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O corpo humano é bastante frágil para suportar todas as intempéries do mundo que habita e, por esse motivo, está sempre se cercando de artifícios que compensem suas desvantagens. Enquanto alguns animais desenvolveram artifícios biológicos para sobreviver e garantir a perpetuação da espécie, o homem analisa o mundo a sua volta, a fim de domesticá- lo a seu favor e desenvolve artefatos que fortaleçam seu corpo e que facilitem o desempenho de suas funções. Com isso, desde os tempos mais remotos, o desenvolvimento tecnológico aparece imbricado com as atividades humanas, garantindo sua sobrevivência e permitindo sua evolução, tanto que sua história da humanidade pode ser compreendida pela forma como dominou os dispositivos que criou.

O importante dessa questão é perceber que todas essas tecnologias inventadas pelo homem interferiram diretamente no seu próprio ser/estar no mundo. O homem inventa a roda e a roda reinventa o homem, ou como disse John Culkin (1967, p.70) “we shape our tools

and thereafter they shape us. These extensions of our senses begin to interact with our senses”18. Do uso do fogo para afugentar predadores e cozinhar alimentos aos mais

sofisticados dispositivos que se tem hoje, todas essas tecnologias interferiram na relação do homem com o seu próprio corpo e, por consequência, modificaram não só suas subjetividades como suas relações culturais, sociais e cognitivas.

Essas interferências tecnológicas sobre os corpos se tornaram mais nítidas com os avanços tecnológicos obtidos nos últimos anos. Exames e diagnóstico de imagem cada vez mais modernos, transplantes de órgãos, transfusões de sangue, próteses e implantes artificiais ou naturais para corrigir deficiências ou estética e tecnologias da informação e comunicação são exemplos citados por Lévy (1996) sobre como a biotecnologia vem interferindo nas relações corpo-homem. O autor define esses “processos de transformação de um modo de ser num outro” como processos de virtualização, e considera que as transformações corporais proporcionadas pelas tecnologias “representam uma nova etapa na aventura de autocriação que sustenta nossa espécie.” O corpo torna-se um devir, uma morfia customizável de acordo com os padrões de seu contexto cultural.

18 Essa frase é costumeiramente atribuída à Marshal McLuhan, porém ele jamais a escreveu e sim seu amigo John Culkin, na revista Saturday Review, no artigo intitulado “A schoolman’s guide to Marshall McLuhan”.

A expansão das tecnologias de comunicação e informação ocorrida após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe inúmeras mudanças sociais que redefiniram a forma como os sujeitos se relacionam com seu “estar social”. Nessa “cultura midiatizada”, as formas de relacionamento, a construção das identidades, as manifestações culturais, as formas de trabalho e consumo são, cada vez mais, pautados pelos meios de comunicação de massa. Nunes (1987, p.73) ressalta que durante esse período “explodem os movimentos de contestação: os jovens, o rock, os grupos feministas, negros, homossexuais…Em todos estes movimentos estava presente a libertação sexual”, que logo foi absorvida pelo capitalismo e inserida nas mídias como objeto de desejo e consumo.

Se as tecnologias atuam sobre o corpo, por consequência também atuam não só em questões psíquicas e biológicas de como se vive e experimenta os gêneros e as sexualidades, quanto em desdobramentos sociais dessas questões. A pílula anticoncepcional e outros métodos contraceptivos, por exemplo, revolucionaram o modo como se via a sexualidade na década de 1960, como visto no capítulo anterior. Essas tecnologias permitiram às mulheres um maior controle sobre seus corpos, permitindo-lhes decidir seu futuro e atuar fortemente no mercado de trabalho, o que desencadeou uma nova percepção sobre as desigualdades de gênero e o fortalecimento dos estudos feministas nesse período. Outros exemplos são os tratamentos hormonais e cirúrgicos que possibilitam que pessoas trans possam realizar suas redesignações sexuais.

