O complexo de Édipo está situado no cerne da Psicanálise, é o grande nó das neuroses e a própria sociedade é influenciada pelos frutos, colhidos ou não durante, a sua vivência, pois a dissolução deste complexo vai deixar marcas no sujeito que interferirão na sua vida futura e, consequentemente, na sociedade.
Freud (1924/2006) mostra que a relação objetal vivida com a mãe na fase oral deixa marcas na criança, no Édipo do menino, a mãe é o objeto eleito agora por uma escolha apoiada na própria relação mãe/filho já iniciada e desorganizada, digamos, assim, pela presença mais marcante do pai. O desejo do menino pela mãe se intensifica e o pai entra como um obstáculo. Surge, aí, uma relação ambivalente com o pai, ou seja, o menino sente hostilidade em relação ao sujeito que lhe “rouba” a mãe, ao mesmo tempo em que tem com ele uma identificação e, também, uma possível relação de carinho.
Freud (1925/2006) diz que a menina, que tem a mesma relação objetal com a mãe, de início, não entra no Édipo da mesma forma, ela precisa fazer uma virada nesta relação, dirigindo-se para o pai, passando pela inveja do pênis, que deseja ter para completar a mãe. Quando começa a perceber que a mãe é como ela, vai modificando sua relação amorosa com a progenitora e dirige-se ao pai, a relação de amor com a mãe desliza para o ciúme, o pai se torna seu novo foco de interesse e a menina faz a equação falo = bebê, quem tem um bebê tem o poder do falo.
Com a menina ocorre uma aceitação da castração como um fato consumado, o menino, por sua vez, a teme: “Enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas o Édipo se faz possível e é introduzido através do complexo de castração” (FREUD, 1925/ 2006, p. 318). Ao final do complexo de Édipo, se ele for, de fato, destruído (o que seria o ideal) ocorre uma sublimação do investimento libidinal, ou seja, o resultado da castração elimina o Édipo e com isso surge a identidade sexual e o superego, seu herdeiro. Institui-se no ego a consciência e a moralidade, como mostra Freud (1925/ 2006).
Lacan (2005) introduz algo novo no Édipo, contrariando a ideia de que a renúncia da criança pode ser explicada pelo ato genital, como vimos no funcionamento do circuito pulsional. Coloca a questão sob dois aspectos, primeiro quando a criança, que até então supunha a mãe como onipotente, percebe que a mãe é tão vulnerável quanto ela, daí a sua angústia a partir do rompimento do circuito alimentado pela relação mãe/bebê, de onde caem
seus objetos de afeto. Segundo, a angústia intensifica-se com a ameaça da castração, tanto para os meninos, com o temor, quanto para as meninas, para quem a castração é privação.
Lacan (1999, [1958]) coloca o Édipo sob três perspectivas: a primeira é que o Édipo tem uma “função essencial de normalização” no sentido de colocar o sujeito sob a norma social ou supereu; a segunda é que, se o Édipo tem sua importância, o que se passa antes dele, no período pré-edipiano também tem, considerando que a psicose e a perversão são estruturas clínicas que se organizam nos tropeços do Édipo, como consequência do que se passa antes desse período. Não são condições em estado bruto como chegou a se afirmar, mas estão relacionadas com a função imaginária, destacando a importância da teoria de Klein no estudo da fase anterior ao Édipo, relativo às perturbações no campo da realidade; a terceira ultrapassa a questão da norma como componente da moral do sujeito, mas refere-se ao assumir o sexo, ou seja, a criança entra no processo de identificação, renunciando ser o falo para a mãe. O menino pode identificar-se com o pai, que tem o falo e a menina pode encontrar uma identificação na mãe, com a possibilidade de obter o falo do pai, como a mãe tem. Nesse sentido, o Édipo está ligado à função do “Ideal do Eu” (LACAN, 1957-58/1999).
Para que o pai seja confirmado em sua função, ele precisa estar inserido no desejo da mãe. A criança vai perceber no desejo da mãe pelo Outro a existência do pai e este fato a introduz na ordem da metáfora que representa a LEI, o interdito está internalizado, como mostrado antes, é a entrada da criança no simbólico (LACAN, 1957-58/1999; DOR, 2003; NASIO, 2007; PORGE, 2006).
