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Depois de no ponto anterior nos termos dedicado a explorar a importância das fontes de informação para o jornalismo investigativo, destacando em particular o papel dos denunciantes, procuramos agora explorar aqueles que podem ser considerados os principais obstáculos no exercício desta vertente do jornalismo. Começamos pelos obstáculos, uma vez que eles estão diretamente relacionados com diferentes dimensões, seja a questão das fontes de informação, quer uma dimensão mais económica e de sustentabilidade do próprio jornalismo, como veremos no ponto seguinte. Mas neste ponto procuramos explorar os obstáculos colocados ao jornalismo de investigação ao mesmo tempo que abordamos algumas questões éticas, uma vez que entendemos que se pode estabelecer uma ligação entre os dois aspetos.

Um dos principais, senão mesmo o principal obstáculo do jornalismo de investigação está relacionado com o tempo necessário para a produção dos trabalhos jornalísticos. A crise que afetou o jornalismo, “amplificada pela revolução digital e pelo subprime, “desintegrou o negócio dos media” (Starkman, 2014, p. 246), com reflexos diretos no jornalismo de investigação” (Coelho & Silva, 2018, pp. 80-81). Não podemos ignorar que o desinvestimento nas redações afetou em primeiro lugar os conteúdos que exigem mais tempo para ser produzidos.

O tempo da investigação é um dos seus maiores obstáculos. Associado à incerteza do desfecho, o fator tempo encabeça a lista das razões objetivas que os gestores das redações utilizam para desinvestir nesta forma superior de jornalismo. Érik Neveu toca no ponto quando realça a contradição que emerge do jornalismo de investigação: “mais fortemente elogiado do que verdadeiramente praticado”, desde logo por implicar “a afetação de investigadores a tempo inteiro e sem garantias de resultados” (2005: 129). A comunidade jornalística é a primeira a valorizar o investimento, e a reclamá-lo; mas no seio desse grupo são poucos os que aceitam entregar-se à tarefa, pelos riscos e exigências que a mesma transporta. Afinal, o jornalismo de investigação exige “uma motivação pessoal elevada, experiência, conhecimento, metodologia e um conjunto de capacidades que suportem um grau complexo de ação” (Franklin et al, 2005/2010: 123) (Coelho & Silva, 2018, p. 83).

Como bem constatam Pedro Coelho e Marisa Torres da Silva, o tempo necessário para produzir um trabalho de jornalismo de investigação nem sempre é percebido como positivo, sendo pelo contrário considerado muitas vezes como um desperdício de recursos por parte daqueles que, em vez de qualidade, procuram sobretudo quantidade e resultados rápidos. A questão do tempo e dos recursos necessários para a produção de jornalismo investigativo agrava-se quando falamos do meio televisivo, central neste trabalho. Apesar de todo o potencial da televisão em termos comunicacionais, a verdade é que a produção jornalística televisiva é dispendiosa, desde logo porque, sobretudo no contexto do jornalismo de investigação, não se pode enviar um jornalista em reportagem sozinho, ou seja, são necessários mais recursos, nomeadamente humanos.

Assim, e muito embora as questões financeiras constituam uma das principais barreiras ao desenvolvimento do jornalismo de investigação, sobretudo no meio televisivo, não podemos deixar de considerar também o sensacionalismo como um dos elementos que, contribuindo para uma crise de sustentabilidade, afeta o próprio jornalismo de investigação. Coelho e Silva (2018) defendem que o ataque à credibilidade jornalística, o pilar da profissão, resultado da corrente influência dos meios digitais e da abundância de informação na Internet, põe em causa todo o jornalismo.

Na essência da crise de credibilidade, que hoje identificamos no jornalismo, está a influência do mercado, a dimensão que forçou o mergulho do jornalismo no seu maior paradoxo: se na génese da sua missão está a necessidade de gerar lucro social, o jornalismo moderno abriu brechas no edifício quando assentou âncora na necessidade de gerar lucro financeiro. É certo que a revolução tecnológica digital amplificou a dimensão da crise de credibilidade, mas o seu esteio encontra-se nessa outra dimensão, de efeitos bastante mais estruturantes (Coelho & Silva, 2018, p. 75).

Não querendo explorar em demasia a dimensão económica do jornalismo de investigação, nomeadamente ao nível da sua sustentabilidade, porque esse será o tema do ponto seguinte, não podemos deixar de concordar com Starkman (2014) que alerta para os cortes e para o desinvestimento que tem sido feito ao nível da especialização, aspetos que contribuem para a formação de jornalistas de secretária, que não têm forma de sair e desvendar as verdades ocultas pela sociedade, estando obrigados a realizar o seu trabalho dentro das quatro paredes da redação.

