4. Pre-treatment methods
4.4. Biological and enzymatic pre-treatment
A pesquisa é de cunho qualitativo. Os sujeitos são duas crianças em atendimento na clínica psicanalítica infantil que passaram por diagnósticos médicos relacionados a dificuldades na aprendizagem, na comunicação, na socialização, na fala. Foram atendidas em um consultório particular em Brasília no Distrito Federal (DF). Os instrumentos de coleta de dados foram os relatórios escritos das sessões e das reuniões realizadas com familiares e outros profissionais envolvidos no atendimento da criança. A análise dos dados, que possibilitaram a discussão da teoria, foi feita a partir da organização dos elementos surgidos dos relatórios da experiência vivida na clínica pela analista, os quais se encontram descritos ao final deste item. A sustentação teórica da pesquisa é fundamentada no referencial teórico da Psicanálise.
Transformar a clínica em um trabalho de pesquisa acadêmica é colocar em consonância duas experiências distintas que se atravessam. É, portanto, uma tarefa delicada que tem sido, desde o início, o que proporciona a fecundidade da teoria psicanalítica. A vasta produção nessa área confirma esse fato, embora nem todas, realmente, contribuam.
A experiência na clínica tem como resultado uma interpretação, uma descoberta e um efeito, mas isso é proporcionado ao analisando via transferência. O psicanalista só vai ter notícias disso posteriormente. O estudo, o pensar e o discutir o caso, como se faz em supervisão ou em grupo de estudo, servem para conduzir o posicionamento e a ética, não garantem, necessariamente, uma interpretação daquilo que, de fato, ocorreu, pois não temos a resposta. Sustentar essa clínica é sustentar um não saber, que é diferente de ignorar, é um saber que vai além, que não cabe ao psicanalista nesse momento.
Por isso, escrever relatos sobre a experiência, com o objetivo de uma produção, de uma contribuição para a clínica, é um momento legítimo de pesquisa, ainda que, posteriormente, se agreguem outros elementos teóricos que possam dar visibilidade ao fenômeno que estamos estudando, provocando uma reflexão mais profunda sobre nossos operadores teóricos e nós mesmos. Nesse lugar, estamos nos expondo mais do que o analisando, porque vamos responder por este trabalho. Os relatos são, antes de mais nada, um intercâmbio de experiências, com foco na singularidade, como dito antes, tomando como ponto de partida a expressividade do sujeito em questão, seja através da fala ou de outra forma de comunicação, com o respaldo teórico (NASIO, 2000).
Procuramos trabalhar com o relato de experiência para obter maior flexibilidade na discussão, com isso, utilizamos apenas uma das características que fundamentam o caso
clínico que, de acordo com Nasio (2000), é a segunda função de um caso clínico, que é a metafórica, a qual propicia o acesso aos conceitos através da ilustração clínica, permitindo que, ao se relatar a experiência, os conceitos já aparecem em associação direta aos casos, como acontece quando retomamos os casos clássicos e de imediato brotam os conceitos neles implicados, como veremos no próximo capítulo.
Dunker (2011, p. 537) nos lembra que “a construção de um caso clínico é a principal peça na argumentação psicanalítica em favor da sua eficácia, na explicitação da ação de seu método e no diálogo com a psicopatologia”. O problema está no momento de definir o que é um caso clínico para a Psicanálise, uma vez que tanto pode ser um breve relato, um fragmento de sessão, uma vinheta clínica, como pode ser um longo e detalhado relato de todo um processo de análise. Pode ser tanto um fragmento de análise pessoal, quanto o relato de experiência com os analisados. Optamos pelo relato de experiência vivida.
Para ser considerada, de fato, como uma produção que venha contribuir para a intencionalidade da Psicanálise, esse relato precisa ser da ordem de uma “transmissão” e, com isso, prestando-se à “verificação, comparação e crítica de fenômenos, conceitos e hipóteses frente a uma comunidade de pesquisa” (DUNKER, 2011, p. 538). Para ir além de um padrão classificatório, é preciso ser inventivo na construção e na apresentação do caso clínico e posicionar-se como narrador implicado.
A história, o relato da experiência, os questionamentos e a reflexão foram cruciais para este trabalho, além de permitir exercer uma “[...] Psicanálise que se aventura um pouco mais longe do consultório” (DUNKER, 2013, p. 11). O saber elaborado sobre a clínica pode ser apresentado através dos relatos de experiência e do seu estudo, que são formas de demonstrar o que é feito com o saber investido na análise (QUINET, 2009), buscando refinar o pensamento do psicanalista em sua práxis.
Os relatos da experiência vivida referem-se ao atendimento a duas crianças que tiveram seu diagnóstico médico definido paralelamente ao processo de análise. Uma das crianças foi diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a outra com Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA) no caso, sem a hiperatividade. Os diagnósticos vieram associados a atrasos no desenvolvimento global, à dificuldade na comunicação, na socialização e na fala, bem como a dificuldades na aprendizagem.
Para o melhor aproveitamento e compreensão dessa experiência para a clínica infantil, elaboramos a organização dos relatos da seguinte forma:
i) Apresentação da queixa inicial – descrição do motivo pelo qual os pais procuraram o atendimento, considerando de onde partiu a demanda de avaliação/análise, seguida das reflexões teóricas.
ii) Os primeiros indícios e a hipótese diagnóstica – relacionar as características da queixa com aquelas que condizem com os diagnósticos, tanto da área médica quanto da área da própria Psicanálise, mantendo a diferenciação entre as duas formas de pensar o diagnóstico, articulando com o referencial teórico.
iii) A escuta e a análise do diagnóstico – a forma como o diagnóstico pode ser escutado e pensado pelo psicanalista, articulando o relato da experiência com o referencial teórico.
iv) A condução da análise – abrange os relatos do ambiente em que os atendimentos foram realizados, o espaço físico as atividades e as intervenções realizadas com a criança, a família, a escola e outros, mantendo a articulação com a teoria.
v) As conclusões possíveis – mostra a compreensão da transferência com a criança a partir de suas singularidades, mostra, também, a transferência com os pais e uma reflexão sobre o final da análise e o lugar que o diagnóstico ocupou.
Lembramos que Lacan (2009, p. 57) marca como a diferença entre o escrito e a fala, justamente a dificuldade de se entender o que está escrito. Portanto, é preciso recolocar nele a fala: “É a partir da fala que se abre o caminho para o escrito”. Escrever a experiência clínica é, antes de tudo, extrair consequências de um trabalho que precisa ser levado para a discussão tanto na fala – através dos debates com os pares, quanto na escrita, dando o testemunho das suas possibilidades e, também, dos seus impasses.
Capítulo 2
Aquilo de que as crianças precisam, não é resignação, mas paixão. Elas sonham com um mundo onde os atores possam falar em nome próprio, escapando da obrigação de parecerem conformes. Maud Mannoni, em: Carta aberta a todos. L'Humanite, 12/06/96.