Nesta unidade de contexto, foram dirigidas as seguintes perguntas aos entrevistados: Você se identifica com o seu trabalho voluntário? Por quê? Você acredita na importância do seu trabalho? Por que ele é importante para você?
Os resultados são expostos por meio de quatro unidades de registro conectadas à unidade de contexto “coerência”: importância e identificação, que representam o trabalho com sentido, e não importância e não identificação, que representam o trabalho sem sentido, conforme apresentado na figura 4.
Figura 4 - Dimensão individual do trabalho - Coerência
Fonte: Elaborada pelo autor (2018).
Foram identificadas 23 citações concernentes à coerência. Esse resultado é produto da soma dos primeiros números dos pares ordenados de cada unidade de registro. Baseado nisso, pode-se observar que, em sua totalidade, os voluntários entrevistados se identificam com seu trabalho e o consideram importante. Como é descrito a seguir em algumas citações:
Sim (Me identifico). Porque eu sempre estou interagindo com pessoas e lidando com intercâmbio, que é uma coisa que sou muito apaixonada. Já fiz um e tenho vontade de fazer outro, então tento passar um pouco dessa minha empolgação e dessa minha visão de mundo para as pessoas, mostrar que elas podem abrir a cabeça, conhecer outras culturas e aprender coisas diferentes. [...] Com certeza (É importante), porque
nele eu estou me desenvolvendo, estou aprendendo coisas diferentes [...] (V9).
Sim (Me identifico). Eu gosto do trabalho, de ouvir as experiências, de saber realmente que o propósito da organização está sendo cumprido, que as pessoas conseguem se desenvolver. [...] Sim, acredito (Na importância). Porque não é algo inalcançável, meu propósito dentro da organização é algo que consigo ver no dia-a- dia o que realmente está acontecendo, consigo ver dados, experiências, relatos [...] (V11).
De acordo com a interpretação acerca do discurso dos voluntários, foi constatada a existência de uma elevada centralidade do trabalho, mesmo em condições de não remuneração. A centralidade do trabalho é definida pelo grau de importância que o trabalho tem na vida do indivíduo (MOW, 1987), a identificação individual com a atividade ou a significância que a pessoa atribui ao papel do seu trabalho (LUNDBERG; PETERSON,1994). Como se constatou a totalidade de alusões às unidades de registro positivas, identificação e importância, percebe-se que os voluntários possuem um elevado grau de participação, engajamento e compromisso, evidenciando que o trabalho é parte integrante fundamental de suas vidas.
Além desse aspecto, constatou-se que a existência da centralidade no contexto do trabalho voluntário está relacionada, principalmente, ao desenvolvimento pessoal e profissional, e ao propósito organizacional.
Demais (Me identifico). Eu sempre tive muito esse senso de mudar o mundo e muitas pessoas que estão dentro dessa organização é voltado pra [sic] esse propósito. [...] É totalmente diferente se propor a um propósito maior, da paz mundial e da gente mudar a nossa realidade (V4).
Sim, me identifico bastante. A proposta da organização foi algo que me fez comprar a ideia muito rápido. Eu já tinha feito alguns outros trabalhos voluntários antes, mesmo o do intercâmbio social da organização, mas nunca com uma finalidade de desenvolvimento, tanto pessoal quanto profissional. [...] Acredito na importância do meu trabalho porque, quanto mais gente fazendo isso, buscando se conhecer tanto pessoalmente como profissionalmente, a gente vai ter um impacto maior em relação ao mercado de trabalho, na forma com que as pessoas estão trabalhando. As pessoas vão passar a desenvolver um trabalho muito mais eficiente e que pode impactar de diversas formas a sociedade [...] (V2).
Araújo e Sachuk (2007) defendem a centralidade do trabalho para o ser humano, o qual busca experiências significativas de trabalho. Tais experiências incluem diversos fatores, sobretudo a oportunidade de trabalhar por um propósito/objetivo alinhado com as crenças e valores do indivíduo e, principalmente, aliado a uma organização de trabalho que contribua
para o desenvolvimento pessoal e profissional. Isso porque a importância do trabalho está associada à descoberta, formação e construção da identidade (DUBAR, 1998; MORIN, 2001).