A tendência mais ampla é inegável: hoje existem menos repórteres a tempo integral e os que permanecem têm menos tempo para conduzir entrevistas e investigações aprofundadas. De certa forma, a produção de notícias hoje é mais de alta tecnologia - não há um repórter nos Estados Unidos que não saiba como twittar, blogar e usar uma câmara de vídeo - mas, de outras maneiras, ele regrediu, com mais e mais jornalistas a operarem como repórteres do serviço de notícias da década de 1930 - ou apressando-se no que a Columbia Journalism

Review chama de “roda de hamster” para produzir a quota diária de histórias cada vez mais

superficiais. Eles podem descrever a paisagem, mas têm menos tempo para virar as rochas. Eles podem transmitir o que veem diante dos seus olhos - muitas vezes melhor e mais rápido do que nunca -, mas têm menos tempo para descobrir as histórias ocultas nas sombras ou desenterrar as informações que instituições poderosas querem ocultar (Waldman et al., 2011 apud Starkman, 2014, p. 317)44.

Podemos assim considerar que o tempo, resultado do desinvestimento no jornalismo de um modo geral, e no de investigação de forma particular, constitui um dos principais obstáculos que esta vertente enfrenta, sobretudo quando observamos a sua prática no meio televisivo. É inegável que “investigar exige o tempo que o cutelo da produtividade imediata não disponibiliza” (Coelho & Silva, 2018, p. 81).

Neste sentido, se entendermos que o fator económico é decisivo para a prática do jornalismo de investigação, podemos perceber algumas das mudanças que se procuram introduzir neste campo. Tradicionalmente um repórter, quando realiza trabalho de campo, faz-se acompanhar de um operador de câmara. Na redação, posteriormente, há um editor de imagem que o vai ajudar a montar a reportagem, selecionando os planos que mais se adequam, de acordo com um determinado contexto e orientação temática. Aquilo que hoje se verifica é a redução do número de elementos que intervêm neste processo, essencialmente por questões económicas, o que pode causar graves consequências ao nível do jornalismo de investigação.

A falta de tempo, fruto da falta de investimento ou, diríamos mesmo, do desinvestimento nas redações, afeta o tipo de trabalhos que é possível realizar, mas sobretudo coloca em risco a independência e a credibilidade jornalística. Sem recursos para confirmar as informações e pressionados pela urgência da emissão continua, os jornalistas acabam por cometer erros. É neste ponto que podemos falar de algumas questões éticas, relacionadas, por um lado, com a exposição de histórias que interessam o público, mas não são do interesse público e, por outro, com a utilização de fontes que não foram confirmadas ou da utilização de fugas de informação para construir histórias de jornalismo de investigação.

44 “The broader trend is undeniable: there are fewer full-time newspaper reporters today, and those who

remain have less time to conduct interviews and in-depth investigations. In some ways, news production today is more high tech—there is nary a reporter in America who does not know how to tweet, blog, and use a flip video camera—but in other ways it has regressed, with more and more journalists operating like 1930s wire service reporters—or scurrying on what the Columbia Journalism Review calls “the hamster wheel” to produce each day’s quota of increasingly superficial stories. They can describe the landscape, but they have less time to turn over rocks. They can convey what they see before their eyes—often better and faster than ever—but they have less time to discover the stories lurking in the shadows or to unearth the information that powerful institutions want to conceal” (Waldman et al., 2011 apud Starkman, 2014, p. 317).

Como sugere Hélder Prior (2016), “a natureza paradoxal do jornalismo de investigação” reside precisamente num dos aspetos que entendemos como uma das questões éticas que se coloca a esta vertente do jornalismo: a questão do interesse público. Para o autor é difícil delimitar a prática do jornalismo de investigação quando muitos trabalhos jornalísticos procuram sobretudo conquistar as audiências, esquecendo os princípios jornalísticos da credibilidade.

Ora, se é verdade que o jornalismo de investigação, quando demonstra a sua acuidade para desvelar as condutas impróprias do poder político, se direciona para o interesse público, também é verdade que quando o jornalismo procura as manchetes mais lucrativas, direcionando-se para o interesse do público, quebra todos os preceitos morais e deontológicos (Prior, 2016, p. 369).

Quando o jornalismo de investigação procura revelar as transgressões e os desvios dos atores e entidades, acaba muitas vezes por se deixar capturar por uma espécie de justiceiro implacável, que o leva a esquecer as regras jornalísticas e os códigos deontológicos. Ao atuarem dessa forma, “os meios de comunicação de massa determinam e reconfiguram a realidade e os seus efeitos com o objetivo de obterem atenção do público” (Prior, 2016, p. 369). Sendo uma dimensão importante, a de despertar a atenção do público para os assuntos, a verdade é que esta não pode, nem deve ser, a principal função do jornalismo de investigação. Se a escolha dos temas a abordar por parte do jornalismo de investigação estiver condicionada pela capacidade de satisfação do interesse do público, pela capacidade de captar audiências e gerar receitas, então é a própria natureza do jornalismo investigativo que é posta em causa.

Se, em alguns casos, a perscrutação jornalística é imprescindível para a vigilância da esfera pública, cumprindo o jornalismo uma das suas funções essenciais, a da auto-regulação societal, em outros casos o jornalismo de investigação vai ao encontro de uma tradição que, nos países anglo-saxónicas, ficou conhecida como journalism of outrage, jornalismo de indignação, ou, por outras palavras, de escândalos (Prior, 2016, p. 365).

