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No ano de 1990, foram publicados os dois texto mais lidos e citados por pesquisadores ou qualquer outra pessoa que se interesse pela noção de sociedades de controle2. Em março
daquele ano, a edição de lançamento da revista francesa Futur Antérieur3, trouxe a entrevista
“Le devenir révolutionnaire et les créations politiques” (“O devir revolucionário e as criações políticas”), na qual um de seus fundadores, o filósofo italiano Antonio (Toni) Negri, que vivia em Paris exilado de seu país, fez seis questões a Deleuze. Na última delas, Negri retoma alguns pontos sobre o que Deleuze teria dito sobre as novas formas de dominação ou de controle para lhe perguntar se o comunismo ainda seria uma via de resistência na “sociedade de comunicação” (Deleuze, 1990:236). A reposta de Deleuze trouxe uma rápida e sintética explicação sobre as “sociedades de controle” e a sugestão de se criar “vacúolos de não comunicação, interruptores, para escapar ao controle” (Idem:238).
Deleuze publicou apenas um artigo exclusivamente dedicado às sociedades de controle. Foi na edição de reabertura do periódico L'Autre Journal4, lançada em maio de
2 Os autores aqui retomados usam diferentes grafias para se referirem à noção de sociedades de controle cunhada
por Deleuze, que emprega o plural para nomeá-las. Como veremos a seguir, Michel Hardt, Toni Negri e Edson Passetti usam o singular: sociedade de controle. Neste trabalho procurou-se tomar o devido cuidado para grafar a noção de acordo com o uso de cada autor. Quando apresento minhas análises prefiro utilizar o plural para fazer referência a esta noção pois ainda observo a existência de diferentes sociedades de controle. Porém acredito que em um futuro próximo todas estas diferentes sociedades tendem a ser conectadas e integradas em apenas uma sociedade de controle.
3 A revista Futur Antérieur foi fundada pelos marxistas Jean-Marie Vincent, Denis Berger e Toni Negri com o
objetivo de “favorecer uma renovação da pesquisa conceitual, criando condições de um debate estratégico e crítico” diante da crise do socialismo após a queda do Muro de Berlin. Ela também visava fortalecer uma dinâmica intelectual franco-italiana nos campos da filosofia, da sociologia e da política. Daí a recorrente participação de autores italianos como Mauricio Lazzarato, Paolo Virno e Giorgio Agamben em suas edições. Teve seu último número publicado em 1998 e, no ano seguinte, uma parte da sua antiga redação fundou a revista
Multitudes, cujo primeiro exemplar foi lançado em março de 2000 e continua sendo publicada. Disponível em: http://www.editions-harmattan.fr/index.asp?navig=catalogue&obj=revue&no=16. Consultado em 05/12/2014.
4 Periódico francês fundado pelo escritor Michel Butel em dezembro de 1984 que trazia artigos inéditos sobre
literatura, reportagens sobre política e atualidades e imagens fotográficas. Foram colaboradores desta publicação os jornalistas Antoine Dulaure, Claire Parnet, Nadia Tazi e Marguerite Duras, além de filósofos como Gilles Deleuze, Isabelle Stengers, Paul Virilio e Jean-François Lyotard. Depois de se tornar semanal em 1986, atravessou dificuldades financeiras sendo relançado em 1990. Fechou definitivamente em 1993.
1990. Desta vez, teve um espaço maior que o de apenas uma resposta para apontar como emergiram e como funcionam as sociedades de controle, além aproveitar para sugerir, também de forma muito breve, um plano para o seu estudo. Intitulado “Les sociétés de controle” (“As sociedades de controle”), o texto é enxuto e direto. Porém é portador de uma densidade que nos deixa surpreso ao ver como um pequeno texto pode ser tão potente, não apenas por conter análises brilhantes, mas também por estimular toda uma nova geração de estudos e pesquisas em vários cantos da Terra.
