A paz foi finalmente alcançada a 21 de Maio de 1902 com a assinatura do Acordo de Paz de Vereeniging. Este acordo, obra do Alto-comissário britânico, Alfred Milner, personagem que se destacou no pós-guerra, visou quebrar, uma vez por todas, o poder dos boeres. Segundo os termos assinados, os derrotados deveriam entregar todas as armas e aceitar a integração das duas Repúblicas no Império Britânico, as quais passariam a designar-se por colónia de Orange e colónia do Transval. Porém, alguns dos desejos dos boeres foram respeitados, nomeadamente o que dizia respeito à impossibilidade dos negros poderem votar no Transval e no Orange.
No intuito de quebrar a comunidade boer, Milner patrocinou a vinda de novas vagas de emigrantes oriundos da GB, com o objectivo de tornar a comunidade boer minoritária no seio da população branca, acabando eventualmente por ser absorvida pela componente anglófona. Com a intenção de diluir a cultura africânder, Milner levou a cabo uma forte campanha destinada a anglicanizar as instituições e divulgar a língua e a cultura inglesa.
Nesse sentido, e embora o Tratado de Paz de Vereeniging ter estabelecido que as línguas do ensino público no Tranvaal e no Orange eram o inglês e o afrikaans, começou a ser posta em prática uma política de marginalização da língua africânder. Embora alguns sectores no seio da população africânder aceitassem que os seus filhos fossem ensinados em inglês, uma outra facção, mais conservadora, recusou sempre tal hipótese. Esta última, revia-se nos comentários do Presidente Steyn que, a este propósito afirmou que The language of the conqueror in the mouth of the conquered is the language of the slaves26.
Paralelamente a esta política, Milner também desenvolveu uma política económica claramente favorável aos interesses dos grandes industriais da actividade mineira. Na tentativa de aumentar a rentabilidade desta indústria, as condições de trabalho, e consequentemente as condições de vida, impostas aos trabalhadores negros agravaram-se. Este endurecimento, provocou uma deterioração nas relações raciais. As tensões acabaram por desembocar em violência quando, em 1905, o rei zulu Bambatha, evocando a memória de Shaka Zulu, se revoltou contra os britânicos. A enorme discrepância em termos de armamento, levou à derrota e à morte de Bambatha e de milhares de zulus em 1906. Esta foi a última revolta militar africana contra o poder colonial. De maneira a fazer face às crescentes necessidades de mão-de-obra da indústria aurífera, Milner decidiu importar contingentes de trabalhadores chineses, isto apesar dos receios manifestados por certos sectores da comunidade branca, face aos eventuais perigos que um novo grupo racial poderia representar na sociedade sul-africana. Os primeiros chineses chegaram em 1904, e dois anos mais tarde já eram cerca de 50 mil27.
26 Brian Bunting: The Rise of the South African Reich, p.15. 27 Esta Comunidade acabou por ser repatriada em 1908.
Uma questão que parecia estar esquecida no pós-guerra era a da discriminação racial que existia nas Repúblicas boeres. A GB tinha entrado na guerra contra os boeres, afirmando oficialmente a sua oposição às políticas discriminatórias adoptadas pelos boeres. Esta atitude provocou o apoio de milhares de negros ao esforço de guerra britânico28.
Após o conflito, a questão da convivência entre brancos e negros foi alvo de análise de uma comissão criada para o efeito, a South African Native Affairs Commission (SANAC). Entre 1903 e 1905, a SANAC estudou o tema da convivência entre os dois grupos raciais, ouvindo opiniões de vários sectores da sociedade, incluindo vários membros da elite africana que se manifestaram vigorosamente contra as políticas discriminatórias. A Comissão acabou por concluir que não deveria haver uma igualdade política entre brancos e negros, devendo existir listas eleitorais separadas, aconselhando mesmo à separação geográfica das raças.
A política do Alto-comissário Milner acabou por fracassar em todas as frentes. A indústria aurífera não conseguiu, nos primeiros anos do século XX, alcançar lucros assinaláveis, em virtude dos elevados investimentos feitos para recuperar da devastação da guerra. Uma outra vertente mal sucedida na política de Milner, foi a da emigração de famílias britânicas, cujo número, apesar do esforço desenvolvido, foi muito baixo. Finalmente, a tentativa de assimilar os boeres foi um total fracasso.
Apesar de derrotados, os boeres agarraram-se aos seus símbolos, nomeadamente, língua e recusaram qualquer tentativa de assimilação. Insistiram que os seus filhos fossem educados em afrikaans, contestando as escolas públicas que só ensinavam em inglês.
Sentindo-se ameaçados na sobrevivência, a nação africânder respondeu como historicamente o tinha feito, ou seja, isolou-se. No período após a guerra Anglo-Boer, apenas pôde fazer esse isolamento espiritualmente, e não geograficamente como tinha sido o caso dos Treks. Nesse sentido, a comunidade africânder procurou resguardo na sua Igreja e fundou organizações destinadas a preservar a pureza africânder. Nesse sentido surgiu, em 1905 a Afrikaanse Taalvereniging, Associação de Língua Afrikaans na Cidade do Cabo e a Afrikaanse Taalgenooskap em Pretória. Em 1909 surgiu a S.A. Akademie voor Taal, Letterre en Kuns, Academia sul-africana para a Língua, Literatura e Cultura, destinada a regulamentar a língua afrikaans29. Mais tarde surgiu a Africânder Broederbond30, organização que virá a ter, como veremos, uma enorme importância após a subida ao poder do National Party.
28 A atitude dos boeres face à população negra era claramente racista. Os boeres consideravam-se superiores e contrários a qualquer tipo de miscisgenação. Este sentimento era apoiado e impulsionado pela Igreja Reformada Holandesa.
Fransjohan Pretorius: Life on Commando during the Anglo-Boer War, 1899-1902, p. 262. 29 Brian Bunting, op.cit., pp. 16-17.
30 A Afrikander Broederbond foi crida em 1918 por afrikanders como instrumento de combate à crescente influência britânica, nomeadamente em termos culturais. Esta sociedade apenas aceitava membros
afrikanders. A 26 de Agosto de 1921 a Afrikander Broederbond decidiu transformar-se numa sociedade
secreta. Ao longo dos tempos foi aumentando a sua influência com vários dos seus membros a alcançarem lugares de destaque nas mais diversas áreas da sociedade sul-africana.
Os sectores mais conservadores no seio da comunidade africânder nunca aceitaram a derrota imposta pela guerra, esperando que uma alteração das condições internas ou externas pudessem permitir o restabelecimento das Repúblicas Boeres. A espera advinha do aproximar da I Guerra Mundial e do mais que provável envolvimento britânico.
Politicamente, os boeres começaram a organizar-se, surgindo partidos nas suas duas áreas geográficas tradicionais. Assim, no Orange surgiu o Orangia Unie, União do Orange, liderada por Abraham Fischer e o General James Barry Munnik Hertzog. No Transvaal surgiu o Het Volk, o Povo, fundado pelo General Louis Botha e pelo General Jan Smuts. Ambos os partidos defendiam uma autonomia política para as suas regiões.