5.1.2 Alienação
Nessa unidade de contexto, foram mencionadas 22 citações. Dentre essas, 18 citações foram positivas, relacionadas ao conhecimento a respeito dos objetivos do trabalho e clareza, enquanto houveram 4 menções relativas ao desconhecimento do trabalho e a falta de clareza em relação aos objetivos para os voluntários. A Figura 5 evidencia a unidade de contexto “alienação”.
Figura 5 - Dimensão individual do trabalho - Alienação
Fonte: Elaborada pelo autor (2018).
Na entrevista, optou-se por investigar a dimensão individual no contexto da alienação através de duas perguntas básicas: Quando você exerce uma atividade/tarefa, você sabe por que está fazendo aquilo? Você sabe para que serve o seu trabalho? Foi solicitado também que o entrevistado fizesse uma breve descrição do trabalho, para compreender melhor suas atividades e sua função na organização.
Alguns entrevistados, total de 2, desconheciam o objetivo do trabalho e não possuíam clareza: “Não sei responder não (pra que serve meu trabalho)” (V1). Outro reverbera inconsistência em sua afirmação: “Atualmente eu sou diretora de vendas. Sou responsável por um time e por incentivar esse time a continuar a crescer, a vender. [...] Então creio que o meu papel é muito disso, de incentivo” (V4).
De acordo com as respostas que confirmam o conhecimento dos voluntários acerca da clareza e do objetivo do trabalho, algumas possuem uma visão técnica e operacional, voltada para o trabalho na área em si, enquanto outras pessoas expandiam para o objetivo organizacional. Como tais visões estão inter-relacionadas, consideraram-se essas concepções como não alienação.
No que tange à clareza e conhecimento do objetivo do trabalho, pode-se observar nas entrevistas:
Meu trabalho é útil porque através dele a gente tenta impactar o Segundo Setor. Eu trabalho numa área que recebe intercambistas pra trabalhar em startups e empresas aqui hoje. Eu acredito que a gente consegue fazer um impacto maior dentro do mercado, através de novas orientações trabalhistas. [...] Sim (sei porque estou fazendo aquilo), no que eu trabalho hoje a gente consegue fazer uma transformação intercultural no mercado e mostrar como são feitos os mesmos processos em outros países, mostrar pras pessoas que não existe só uma forma de fazer aquilo e abrir os horizontes tanto de forma cultural, como de forma processual em relação às áreas que as pessoas trabalham hoje (V2).
Na organização a gente é muito doutrinado ao nosso “Por quê?”, por que a gente faz e o que a gente faz. Eu sei que eu trabalho pra desenvolvimento de liderança, pra paz mundial e preenchimento das potencialidades humanas. Parece uma coisa totalmente abstrata, mas eu consigo ver [...]. Quando eu vejo alguém se desenvolvendo de alguma forma, aquilo ali é preenchimento das potencialidades humanas, então há um nível muito pequeno, mas quando a gente junta e soma todas as forças, a escala cresce e eu sei para o que tá servindo ali o trabalho que a gente tá fazendo (V3).
Em sua maioria, os voluntários conhecem bem suas atividades, o processo de trabalho que realizam e o objetivo é bastante claro. Eles conhecem e valorizam o produto/serviço e o impacto de seu trabalho na sociedade. Tais fatores contribuem para que o trabalho não seja considerado alienante, atribuindo significância ao mesmo.
Oliveira et al. (2004) e Morin (2001) concordam que, para que haja um trabalho com sentido, é importante que quem o realiza saiba para onde ele conduz, ou seja, é essencial que os objetivos sejam claros e valorizados, e que os resultados tenham valor aos olhos de quem o realiza. A compreensão dos objetivos da atividade que está desenvolvendo permite ao trabalhador atribuir sentido à tarefa que está executando.
Sem ter a visão do seu trabalho como um todo, como instrumento necessário à
concretização de um fim específico, o indivíduo pode alienar-se do seu trabalho (OLIVEIRA et
al., 2004). Um sujeito alienado é aquele que não reconhece o produto de seu trabalho, que não consegue identificar os processos envolvidos no desempenho de suas atividades, que não percebe sentido no que faz, que não possui liberdade para realizar determinada tarefa e que
não se satisfaz na sua atividade de trabalho. Esse sujeito desprovido de tudo que lhe é próprio não está apto para assumir a responsabilidade de direcionar os rumos da sociedade, juntamente com outras pessoas.
De acordo com os resultados de Morin (2001), a qual investigou o sentido do trabalho com administradores, é importante que a organização das tarefas e das atividades torne-se favorável à eficiência e que os objetivos visados e os resultados esperados sejam claros e significativos para as pessoas que o realizam.
