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Surpresa, estupefação, questionamento, esquiva, reconhecimento da reafirmação do talento escritural de Rosa são algumas marcas que se podem apreender através de correspondências a respeito do lançamento de Tutaméia, discutida no item 1.2.1 deste estudo. O que se segue é a exposição de alguns excertos que delineiam melhor essa noção, e que fazem parte do material “Correspondência sobre recepção de obras: Tutaméia. Cartas de diversos correspondentes para JGR; de 10 março 1967 a 6 novembro 1967”151.

Meu caro Amigo,

[...] Estou atravessando um período muito atrapalhado. É por isso que só agora terminei a primeira leitura de Tutaméia, que me deixou deslumbrado. Os prefácios, de grande importância, valem como tantas outras chaves; os contos, de uma densidade extraordinária, quase todos contêm em germe romances inteiros. Mesmo o mais curto deles, suscita pelo menos uma personagem vigorosa, com toda a sua vida e o seu destino entrevistos num relance. Tenho minhas preferências, como todo leitor – mas o conjunto me parece tão forte, ou mais, quanto Primeiras estórias. Vou agora iniciar o segundo mergulho, mais profundo, como o exigem Schopenhauer, o autor e, sobretudo, o próprio livro.

Aceite os agradecimentos sinceros do amigo cada vez mais amigo e do admirador cada vez mais espantado, seu fiel Paulo Rónai.

Rio, 16 de setembro de 1967

Meu caro Redator

Desde que alguns médicos começaram a sovar o Guimarães Rosa, numa incompreensão de sua obra, me deu vontade de mandar pelo “Pulso”, resposta para todos [...].

Dr. Paulo Rosa. Anápolis / Goiás, 20 de março de 1967

Carta ao Dr. João Guimarães Rosa

Muito me custou começar essa carta. Lancei minhas alavancas e meus almocrafes para remover o cascalho aurífero nas gupiaras vasqueiras, mas nada encontrei, nada mesmo suficiente bom para poder agradecer o rico presente recebido, esse magnífico TUTAMÉIA, conjunto de estórias que eu acompanhei, colecionando-as no jornal Pulso [...].

José Coimbra de Trindade Rua General Roca, 38 ap. 104 subsólo Tijuca. Rio, 19/08/1967

137 ♦ Exmo. Sr. Embaixador João Guimarães Rosa.

Prezadíssimo João G. Rosa,

Dr. Francisco Pereira Valle vem agradecer-lhe o exemplar de Tutaméia. Em Araxá tem o sentido de ninharia, conforme sua assertiva. Aproveito ensejo para [...] felicitá-lo pelo sucesso de seus livros.

Rua Marechal Floriano, 196. Itamaraty. Rio de Janeiro. 19-08-1967

♦ Obrigado meu querido escritor pela oferta, o Tutaméia, que não é nada disso, mas grande e delicioso livro [...].

Francisco Negrão de Lima Estado da Guanabara; Gabinete do Governador Rio, 21.8.67

♦ Muito estimado embaixador Guimarães Rosa, agradeço-lhe, de coração em festa, o tesouro que me regalou: “Tutaméia”. No Caderno Verde e na coluna do Conde que escrevi (...), procurei estampar a minha admiração, que é já paixão declarada. [...].

Carlos David. Laranjeiras 22, agosto, 67.

♦ Prezado Embaixador,

Mais uma carta simpaticíssima – a favor. Veio para PULSO, mas, certamente, o destinatário é Guimarães Rosa, que recebe os merecidos elogios (...).

Parabéns pelo sucesso crescente na vendagem do livro e nas referências elogiosas da crítica literária e de cronistas da imprensa. O PULSO está exultante com o sucesso, feliz por haver contribuído com tuta-e-meia para isso.

O abraço e os cumprimentos, pelo PULSO [...].

Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1967.

♦ Meu caro Guimarães Rosa:

Chegando há pouco de viagem, encontrei o seu último livro, com gentil dedicatória, e agradeço muito a lembrança. Vou encetar a leitura, que já estava impaciente por fazer. Naturalmente, lá encontrei as mesmas qualidades que tanto fazem admirar a sua grande obra. (...)

Mais uma vez, muito obrigado. [...].

Antonio Candido. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Caixa Postal, 8105 19 de set. de 1967.

138 ♦ Prezado Senhor Guimarães Rosa,

[...] As estórias confirmam o escritor consagrado e a originalidade dos prefácios lhe acrescentam uma dimensão nova. [...].

Marcio Luiz Belo Horizonte, 15/outubro/1967

♦ Caro colega:

De acordo com PULSO número duzentos e trinta e nove, escrevo esta para levar ao colega, vale dizer que sou médico neste interior, nossas opiniões. Foi seu pedido.

De literatura me limito a, por gostar, ler Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e símiles de por aqui [...]. Escrever, artiguetes no imberbe e provinciano jornal citadino, onde já falei de Grande Sertão. Mais um conto ou outro perdidos, inclusive em PULSO 174, de simpleza extrema.

Não sou crítico, mas povo, e como tal critico. Penso que desgostaram de sua secção no Pulso, tutaméia. Para nós, formadores técnicos em faculdades, não nos ensinaram a pensar. Daí sabermos só ler o simples. Mas tenho que uma língua morre, se não arejada, reformada, capinada. [...] Donde aplaudimos algo novo, renovador. Concordo que no citado jornal, bem como em Primeiras Estórias [...], houve muita síntese [...].

De Grande Sertão, monumento, e Corpo de Baile, não se diga nada, que preciso não é. Tutaméia, lembro de minha mãe, lá pelas fronteiras do Rio Grande do Sul, dizer para insignificância. Exemplo: Brigaram por uma tutaméia.

Esta vai a título de colaboração se para tanto servir, e como preito de admiração a quem soube mudar. [...].

Dr. Paulo Dias Fernandes. Hospital de Caridade – Erexim – RS 20.8.67

A respeito da opinião do Autor sobre Tutaméia, crê-se numa visão eufórica, embora a tenha alcunhado de “livrinho”152 em certa ocasião. Fica, contudo, altamente exposto na obra o labor minimalista de cada fragmento da obra, pois atesta e enfatiza a Rónai (1979: 194) “que dava a maior importância a este livro, surgido em seu espírito como um todo perfeito não obstante o que os contos necessariamente tivessem de fragmentário”.

152 A menção ocorrera em uma correspondência epistemológica entre Rosa e seu tradutor italiano, Edoardo Bizzarri

(1981: 129), de onde se extrai o trecho específico: “Você já recebeu o exemplar do livrinho, que autografei, faz mais de um mês? Se não, é que ele deve estar ainda com o Antônio Olavo Pereira, na Livraria José Olympio Editora. [...].” (Rio, 27 de agosto de 1967).