PART IV – TROMS KRAFT
10. The Auditor’s responsibilities
11.3 Conclusions
Com a saída dos primeiros professores que haviam sido convidados para implantarem o curso de Geografia em Rio Claro, o corpo docente passou a ser constituído, em parte, por jovens professores que durante a formação haviam tido contato com uma Geografia mais atenta para o rigor na pesquisa, tanto nas aulas, quanto através de orientações durante o processo de titulação.
Estavam entre esses novos professores nomes que se relacionariam diretamente à GTQ. Em seus depoimentos, Gerardi e Oliveira mencionam o seguinte:
“os antigos professores já tinham saído e este pessoal jovem formado aqui [em Rio Claro] estava livre e com o aporte de todo material novo que chegava à biblioteca todos os dias” (Gerardi)
“Entre 1958 e 1962, formou-se a primeira turma de alunos, todos preparados para ajudar na continuação” (Oliveira)
Assim, segundo Diniz, o momento definidor da GTQ ocorreu no final dos anos 1960.
“Todo o grupo que havia terminado o doutorado em Rio Claro por volta de 68, 69 estava meio insatisfeito com a geografia que se fazia. E aí começam a ser buscados novos caminhos e o professor Christofoletti [...] nos trouxe um artigo que foi marcante, que foi o de B. Racine. [...] Com este artigo do Racine vimos que em algumas partes do mundo estavam fazendo uma geografia diferente. E aí começamos a procurar o que se fazia de novo nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Suécia desde os inícios dos anos 60” (DINIZ)
Após o período antecedente, chegoram ao conhecimento de alguns dos geógrafos de Rio Claro os ecos da New Geography, já que no caso da Geografia da FFCL-RC o "estopim" foi um texto escrito por um geógrafo suíço, que na ocasião atuava no Canadá. Esse texto, de autoria de Jean-Bernard Racine, atuou como um mediador da concatenação que resultou na GTQ, pois foi através dele que o efeito das associações, que na década anterior havia resultado na New Geography, se estenderam até Rio Claro.
Em “Nouvelle frontière pour la recherche geographique” (Nova fronteira para a pesquisa geográfica), Racine descreve a trajetória da nova escola geográfica anglo-saxônica, através da análise de alguns de seus mais significativos
estudos. De acordo com o autor, trata-se de um movimento intelectual e científico que resultou na abertura de novos horizontes aos geógrafos, permitindo a reformulação de problemas clássicos da discplina.
Nesse artigo Racine aborda cinco temas, a saber: geografia quantitativa e geografoa teórica; analogias orgânicas e teoria dos sistemas; geografia matemática e método experimental; geografia indutiva e geografia dedutiva; estruturas espaciais e comportamentos espaciais. A quantificação e seus corolários teóricos e técnicos eram, para Racine, naquela ocasião, os meios mais precisos de análise, síntese e expressão que estavam à disposição dos geógrafos.
Ao revelar para o grupo de recém-doutores de Rio Claro, e seus alunos, uma Geografia diferente que estava sendo feita em algumas partes do mundo e, com isso, instigá-los à procura dessa geografia, esse texto, naquela ocasião, foi responsável por transportar uma ação transformadora. Esse foi o momento definidor da GTQ.
A partir daí, o grupo constituído por esses jovens professores e seus alunos deu início à formação de grupos de estudo, cujo objetivo era tomar conhecimento daquela “nova” Geografia que o acervo da rica biblioteca divulgava. A princípio, as atividades consistiam em leitura e discussão de textos, com o objetivo de compreensão. Todos estavam aprendendo, alunos e professores.
Foi na ocasião desses grupos de estudo que se escolheu o nome Geografia Teorética e Quantitativa, uma denominação bastante controvertida, a respeito da qual Moraes (1986, p. 113) se referiu como má tradução do inglês. A tradução correta, para o português, da palavra theoretical é teórica, entretanto, Oliveira contesta a versão da má tradução e esclarece que o nome foi escolhido propositalmente, inspirado no artigo de Burton24.
“tivemos que organizar uma revista para publicar esses trabalhos e nomeá-la. Estava no auge, na época, aquele artigo do Burton, a Geografia Teorética que inspirou o nome da revista: Boletim de Geografia Teorética. E por que Teorética? Porque nós não queríamos dizer que era Teórica, nós usamos a palavra como um neologismo, a palavra inglesa, porque senão seria Teórica, o uso foi consciente. Era para mostrar que o que nós estávamos fazendo era diferente. Você pode criar aquele neologismo no Brasil, mais do que nós, que copiamos o detalhe de lá. Lembro-me, que numa das vezes lá na USP, perguntaram: “por que vocês usaram o Teorética?”Nós criamos esse neologismo. Eu sempre soube muito bem inglês, morei nos Estados Unidos. Minha tia era filha de suecos, ela ensinava inglês muito bem e depois, eu tive professor” (Oliveira)
O estudo dos textos que divulgavam a produção da New Geography exigiu a aprendizagem da Matemática e Computação25, o que levou ao
estabelecimento de mais associações. Assim, foram feitas parcerias com o Departamento de Matemática e Estatística, e seus professores passaram a ensinar aos geógrafos. Essas parcerias com outros departamentos da Faculdade deram o respaldo para a assimilação dos novos conteúdos, permitindo a compreensão do emprego das técnicas de pesquisa inovadoras para a Geografia, conforme expõe Gerardi.
“Essas aulas eram para pelo menos entender e para não usarmos aquelas coisas como liquidificador, para entender e interpretar o que acontecia com os dados que usávamos. É lógico que nós não dominávamos tudo, as coisas mais elaboradas nós não dominávamos, mas esses cursos eram pelo menos para saber o que é uma análise fatorial e como o computador funcionava.” (Gerardi)
Desse esforço de aprendizagem também fez parte, para alguns dos que aderiram à New Geography, o estudo do inglês. O domínio desse idioma não foi determinante para que os geógrafos optassem ou não pela nova vertente. Gerardi explica que havia aqueles que, tendo domínio do idioma, não mudaram para a nova corrente, enquanto que, dentre os que mudaram, havia quem não tivesse conhecimento algum do inglês.
“aqui em Rio Claro mesmo, um grande número de professores falava francês, lia inglês e alemão, mas não aderiu. É o caso do Helmut, que passou parte da vida dele na Alemanha, tinha acesso a toda bibliografia alemã e conhecia muito bem o inglês e do Juergen, outro grande conhecedor da língua inglesa. Os dois não aderiram ao movimento, portanto, se foi limitação para alguns, não foi para outros” (Gerardi)
Nesse mesmo período (final dos 1960), como desdobramento de associações estabelecidas anteriormente, os geógrafos do IBGE foram iniciados na Geografia Quantitativa. Durante esse início da disseminação da New Geography no Brasil, as duas instituições não estabeleceram ligações, o que aconteceu somente a partir de 1969, na ocasião do encontro da AGB em Vitória.
25 É importante mencionar que nesse período, por conta do estágio inicial de seu desenvolvimento
Foto 1: Fachada do Departamento de Geografia em Rio Claro em 1972. Fonte:http://igce.rc.unesp.br/#!/departamentos/geografia/sobre-o-
departamento/historia/
Foto 2: Acervo da biblioteca da UNESP de Rio Claro em 2014. Autor: CANDIDO, J. C.