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Condensed matter systems

Iniciou-se a apresentação do tema previsto. Consigo perceber, mesmo nas pessoas em silêncio, algumas expressões interrogativas na sua fisionomia, ao mesmo tempo que vejo outras expressões de compreensão, como o balançar da cabeça em forma de assentimento

(Nota de Campo 11, de 15/05/06)

A partir desta epígrafe, é possível perceber que existem silêncios diferenciados dentro do grupo de professores de Arte do CEMEPE, visto que eles não possuem a mesma significação. Há silêncios que demonstram questionamento ou atenção irrestrita, interesse frente a algo que se ouve, compreensão do que é dito e envolvimento em alguma atividade

proposta; por outro lado, existem silêncios que podem significar justamente o contrário: desatenção, desinteresse, incompreensão e/ou alienação diante dos eventos propostos.

Laplane (2000) apresenta algumas abordagens que analisam o silêncio a partir de perspectivas distintas. Segundo a autora, o silêncio abordado na etnografia da comunicação pode ser também interacional, descrevendo alguns “comportamentos que fornecem uma expressão imediatamente legível da situação de um indivíduo, mais especificamente sua intenção, assim como a evidência do seu alinhamento na situação” (LAPLANE, p. 54). Sob esta ótica, o comportamento dos silentes pode se encaixar tanto numa estrutura “cooperativa” e de participação, quanto se manifestar em atitudes “submissas subordinadas” (quando há interação entre o indivíduo e a autoridade) ou “não-submissas subordinadas” (quando há uma manifestação silenciosa de emoções evidenciando o poder e o controle que o indivíduo exerce frente a pessoa que fala). Nas palavras da autora,

A etnografia da comunicação incorpora o silêncio à discussão trazendo à tona as suas possíveis funções. O silêncio significa, intervém na estruturação de situações, possui conteúdo proposicional ou não, inclui gestos ou não. Ele pode também expressar significado gramatical, pode ser simbólico ou convencional. O silêncio pode ter valores positivos indicando maior entendimento ou intimidade; ele pode não ser apenas uma ausência de palavras, mas uma presença ativa e realizar a necessidade defensiva de evitação, de preservação da face (LAPLANE, 2000, p. 56, destaque da autora).

Essas diferentes formas de manifestação do silêncio são bastante perceptíveis dentro do grupo pesquisado, sendo que muitas delas se tornam mais explícitas em algumas circunstâncias específicas, como exemplificamos:

Percebo que algumas palavras não são muito bem compreendidas, embora as pessoas permaneçam em silêncio. [...] A atividade proposta foi realizada com seriedade, silêncio e muita atenção. [...]Durante uma brincadeira, que o grupo acatou com muito humor, a

Bromélia fez uma colocação muito infeliz. Sua atitude silenciou os risos das professoras na

hora e, embora ninguém se manifestasse verbalmente sobre a infelicidade do comentário, o silêncio que se formou depois dele deixou claro que o grupo não o considerou em nada engraçado.

(Nota de Campo 06, de 10/11/05)

De acordo com Laplane (2000), o silêncio na perspectiva das teorias da enunciação tem um tratamento próximo dos estudos sobre o implícito, visto que este é considerado como uma forma de dizer quando o locutor é eximido de assumir a responsabilidade pelo que foi

dito. Nesse sentido, os “subentendimentos”, ou as “pressuposições” surgem no momento em que a significação implícita aparece sobrepondo uma outra significação, a literal.

Nesse momento a Jasmim convida as pessoas que não se manifestaram ainda e que

permaneceram até agora em silêncio (Oliva, Edelweiss e Púrpura) para darem a sua opinião

sobre o assunto, mas elas respondem que não têm o que dizer, demonstrando com isso que concordam com o que foi dito. E eu me pergunto pensativa: “Será mesmo que quem cala,

consente?”

(Nota de Campo 16, de 18/09/06)

Ainda segundo a autora mencionada, a perspectiva da Análise do Discurso propõe uma radicalização da relação linguagem-silêncio, em que um determinado modo de estar em silêncio se contrapõe aos significados de passividade e negatividade geralmente a ele atribuídos. Desse modo, o silêncio não é um acidente que ocasionalmente intervém no discurso, mas uma condição de todo o sentido (LAPLANE, 2000).