O narcisismo está entre as etapas fundantes da constituição do sujeito. Se, no mundo contemporâneo, o Édipo está em crise pelo enfraquecimento do Nome-do-Pai, o Narcisismo não fica atrás, mas com uma crise diferente, que não o enfraquece. O narcisismo é importante para que o sujeito se reconheça, mas deve ser superado; não no sentido de desaparecer, mas sim para permitir a entrada de novos Outros. Essa superação proporciona uma visão mais aberta para a alteridade (LACAN, 2004).
Entretanto, na atualidade, isso não acontece de forma satisfatória, vive-se uma crise em que o narcisismo quase não tem seu espaço reduzido na constituição psíquica. Cada vez mais, sujeitos amando a si mesmos, com dificuldade de perceber o outro, temendo e rechaçando a diferença, o que afeta a sociedade de modo geral, o que é evidente quando observamos a educação, a política e, até mesmo, a ciência atual se debatendo com as dificuldades nas relações entre os seres humanos (VORCARO, 2004; JERUSALINKY, 2010; MEZAN, 2011; NEDER, 2012).
Para Freud (1914b/2006), o narcisismo inicia-se com a falta de diferenciação do bebê com o mundo à sua volta, o bebê tem a si mesmo como referência, pois, ainda, não possui recursos psíquicos suficientemente estruturados para se perceber diferenciado do outro, a mãe, por exemplo, é percebida por ele como objeto parcial, não como um todo diferenciado. O narcisismo dos pais confirma a não diferenciação com o bebê, pois estão revivendo e reproduzindo com ele o seu amor narcísico.
No início, o narcisismo primário mostra que a pulsão sexual está ligada à satisfação das pulsões do ego, ligadas à autopreservação, e só depois se tornam independentes. O narcisismo dos pais incide sobre o bebê, numa supervalorização deste, considerado como um sujeito vindo para realizar seus sonhos: “Sua Majestade, o Bebê” (FREUD, 1915/2006). O amor dos pais é um verdadeiro refúgio para o bebê, que fica entregue a uma onipotência absoluta em que tudo retorna a ele, como se fosse o centro de tudo. É fundamental que o Eu se afaste do narcisismo primário para que ele possa sublimar a pulsão sexual autoerótica para constituir uma imagem de si mesmo. O narcisismo posterior que se desenvolve após o autoerotismo apresenta esse mesmo estado que o primário, mas agora retirando a libido do mundo externo, levando-a para o Eu Ideal. (FREUD, 1915/2006).
Lacan (1949/1998) aborda o narcisismo primário através do Estádio do espelho. Surge, aí, um Eu circunscrito em uma imagem especular, obtendo certa têmpera, a partir da percepção de uma imagem e do afeto de um olhar. O que o bebê captura é a imago, que podemos interpretar como uma falsa imagem de completude; para Lacan, é isso que funda o narcisismo, é o eu ideal reconhecido por este espelho, que é o Outro, que dirige um olhar para o bebê, o recorta com este olhar, o enxerga e se enxerga nele. Então, o narcisismo primário está ligado à imagem, o bebê responde como objeto ao desejo do outro. O Estádio do espelho abre a possibilidade para o pequeno sujeito viver o Édipo, depois a castração e, assim, seguir o seu rumo (LACAN, 1949/1998).
A diferença que a Psicanálise traz para a perspectiva do desenvolvimento muda a forma de pensar os possíveis problemas que a criança, por ventura, possa vir a ter, como alguma dificuldade de separação e/ou de socialização ou de aprendizagem. O bebê nasce no mundo da linguagem, mesmo que venha a nascer surdo. Portanto, o seu lugar na dinâmica familiar deve ser pensado sob a função de uma metáfora, ou seja, “não se trata somente de ter um quarto, um berço ou um nome, mas de ocupar uma posição subjetiva, de fazer diferença com sua chegada, de modificar as posições familiares estabelecidas até então” (BERNARDINO, 2006, p. 27).