5.1.3 Valorização
Na perspectiva dos voluntários, a unidade ‘valorização’ apresentou 21 episódios, sendo 20 indicados pelos entrevistados como reconhecimento e valorização do trabalho com o indicativo positivo, conforme a Figura 6.
Figura 6 - Dimensão individual do trabalho - Valorização
Fonte: Elaborada pelo autor (2018).
Para avaliar o nível de satisfação dos entrevistados, os questionamentos para esse tópico foram: Você se sente valorizado e reconhecido pelo desempenho das suas atividades no seu trabalho? De que modo?
O conteúdo sobre valorização e reconhecimento, resultado da análise das entrevistas foi, em sua quase totalidade, relacionado ao atingimento de metas e resultados no ambiente organizacional. Portanto, verifica-se que o trabalho possui sentido valorativo, o que pode ser constatado nas citações a seguir. “Sim (Sou valorizado). Eu acho que reconhecimento de toda
a organização. A gente também tem aquela gamificação, que é meio que um bônus que você consegue mais pontos, quando consegue mais atividades feitas” (V8).
Sim, aqui eu sinto que meu trabalho é bem mais valorizado que dentro do mercado da minha área de graduação. Quando eu chego numa empresa pra trabalhar fazendo estágio, eu sinto que é muito “você está aqui pra fazer isso e só”. Aqui não, a gente tem a tradição de comemorar todas as pequenas vitórias ao longo do processo[...] (V2).
Sim (Sou valorizado), bastante. Acho que o reconhecimento aqui, as pessoas realmente te reconhecem, não é apenas ações que elas demonstram, elas chegam e falam também[...]As pessoas tem realmente liberdade pra falar, não ficam acanhadas [...] E também não se sentem mal em falar quando você tá indo mal, isso aí é muito importante também, então quando você tá falando de trabalho, você realmente consegue reconhecimento aqui dentro. (V4)
Também surgiu uma colocação curiosa de uma voluntária, indagando-se sobre o fato de ser ou não motivada em termos de reconhecimento, como pode ser identificado na seguinte afirmação: “Sim (Sou valorizado). Não sei se sou muito motivada a reconhecimento, mas quando alguém elogia, coisa simples, ou quando eu vejo o resultado do meu trabalho bem feito, então isso é reconhecimento” (V3).
Conforme Dejours (2004), o reconhecimento possibilita o prazer e a realização no que tange ao trabalho. O reconhecimento dos indivíduos no trabalho é determinante para a construção de uma identidade pessoal e social, por meio da realização das tarefas em que utiliza seus conhecimentos e autonomia (MORIN, 2001). Este reconhecimento significa a percepção por parte dos pares, dos subordinados e das chefias, pelo uso da inteligência no trabalho (Dejours & Abdoucheli, 1994).
As pesquisas realizadas por Emery (1964, 1976) e Trist (1978), também comprovam que o reconhecimento e o apoio são essenciais para que um trabalho faça sentido: o trabalho deve ser reconhecido e apoiado pelos outros na organização. Esse aspecto estimula a necessidade de afiliação e vinculação.
5.1.4 Prazer
A maioria dos voluntários afirmaram gostar veementemente do trabalho, quando perguntados: “Você gosta do dia-a-dia de seu trabalho? Por quê?” Percebia-se, no decorrer das entrevistas, a paixão relacionada à rotina de trabalho, totalizando 10 menções positivas, de acordo com a Figura 7.
Figura 7 - Dimensão individual do trabalho - Prazer
Fonte: Elaborada pelo autor (2018).
Conforme os relatos, a unidade de contexto está intimamente relacionada ao ambiente familiar, cultura organizacional e ao contato com as pessoas inseridas nesse ambiente. Dentre as respostas, podem-se destacar:
Gosto (Do meu trabalho). Apesar do meu dia-a-dia ser muito puxado, eu gosto muito de estar aqui na organização. Eu gosto do ambiente, gosto das pessoas que estão aqui, de estar ajudando [...] O ambiente aqui é muito familiar, me deixa muito confortável [...] (V1).
Eu amo (O meu trabalho)! Amo muito a cultura organizacional, que é uma coisa bem livre e espontânea. Essa organização é muito incrível, a gente consegue se soltar, ser você e se permitir o máximo possível, e o trabalho também é bem leve. Tem uma pressão grande, tem, mas ao mesmo tempo você se sente muito bem fazendo essas coisas e você realmente acredita no propósito final (V4).