Durante a apresentação o grupo está em silêncio, vejo que todos prestam muita atenção ao que é dito.

(Nota de Campo 04, de 15/09/05)

Há muita atenção nos informes, todos anotam cuidadosamente tudo o que é dito, e o silêncio nos permite ouvir tudo sem perturbações.

(Nota de Campo 09, de 06/03/06)

Embora Fúcsia e Neve sejam sempre muito caladas nas reuniões do grupo, o seu trabalho

explicita uma grande coerência com a sua formação continuada. A meu ver, isso comprova que nem todas as pessoas que estão caladas dentro do grupo estão desatentas ou desinteressadas; há também o que eu denominaria de “silêncios produtivos”.

(Nota de Campo 17, de 02/10/06)

Na perspectiva dialógica de Baktin, exposta por Laplane (2000), a idéia de silêncio corresponde mais às condições de compreensão de sentidos do que à ausência de sons ou de signos verbais. Para a autora,

Esta perspectiva nos permite considerar a interação de maneira ampla como lugar de produção do sentido e como lugar tanto de manifestação como de produção das relações sociais. Desta forma, ela não se restringirá ao verbal nem tampouco se configurará, necessariamente, apenas na presença atual dos interlocutores (LAPLANE, 2000, p. 62).

Nesse sentido, o silêncio ocupa o lugar de onde a enunciação parte e também onde ela é recebida, pois, para que exista a liberdade de falar é necessário também haver a possibilidade do silêncio como uma opção do ouvinte.

Nesse momento vejo que o grupo está bastante silencioso, cada um a seu modo. Algumas pessoas fazem anotações sobre a fala da palestrante, outras fazem “desenhinhos” na beirada da folha, mas percebo que todas estão atentas.

(Nota de Campo 03, de 11/08/05)

A Púrpura levanta a mão querendo dizer algo, mas as outras professoras continuam falando

do curso. Eu chamo a atenção do grupo para o fato dela querer falar e a Violeta também se

atenta para isso e pede que todos a escutem. Então, Púrpura expõe alguns problemas pelos

quais o professor contratado passa. Do mesmo modo, o Lírio, que até então estava em

silêncio, começa a se manifestar.

(Nota de Campo 16, de 18/09/06)

Em contrapartida, há outros modos de silêncio que podem exprimir desinteresse e falta de atenção, bem como denotar receios pela incompreensão do discurso, como evidenciam as seguintes situações:

Sobre Pintura Contemporânea, assunto apresentado hoje, Sienna disse bem baixinho,

somente para mim, que estuda pintura há cinco anos, mas que adora apenas a Pintura Clássica, e que, por esse motivo, nem abre a boca na reunião, senão, sob o seu ponto de vista, o grupo vai “cair de pau em cima dela” e criticá-la.

(Nota de Campo 05, de 06/10/05)

Violeta mostra um vídeo e percebo que algumas de suas palavras não são muito bem

compreendidas, embora as pessoas permaneçam em silêncio. Contudo, vejo que isso acontece mais pela falta de atenção de algumas professoras, mesmo caladas durante a apresentação, do que pelo que é dito acerca do vídeo. Um exemplo disso foi a imagem de algumas cobras exibidas numa escultura e explicadas detalhadamente pela Violeta. No momento seguinte uma

professora pergunta assustada se aquilo eram cobras. Da mesma maneira, quando a Violeta

comentou algo sobre o vídeo relacionado a um fato atual, uma professora tomou a palavra de sopetão para dizer exatamente o que a Violeta havia acabado de falar. Esse tipo de

comportamento demonstra a falta de atenção de algumas professoras sobre o que está sendo abordado, e causa um mal estar generalizado no grupo.

(Nota de Campo 06, de 10/11/05)

Como vimos em Laplane (2000), são as nuanças na significação da diferença, da contradição e do particular que facilitam a distinção entre os modos de silêncio, visto que eles também não são homogêneos. Entretanto, nas relações intersubjetivas os processos de interação permeiam tanto os momentos de silêncio quanto de instauração do discurso.