Assumindo, com Maingueneau (1997), a precedência do interdiscurso sobre o discurso, buscamos apreender as FDs que atravessam os discursos do corpus, de modo a construir um (ou mais) espaço(s) discursivo(s), como foi dito anteriormente. Para tanto, apoiamo- nos na semântica global (MAINGUENEAU, 2008a, p. 76). A fim de não privilegiar um plano do discurso em detrimento de outro, o autor propõe um tratamento teórico-
metodológico que visa apreender “a significância discursiva em seu conjunto”. Tal
proposta toma por unidade de análise discursos que representam uma dada formação
discursiva, justamente por possibilitar “a exploração sistemática das possibilidades de um núcleo semântico” (Ibidem, p. 62). Os planos do discurso, que devem ser explorados
na perspectiva de uma semântica global, são descritos a seguir.
3.4.1 A Intertextualidade
Maingueneau (2008a, p.77) propõe inicialmente a distinção entre duas noções: 1) a de intertexto de um discurso, tomado como “o conjunto de fragmentos que ele cita
efetivamente”; 2) a de intertextualidade, definida como os “tipos de relações intertextuais que a competência discursiva define como legítimas”.
Segundo ele, todo campo discursivo define uma certa maneira de citar os discursos anteriores do mesmo campo. Além disso, há o passado específico que cada discurso particular constrói, o que o leva a se atribuir certas filiações e a recusar outras. Esse duplo trabalho da memória discursiva no interior de um mesmo campo discursivo denomina-se intertextualidade interna. Há ainda a relação que se estabelece com outros campos, conforme eles sejam citáveis ou não; trata-se da intertextualidade externa. Há,
pois, um sistema de restrições que atua no âmbito da intertextualidade, seja ela interna ou externa.
3.4.2 O vocabulário
Nessa dimensão, o autor defende a não-pertinência de se falar do vocabulário próprio a um dado discurso, uma vez que as mesmas unidades lexicais podem ser exploradas de forma até mesmo contraditória por diferentes discursos. A palavra, portanto, não é uma unidade de análise pertinente. Porém, análises lexicográficas elaboradas sobre o discurso podem indicar palavras-chave, isto é, lexemas que ganham um estatuto privilegiado, justificável a partir do sistema de restrições desse discurso que constituem pontos de cristalização semântica. Para Maingueneau (2008a, p. 81), as unidades
lexicais, para além de suas “virtualidades de sentido”, são empregadas para marcar a posição do enunciador, funcionando, dessa forma, como “signos de pertencimento”.
Podemos então exemplificar esse aspecto, retomando os trabalhos apresentados no Capítulo 2, que apontam resultados para imagens do negro ligadas a estereótipos de inferioridade tanto cultural, quanto intelectual. É possível constatar que, em tais pesquisas, a referência ao negro se dá por meio de lexemas como desemprego, violência, marginalização, religiosidade primitiva, vergonha e subordinação, que lhe conferem a posição de inferioridade. Em contrapartida, a referência ao branco liga-se a palavras e expressões como proprietário de terras, dotado de competências (intelectual, científica e moral) e protegido por divindades, portanto, atribuindo-lhe uma posição de superioridade. Dessa forma, o discurso racista, ao naturalizar e cristalizar a superioridade branca em contraposição à inferioridade negra, assume uma posição discursiva legítima e dominadora.
3.4.3 Os temas
Partindo da ideia de que mais importante do que o tema é o seu tratamento semântico, Maingueneau (2008a) postula que é o sistema de restrições de um dado discurso que regula os temas por ele integrados. Esses temas podem ser impostos ou específicos. Os primeiros se dividem em temas compatíveis e incompatíveis, segundo convirjam (ou
não) semanticamente com o sistema de restrições. Os temas impostos pelo campo discursivo podem estar presentes de maneiras muito variadas, o que complexifica a situação. Já os temas específicos são próprios a um dado discurso, mantendo, pois, uma relação semântica privilegiada com o sistema de restrições.
Assim, podemos enumerar uma série de temas compatíveis para o discurso antirracista, dentro do campo discursivo educacional/pedagógico. Sendo o sistema de restrições de
um discurso antirracista ligado a uma posição “combativa”, esperamos encontrar uma
confirmação das orientações presentes em legislações e documentos normativos vigentes, através de temas como: o trabalho qualificado do negro (em oposição ao tema do subemprego e da exploração da população negra); a presença do negro em diferentes níveis de escolarização (em oposição ao tema de baixa escolaridade do negro); a apresentação dos valores artísticos e culturais do negro (culinária, música etc), bem como temas sobre a história dos movimentos de resistência dos negros, entre outros.
