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PREN- PREN-value

6 Designing and constructing with stainless steel reinforcement

6.3 Concrete section design

Características do Estudo

Foi realizada uma pesquisa qualitativa, com o interesse de melhor compreender e interpretar o fenômeno que estamos interessados em investigar – a hipertensão arterial da mulher negra e psicossomática.

Privilegiou-se esse método pelo fato de ele satisfazer as nossas expectativas e por acreditarmos que a pesquisa qualitativa representa um processo permanente, no qual todas as decisões e opções metodológicas ao decorrer da pesquisa se definem e se redefinem constantemente, enriquecendo a representação teórica sobre o modelo teórico em desenvolvimento. Essa representação é que guiará os diferentes momentos da pesquisa e definirá a necessidade ou não de se inserirem novos instrumentos e momentos nesse processo (REY, 2005).

Segundo Rey (2005), a pesquisa qualitativa envolve a imersão do pesquisador no campo de pesquisa, que será considerado um cenário social, onde terá lugar o fenômeno estudado e todo o conjunto de elementos que o constitu, e que, por sua vez, está constituído por ele (p.81). A pesquisa qualitativa será, portanto, caracterizada pela construção de um modelo teórico que atuará como via de significação da informação produzida, na qual os resultados estarão integrados em um sistema cuja inteligibilidade será produzida pelo pesquisador. Como esses relatos estão repletos de aspectos sensíveis e sutis que não podem ser mensurados, a análise qualitativa proporcionou uma maior compreensão do problema/fenômeno – hipertensão na raça, e também, um maior conhecimento das mulheres negras pesquisadas dentro do ambiente sociopolítico, histórico e econômico, em que elas estavam inseridas.

Sujeitos

Participaram desta pesquisa 15 mulheres negras, que nos foram encaminhadas por indicação de lideranças femininas negras que trabalham com uma importante ONG do estado do Rio de Janeiro, com base nos seguintes critérios de inclusão: ser negra, estar na faixa etária entre 30-45 anos, ser portadora de hipertensão arterial essencial ou fazer uso de medicação hipertensiva, ser alfabetizada e apresentar boas condições mentais.

Local

Instrumentos e Materiais

Os instrumentos utilizados foram: Termo de Consentimento Para Entrevista e Publicação (ANEXO I), Questionário de Caracterização do Sujeito (ANEXO II), Roteiro de Entrevista Semi-estrutura e gravador digital.

A coleta foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada individual com mulheres previamente selecionadas, procurando abarcar as seguintes questões:

a) A vivência da mulher negra hipertensa - Descreva: Como é o cotidiano de ser mulher negra hipertensa?

Como estava a sua vida quando recebeu o diagnóstico de HAE? Como se vê e se sente com o seu diagnóstico?

Como reage ao seu tratamento?

Como compreende o seu processo de tratamento? Como você se compreende no seu tratamento? .

b) A compreensão que a mulher negra tem do seu processo de tratamento. Descreva como você se sente quando vai ao médico.

Descreva como você compreende a sua interação com o seu médico.

Descreva como você compreende a sua relação com os outros profissionais de saúde. Se você pudesse o que você faria de diferente no seu atendimento?

Procedimentos de coleta

O procedimento para realizar a coleta foi realizado em duas fases. Primeiramente, foi encaminhado um e-mail para uma ONG de mulheres negras do estado do Rio de Janeiro, solicitando indicação de mulheres que pudessem participar da pesquisa. Obteve-se resposta de uma das responsáveis, que nos enviou uma lista com o nome de nove mulheres que poderiam indicar outras.

Realizou-se um contato telefônico com as mulheres indicadas pela ONG, em que foram informados o objetivo da pesquisa e a faixa etária necessária para participação. Essas mulheres agendaram data e hora, nas suas casas ou em terreiros. Ao entrar em contato pessoal com essas mulheres, descobrimos que elas eram lideranças importantes em sua comunidade, sendo algumas iabalorixás (mães de santo).

Na data marcada para a entrevista, os objetivos da pesquisa foram apresentados para as lideranças e posteriormente para as mulheres que tinham o perfil para participação.

A segunda etapa consistiu em contato com outras pessoas que pudessem indicar mulheres negras que se enquadrassem no perfil desejado às quais também foi informado o objetivo da pesquisa e a faixa etária necessária.

A seguir, as pessoas abordadas fizeram contato com mulheres de sua rede, explicitaram o conteúdo da pesquisa e, após o consentimento delas, passaram para pesquisadora o contato das possíveis entrevistadas.