Meses depois de sua publicação original, os dois textos “fundadores” da noção de sociedades de controle foram reunidos no conjunto de entrevistas, cartas e pequenos textos produzidos por Deleuze de 1972 a 1990 e publicados em julho de 1990 no livro Pourparlers
1972-1990 (Conversações), compondo a última parte do livro, “Política”. Nesta nova edição os textos não foram alterados, mas os títulos mudaram: a entrevista passou a se chamar “Contrôle et devenir” (“Controle e devir”) e o artigo, “Post-scriptum sur les sociétés de controle” (“Post-scriptum sobre as sociedades de controle”). Note-se que o termo “post- scriptum” ou “P.S.”, que vem do latim e traduz-se por “escrito depois”, era utilizado na escrita de cartas à mão ou com máquinas de escrever para acrescentar algo considerado importante depois que uma comunicação havia sido finalizada. Daí que “P.S.” significava algo que se esqueceu de dizer ou referia-se a uma atualização sobre um assunto que havia sido escrito naquela mesma comunicação.
Hoje, com a proliferação dos computadores e seus editores de textos, o “P.S.” perdeu seu sentido original já que os textos podem ser alterados o quanto for necessário. Embora tenha visto os computadores invadirem o cotidiano, Deleuze é um homem das máquinas de escrever. A publicação deste texto no encerramento do livro e com o “P.S.” em seu título mostra que Deleuze pretendia atualizar algo que já havia sido dito. Mas o que seria, se havia apenas breves referências ao “controle” na sua entrevista dada a Negri e, ainda no livro
Conversações, ele chegou rapidamente a mencionar a relação entre controle e televisão na carta/prefácio que escreveu para o livro do crítico de cinema e televisão Serge Daney5
publicado em 1986? Por meio do “P.S.” neste primeiro e derradeiro texto das sociedades de controle, Deleuze deixou vestígios de que havia anteriormente pensado e falado sobre elas.
Este vestígio nos leva a dois esboços da noção de sociedades de controle anteriores ao texto que, no início da década de 1990, praticamente se tornaria a sua “última palavra” sobre sociedades de controle. Por serem menos citadas6, essas duas referências dão a impressão de
serem menos conhecidas do que os textos reproduzidos na coletânea Conversações. São elas o texto da conferência proferida por Deleuze em março de 1987 na fundação La Fémis, em Paris, e as aulas do curso sobre Michel Foucault que ministrou no ano universitário 1985/1986 na Université Paris VIII, também conhecida como Université de Vincennes, onde viria se aposentar logo após, em 1987. Nestas duas ocasiões, o filósofo apresentou seus primeiros rascunhos sobre o que denominava sociedades de controle. A versão apresentada em 1987 é muito próxima do que está no escrito de 1990. Entretanto, a versão de 1986 possui pontos completamente divergentes. Ela é praticamente um “esboço abandonado” das sociedades de controle.
Primeiro a conferência. Em maio de 1987, Deleuze atendeu ao convite de falar na recém inaugurada École nationale supérieure des métiers de l'image et du son, conhecida como La Fémis, instituição pública voltada para o ensino e a pesquisa com sede em Paris. Na apresentação intitulada “Qu’est-ce que l’acte de création?” (“O que é o ato de criação?”),
5 “Lettre à Serge Daney: Opetimiste, pessimism et Voyage” também foi publicado na coletânea de textos Porpuarler, mas originalmente prefaciou o livro Ciné-Journal, 1981 -1986, lançado em 1986 pelo crítico de imagens francês Serge Daney.
6 Alguns trabalhos sobre as sociedades de controle ainda citam a conferência de La Fémis, cuja tradução para o
português foi publicada em 27/06/1999 pelo jornal Folha de S. Paulo. As aulas de Deleuze sobre Foucault, apesar de estarem disponíveis na internet, nunca foram traduzidas para português e, talvez por isso, sejam muito menos conhecidas. De 2013 a 2015, o Editorial Cactus da Argentina publicou a cada ano um tomo diferente do curso sobre Foucault dividindo-o em três eixos: O Saber, O Poder e A subjetivação. O original em francês da transcrição completa da conferência está disponível em: http://www.webdeleuze.com/php/texte.php?cle=134&groupe=Conf%E9rences&langue=1 e o vídeo da apresentação pode ser assistido em : http://www2.univ-paris8.fr/deleuze/. Consultado em 20/03/2014.