Relembra-se então que foi nesse contexto onde, simultaneamente, as redes de computadores começam a se desenvolver exponencialmente. A mobilidade dos aparelhos, o desenvolvimento da internet e a chegada das redes de banda larga e 3G, permitiram uma conexão quase em tempo integral dos indivíduos ao meio digital. Essa reconfiguração encurta as distâncias e dilata o tempo, interligando seres em extensas redes digitais, permitindo que aspectos econômicos, culturais e políticos sejam assimilados além das fronteiras geográficas de um país.

Conectados em redes digitais globais, os indivíduos se desenvolvem (diferentemente de outrora), individual e socialmente, nos interstícios do espaço físico e do eletrônico (ou ciberespaço como ficou conhecido), onde suas interações inicialmente mediadas pela cultura, hoje já são a própria cultura, ou cibercultura a qual Lévy (1999, p. 17) define como “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem junto ao crescimento do ciberespaço”. Expande-se essa noção, entendendo a cibercultura também como uma cultura híbrida, ou seja, ela não só é criada e recriada pelas representações culturais do mundo tangível, como transpassa a barreira da tela e interfere no mundo offline.

A civilização do virtual está imersa nesse processo simbiótico entre o homem e a técnica. O processo de conversão do mundo em dados binários através das novas tecnologias do virtual, atravessa todos os aspectos da cultura contemporânea (educação, economia, política, lazer, etc.). [...] A virtualização do mundo afeta de forma irreversível a sociedade desse fim de século. A cibercultura contemporânea é uma forma peculiar de relação entre a sociabilidade e as tecnologias. (LEMOS, 1999, p.4)

Lemos (1999, p.5) atualiza então a frase de John Culkin ao dizer que “nós traduzimos o mundo em “bits” e, ao mesmo tempo, os “bits” nos traduzem em informação”. Ao entrar na rede, a carne é descorporificada e convertida em arranjos de bits e bytes trafegando em velocidades absurdas por caminhos imprevisíveis. Os corpos, as cidades e os espaços sociais também são convertidos em pulsos eletrônicos.

Na virtualização da cultura, o corpo vai ser marcado pela civilização do excesso e dos múltiplos poderes. O corpo pós-moderno é superfície de escritura de vários textos: ideológico (o corpo inscrito no fluxo das modas), epistemológico (corpo cínico, travestido), semiótico (o corpo como signo flutuante), tecnológico (os media tradicionais, as redes eletrônicas, as próteses), econômico (corpo desejo de consumo) e político (corpo de massas, esfera pública). O corpo torna-se um espaço de experiência numa espécie de “hacking” biológico. (LEMOS, 1999, p.7)

As sociabilidades entre os sujeitos não ocorrem no nível de programação eletrônica, exigindo que as máquinas interlocutoras mediem e traduzam19 essa “alma sem corpo” em uma representação gráfica em tela, seja através caracteres de texto, no nickname de um chat a um avatar tridimensional, num processo que pode-se entender como uma recorporificação. As cidades são organizadas em torno de metáforas com o mundo físico formando ambientes de sociabilidade onde os atores podem interagir e tornando-se ela mesma um ator nesse processo.

Os seres humanos, da mesma forma que qualquer outro componente ou subsistema, deverão ser situados em uma arquitetura de sistema cujos modos de operação básicos serão probabilísticos, estatísticos. Nenhum objeto, nenhum espaço, nenhum corpo é, em si, sagrado; qualquer componente pode entrar em uma relação de interface com qualquer outro desde que se possa construir o padrão e o código apropriados, que sejam capazes de processar sinais por meio de uma linguagem comum. (HARAWAY, 2009, p.63)

19 A mediação e tradução realizada pela máquina corresponde aos recursos disponíveis no software, ou seja, a interface gráfica que pode ser texto, imagem 2D e 3D, vídeo e afins. Steven Johnson (2001) considera que a interface, através de metáforas visuais com mundo orgânico, foi um dos aspectos que garantiu a “domesticação do computador pessoal” por usuários comuns. O autor considera ainda que a forma que a interface é projetada interfere nas sociabilidades que fluirão naquele meio de comunicação, assim, entende-se que essa estrutura não é neutra e que também deve ser objeto de problematização e investigação.