Da mesma forma que na primeira etapa, foi realizado um contato telefônico com as mulheres, esclarecendo rapidamente o objetivo da pesquisa e certificando-se do real interesse em participar, agendando data, hora e local. Nesse caso, as entrevistas aconteceram basicamente nos locais de trabalho e na casa das mulheres.

No momento das entrevistas, o Termo de Consentimento Esclarecido foi apresentado e, posteriormente, iniciada a entrevista com o tema norteador -“Conte-me como é viver com a hipertensão.” Tomando por base a narração das mulheres, foram investigados os aspectos explicitados no roteiro prévio, seguindo-se dos aspectos sócio-demográficos. A entrevista foi gravada em áudio digital e teve uma duração máxima de 70 minutos.

Cuidados Éticos

O contato com a possível amostra só foi realizado após a devida autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC/SP (154/2008), informando-se a metodologia, os procedimentos, os objetivos e a garantia de anonimato, assim como o respeito à liberdade de escolha, possibilidade de a participação ser interrompida e permissão para utilizar os dados coletados.

Por fim, as participantes que consentiram com o trabalho assinaram o “Termo de Consentimento Informado”, baseado na Resolução CFP nº16/2000 que dispõe sobre a realização de pesquisa em Psicologia com seres humanos.

Na condução das entrevistas evitou-se o aprofundamento de uma análise individual que levasse a um diagnóstico psíquico da entrevistada, pois se acreditou que isso acarretaria em uma questão ética, uma vez que a participante se propôs a dar seu depoimento para uma pesquisa e não para ser diagnosticada. Além disso, tais procedimentos tinham como intenção não correr o risco de em algum momento revelar a identidade da participante, o que comprometeria nosso compromisso ético diante do sujeito da pesquisa.

Considerando-se que as entrevistas foram realizadas nos locais acordados com as entrevistadas, houve a preocupação com a escolha de roupas que prezassem pela garantia de respeito e acolhimento e que deixassem as entrevistadas à vontade.

3.1. Análise de dados

Para apreender o processo presente na vida das mulheres negras convidadas a participar desta pesquisa, buscou-se seguir a proposta de Aguiar e Ozella (2006), que consiste na construção de Núcleos de Significação. De acordo com esses autores, os significados encaminham para zonas de sentido que nos permitem observar as articulações dos eventos psicológicos produzidos pelo sujeito diante de uma realidade (p.5). Para os autores, uma melhor compreensão do ser humano se dará a partir de sua relação dialética com o social e com a história, uma vez que nessa relação é que serão reveladas as suas expressões, sua historicidade social, sua ideologia, suas relações sociais, sua singularidade, seus significados sociais e seus sentidos subjetivos (p.2).

Partindo desse pressuposto, após a transcrição das entrevistas, foram realizadas várias leituras, com a finalidade de obter uma maior apreensão do seu conteúdo que, por vezes, apresenta-se de maneira simbólica e sutil. Em seguida, seguindo a orientação dos autores citados, foram levantados indicadores, ou seja, certas questões que eram repetidas e enfatizadas pelas mulheres, considerando o objetivo da pesquisa e também de questões que apareceram a partir dos seus relatos e que reputamos serem importantes para um melhor entendimento. Assim, foram destacados os seguintes indicadores: a preocupação, a agitação, o medo, ser mulher e o risco para hipertensão, os filhos, a gestação de risco, o medicamento, os sintomas, o aborto, o racismo, a relação conjugal, a solidão, a morte, o acidente vascular cerebral (AVC) e o infarto, e a alimentação.

Fundamentando-nos nesses indicadores consideramos os dados das vivências de discriminação racial e da hipertensão, suas expressões somáticas articuladas com as situações e condições de vida. Foram organizados também os Núcleos de Significação, com o objetivo de indicarmos os pontos fundamentais que envolvem emocionalmente a vida das mulheres que foram convidadas a participar desta pesquisa. São eles:

9 Por que a minha pressão é emocional 9 Ser mulher e a pressão alta

9 Vivo morrendo de medo o tempo todo 9 Fui deixando até eu ter uma crise braba 9 Eu sentia dor na nuca...

9 Não é dizer que filho atrapalha, mas é coisa séria! 9 Se eu soubesse que a minha gravidez era de risco...

9 O medicamento e as reações 9 O médico e a equipe

9 Aqui é Baixada, meu amor

9 Ele xingou a minha mãe de tudo quanto foi nome

A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio.

ecoou lamentos de uma infância perdida.

A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos

com rimas de sangue e

fome. A voz de minha filha recorre a todas as nossas vozes

recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem-o hoje- o agora.

na voz da minha filha se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade. (EVARISTO, 2008, p.10)

CAPÍTULO IV – RESULTADOS