Deleuze falou sobre como surgem as ideias no cinema, na pintura, na música, ou em qualquer atividade criativa humana, destacando que elas sempre são fabricadas e que dizem respeito às necessidades de quem as fabrica. No caso da filosofia, disse que a criação diz respeito à produção de conceitos. O filósofo reservou uma parte da conferência para mostrar o conceito que estava “fabricando”, a noção de sociedades de controle. Na gravação da conferência, é possível notar o tom intimista que o pronunciamento de Deleuze assume quando passa a falar desta sua nova criação.
Logo de início, Deleuze deixa claro que “ter uma ideia não é da ordem da comunicação”, pois a criação e a obra de arte dizem respeito ao “ato de resistência” e não à comunicação (Deleuze, 1987). Para o filósofo, a comunicação poderia ser definida como a “transmissão e propagação de informações”, não passando de um “conjunto de palavras de ordem”, de um “sistema de controle”, a respeito do qual naquele momento já poderiam ser observados alguns sinais, mas que tardaria por volta de 50 anos para efetivamente se implantar. Ele ainda revelou que estas sociedades de controle, cujo nome havia sido criado pelo escritor estadunidense William Burroughs, substituiriam as sociedades disciplinares, anteriormente estudadas por Michel Foucault.
Foucault nunca acreditou, e ainda, ele disse de forma muito clara, que essas sociedades disciplinares fossem eternas. E mais, ele obviamente pensava que nós entraríamos em um novo tipo de sociedade. Claro, há vários resquícios das sociedades disciplinares, que durarão por anos. Mas já sabemos que estamos em sociedades de outro tipo, que são, que deveriam chamar, Burroughs quem pronunciou a palavra, e heu ..., Foucault tinha uma forte admiração por Burroughs, heu ... Burroughs propôs o nome, o nome muito simples de controle. Entramos nas sociedades de controle que se definem de forma muito diferente das disciplinas, já não precisamos, ou melhor aqueles que velam pelo nosso bem, não tem mais a necessidade ou não terão mais a necessidade do meios de confinamento (Deleuze, 1987).
Embora o texto tenha sido editado a partir da transcrição do pronunciamento de Deleuze, no original em francês é possível observar que o trecho em que Deleuze fala das sociedades de controle é o mais entrecortado por interjeições como “heu”, “ha” e reticências.
Isto sugere que aquela criação de Deleuze ainda era algo novo, algo que ele ainda não havia dado uma forma acabada. Aquele era um exemplo de “ato de criação”, completamente colado a uma necessidade que sentia naquele momento, a necessidade de tentar compreender o mundo em que vivia, no qual observava as mudanças que estavam ocorrendo com a escola, a prisão e o trabalho, exemplos que ele inclusive cita.
A segunda ocasião a qual nos remete o vestígio “P.S.” deixado por Deluze é o contexto dos cursos que ministrou no ano letivo 1985/1986, na Université de Vincennes: “Sobre Foucault. As formações históricas”, realizado de outubro a dezembro de 1985, e “Sobre Foucault. O poder”, de janeiro a junho de 1986. Na aula de 8 de abril de 1986, Deleuze apresentou o que aqui chamamos de “esboço abandonado” das sociedades de controle.
Deleuze começou esta aula pontuando que em Vigiar e Punir, de 1975, Foucault apresentava duas formações jurídicas diferentes: as sociedades de soberania e as sociedades disciplinares. Ele recuperou os diferentes períodos históricos a que pertenciam estas duas formações, explicitou a natureza diferente das relações de poder que cada um pressupõe e assinalou que nas sociedades disciplinares, além das disciplinas sobre os corpos do século XVII, no século XIX viu se desenvolver a biopolítica das populações, sendo que este último tema havia sido tradado por Foucault apenas em A vontade de saber, de 1976. Deleuze afirmou que, embora não fosse o projeto de Foucault, ele procurou rastrear a biopolítica até a contemporaneidade fazendo análises sobre o fascismo, o totalitarismo e o racismo de Estado.
