Dentro de todas as organizações que se opunham nesta altura ao apartheid, o ANC começou, desde logo, a destacar-se, quer pelas suas acções, quer pela capacidade de mobilização popular. Os anos 40 marcaram uma importante alteração no ANC, reanimado pela revitalização
73 South African Indian Congress.
http://www.anc.org.za/ancdocs/history///congress/saic.html.
74 Este Pacto, também conhecido pelo Pacto dos Três Doutores, traduziu-se na apresentação de uma Delaração Conjunta de Cooperação. Nesta declaração apelava-se a todos os sul-africanos para que apoiassem a luta pela obtenção de igualdade de direitos, políticos e sociais, para todos os sul-africanos. Particularmente criticadas eram as limitações impostas no acesso à terra e na livre circulação de pessoas. Three Doctors’ Pact, Joint Declaration of Cooperation, 9/03/47, 1 p.
http://www.sacp.org.za/docs/history/dadoo-45.html.
75 Embora nunca tenha sido ilegalizado, como aconteceu com a grande maioria dos movimentos anti-
apartheid, a verdade é que, apartir dos anos 60, as actividades do SAIC foram diminuindo de importância.
Só nos anos 80 é que esta organização voltará a ter uma acção de relevo na cena política sul-africana. Muitos dos membros do SAIC assumiram posições de destaque, quer no ANC, quer no seu braço armado, o
empreendida pelo seu novo presidente, Alfred Xuma, eleito em Dezembro de 1940. O seu primeiro grande objectivo foi o de criar uma organização forte e centralizada, de modo a evitar as divergências regionais que, ao longo dos tempos, tanto enfraqueceram a organização. Sob sua liderança, o ANC, eliminou a House of Chiefs, órgão representativo do poder tradicional, a qual se tinha provado totalmente ineficaz, especialmente desde que o governo desencorajou os Chefes a participarem nas actividades do ANC. Uma outra alteração importante foi a eleição, por voto directo e secreto, do Secretário Geral e do Tesoureiro da Organização.
Durante a II Guerra Mundial, Xuma criou um Comité de Intelectuais destinados a estudar a Carta do Atlântico e a preparar um documento que deveria ser apresentado nas Conferências de Paz. Este Comité, liderado pelo Professor da Universidade de Fort Hare, Z.K. Mathews, apresentou um documento final em que estavam referidas as exigências do ANC76:
Freedom of the African People form discriminatory laws whatsoever, ao mesmo tempo que pedia Adult Suffrage, uma exigência mais ambiciosa do que as apresentadas em 1919 que se limitavam a pedir Equitable representation ou as apresentadas em 1923 que pediam Equal rights for all civilized men.
Apesar destes avanços do ANC, a maneira de dirigir o movimento não satisfazia as camadas mais novas. O ANC continuava a agir através de delegações, cartas públicas, acções que, para além de não mobilizarem a população negra sul-africana, não tinha efeitos práticos. Segundo Nelson Mandela77, Xuma estimava o relacionamento que tinha conseguido estabelecer com as
elites brancas e não queria pô-lo em causa com acções mais radicais.
Perante este estado de coisas, vários membros mais novos do ANC, pediram a Xuma o apoio para a criação de uma Liga Juvenil destinada a desenvolver acções com vista à mobilização popular. Para eles, a continuar com os métodos tradicionais de actuação, o ANC corria o risco de ser marginalizado. A liderança de Xuma rejeitou, de início, a ideia com o argumento de que organizações de massas podiam desembocar em violência.
Apesar desta oposição inicial, os promotores da ideia apresentaram-na no Congresso do ANC, realizado em Dezembro de 1943 em Bloemfontein, onde a ideia acabou por ser aceite. A criação, de facto, da ANC Youth League deu-se em 1944 com a eleição dos seus dirigentes. Anton Muziwakhe Lembede foi eleito Presidente, Oliver Tambo, Secretário-geral, Walter Sisulu, Tesoureiro, A.P. Mda, Jordan Ngubane, Lionel Majomboz, Congress Mbata, David Bogape e Nelson Mandela foram eleitos membros do Comité Executivo.