Gosto (Do meu trabalho). Eu gosto muito de vir pro office (escritório). [...] Eu gosto do dia-a-dia aqui porque eu gosto de ver as pessoas, de conversar com elas. Às vezes (o trabalho) parece até uma brincadeira[...] exceto quando chega o dia de caos, de vendas, que a gente tem que vender, são dias específicos, mas... (V10).
De acordo com os voluntários, há, por vezes, uma elevada carga de trabalho que pode afetar a satisfação e, consequentemente, sua motivação, mas pelos relacionamentos que cultivam na instituição e pelo ambiente organizacional livre e tolerante, a satisfação pessoal não é afetada nesse sentido, mesmo que haja alto volume de atividades.
Dentre as 11 citações relacionadas ao prazer no trabalho, uma delas foi negativa, afirmando não gostar do trabalho em si, das atividades. Sua insatisfação deve-se, principalmente, à dificuldade de contatar clientes e gerar resultados para a organização. Este caso demonstra a falta de sentimento de realização, conforme se pode constatar na afirmação abaixo.
Vou te confessar uma coisa, eu não gosto (Do meu trabalho). Sou sincera, eu confesso que eu não gosto, principalmente quando os clientes não respondem. [...] É bem difícil, chega um momento que desmotiva e você fica insatisfeita (V9).
Segundo Canholi Junior et al (2016), o sentido do trabalho é possível por meio da transformação do sofrimento em prazer, pela utilização das competências e liberdades individuais. É necessário que a organização do trabalho propicie ao sujeito liberdade para organizar seu modo de trabalhar e desenvolver sua inteligência prática, no confronto com as dificuldades do trabalho, de modo que o prazer no trabalho é fundamental para a manutenção da saúde e da normalidade.
No geral, os voluntários disseram gostar do trabalho, do ambiente e das pessoas da organização, visto o entusiasmo sentido durante as entrevistas. Morin (2001, p. 16) afirma que “o prazer e o sentimento de realização que podem ser obtidos na execução de tarefas dão um sentido ao trabalho” e Oliveira et al. (2004) relatam que a execução de um trabalho que se goste, em que se sinta prazer em sua execução, também é algo importante para que esse faça sentido. Entretanto, se a pessoa realiza um trabalho que não é prazeroso, do qual ela realmente não goste, não é possível encontrar sentido.
5.1.5 Desenvolvimento
A Figura 8 nos revela que, relativo ao desenvolvimento, foram citadas 46 referências. Todas consideravam que o trabalho promovia o crescimento, tanto no âmbito profissional como no pessoal, e adquiriam constantemente novos conhecimentos e desenvolviam novas habilidades no decorrer da execução das atividades.
Nesta etapa, as perguntas eram formadas da seguinte forma: “Você acredita que seu trabalho te faz crescer tanto no âmbito profissional como no pessoal? Você adquire novos conhecimentos e desenvolve novas habilidades? Com que frequência? O que você desenvolveu e aprendeu nessa experiência até o presente momento?”.
Fonte: Elaborada pelo autor (2018).
Verifica-se, nos depoimentos, que os campos de crescimento profissional e desenvolvimento pessoal estão conectados pelo desenvolvimento de competências.
Imensamente (me faz crescer tanto no pessoal como no profissional). Desde que eu entrei na organização, eu estou vendo que eu não sou mais a pessoa que eu estava acostumado a ser. Os meus potenciais estão literalmente transformados, minhas mensuráveis de sucesso, hoje, são outras, o meu lado profissional mudou bastante, hoje eu tenho outra visão em relação à responsabilidade, do que eu tenho pra entregar. [...] Mudou [sic] bastante o meu profissional e meu pessoal também, em relação a redescobrir meu valores, entender melhor como eu funciono, saber meus limites, não ficar até o dia amanhecer trabalhando freneticamente, de saber o momento de parar [...] (V2).
Pessoalmente, eu aprendi a ter mais equilíbrio emocional. Você está numa situação de pressão ou um pouco caótica e conseguir respirar e pensar com clareza. A organização me ensinou muito sobre isso e a lidar com pessoas, com perfis diferentes. [...] Profissionalmente, a parte de gestão de pessoas me acrescentou muito e hoje eu trabalho diretamente com vendas e é algo que eu não sabia que eu teria afinidade, não esperava trabalhar com isso, mas a experiência está me fazendo aprender sobre isso também (V3).