Na leitura feita por Deleuze do trabalho de Foucault, tanto a disciplina quanto a biopolítica eram tecnologias de poder voltadas para operar sobre multiplicidades. Todavia, procurou marcar distinções entre elas: enquanto a disciplina, preocupada com o adestramento dos corpos, é exercida “compondo forças em função de um efeito útil” (Deleuze, 2014:365) sobre uma multiplicidade humana limitada, a biopolítica “aparece quando o direito se propõe a administrar a vida, nos diz Foucault, em quaisquer multiplicidades abertas” (Idem:366).
Deleuze enxergava, portanto, a formação dos grandes meios de confinamento (prisão, escola, quartel, fábrica) respondendo às exigências disciplinares de operação sobre multiplicidades que eram limitadas. No que concerne à biopolítica, ocorreria o inverso, suas estratégias deveriam se ocupar dos espaços abertos:
Aqui se trata de um espaço aberto, são grandes multiplicidades cujos limites não são assinaláveis. Apenas serão tratáveis mediante o cálculo de probabilidades. Daí o desenvolvimento do cálculo de probabilidades no sentido social, e no sentido de controle social das probabilidades: probabilidades de casamento em uma nação, probabilidade de mortalidade, probabilidade de natalidade. Planificação: expansão do cultivo de cereais, da colheita dos vinhedos, etc. Vinhedos e cereais também são populações. Não apenas os homens são populações. Trata-se verdadeiramente de administrar as populações em espaços abertos. Vamos, precisamos matar vacas! Isto é administração. Não é disciplina, já não é a sociedade disciplinar. O que é? É a sociedade de controle, é o poder de controle, que é muito diferente do poder disciplinar (Ibidem).
Como pode ser constatado no final da citação acima, Deleuze primeiramente chama as sociedades que se utilizam de tecnologias de poder biopolíticas de sociedades de controle. A vinculação entre biopolítica e controle é bem clara no texto. E apesar de Foucault nunca ter dito e escrito nada neste sentido, a diferenciação construída por Deleuze, que separa os campos de atuação da disciplina e da biopolítica (respectivamente, multiplicidade limitada e multiplicidade aberta), permitiu que fosse lançada a hipótese de observar três formações jurídicas diferentes, e não duas, a partir dos textos de Foucault já que, como afirmou, o auge da “biopolítica das populações” lhe parecia “historicamente posterior ao auge do disciplinamento dos corpos” (Ibidem:364). Assim, em poucas linhas, Deleuze rapidamente esboçou uma periodização:
Em primeiro lugar, formação de soberania, que termina com a Revolução Francesa, que corresponde a grosso modo a parte da Idade Média e à Idade Clássica, monarquia absoluta. Em segundo lugar, formação disciplinar, o período posterior à Revolução, Napoleão e o século XX. E, certamente, já começando neste período, a aparição de uma terceira formação, fundada desta vez sobre uma biopolítica das populações que se esboça no século XIX e estoura no XX (Ibidem).
Em certo momento, o autor chegou até a questionar se as sociedades de controle não seriam uma “complexificação” da sociedade disciplinar (Ibidem:365), porém, usa como argumento decisivo para justificar seu ponto de vista o fato de cada uma das três formações jurídicas possuir distintos sujeitos de direito: na soberania, o sujeito de direto é o soberano (em identidade com Deus); na disciplina, o homem ou a pessoa (na figura do Direito Civil); e no controle, o “vivo no homem” (como reconhece o Direito Social).
Anos mais tarde, a atualização do pensamento de Deleuze registrada em seu “Post- scriptum sobre as sociedades de controle” abandonou este primeiro esboço elaborado durante o curso sobre Foucault. Ao nosso ver, o título do artigo de 1990 publicado como o último texto do livro Conversações, além de informar que aquelas eram as derradeira palavras sobre o assunto7, literalmente buscou informar aos leitores que ocorreram alterações em relação ao
que Deleuze havia pensado e dito sobre as sociedades de controle desde as últimas vezes em que havia se manifestado publicamente sobre o assunto.
