• No results found

No tópico anterior discutimos sobre a participação comunitária de forma autogestionária e autônoma. Mas essa participação pressupõe um processo comunicacional fluido e, na concepção dos atores envolvidos na economia solidária, detentora de uma base solidária, dialógica e educativa (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2006 b).

A comunicação é a via pela qual as pessoas compartilham experiências e mantêm uma vida comum. Os mecanismos comunicacionais, especialmente as discussões e os debates públicos, ensejados pelas liberdades políticas e pelos direitos civis podem desempenhar um papel fundamental na formação de valores, na identificação das necessidades coletivas, na emergência de normas sociais, na seleção evolutiva de comportamentos individuais e coletivos (SEN, 2000).

A partir do ato comunicacional, de acordo com Jürgen Habermas, os indivíduos adquirem consciência moral pela via argumentativa e negociam a partir da apreciação dos interesses de cada componente do grupo para a formação da vontade coletiva no sentido de facilitar a resolução dos conflitos. A negociação não tem como pano de fundo a dominação, mas a orientação. O motivo disto é que a ética do discurso deve garantir a imparcialidade na formação de juízos e o acordo não pode ser imposto à outra parte e nem extorquido da outra pessoa por meio de manipulações (BRENNAND, 2006).

O espaço público representa um lugar privilegiado para os sujeitos terem chances iguais de participação no debate e de influência recíproca, podendo ocorrer uma (re) definição de valores, juízos e decisões sociais dentro do grupo. No âmbito da economia solidária, como no caso da constituição e gestão do banco comunitário, este espaço configura-se como um importante laboratório de prática e de “aprendizagem na prática” de um comportamento político (COSTA & CARRION, 2008; BRENNAND, 2006; SEN, 2000).

Com um caráter social, intelectual, criativo e democrático10, a discussão pública possibilita que os indivíduos de um grupo lutem por sua autonomia cultural, material e política, focalizados na emancipação humana (BRENNAND, 2006; SEN, 2000).

10 Sobre a aliança entre escolha pública e democracia no âmbito da economia solidária, os termos “democracia

direta” e “democracia local”, o primeiro enunciado por Melo Neto e Magalhães (2006) e o segundo por França Filho (et. al. 2013), abarcam a democratização dos processos decisórios dos atores sociais locais para a promoção do desenvolvimento social, econômico e político numa dimensão territorial. A rede de articulação

Durante a coleta de dados levantamos várias notícias na mídia sobre a comunidade São Rafael, cuja tônica faz menção a eventos violentos e à identidade de favela. Por este motivo optamos por inserir as visões de Zygmunt Bauman e de Milton Santos sobre a postura dos meios de comunicação na transmissão de informações/notícias.

Bauman (1999, p. 83) problematiza o modo como os meios de comunicação promovem a espetaculosidade na transmissão de atos de violência, que sustenta e reforça nos consumidores das notícias uma “indiferença ética rotineira”, que faz descarregar as “reservas acumuladas de sentimentos morais", que fragiliza a capacidade de sentir empatia pelo outro individuo. Este autor afirma que "Uma imagem sintética da brutalidade auto-infligida vai se sedimentando na consciência pública - uma imagem de ‘ruas sórdidas’, ‘zonas proibidas’ ampliadas, versão aumentada de uma terra de bandidos, um mundo estranho, subumano, para além da ética e de toda salvação".

Além da espetaculosidade, há também a manipulação que os mecanismos midiáticos exercem sobre a sociedade como um todo, com a subserviência, até mesmo, da política, enviesando a interpretação do público. Santos (2005b, p. 40) alerta para esta questão quando afirma que:

“Há uma relação carnal entre o mundo da produção da notícia e o mundo da produção das coisas e das normas. A publicidade tem, hoje, uma penetração muito grande em todas as atividades. Antes, havia uma incompatibilidade ética entre anunciar e exercer certas atividades [...] Hoje, propaga-se tudo, e a própria política é, em grande parte, subordinada ás suas regras. [...] Falsificam-se os eventos, já que não é propriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a notícia. [...] Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que houve na rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada pelos humores, visões, preconceitos e interesses das agências. O evento é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos.”

Destacamos outros dois elementos ligados ao âmbito da comunicação da comunidade São Rafael: o uso de instrumentos e meios de comunicação pelo poder público e o uso por parte de membros da comunidade que fazem parte de movimentos e lutas sociais.

No que tange às instituições governamentais, segundo Moreira e Queiroz (2004), estas organizações têm criado e propagandeado denominações com conotações mais suaves do que “favela” para aglomerados de pessoas que vivem em territórios sob condições de

fomentada pelos Bancos Comunitários de Desenvolvimento, por exemplo, estimula os próprios moradores do território a planejarem e decidirem sobre as atividades sociais e econômicas locais.

vulnerabilidade socioeconômica11. Todavia, essa postura apenas dificulta a apreensão da verdadeira dimensão do problema enfrentado por estes coletivos. Na prática, segundo as autoras, denominações como “comunidades”, “jardins”, “condomínios”, entre outros em quase nada se diferenciam das favelas quando são comparadas as características de todos esses aglomerados12.

O outro elemento é o uso de meios de comunicação e informação virtuais gratuitos para a constituição de redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais. Considerado como positivo pelos organismos ligados a movimentos e lutas sociais, essa estratégia tem servido para a criação, o desenvolvimento e a propagação de novos saberes e conteúdos, para ampliação das articulações, para fortalecimento do processo de empoderamento social (SANTOS, 2005b; GOHN, 2004)

Por outro lado, Santos (2005b) ressalta que ainda é um número limitado de pessoas que são incluídas nessa troca veloz de informações, dadas as suas diversas condições de exclusão e de vulnerabilidade.