Quando os meios de comunicação confundem jornalismo de investigação com um jornalismo de indignação ou de escândalos, o essencial perde-se, porque o objetivo deixa de ser o de contribuir para uma melhoria da sociedade. Independentemente dos resultados, o objetivo final do jornalismo de investigação deve permanecer o de ser transparente na transmissão das informações aos cidadãos, respeitando os princípios éticos e a deontologia profissional. Deve ser um “espaço democrático ao contribuir para a divulgação, denúncia de situações insólitas e que prejudicam o cidadão comum”, e a revelação das situações investigadas, independentemente das “repercussões no tecido social, económico, político e judicial” deve ser “promotora de mudança também pelo exercício de liberdade” (Freitas, Silva & Amante, 2019, p. 664).

A questão do acesso às fontes está diretamente relacionada com esta questão, mas também com o desinvestimento no jornalismo. Nobre-Correia questiona precisamente a forma como o jornalismo de investigação assume sobretudo uma faceta de jornalismo de revelações, expondo dados que resultam de “inquéritos conduzidos por outros (meio judiciário, polícia…) e que foram objeto de “fugas”” (2018, p. 269). Para o autor, os jornalistas deviam questionar-se por

que motivo têm acesso a essa informação, uma vez que não se trata apenas de uma denúncia, mas muitas vezes de uma fuga deliberada ou de uma entrega deliberada de informação, que pode colocar em causa a independência dos jornalistas e o próprio contributo do jornalismo de investigação numa sociedade democrática.

Poder-se-á desde logo considerar uma tal démarche jornalística uma contribuição para a consolidação do sistema democrático? A interrogação merece em todo o caso ser formulada. Depois de a terem praticado, jornalistas houve que se deram conta de que o “jornalismo de investigação derivou para uma nova forma de prática, a do profeta da desgraça, do inquisidor” (Raffy, 2005, p. 85). Como o faz lembrar Yves Mamou, nos nossos dias o controlo da informação “passa raramente pela censura. Pelo contrário, a fuga é à democracia o que o segredo é à ditadura (Mamou, 1991, p. 12)” (Nobre-Correia, 2018, p. 269).

A relação com as fontes, nomeadamente com os denunciantes, e o acesso a dados através de fugas de informação constitui outra dimensão do jornalismo de investigação que não podemos deixar de considerar como problemática no que às questões éticas diz respeito.

Em suma, verificámos que os custos associados à prática do jornalismo de investigação, bem como o tempo que é necessário para a sua produção, são duas das principais dificuldades que os jornalistas e os meios de comunicação enfrentam. Mas para Derek Forbes (2005), as dificuldades na produção de conteúdos jornalísticos de investigação passam também pelo “sigilo do governo e do setor privado, falhas no acesso à informação, problemas burocráticos e logísticos. Outros obstáculos incluem a escassez de recursos financeiros e formação para jornalistas de investigação e a falta de apoio editorial” (Forbes, 2005, p. 47)45.

Neste sentido, percebe-se que além dos custos, humanos e materiais, existem outras dimensões que afetam o jornalismo de investigação. Se o acesso às informações pode ser um obstáculo considerável, verificámos também que as fugas podem levantar problemas do ponto de vista ético. No entanto, não podemos ignorar o facto de que existem informações que são deliberadamente escondidas e mantidas em segredo, com o objetivo de impedir que o jornalista lhes aceda.

Terminamos este ponto estabelecendo uma relação entre os vários aspetos que referimos e que nos permitem esboçar uma espécie de círculo vicioso entre os obstáculos e as questões éticas que se colocam ao jornalismo de investigação. A falta de recursos humanos levanta problemas ao nível do acesso à informação, porque existem menos jornalistas para realizar os trabalhos. Por sua vez, esta limitação de meios contribui para uma procura por informações que resultam de fugas, quebrando muitas vezes processos em segredo de justiça, e que resultam num jornalismo de escândalos e indignação. As fontes mais tradicionais não se sentem seguras em

45 “Journalists working in the SADC region highlight several barriers to unfettered investigative reporting.

These include government and private sector secrecy, lack of access to information, bureaucracy and logistical problems. Other obstacles include a shortage of financial resources and training for investigative journalists and lack of editorial support” (Forbes, 2005, p. 47).

fornecer informações, porque têm medo de represálias. Essa forma de obter os dados, de forma fácil e sem custos, faz com que os gestores dos meios de comunicação não vejam necessidade de investir em jornalistas para investigar. O círculo fecha-se com o regresso à ideia de que faltam profissionais e investimento no jornalismo de investigação.

Como referimos, um dos principais obstáculos do jornalismo de investigação está diretamente relacionado com as questões do financiamento e do investimento numa vertente do jornalismo que exige tempo na produção e não oferece garantias de retorno, sobretudo no que diz respeito às audiências. No ponto seguinte, que encerra o capítulo, abordamos a dimensão económica do jornalismo, focando em particular a sustentabilidade do jornalismo de investigação e o seu impacto na sociedade.

1.8. A sustentabilidade e o impacto do jornalismo