Reafirmando os objectivos propostos pelo ANC em 1912, a Youth League78 pretendeu assumir-se
como motor por detrás da luta pela libertação nacional. A Youth League chamou, desde logo, a atenção para o facto de um governo de minoria branca nunca poder vir a ser aceite pela maioria negra, tanto mais que este tipo de governo nunca se mostrou preocupado com os problemas e
76 T.R.H. Davenport: South Africa. A Modern History, p. 346. 77 NelsonMandela: Long Walk to Freedom, p. 92.
78 Podiam ser membros da Youth League todos os africanos e todos aqueles que vivessem como e entre os africanos, de idades compreendidas entre os 12 e os 40 anos. Membros da Youth League com mais de 17 anos eram, automaticamente, membros do ANC.
anseios da população negra. Exemplo disso era toda a legislação discriminatória adoptada. Para o sucesso da luta, era essencial cativar o apoio das massas, coisa que até então, o ANC tinha sido incapaz de fazer.
Para a Youth League existiam duas correntes de nacionalismo africano79:
Now it must be noted that there are two streams of African Nationalism. One centres around Marcus Garvey’s slogan “Africa for the Africans”. It is based on the “Quit Africa” slogan and on the cry “hurl the white man into the sea”. This brand of African Nationalism is extreme and ultra-revolutionary. There is another stream of African nationalism (africanism) which is moderate, and which the Congress of Youth League professes. We of the Youth League take account of the concrete situation in South Africa, and realise that the different racial groups have come to stay. But we insist that a condition for inter-racial peace and progress is the abandonment of white domination, and such a change in the basic structure of South Africa society that those relations which breed exploitation and human misery will disappear.
Importante nesta declaração da Youth League é o reconhecimento da realidade sul-africana, ou seja, de uma sociedade multirracial. Ao mesmo tempo que pretende aprofundar a luta, não excluem que da mesma façam parte brancos, sublinhando assim o caracter não racial e a política não racista do ANC. Esta tomada de posição do ANC será fundamental para credibilizar a sua posição, embora lhe venha, como veremos, a provocar problemas internos.
Embora se considerasse a possibilidade de, em alguns aspectos, se poder recorrer a ideologias estrangeiras, a Youth League apenas o defendia excepcionalmente. Esta rejeição das ideologias estrangeiras era um recado indirecto ao CPSA. Uma vez que o comunismo era visto como uma ideologia estrangeira, os líderes da Youth League rejeitaram linearmente a adopção do comunismo como ideologia do movimento. Lembede achava que o CPSA estava dominado por brancos, o que minaria a autoconfiança e a iniciativa africana. Esta tomada de posição da Youth League face ao comunismo é importante, uma vez que, anos mais tarde, o ANC vai ser acusado de ser um movimento comunista. Esta identificação do ANC com o comunismo, será utilizada pelo regime do apartheid tanto na esfera interna, com vista a mobilizar a população branca em seu apoio, como na esfera externa, com o objectivo de obter o apoio do mundo ocidental.
Para além da criação da Youth League, a acção do ANC também foi fortalecida através da criação da African National Congress Women’s League (ANCWL). Em 1931, a Bantu Women’s League foi reconhecida como a secção feminina do ANC, tendo sido sua primeira Presidente Charlotte Maxeke. Em 1943, as mulheres foram oficialmente admitidas como membros do ANC. A ANCWL foi formalmente criada em 194880. Para além da luta contra o regime de apartheid, a
ANCWL levou a cabo uma luta dentro do ANC com o objectivo de obter, por parte da liderança do movimento, o reconhecimento da importância da luta das mulheres
79 Union in Action. A Short History of the African National Congress, 1912-1982, p. 21.
http://www.anc.org.za/ancdocs/history/unity.html
80 ANC Women’s League, 1 p.