Baseando-se nessa análise, pode-se fazer um parâmetro com o que fala Morin (2001), quando ela destaca que o prazer e o sentimento de realização obtidos por meio da realização de uma tarefa dão sentido ao trabalho. A execução de tarefas permite exercer seus talentos e suas competências, resolver problemas, fazer novas experiências, aprender novas competências, atualizar seu potencial e aumentar a sua autonomia (MORIN, 2001).
Com isso, o trabalho adquire uma importância singular na vida, servindo de estímulo para que o trabalhador enfrente novos caminhos profissionais, responsabilizando-se pelo seu próprio destino (LINZMEYER, 2009). “Em todo ato de trabalhar encontra-se uma força de pensar e de agir que é inerente ao ser humano, resultante da sua constituição física, da sua disposição psíquica e intelectual” (ZARIFIAN, 2009, p. 1). Essa força impulsiona a pessoa a conhecer, compreender e analisar as oportunidades, aumentando a preocupação com o seu desenvolvimento.
Sendo assim, a autonomia, a possibilidade de crescimento pessoal e profissional, o desenvolvimento de competências, a valorização do trabalho e o reconhecimento são características fundamentais para a realização pessoal. Tais aspectos são fundamentais para o trabalho com sentido (TOLFO; PICCININI, 2007).
5.1.6 Sobrevivência e independência
Em relação à unidade de contexto “sobrevivência e independência‟, não foram feitas perguntas aos entrevistados, visto que seu trabalho nessa organização é voluntário, não remunerado; portanto, não há condições que favoreçam sua sobrevivência e independência do ponto de vista financeiro no atual contexto organizacional em que estão inseridos, conforme pode-se observar na Figura 9.
Figura 9 - Dimensão individual do trabalho – Sobrevivência e independência
Mesmo assim, houve algumas afirmações nas quais alguns dos entrevistados relataram já trabalharem remuneradamente em outras organizações, enquanto outros buscavam um trabalho com sentido no tocante ao aprendizado e desenvolvimento, tanto pessoal como profissional, conforme se pode observar abaixo.
[...] A organização me ensinou muito sobre isso e a lidar com pessoas, com perfis diferentes, é uma das coisas que eu mais vou levar pra qualquer lugar, tanto que no meu trabalho remunerado, eu trabalho com uma chefe, bem chefe mesmo, bem durona [...] (V3).
Sobre a motivação do trabalho voluntário, acho que é bem clara que, diferentemente do trabalho remunerado, a gente não recebe nenhuma ajuda financeira pra isso, mas a experiência que a gente tem desenvolvido no trabalho voluntário é muito mais, porque nada te prende, está relacionado à experiência. No final do dia não importa quanto você vai ganhar, mas a experiência que você vai ter (V7).
Eu escolhi vir pra organização, trabalhar como voluntário, mais pra desenvolvimento pessoal. Eu via que eu não tinha nenhuma experiência profissional, eu nunca tinha trabalhado de maneira voluntária em canto nenhum e meu currículo era meio vazio. Eu conhecia gente que trabalhava na organização e eu achava um trabalho muito interessante. Achei que seria legal pra mim, ser voluntário, mesmo não ganhando nada por isso (V10).
Baseando-se nisso, Dourado et al. (2009) percebem que a dimensão econômica, na verdade, não é fator crucial, pois existem outras formas de trabalho, fora do enclave da lógica de mercado. Isso lembra que se espera mais do trabalho do que a remuneração, ele deve fazer sentido (GOULART, 2009), ou seja, o trabalho deve fazer sentido independentemente se é remunerado ou não.
Em contrapartida, tanto Morin (2001) quanto Oliveira et al. (2004) enfatizam que o elemento financeiro é primordial para garantir a sobrevivência e concluem que, caso dispusessem de dinheiro para viver confortavelmente, continuariam a trabalhar, pois o trabalho, além de uma fonte de sustento, é um meio de se relacionar com os outros, de se sentir como parte integrante de um grupo ou da sociedade, de ter uma ocupação e de ter um objetivo a ser atingido na vida. Nessa perspectiva, o trabalho voluntário não possui sentido, visto que não há fator financeiro que garanta a sobrevivência ou a independência.