3.4.4 O estatuto do enunciador e do destinatário
Nesse plano discursivo, o autor postula que “cada discurso define o estatuto que o
enunciador deve conferir-se e o que deve conferir ao seu destinatário para legitimar seu
dizer” (MAINGUENEAU, 2008a, p. 87; grifo do autor). Há aqui várias dimensões em
jogo: a institucional (pertencimento a uma comunidade); a intertextual (relacionada às diversas fontes de saber) etc.
Uma vez que a presença da subjetividade enunciativa depende da competência discursiva, precisamos também saber reconhecer as competências do enunciador e as do destinatário. Maingueneau (2008b, p. 42) postula que, para que uma atividade verbal seja produzida e interpretada, fazem-se necessários três tipos de competências: a) a competência linguística (o domínio da língua); b) a competência enciclopédica (o
conhecimento do mundo); c) a competência comunicativa, ou seja, a “aptidão para se
inscrever no mundo por intermédio da língua”. Dessa forma, espera-se que o enunciador, inscrito numa FD antirracista, por exemplo, não apenas mobilize as competências acima, mas também demonstre sua capacidade de articulá-las.
3.4.5 A dêixis enunciativa
Lembrando que cada ato de enunciação instaura uma “dêixis” espaço-temporal,
Maingueneau (2008a, p. 89) afirma que, no caso do discurso, essa “dupla modalidade espacial e temporal, define de fato, uma instância de enunciação legítima”, delimitando ao mesmo tempo, a “cena” e a “cronologia” que esse discurso constrói para autorizar
sua enunciação, as quais se conformam, em última análise, às restrições da formação discursiva em questão.
3.4.6 O modo de enunciação
Segundo o autor, um discurso não está relacionado apenas à dêixis e ao estatuto dos
parceiros (enunciador e destinatário), mas também a uma “maneira de dizer” específica,
a que se denomina modo de enunciação. O discurso, mesmo o escrito, tem uma “voz”
própria, voz fictícia que funciona como garantia de um “caráter” e de uma “corporalidade”42. Maingueneau (2008a, p. 93) evoca uma “imbricação radical do discurso e de seu modo de enunciação”, introduzindo, para tanto, a noção de
incorporação, definida a partir de três dimensões complementares: 1) o discurso dá corpo ao enunciador; 2) esse fenômeno funda “a incorporação” pelos sujeitos de esquemas que definem uma forma concreta de habitar o mundo, de entrar em contato
com o outro; 3) essa dupla “incorporação” assegura a “incorporação imaginária” dos
destinatários no corpo dos adeptos do discurso. Nessa perspectiva, o destinatário não
consome ideias apenas; ele “acede a uma „maneira de ser‟ através de uma „maneira de dizer‟”, estabelecendo-se um elo entre o corpo e a eficácia do discurso.
3.4.7 O modo de coesão
Maingueneau (2008a, p. 94) fala aqui do “modo de coesão, próprio de cada formação
discursiva” (grifo do autor), relacionando essa questão à interdiscursividade. Trata-se,
em linhas gerais, do modo como um discurso se constitui internamente com seus parágrafos, seu modo de argumentar, seu encadeamento de ideias, a utilização ou não de
42
As questões aqui abordadas remetem, em linhas gerais, à noção de éthos, explorada em outros trabalhos do autor (vide, por exemplo, MAINGUENEAU, 1997, 2008b).
exemplos e de elementos gráficos que ilustram aspectos teóricos etc. As restrições da semântica global não são, pois, somente voltadas para a análise de ideias, mas também
“especificam o funcionamento discursivo que, em graus diversos, investiu o vivido dos sujeitos”.
A primeira “lente” para análise linguístico-discursiva do corpus é, pois, a semântica
global, noção proposta por Maingueneau no quadro da Escola Francesa de Análise do Discurso (ADF). A segunda “lente” busca compreender como uma produção discursiva veicula uma dada ideologia. Desse modo, propomos um diálogo com a Análise Crítica
do Discurso (ACD), cujos estudos estão interessados, especificamente, “no abuso de
poder, isto é, nas formas de dominação que resultam em desigualdade e injustiça
sociais.” (VAN DIJK, 2008b, p. 10). Para tal diálogo, buscamos a contribuição de
Thompson (2009, p. 91), autor vinculado à ACD que defende a concepção crítica de
ideologia, que “é por natureza, hegemônica, no sentido de que ela, necessariamente,
serve para estabelecer e sustentar relações de dominação e, com isso, serve para
reproduzir a ordem social que favorece indivíduos e grupos dominantes.”.
Não podemos perder de vista, no entanto, que, se para Thompson (2009), como veremos, a ideologia está sempre a serviço da reprodução das formas de poder, essa não é a única interpretação possível para tal termo. Isso nos leva a recorrer a Brandão (2004), ainda no quadro da ADF, como veremos a seguir.