Lévy (1996,) considera que “a projeção da imagem do corpo é geralmente associada à noção de telepresença. Mas a telepresença é sempre mais que a simples projeção da imagem”. O corpo se torna então ubíquo, ou seja, enquanto o corpo físico, tangível está aqui, sua representação imagética está perto do interlocutor, que por sua vez sofre o mesmo processo, de modo que os corpos de ambos se localizam simultaneamente em dois lugares no tempo-espaço. Utilizando softwares de realidade virtual, por exemplo, é possível visitar o Museu do Louvre sem sair de seu país de origem, numa experiência extracorpórea que influencia no corpo âncora.

O corpo sai de si mesmo, adquire novas velocidades, conquista novos espaços. Verte-se no exterior e reverte a exterioridade técnica ou a alteridade biológica em subjetividade concreta. Ao se virtualizar, o corpo se multiplica. Criamos para nós mesmos organismos virtuais que enriquecem nosso universo sensível sem nos impor a dor […] Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e tecnobiológico. (LÉVY, 1996, p.33-34)

As possibilidades de representação imagética do corpo, rápidas e indolores, fornecidas pelo ciberespaço realçam a percepção do corpo customizável, indo muito além do determinismo genético e ressignificando-o de acordo com sua vontade interior. A partir desses corpos projetados, mediados pelos recursos disponíveis da interface, os sujeitos constroem suas personas, ou seja, constroem representações de sua identidade que se apresentam como o real para a convivência social nas redes. As personas seriam as representações que as pessoas criam de/para si no ciberespaço.

As diversas comunidades virtuais emergentes desse novo espaço eletrônico que é o ciberespaço, proporcionam emoções coletivas identificadoras, não com o indivíduo preso a uma identidade fechada, mas com “personas” de diversas máscaras.[...] o ciberespaço se constitui como um espaço para refazer as categorias identificatórias na cultura contemporânea. Assim, sem um corpo físico como receptáculo da construção da identidade, o sujeito fica livre para jogar com comportamentos e identidades. O ciberespaço produz uma nova forma de sociabilidade, criando um novo senso de identidade, ao mesmo tempo descentralizada e múltipla; uma sociabilidade eletrônica. (LEMOS, 1999, p.16)

Apesar de não estarem ligadas fisicamente ao corpo, as experiências vividas por essas personas no ciberespaço não são descartadas quando se desliga o dispositivo. Com a hiperconexão e a mobilidade de conexão, a vida não se divide mais entre os momentos

online e offline, se tornando um híbrido da interatuação desses universos. Haraway (2009,

p.36) já apontava que a interação entre organismo e tecnologia transformaria o corpo humano num ciborgue, que, segundo ela “é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção”.

Gabriel (2013, p.58) chama esse fenômeno de cibridismo (híbrido entre ciber e corpo) e considera que “somos on e off ao mesmo tempo, simbioticamente, formando um ser maior que nosso corpo/cérebro biológico, nos expandindo para todo tipo de dispositivo e abrangendo outras mentes e corpos”.

O dualismo estrutura essa civilização ocidental através da separação entre mente e corpo, realidade e aparência, macho e fêmea, natureza e cultura. No tempo de micro- máquinas, de redes digitais e de realidade virtual, todos nós nos transformamos em seres híbridos, cyborgs da civilização do virtual onde a conexão a todo tipo de artefato torna-se, dia após dia, mais numerosa. A cibercultura contemporânea subverte esses dualismos a ponto de não sabermos direito onde começa o homem e onde termina a máquina. Nos transformamos, a nível do corpo biológico, mas também a nível do “corpo” social, em sistemas bióticos híbridos, regidos pela comunicação e pela troca de informações. (LEMOS, 1999, p.11)