias”, degenerou.

Por fim, pode-se afirmar que tanto Ingenieros quanto Bomfim demonstraram admiração pela civilização e pela cultura dos povos europeus. No caso do ítalo- argentino quanto mais os indivíduos de sangue mestiçado fossem mais claros em seu tom da pele e adotassem os costumes e a uma “mentalidade europeizada”, mais bem aceitos eles eram dentro da sociedade argentina. O brasileiro, por sua vez, tentou superar as ideias racistas por meio do elogio ao hibridismo, construindo um discurso no qual os mestiços herdavam as melhores características de seus progenitores. Contudo, ele discriminou as contribuições das culturas/sociedades consideradas historicamente inferiores, elegendo a matriz ocidental como gerenciadora dos costumes e da mentalidade da sociedade brasileira.