Agora sim, o conteúdo do “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”. Em comparação aos dois anteriores momentos de produção da noção de sociedades de controle, vemos que na escrita final deste texto o termo “comunicação”, que ainda aparecia na última resposta da entrevista concedida anteriormente à Negri, desapareceu. Toda a reflexão sobre “comunicação” como “instrumento de controle” feita na conferência de 1987, que naquele momento Deleuze não explicitou se tratar de uma reflexão primeiramente elaborada por Burroughs, também não aparece no Post-scriptum, a não ser de modo indireto quando afirma que “o marketing é agora o instrumento de controle social”, o que evoca também do
7 Depois deste texto de 1990, Deleuze nunca mais escreveu nada sobre as sociedades de controle, embora tenha
pensamento do escritor estadunidense. Porém, em nenhum momento Deleuze deixou de mencionar que sua inspiração para pensar o controle também provinha da obra de Burroughs.8
No início da aula de 11 de abril de 1986 do curso sobre Foucault, Deleuze recomenda aos estudantes que leiam Burroughs para saberem mais sobre o que chama de controle. Indica sobretudo a leitura do livro Almoço Nu. Como destaca Chaves Júnior (2013), este é um dos primeiros textos em que Burroughs usa o termo “controle”.
Nele, o escritor descreve a utilização de drogas psicoativas em experiências científicas para o controle dos considerados subversivos na cidade de Liberlândia, povoada por cidadãos bem-ajustados, honestos, cooperativos e limpos. Nesta cidade, qualquer um pode ser detido na rua por inspetores trajados de uniformes ou nus que fazem verificações. Cortinas nas janelas são proibidas. Tudo deve ser transparente. Outra cidade descrita por Burroughs no livro é Anéxia, submetida a um “processo de desmoralização total”, levado a cabo pelo médico Dr. Benway que pretendia acabar com todos os espaços fechados da cidade (campo de concentração, prisões, etc.).
É impossível não traçar paralelos entre o que escreve Burroughs e a elaboração da noção de sociedades de controle por Deleuze, que parte justamente da descrição da crise dos meios de confinamento das sociedades disciplinares. Desde o curso sobre Foucault, Deleuze manteve a percepção de que as sociedades disciplinares e seus meios de confinamento estavam em crise. Ele não se cansou, ao longo deste período, de dar os mais diferentes exemplos sobre isso e afirmar que Foucault tinha consciência da “brevidade” delas, o que também é retomado no post-scriptum.
No texto de 1990, toda a caracterização da lógica das sociedades de controle é construída a partir de comparações com o funcionamento da disciplina nas sociedades disciplinares, o que resumidamente apresentamos a seguir:
8Chaves Júnior (2013) afirma que a palavra “controle” em Burroughs possui várias nuances ao longo de sua
obra. Um dos usos que Burroughs faz da palavra controle é para referir-se à linguagem, tida pelo escritor estadunidense como um dos “mais poderosos instrumentos de controle”, pois é capaz de impor limites à ampliação da consciência humana. Neste sentido, Burroughs afirma que o marketing e a publicidade são máquinas de controle que visam produzir uma consciência consumidora de produtos.
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Como fora abordado anteriormente, na versão post-scriptum da noção de sociedades de controle, não há mais nenhuma alusão à biopolítica, nem mesmo de forma indireta, o que é uma inversão total em relação ao esboço apresentado nas aulas sobre Foucault. Se naquele momento o controle, tido como sinônimo de biopolítica, era definido como a administração
probabilística das multiplicidades dispostas em espaços abertos (Deleuze, 2014), no post- scriptum ele é “de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado” (Idem 1990: 246). Neste texto, Deleuze relata rapidamente que ele funciona em espaços abertos, mas em “Controle e devir” fala explicitamente que ele age sobre os meios abertos, de forma “contínua e permanente” e por meio da “comunicação instantânea” (Idem:236-237).
Mesmo com a retirada da biopolítica do seu esquema de funcionamento das relações de poder nas sociedades de controle, Deleuze manteve a periodização estabelecida por Foucault, que previa a sucessão da soberania à disciplina. No Post-scriptum, periodizou que