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2. The thesis

2.5. Conclusions

Ao considerar que a ferramenta de análise genealógica pressupunha percorrer, não a origem de um acontecimento, mas a singularidade deste e espreitá-lo possuindo uma história, ou seja, que os conceitos também têm uma história, criou-se a necessidade de reencontrar os diferentes cenários, nos quais, o público desempenhava papéis distintos. Para isso recorreu-se a dois documentos formulados pelo Ministério da Saúde (PORTAL, 2005). O primeiro deles apresentava uma linha histórica da saúde pública a partir de uma datação temporal. A Saúde Pública é apresentada como um projeto de “evolução da saúde brasileira” (PORTAL, 2005) e de responsabilidade administrativa do governo. A continuidade histórica formula uma linha de desenvolvimento da Saúde Pública como objeto de investimentos que se aprimoram através dos tempos. Entretanto, é importante salientar que essa “evolução da saúde brasileira através dos tempos” faz parte de um conjunto de práticas de diferentes modalidades de objetivar a saúde pública, no Brasil, por meio daquilo que a constitui.

O outro documento selecionado para a análise foi um texto construído também pelo Ministério da Saúde para a formação de profissionais na área da saúde coletiva. Esse material - Gestão Municipal de Saúde (BRASIL, 2001) - apresentou-se para a tese em dois sentidos: o

primeiro por também fazer uma datação histórica que tornava o público uma evidência na saúde; segundo por ser um instrumento de formação no campo da saúde. Ou seja, uma estratégia de produção de uma racionalidade no campo de saúde que também forjava as figuras existenciais que a operariam.

A partir disso, tomou-se a saúde pública como um arquivo, como uma condição de realidade para determinadas práticas sociais, não condições que tornariam legítimas certas assertivas, mas as condições de emergência, coexistência e correlação de certos objetos, certos modos de ser, certas verdades que segundo um conjunto de normas subsistiriam, transformar- se-iam ou desapareceriam:

O arquivo é de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares. Mas o arquivo é, também, o que faz com que todas as coisas ditas não se acumulem indefinidamente em uma massa amorfa, não se inscrevam, tampouco, em uma linearidade sem ruptura e não desapareçam ao simples acaso de acidentes externos, mas que se agrupem em figuras distintas, se componham umas as outras segundo relações múltiplas, se mantenham ou se esfumem segundo regularidades específicas (FOUCAULT, 2000, p. 149).

Desse modo, o percurso da pesquisa foi encontrando-se com aquilo, que no entender desta tese, compunha um arquivo: além dos documentos citados acima, pesquisados no Ministério da Saúde, foram trabalhados ao longo do estudo, a Lei 8080, o relatório da VIII Conferência Nacional de Saúde (PORTAL, 2005), a Revista Physis - Revista de Saúde Coletiva (1995), o Boletim de Saúde (2003), os textos de Luz (1986, 1988), de Mendes (1999), de Paim e Almeida (2000), de Bleger (1984), o livro Psicologia e Políticas Públicas (2004), a conferência de Fleury (2005), bem como enunciações do cotidiano como nota publicada no jornal Correio do Povo (2006), curso de capacitação em saúde coletiva para trabalhadores de rede pública de saúde, Fórum de Políticas Públicas e Psicologia. Esses materiais continham histórias sobre a saúde pública e a saúde coletiva e marcavam acontecimentos, rupturas, coexistências, regularidades e descontinuidades que multiplicam o objeto da pesquisa. São enunciações do presente que demarcam aquilo que é possível ver e falar da história do conceito-problema. Separadamente, estas racionalidades possibilitaram para esta tese percorrer um solo de práticas que configuravam o público como um dispositivo na medida em que este agenciava tanto os ditos quanto as regras que possibilitavam esses ditos aparecerem.

Conjuntamente com esse campo empírico, foram articulados alguns conceitos-teorias para refletir sobre as operações que se instituíam: as discussões de Arendt (1989) sobre o

público, as discussões de Foucault (1999) sobre biopoder, as discussões de Castel (1998) sobre a “questão social”.

Desse modo, chegou à conformação do público como um dispositivo e estabeleceram- se duas linhas de discussão para a investigação: histórico-teórica, que encontrava, fundamentalmente, em Arendt, Foucault e Castel os conceitos-teóricos que se articulariam ao conceito-problema; histórico-política, que encontrava-se nos exercícios discursivos dos materiais analisados, compondo um jogo de forças que permitiam a operacionalização do conceito-problema. Operar com linhas histórico-teóricas e histórico políticas engendra-se na forma como levantam-se questões sobre uma determinada formação histórica. É um modo de interrogar o objeto e perscrutá-lo como problemática teórico-política. Teórica e política na medida em que se formula em uma racionalidade e em uma mecânica do poder. São estratégias que apresentam o objeto como um acontecimento e não como uma evidência. Essas duas linhas formaram um território para pensar o público como um dispositivo.

Utilizar o conceito de dispositivo no campo da Psicologia é percorrer uma lógica que constrói e medeia a relação do sujeito consigo mesmo, produzindo certos modos de experimentar a si mesmo e relacionar-se com o outro, uma ontologia do presente em que o humano se fabrica no interior de certos aparatos. A operação que o conceito de dispositivo oferece ao pensamento é tanto no sentido da forma como iremos nos interrogar acerca da conformação de um modo de publicização na saúde bem como os objetos tomados por essa articulação, ou seja, é o próprio dispositivo que nos permite objetivar essas formas.

Deleuze (1992, p. 128) escreve, que para Foucault, o pensamento é uma máquina de guerra:

É que no momento em que alguém dá um passo fora do que já foi pensado, quando se aventura para fora do reconhecível e do tranquilizador, quando precisa inventar novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e pensar torna-se, como diz Foucault, um ato arriscado, uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo.

Entretanto, aqui não se trata de considerar Foucault como um ato arriscado ao pensamento psicológico, pois sua utilização no campo da Psicologia já data de algum tempo. O risco está justamente em compreender que o modo como nos interrogamos, como analisamos é ele próprio produzido por um dispositivo.